O bom clima e a abundância das águas desta região atraíram romanos, visigodos e árabes. Depois da Reconquista, quando o problema era repovoar e fecundar o Alentejo, foram ilustres figuras do clero e da nobreza que aqui afirmaram posses, poderes e devoções. As marcas desta história são fonte inesgotável de prazer: montes pejados de hortas, pomares, vinhas e olivais, moinhos de vento semeados em cabeços onde a seara persiste, prados verde jantes, casarios imaculados, ermidas e igrejas com frescos e azulejos e, lá mais para o entardecer, lugares de petisco e bem regada cavaqueira.

Alvito – Vila Ruiva

Saia de Alvito em direcção a Cuba. Pare no terreiro da Ermida de S. Sebastião e anteveja a região que vai percorrer. Muito ao longe, vislumbra-se Seja, coração da planície alentejana, a perder de vista; mais perto, Cuba e Vila Ruiva; para lá de S. Sebastião, a inconfundível cúpula da Ermida de Santa Luzia; abraçando a vila, as hortas de Alvito em volta de grandes casas senhoriais que acompanham o vale da ribeira de Odivelas.

Iniciado o percurso, são poucos os quilómetros de estrada campestre que antecedem a visão inesperada da igreja matriz de Vila Ruiva. Se estiver fechada, não pare. Comece por atravessar a povoação seguindo a indicação "Vidigueira"; ao passar o jardim da Praça da República, repare no edifício da Junta de Freguesia, antiga Casa da Câmara e cadeia; quando encontrar a estrada, tome a esquerda para Albergaria dos Fusos. A menos de 2 km, situa-se a ponte romana de Vila Ruiva. Objecto de intervenções sucessivas, testemunha também a presença de visigodos e árabes na região: originalmente erguida em granito, serão de períodos posteriores as arcarias de tijolo e o emprego do xisto. Se for Primavera, embrenhe-se pelo campo de papoilas e malmequeres e, junto aos 26 arcos que sustentam a ponte, sinta a mais pura essência do bucolismo.

Regressando a Vila Ruiva, saiba que a primeira casa do lado direito é a Padaria Ventura, onde se coze pão em forno de lenha e se confeccionam duas especialidades regionais: folhados e pão com chouriço. Suba pela direita junto ao depósito de água e siga as várias ruas empedradas, de toponímia evocatória de um hipotético castelo, até ao Largo da Igreja, por onde entrou. Estacione e informe-se como encontrar as senhoras da Comissão Fabriqueira: só com a sua ajuda poderá penetrar no valioso património desta vila.

A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Encarnação é o único templo gótico do concelho de Cuba, tendo sofrido visíveis alterações ao longo dos tempos. De uma só nave rectangular coberta por abóbada de ogivas, apresenta várias capelas interiores igualmente abobadadas e constitui um autêntico repositório da pintura a fresco dos séculos XIV-XVIII.

A Igreja da Misericórdia, obra da confraria fundada em 1571, deve ter sido um belo templo quinhentista, mas restauros vários transformaram-na numa obra essencialmente do século XVIII. Nas paredes laterais da capela-mor, notam-se ainda pinturas a fresco e os restos de um lambrim de azulejos policromos seiscentistas, a atestar belezas de outrora.

A 2 km da vila, com o precioso auxílio das mesmas guardiãs, é imprescindível visitar o interior da antiga ermida do milagreiro S. Caetano, hoje da Senhora da Represa. Exemplar da arquitectura religiosa rural, compõe-se de duas partes distintas: o templo, da época de Quinhentos, e o alpendre, do século XVII. Os amantes da azulejaria encontrarão motivo de deleite na contemplação do revestimento policromo seiscentista que forra as paredes laterais, a testeira, o arco de triunfo, a capela-mor e a sacristia. A abóbada de ogivas, pintada com motivos florais e outros alusivos à vida de S. Caetano, data de 1679. Prosseguindo caminho ao largo do que resta da barragem romana, tome a esquerda no entroncamento.

Vila Ruiva – Vila Alva

O próximo destino é Vila Alva, que muitos consideram uma das aldeias mais típicas do concelho. Logo à entrada, depois da mansão murada da Quinta de S. José, vai passar um chafariz com lavadouro e aviso de leitura obrigatória. Seguindo em frente, acede-se à Praça da República. Se for tempo de vinho novo, vire pela Travessa Vasco Gonçalves e descubra desde já a adega do Manuel Pernicha, um dos locais onde o pessoal da terra, armado de pão, chouriço e queijos de cabra, rega a cavaqueira do sol-posto com vinho da talha.

A praça é dominada pela Igreja Matriz de Nossa Senhora da Visitação, que se presume remontar ao período medieval. A torre sineira e os contrafortes cilíndricos alimentam a hipótese de que possa ter sido uma construção árabe transformada em templo cristão.

O aspecto actual corresponde aos séculos XVII-XVIII. No interior, de uma só nave coberta por abóbada de berço, ressaltam o altar-mor, com retábulo de talha barroca, vários altares laterais rococó e, uma vez mais, o revestimento de azulejos policromos seiscentistas que forram o arco de triunfo, o frontal do altar-mor e as paredes e abóbada da capela-mor.

Para a visitar, recorra ao cicerone do Museu de Arte Sacra da Igreja da Misericórdia, situada frente às traseiras da matriz. Este museu, que inclui também achados arqueológicos pré-históricos, romanos e pedras tumulares medievais, ocupa a nave da Igreja da Misericórdia, a sacristia e dependências anexas, que comunicam com a Capela do Senhor dos Passos. O insólito da estrutura labiríntica que resultou desta ocupação justifica por si só uma visita.

Descendo a Rua da Misericórdia, vale a pena subir a escadaria da Ermida de Santo António (século XVIII), com uma bela vista sobre a povoação, inspiradora de um deambular sem destino pelo casario.

Regressando à praça, entre na Talha, onde, para além de um copo e bons petiscos, poderá obter informações actualizadas sobre a produção artesanal da aldeia: as alcofas de verga de António Filipe e Helena Paulino, a colecção de miniaturas de oficinas tradicionais e paisagens da vida rural do mestre F. Taborda e a rouparia onde Joaquim Pé-Leve fabrica saborosos queijos de cabra.

Vila Alva - Barragem do Alvito

Tome a estrada junto à Igreja de Santo António, que segue entre vinha nova. A belíssima paisagem que acompanha este trajecto vai ter o seu ponto alto no deslumbramento do entardecer na albufeira da Barragem do Alvito, onde se acede por desvio sinalizado cerca de 300 m depois do termo da aldeia de Albergaria dos Fusos. Ao contrário do que sucede na Barragem de Odivelas, não encontra aqui, de momento, qualquer equipamento de apoio ao usufruto das águas e das margens. Tem que vir preparado. Pode navegar livremente em canoa, velejar, fazer wind-surf, pescar (no tempo certo), passear a pé, de bicicleta ou a cavalo e tentar pequenas incursões em jipe. A parte mais acessível situa-se do lado esquerdo do muro da barragem, em particular nos anos pouco chuvosos ou nas épocas em que o nível das águas desce e reemergem antigos caminhos. A margem oposta, mais alcantilada, tem alguns acessos a partir do largo onde termina a estrada alcatroada, junto às casas do estaleiro.

De regresso ao Alvito, passará pelo Solar de Água de Peixes (séculos XV-XVI). Observe o portal gótico, encimado pelo brasão de armas donatárias dos marqueses de Ferreira, mais tarde duques do Cadaval, espreite do exterior as suas curiosas janelas geminadas de estilo mudéjar e pressinta a abundância das águas que regam extensos laranjais. Depois da Horta da Parreira, sinalizada, e antes de entrar no Alvito, tome à esquerda a estrada de S. Romão e suba até à Ermida de Santa Luzia. Adaptação de uma antiga atalaia muçulmana a templo cristão, dela se obtém uma das mais belas vistas sobre o casario da vila.

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