Dois homens e um cavalo vão à pesca | Selecções do Reader's Digest

Dois homens e um cavalo vão à pesca

O meu amigo Philip e eu tivemos uma grande vontade de tirar uns dias para pescar nos lagos das montanhas da Escócia Ocidental. O problema destas coisas boas é que ficam muito longe: uma grande caminhada para lá e outra para cá.

Por isso, a ideia era acampar algures lá em cima, com um cavalo para carregar todos os nossos equipamentos. Devo dizer que, até à data, sempre tinha evitado os cavalos. Nunca nos demos bem.
Quem nos conseguiu autorização para pescar e acampar numa propriedade de Argyll, acessível apenas por um antigo caminho de cabras, foi David Hay-Thor-bum, que dirige um centro de equitação
nas margens do lago Fyne.

Graças a David, também tínhamos Dougal, um cavalo Highland branco. Para alguém pouco familiarizado com
cavalos, Dougal era uma criatura enorme e assustadora pela sua envergadura. Eu estava aterrorizado por descobrir que
pôr o freio significava que tinha de pôr o polegar na boca do Dougal... Conseguimos apertar-lhe a sela, que foi como se estivéssemos a preparar um pequeno mas complexo barco à vela.

Enfiamos o equipamento dentro de dois cestos colocados no dorso do cavalo, malas laterais dentro de sacos de pano crú e atiramos com tudo por cima da sela, amontoando sempre cada vez
mais carga, enquanto o Dougal ficava estoicamente à chuva. O David viu-nos ir embora pelo caminho e deu-nos uma
grande ajuda, informando-nos de que o próprio Dougal nos daria indicações se algum troço de terreno fosse demasiado
pantanoso ou perigoso: ele recusar-se-ia simplesmente a prosseguir!

O caminho dava a volta ao monte e tornava-se um bocado rochoso. O Dougal escorregava nas rochas molhadas. Será que a carga era muito pesada? Estaria ele a querer dizer-nos alguma coisa? Não se preocupem comigo, rapazes, sou um velho cavalo, mas vocês continuem e divirtam-se, que eu farei o meu melhor. E que tal se me dessem um rebuçado de mentol?

Os rebuçados de mentol, disseram-nos, eram os favoritos de Dougal, e nós tínhamos trazido connosco vários pacotes de mentol forte, mas ele não era grande coisa a fazê-los durar. Podíamos ouvi-lo a trincá-los ao longo dos 1800 m da charneca ventosa. Provocava calafrios a um homem que tinha de pôr o polegar na boca do Dougal. Começámos a subir a sério. Então, isto é que é uma montanha, não é, rapazes? Interessante. Assim que o Dougal se apercebeu de que nós não sabíamos nada de cavalos, começou ele próprio
a divertir-se.

O caminho era muito íngreme a subir e, por vezes, muito íngreme a descer. Chegámos a um pequeno ribeiro. Eu não consigo atravessar isso! Não devo atravessar rios. A minha mãe sempre me avisou.

«Não é um rio, Dougal, é um ribeiro.»

Então, vão vocês primeiro. E que tal um rebuçado de mentol?

O Land Rover do David parou subitamente na curva. Contamos-lhe dos nossos receios acerca do Dougal. Estaria ele realmente preparado para uma viagem assim tão exigente?

O Dougal, disse o David, pode arrastar uma árvore em trote rápido em encostas muito íngremes e terrenos duros
e como nunca se viu. O Dougal está a gozar connosco. O David deu uma palmada sonora na enorme garupa branca do animal e ele, a partir daí, ficou mansinho. Mais ou menos ...

Após quatro horas de andarmos à chuva, chegamos ao pé do nosso primeiro lago na montanha. Enquanto montávamos a tenda num lugar ligeiramente abrigado, não muito inclinado, nem muito ensopado, percebemos que a chuva tinha parado. Nas águas pouco profundas do lago Tunnaig, vimos o efeito miraculoso de um círculo em várias zonas de um canavial provocado pelo aparecimento de
uma truta. Ah, é verdade, esta era a razão pela qual nós tínhamos vindo para estas montanhas. Prendemos e alimentámos o Dougal e caminhámos para dentro do lago. No longo crepúsculo das montanhas da Escócia, comemos a nossa primeira truta da montanha.

Na manhã seguinte acordamos às 3 horas. E às 4.15. E às 4.50. E às 5. Uma das desvantagens de dormir na nossa própria e aconchegada cama é que não estamos acordados para o aproveitar. Isto não constitui um problema numa tenda montada num terreno rugoso, de alguma forma mais pequeno do que os
seus dois ocupantes. Philip abriu o fecho da tenda. Dougal, o Cavalo que Não Podia Subir as Montanhas, estava de pé, imponente, numa rocha escarpada, tão alto quanto as cordas lhe permitiam. Saltou cá para baixo como uma camurça, caindo
em cima do pacote vazio de rebuçados de mentol forte, e ali ficou à espera de que lhe pusessem a sela.

Há uma certa ironia em levar um cavalo para pescar. A maior parte das coisas que o cavalo carrega são coisas para cavalo. Há uma grande corda para prender o Dougal a uma enorme estaca de aço. Para isso, são precisos um martelo pesadíssimo para a pregar ao chão e uma barra enorme para que nós os dois a possamos arrancar outra vez. A forragem vai para um dos cestos enquanto o balde vai para o outro.

Depois de o termos carregado, partimos para o lago seguinte. Após 180 m, todo o equipamento de um dos lados deslizou para o outro: tínhamo-nos esquecido de atar a cilha.

Naquele dia pescámos razoavelmente e de noite apanhamos uma violenta tempestade. Perto do fim do segundo dia, o vento começou a soprar. Quando voltámos de uma sessão ao anoitecer, o Dougal relinchou em forma de cumprimento, um bem-vindo a casa no vazio das montanhas. Mas, se calhar, só estava a pedir
um rebuçado ...

O nosso último dia amanheceu claro e calmo, com a passagem para os lagos mais altos visível pela primeira vez. Pôr a sela no Dougal era agora uma operação destra - aposto em como
podia enrolar um cigarro com a outra mão se fosse necessário. Enchemos os cestos com comida que tínhamos estado a poupar e lá seguimos pelo carreiro. O Dougal parecia ter-se esquecido das recomendações da mãe que o desculpavam de atravessar terrenos
pantanosos. Agora, saltava sobre eles sem perder o ritmo, deixando-nos para trás, a escorregar na lama.

Enquanto a maioria dos lagos parecem simples dedos de água que apontam toscamente para nordeste, o lago Cam tem um literal sinuoso composto de promontórios, baías, praias e penínsulas. É simplesmente perfeito.

Descarregamos o Dougal, introduzindo a estaca até ao fim em turfa mole com uma série de pancadas de martelo. Deixámos toda a nossa tralha misturada nos cestos. O sol apertava. Fomos à pesca.

A minha primeira truta pescada no lago Cam foi também a última. Não era um peixe muito grande - 30 cm -, mas, tal como todos os peixes selvagens das águas frias, parecia-me ter o dobro do tamanho até aparecer à superfície. Fiquei muito contente. O Philip achou que o espalhafato que eu fizera ao apanhá-la tinha muito
provavelmente arruinado as nossas hipóteses de pescar outra nas imediações, e já só tínhamos cerca de uma hora antes de regressarmos a casa.

Ele mudou-se para um outro sítio, a uma distância de dois lanços longos de linha, e ao fim de alguns minutos vi uma curva enorme na cana de pesca do Philip. Quando a coisa apareceu à superfície, parecia gigantesca. Pensei em 900 g: o Philip disse 700 g (mas
provavelmente pensou em 900 g). E foi então que fiz uma coisa que não tem desculpa.

«Podes afrouxar a linha enquanto eu vou a correr buscar a máquina para fotografar a luta?»

Aquela corrida, metido num fato de borracha até ao peito, através de rochas escarpadas, lamaçal e mato, levou mais de dez minutos. Quando cheguei ao pé do Philip, fiz chape-chape. Ele então levantou a cana para segurar a linha. O peixe ainda lá estava – mas tinha-se tornado mais pesado. Eu não parava de fotografar, ao mesmo tempo que o Philip puxava a cana contra uma pressão crescente, e o ambiente ia ficando pesado. Ele não falou muito. Não precisava.

Durante aquela corrida de dez minutos, devido ao afrouxamento
da linha, o peixe tinha-se enfiado nos seixos do fundo do lago. A linha ficara presa em qualquer coisa. Afrouxou outra vez e puxou. Uma linha partida apareceu, e o Philip enrolou-a no carreto. Continuava sem dizer grande coisa.

Há muito tempo que passara a hora de irmos embora. Fizemos o caminho de volta até ao Dougal, que estava tão
longe quanto a corda lhe peemitia. Percebíamos porquê. Na nossa pressa de irmos pescar, demos-lhe uns 30 cm de corda a mais. Os restos do nosso almoço estavam espalhados ao pé dos
cestos e da roupa. O Dougal tinha comido duas maçãs e um pacote de biscoitos de gengibre. Também tinha desfeito o invólucro e dado duas grandes dentadas num precioso queijo Bleu de Gex, que tínhamos trazido com tanto carinho de França. Não lhe apeteceu mais. Francamente, a nos também não.

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