Esperança na Blogosfera

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Quando Julie Richards (apelido fictício), de 34 anos, conheceu o marido, Paul, não tinha a ideia fixa de engravidar. «Passara a maior parte do
tempo entre os meus vinte e os meus trinta anos a fazer tudo para não ter filhos», confessa ela. Cinco anos mais tarde, acalentavam há muito a
ideia de serem pais, e até se mudaram de Manhattan para uma casa grande numa pequena cidade da Nova Inglaterra, na esperança de encherem pelo menos um dos quartos com um bebé.
Após dois anos de tentativas infrutíferas para conceber, «estávamos
preparados para ter uma família e sabíamos que por essa altura eu já
devia ter conseguido engravidar», diz Julie. Cheio de esperança, este casal norte-americano embarcou no primeiro ciclo de fertilização in
vitro.
Do outro lado do Mundo, na África do Sul, Tertia Albertyn, agora com 36 anos, estava também pronta para formar uma família. Depois de, em 2000,
se ter casado com Marko, deixou logo de tomar a pílula. «A minha mãe queria que eu esperasse pelo menos um ano para engravidar para poder consolidar o casamento e eu queria ficar logo grávida», diz ela. «Por
ironia, ambas conseguimos o que queríamos.»
Mal soube que não tinha ovulações e que os medicamentos para a
fertilidade não resultavam, Tertia voltou-se para a fertilização in
vitro.
Ambas as mulheres foram dar a um grupo online de apoio à fertilização
in vitro, o ivfconnections.com. Para Julie, que até conhecera o
marido pela Net e ganha a vida a criar comunidades na Internet, a rede
era um lugar óbvio para se dirigir e obter benefícios imediatos. «Na
minha família, nunca discutimos assuntos desagradáveis. Por isso,
partilhar os meus sentimentos com um grupo de estranhos foi a única maneira de poder ser eu mesma.»
Para Tertia, foi uma forma de se sentir menos isolada. «Não conhecia ninguém que tivesse lutado tanto como eu. A Internet tem sido uma verdadeira linha de vida devido ao facto de vivermos tão longe.» Na Net,
«sente-se que se encontrou finalmente uma família» e não se está sujeito
a comentários insensíveis, como o daquela pessoa que a aconselhou a
procurar ajuda terapêutica e que lhe disse: «Talvez no fundo não queira mesmo ter um bebé. Quem sabe se não terá algum bloqueio!»
No ciberespaço, Julie e Tertia juntaram-se em breve ao grupo das
Veteranas da Fertilização In Vitro, onde quem é demasiado optimista
quanto ao sucesso da fertilização in vitro não tem entrada. As
duas pareceram entender-se bem logo no início. No programa da FIV,
partilharam a experiência de ficarem grávidas sem conseguir levar a gravidez até ao fim. Em quase cinco anos de tentativas para conceber, Julie engravidou duas vezes: de uma vez, teve uma gravidez ectópica (que
não pode resultar porque o óvulo fertilizado se implanta fora do útero) e
da outra abortou.
Tertia andava há quatro anos a ver se engravidava e teve uma gravidez ectópica e dois abortos. Depois, concebeu gémeos. Um
deles, Luke, morreu às 22 semanas; Ben, o irmão, nasceu às 26 semanas, mas morreu dez dias mais tarde depois de ter sofrido um bloqueio renal e
duas hemorragias cerebrais. Nos círculos de fertilidade online, a história de Tertia era conhecida por ser ainda mais comovente que a maior
parte das histórias.
Mas o que impressionou Julie foi o carácter de Tertia, não as
características particulares da sua perda. «Eu já lera parte da história
dela e ficara profundamente tocada e impressionada com a sua força e o seu humor», lembra ela. «Calculei que devíamos ter muito em comum.»
Pelo menos a escrita tinham. Ambas criaram blogs populares,
diários online em que relatavam a sua luta contra a infertilidade, com elevados índices de leitura por parte dos membros das comunidades
online.
Julie iniciou o seu blog, «Ligeiramente Grávida», em Março de 2003 com a primeira gravidez; o blog de Tertia, «Tão Perto», começou pouco mais de um ano depois, logo após ela ter perdido os filhos. Embora nenhuma saiba o número exacto de leitores, o site da Julie tem 25 000
visitas diárias, e Tertia já teve mais de 800 comentários a várias entradas que publicou. (A maior parte das pessoas que lê os blogs
não publica comentários, mas espreita a blogosfera.) «O que é importante para mim é o sentido de comunidade, o facto de pessoas de todo o Mundo, no sentido literal do termo, parecerem realmente preocupar-se comigo e com a minha história. É um sentimento tão espantoso, sobretudo para mim, sentada aqui na extremidade da África.»
É difícil imaginar um lugar menos afastado do mundo tecnológico que a
casa de Tertia, num subúrbio rural da Cidade do Cabo. Rodeada de ganadarias de um lado e de vinhedos do outro, ela escreve à noite ou aos fins-de-semana com um copo de vinho ao lado.
Julie também vive numa localidade mais ou menos remota, numa pequena cidade de cerca de 8000 habitantes no estado do Vermont, o «estado da Montanha Verde». «Na mesma altura do ano, enquanto Tertia terá de manter
o ar condicionado ligado durante os meses de Verão para combater o calor infernal, o mais provável é Julie estar rodeada de neve.»
Há diferenças nos estilos dos blogs de ambas também. Julie tem
nítida consciência do seu público e ri facilmente. Embora revele detalhes
sobre os exames e os tratamentos a que se submete, não publica fotos suas
e só há pouco tempo revelou ao marido que tinha um blog. (Ele apoiou-a e até começou a colaborar.) O mais provável é ela criticar, com
a sua ironia acutilante, os participantes que se revelam incorrectos. A
este comentário anónimo: «É cá uma ideia minha, mas porque não adopta uma
criança? Talvez nunca tenha desejado de facto engravidar», Julie
respondeu com um poema de onze estrofes que incluía as seguintes:
Enquanto as mulheres estéreis se lamentam porque
Os seus testes de gravidez se revelaram negativos
Os piedosos internautas hipócritas detêm-se
Para oferecer simpaticamente as suas ideias.
Bombardeiam-nos com os seus sábios conselhos
Acabaram-se os tratamentos, acabaram-se as injecções.
E para o caso de ainda não termos pensado duas vezes:
«É o que tem de ser! Toca a adoptar!»
Ler o blog de Tertia, pelo contrário, é como lançar um olhar
furtivo sobre os seus mais íntimos pensamentos. Está repleto de fotos
pessoais: um instantâneo do estômago, uma foto do casamento.
Quando os blogs arrancaram, Tertia e Julie tornaram-se parceiras online. «Ela tinha a mesma atitude que eu. As coisas acontecem, é preciso
lidar com elas... Eu tinha passado por muito e estava cansada de ser
vista como uma vítima, uma pessoa triste. Precisava de alguém com quem me pudesse rir», diz Tertia. Elas conseguiram conhecer-se melhor através do
correio electrónico e do messenger. «Começámos a provocar-nos, a rirmo-nos uma da outra», diz Tertia. «Afeiçoei-me logo a ela.»
Em Maio de 2004, Julie e Tertia fizeram ciclos de fertilização in
vitro em simultâneo.«Pareceu-nos natural que estivéssemos obcecadas a comparar dados, a partilhar os nossos sintomas, esperanças e a constatação de que o tratamento não resultara», diz Julie. Pouco depois
da implantação do embrião, Julie escreveu: «Hoje estou triste. Sinto-me
em baixo e vencida, desesperada, segura de que este ciclo falhou.»
No outro lado do Globo, Tertia também estava convencida de que a sua
tentativa fora um falhanço completo. «Sinto que este ciclo não resultou»,
escreveu ela. «Estou mesmo sem saber se valerá a pena continuar a tentar.»
E então algo de extraordinário aconteceu. Cinco dias mais tarde, Julie recebeu um teste de gravidez e escreveu no blog: «Nunca se viu um teste positivo tão fraquinho.» E uns dias depois de ter publicado o seu desabafo, Tertia recebeu uma chamada do médico. Acontecia que as duas amigas tinham o parto previsto para o início de Fevereiro, apenas com dois dias de diferença.
Os meses seguintes foram passados entre uma excitação louca e, mais frequentemente, um estado de ansiedade e paranóia, dos quais as duas mulheres iam dando conta nos seus blogs. Julie escreveu: «Lá no
fundo, sei que estou feliz. O problema é que não consigo sentir aquela alegria que julgava ser espontânea.» Tertia concordou: «Admira-me que as pessoas férteis pensem que a partir do momento em que fiquei grávida eu sinto uma felicidade inconsciente. Não se apagam anos e anos de dor num instante.»
Mas pelo menos elas estavam presentes uma para a outra. Como Julie recorda: «Tendo em conta as nossas experiências passadas, ambas tínhamos
receio de que as nossas gravidezes não resultassem, por isso fomo-nos apoiando uma à outra dia após dia.»
À medida que as datas do parto se aproximavam, «começámos a trocar ideias
sobre os nomes e a decoração dos quartos dos bebés, concedendo-nos finalmente alguns dos prazeres da maternidade de que fôramos privadas
antes», diz Julie. Quando comprou o primeiro fatinho de bebé, algo que
foi adiando até estar perto do sétimo mês, com receio de que isso lhe trouxesse azar, transmitiu os pormenores a Tertia. E foi esta quem
recebeu uma mensagem em 27 de Novembro de 2004 a comunicar que Julie
entrara inesperadamente em trabalho de parto dez semanas antes da data prevista, logo a seguir a Julie ter avisado os pais. Tertia começou então a dar notícias actualizadas para a blogosfera sobre o estado de Julie e
de Charlie, o seu prematuro nascido de uma cesariana de urgência. Os
leitores entravam no blog para saber a data de saída do Charlie dos cuidados intensivos.
Depois, Tertia tomou mais uma iniciativa. Sabendo que ao chegar a casa Julie não ia encontrar nada do que precisava para o recém-nascido, decidiu organizar uma recolha de presentes online. «Eu sabia que na terra dela ninguém lhe ia fazer isso», recorda Tertia.
«A Julie faz de conta que não é nada com ela, mas merecia que as pessoas se mexessem todas por causa dela. A resposta foi fenomenal. Ao fim de apenas um dia, as listas estavam cheias; não tinha ficado nada por
comprar!»
Os presentes vieram de pessoas que não conheciam a Julie, muitas delas
fãs do blog que nunca se tinham correspondido com ela. Ao chegar a casa, Julie tinha à sua espera um total de 132 caixas e sacos de presentes, de
aquecedores de biberões a toalhas com capuz. A nova mamã estava
estupefacta: «Foi a coisa mais bela que alguma vez me fizeram.»
Pouco depois, no dia 7 de Janeiro de 2005, foi a vez de Tertia entrar em trabalho de parto e às 36 semanas dar à luz os gémeos Adam e Kate. Agora, os blogs das duas mulheres estão cheios de conselhos sobre como criar os bebés. Julie debita piadas sobre bombas de aspirar o leite, enquanto Tertia usa o blog para pedir conselhos. Mas o mais
frequente é ela expôr o choque que sente com a sua nova experiência como mãe. «Não estou a divertir-me como pensava», escreveu ela quando os bebés chegaram às duas semanas. «Amo muito, muito, os meus filhos, mas tudo isto é demasiado intenso e assustador.»
Para aqueles momentos especiais, têm-se uma à outra. Julie e Tertia ainda hão-de um dia conhecer-se pessoalmente. Por ora, estão demasiado ocupadas com as suas novas famílias para poderem viajar. Mas sabem que não
precisam de se encontrar face a face para que a amizade perdure. Como diz
Tertia: «Julie é a primeira pessoa em que penso quando preciso de falar com alguém. Sou completamente sincera com ela, não tenho que fingir. Mesmo que nunca venhamos a encontrar-nos, ela é mais real para mim em termos de apoio do que qualquer dos meus amigos. É o tipo de amizade que
não precisa de existir no mesmo espaço geográfico para ser real.»
O conteúdo dos blogs pode ir de pequenos acontecimentos do dia-a-dia a curiosidades sobre assuntos de interesse variado, como política, cozinha ou literatura. Existem milhões de blogs na Net,
e a cada 4,7 segundos (com tendência para aumentar) é criado um novo.
Para criar um blog é preciso ter alguns conhecimentos de
informática, mas sites como o blogger.com oferecem apoio gratuitamente.
Seguem-se alguns sites de blogs populares sobre o tema da infertilidade e da família:
*Blog da Julie
(http://www.alittlepregnant.com)
*Blog da Tertia
(http://tertia.typepad.com/so_close/)
*O Ovário Nu
(http://thenakedovary.typepad.com)
A autora costuma publicar bandas desenhadas sobre as divertidas aventuras
de «Myrtle, a Estéril». Também escreve sobre a sua actual intenção de
adoptar uma bebé chinesa.
*A Mente de Olivia Drab
(http://oliviadrab.com/blog/blog.html)
Tem o «Jogo da Infertilidade», cujas cartas dizem: «Acaba de receber pelo
correio a conta do endocrinologista da reprodução. Prepare-se para fazer uma terceira hipoteca. Pague 500 dólares.»
*Concepção Errada e Invulgar
(http://uncommonmisconception.typepad.com)
Como Tertia e Julie, Julia é uma mulher que já foi estéril e deu à luz recentemente. Como ela diz no seu blog: «Quando comecei a pensar que a minha verdadeira intenção era ajudar as massas partilhando a minha história, alguém me lembrou que essas mulheres que partilham a minha vida estão de facto a ajudar-me, e não o contrário.»
*Em Casa da Gravidez Interrompida
(http://chezmiscarriage.blogs.com/chezmiscarriage/)
A autora nunca conseguiu levar uma gravidez até ao fim. Está agora grávida através de uma mulher portadora do seu embrião.
*E Eu Desperdicei Todo Aquele Controle de Natalidade
(http://zia.blogs.com/wastedbirthcontrol/)
Foi a blogosfera que ajudou Cecily a sair do alcoolismo e a manter o seu blog quando recentemente teve de interromper uma gravidez de gémeos devido a pré-eclampsia, um problema grave de hipertensão que
ocorre durante a gravidez. Ao contactar o hospital para a intervenção, uma enfermeira ouviu a história e achou-a familiar. «Já a conheço. Li o
seu blog», disse ela.
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