Quando Ken Bell soube que o FBI pretendia falar com ele, não atribuiu grande importância ao assunto. Afinal, visitas dessas faziam parte do seu trabalho. Na qualidade de delegado do Ministério Público em Charlotte, Carolina do Norte, era frequente lidar com casos que envolviam aquela agência. Mas o caso que o ocupava na Primavera de 1999 era uma simples questão de contrabando de cigarros, aparentemente rotineira. Aliás, o Ministério Público preparava-se para formular a acusação e fazer algumas detenções quando o FBI mandou dizer que queria falar com ele.

Passava-se alguma coisa. Bell compreendeu isso no instante em que os agentes entraram no seu gabinete e lhe entregaram um documento para ele assinar. Tratava-se de uma declaração em como ia ouvir informações classificadas e poderia ser processado se as divulgasse. «Isto vai ser lindo», pensou Bell. Os agentes do FBI montaram rapidamente um projector e o ecrã mostrou uma apresentação em PowerPoint.

Os primeiros slides resumiam a rede de contrabando. Até aí, nada de novo. Mas então surgiu uma imagem com uma palavra surpreendente: Hezbollah. Pelo que ouvira nas notícias, Bell sabia que se tratava do nome de uma organização terrorista de fundamentalistas islâmicos e que, à época, nenhum outro grupo matara mais americanos. Mas que teriam esses assassinos a ver com um caso de contrabando de cigarros na Carolina do Norte?

O slide seguinte mostrava uma fotografia de oito homens que Bell reconheceu como pertencendo à rede de contrabandistas. Lançou um olhar ao agente sentado do outro lado da mesa. «Têm uma célula do Hezbollah em Charlotte», declarou o homem.

Os primeiros sinais de que algo de suspeito se passava tinham surgido quatro anos antes, em Abril de 1995. Um xerife chamado Bob Fromme, um homem robusto, estava a trabalhar nas suas horas livres como segurança da JR Discount, um retalhista e grossista de tabaco da plácida cidade de Statesville, Carolina do Norte. A sua tarefa principal consistia em localizar e apanhar os ladrões de loja, mas um dia reparou que quatro jovens de pele cor de azeitona compravam enormes quantidades de cigarros.

Isso nada tinha de errado, não fosse o facto de cada um dos homens estar a comprar exactamente 299 pacotes de cada vez, ou seja, o limite máximo de pacotes de cigarros que se podiam comprar sem necessitar de preencher documentação oficial. O mais estranho foi que um dos homens pagou tudo em dinheiro. Fromme viu-o tirar grossos maços de notas presos com elásticos de um saco de plástico. A transacção totalizou perto de 30 000 dólares.

Fromme seguiu os quatro jovens até ao parque de estacionamento, onde eles carregaram os cigarros numa carrinha, falando ao telemóvel e esquadrinhando as cercanias com olhares desconfiados. Depois, partiram. Quando voltou a estar de serviço na JR, Fromme viu novamente os mesmos homens. Não tardou que se estabelecesse um padrão regular. O grupo ia variando, mas vários dos rostos tornaram-se familiares.

Fromme decidiu verificar as matrículas dos carros que utilizavam e concluiu que se tratava de veículos alugados em Charlotte. No fim da Primavera, seguiu a pista das carrinhas até à fronteira estadual e viu-as atravessarem para a Virgínia, a norte, ou para o Tennessee, a oeste. Não fazia ideia de qual seria o destino final dessas viagens.

Era tempo de levar o caso a instâncias superiores, pelo que telefonou a um amigo, John Lorick, do Bureau of Alcohol, Tobacco and Firearms (ATF — Departamento de Álcool, Tabaco e Armas de Fogo). Lorick compreendeu imediatamente o que se passava: esses tipos estão a fazer contrabando de tabaco, declarou. Era um esquema vulgar. Compram-se cigarros baratos num estado com taxas baixas sobre o tabaco, como a Carolina do Norte, e vendem-se num sítio onde essas mesmas taxas sejam elevadas. O valor da diferença é puro lucro. Mas é ilegal. No Outono de 1996, o ATF abriu uma investigação oficial, que mais tarde receberia o nome de código Operação Smokescreen, e Fromme foi destacado para o caso pelo gabinete do xerife.

A primeira coisa que o ATF fez foi organizar uma vigilância de 24 horas por dia sobre os contrabandistas. Fromme desempenhou o seu papel passando longos dias numa loja vazia à frente da JR. Tapara as janelas com papel e instalara câmaras ocultas. Não tardou que o ATF determinasse que a rede de contrabandistas incluía mais do que uma dúzia de pessoas, que se tinham estabelecido em tranquilos bairros de classe média em Charlotte. Não eram hispânicos, como Fromme julgara a princípio. Eram árabes.

Sem que os contrabandistas soubessem, cada carrinha levava atrás de si uma procissão secreta de cinco carros do ATF nas suas viagens para norte. Os carros revezavam-se no lugar imediatamente atrás da carrinha — no ponto de mira, como lhe chamavam —, de forma que nenhum deles permanecesse por muito tempo no retrovisor dos contrabandistas. Os agentes tomavam ainda a precaução de mudar ocasionalmente de roupa e trocar as matrículas dos carros durante paragens nos postos de gasolina.

Embora os percursos variassem, o destino final dos contrabandistas era sempre o mesmo: o Michigan. Umas vezes era uma bomba de gasolina em Dearborn, outras, a garagem de uma casa particular em Detroit, onde outros árabes descarregavam a mercadoria e pagavam em dinheiro. Visto o Michigan ter os impostos sobre tabaco mais elevados do país, ascendendo a 7,50 dólares por pacote, enquanto na Carolina do Norte esse imposto era de apenas 50 cêntimos, as vantagens da operação eram evidentes. Esse lucro de 7 dólares por pacote correspondia a cerca de 13 000 dólares de lucro em cada carregamento.

No auge da operação, o percurso era feito por três a quatro carrinhas todos os dias. No entanto, continuava a faltar uma das principais peças do quebra-cabeças. Os detectives descobriram que os contrabandistas não gastavam muito dinheiro. Então, para onde iriam todos aqueles lucros?

Sem que Fromme ou o ATF soubessem, o FBI estava a conduzir uma investigação paralela. Durante dois, depois três anos, os contrabandistas prosseguiram com a sua rotina, enquanto o FBI tentava decifrar os objectivos da quadrilha, seguindo a pista de toda a operação. Quando os agentes federais começaram a interceptar carregamentos para reunir provas, os contrabandistas mudaram de táctica. Contrataram mulheres para viajar com eles e prenderam bicicletas às carrinhas para parecer viajantes em férias.

Na Primavera de 1999, os detectives conseguiram finalmente reunir provas suficientes para apresentar o caso em tribunal. Entretanto, o ATF pedia ao Ministério Público de Charlotte que preparasse a acusação. Foi nessa altura que Ken Bell entrou no caso, e foi por isso que, três dias depois, o FBI visitou o seu gabinete.

Bell ouviu os agentes federais descreverem a quadrilha de contrabandistas trigueiros como apoiantes de um dos grupos terroristas mais perigosos do Mundo, o Hezbollah. Compreendeu que estavam a pôr-lhe nas mãos o caso de uma vida. Bell era um homem de aspecto calmo e raciocínio rápido, que ascendera rapidamente na sua carreira. Quinze anos antes, com uns escassos 25, tornara-se no mais jovem delegado do Ministério Público do país. Dois anos depois, prendia mafiosos e traficantes de cocaína na qualidade de responsável do grupo especial regional de crime organizado e narcóticos. Agora, era o principal jurista do seu gabinete.

Nada disso o impedia de ver que aquele caso seria difícil e provavelmente perigoso. Quanto mais investigava o Hezbollah, mais se apercebia do que estava em jogo.

Fundado em 1982 para lutar contra a ocupação israelita do Líbano, a organização, de origem libanesa estivera por detrás do ataque contra o quartel dos fuzileiros em Beirute, do qual haviam resultado 241 mortos. Também estivera ligada ao atentado das Torres Khobar, na Arábia Saudita, em 1996, no qual foi destruído um edifício onde se alojavam militares americanos. Esse atentado provocara 19 mortos. Embora o principal objectivo do Hezbollah seja a destruição de Israel, os seus líderes apelam frequentemente à destruição da América. «Morte à América foi, é e será a nossa palavra de ordem», diz o secretário-geral da organização, Hassan Nasrallah.

Apoiado pelo Irão e pela Síria, os tentáculos do Hezbollah estendem-se até aos cantos mais remotos do Globo. Pensa-se que o grupo disponha de centenas de operacionais infiltrados na Europa Ocidental, na América do Sul e nos Estados Unidos. O objectivo principal desses fanáticos é angariar dinheiro para a sua causa e enviá-lo para o Líbano. Mas os analistas receiam que possam ser chamados a prestar serviços violentos a qualquer momento. Entre outras coisas, atentados suicidas com bombas, actos nos quais o Hezbollah foi pioneiro.

Não há dúvida de que o Hezbollah tem capacidade para perpetrar atentados contra alvos americanos, diz Steve Emerson, do Investigative Project de Washington, um grupo de pesquisa do terrorismo. «A agenda do Hezbollah», acrescenta Emerson, «é muito semelhante à da al Qaeda.» Bell estava decidido a desmascarar as ligações entre os contrabandistas e o Hezbollah.

Dedicou-se de alma e coração ao caso, passando 80 horas por semana no seu gabinete, rodeado por pilhas de provas. Tornou-se cada vez mais frequente prescindir do jantar, em vez de ir para casa partilhar a refeição da noite com a sua mulher, Gayle, e os dois filhos. Andara a treinar o filho mais novo para participar no Campeonato de Basebol de Infantis e prometera a si mesmo acompanhá-lo ao longo de toda a temporada, mas não tardou que não tivesse tempo nem para assistir aos jogos. Os rapazes começaram a perguntar a Gayle por que razão o pai nunca estava em casa. «Está a fazer uma coisa importante», explicava ela.

A partir dos relatórios de vigilância do FBI, das gravações das escutas e das indicações de informadores secretos, formou-se aos poucos uma imagem completa da célula terrorista. Esta fora organizada por um núcleo de oito homens de origem libanesa. Todos tinham entrado nos Estados Unidos no início dos anos de 1990 com vistos falsos. A maior parte eram adolescentes. Desses oito, quatro haviam pedido asilo político, mas depois tinham faltado às audiências e feito «casamentos de circunstância» com mulheres americanas, a fim de evitar a deportação. Pelo menos quatro deles só conheceram as respectivas mulheres no dia do casamento.

O líder da célula era Mohamad Hammoud, um nativo de Beirute de voz suave, que andava pelos 25 anos. Ainda na Síria, tentara diversas vezes obter um visto de entrada para os Estados Unidos, que lhe fora sempre recusado. Partira então para a Venezuela com dois primos e lá adquirira vistos falsos por 200 dólares. Uma vez na América, reunira-se aos seus dois irmãos e a outro primo, bem como a dois amigos muçulmanos oriundos do mesmo subúrbio pobre de Beirute. O FBI estava convencido de que todos eles tinham sido enviados para os Estados Unidos pelo Hezbollah.

Hammoud e os seus associados optaram por se instalar na região de Charlotte, que tem uma comunidade árabo-americana muito unida. Alugaram apartamentos modestos e aceitaram empregos menores. Muitos deles trabalharam na Domino’s Pizza. Integraram-se sem dificuldades, com as suas camisolas camufladas, calças de ganga e equipamento do Charlotte Hornets. Aos domingos, jogavam futebol num parque local.

Mas a coberto de tudo isso foram construindo um império de fraude financeira que ultrapassava largamente o contrabando de cigarros. Uma das suas tácticas favoritas consistia em pedirem cartões de crédito com identidades falsas, esgotá-los e deitá-los fora. Muitos dos produtos adquiridos com esses cartões eram depois revendidos a dinheiro. Um dos membros da célula subornou um empregado bancário para aceder à conta de uma mulher que deixara o país havia pouco tempo.

Não havia maneira de descobrir quanto dinheiro esses esquemas tinham rendido, mas um dos homens gabou-se de ter ganho sozinho mais de 500 000 dólares. Fosse como fosse, guardaram o bastante para poderem comprar casas em agradáveis bairros de classe média. Nenhum deles vivia com a respectiva «esposa», excepto Hammoud. Mas o seu estilo de vida era suficientemente discreto para não atrair atenções indesejadas.

Para não perderem de vista o seu objectivo, os membros da célula reuniam-se todas as noites de quinta-feira, geralmente em casa de Hammoud, onde viam vídeos de propaganda e rezavam juntos. Parte habitual dessas sessões era a escuta de um discurso do Ayatollah Khomeini e o visionamento de filmes que glorificavam os mártires que se preparavam para perpetrar atentados suicidas contra Israel.

Uma das cassetes que foram encontradas na casa continha imagens detalhadas do quartel dos fuzileiros depois do atentado. Os informadores contaram que Hammoud liderava as reuniões, pondo de parte a sua habitual timidez para proferir discursos incendiários. Os vizinhos não podiam deixar de reparar nos carros, nas persianas baixas e nos convidados que entravam e saíam, mas partiam do princípio de que eram reuniões inofensivas. «A maior parte das mulheres usavam véus», recorda um vizinho. «Julgávamos que se tratava de um grupo religioso.»

Na madrugada do dia 21 de Julho de 2000, a tranquilidade da Donnefield Street, na zona oriental de Charlotte, foi perturbada por um comboio de carros e carrinhas escuras da Polícia. Agentes federais envergando coletes à prova de bala e armados com metralhadoras correram para a porta da casa de Mohamad Hammoud e arrombaram-na. Hammoud saltou da cama e empunhou uma pistola, mas quando os agentes armados irromperam na sala pensou melhor e optou por se render.

Dessa acção do FBI e do ATF resultou a detenção de mais 17 suspeitos na região de Charlotte. Alguns desses suspeitos eram residentes locais que tinham sido recrutados para ajudar nas actividades de contrabando. (Mais tarde, seriam acusados mais oito suspeitos.) Bob Fromme juntou-se a Ken Bell na supervisão da operação a partir de um posto de comando da Polícia na baixa na cidade.

Na casa de Hammoud, os agentes apreenderam espingardas, pistolas e uma arma de assalto AK-47, bem como grandes quantidades de literatura militante e de cassetes de vídeo. No entanto, a descoberta mais importante foram os contactos, sob a forma de cartas e de conversas gravadas, entre Hammoud e líderes do Hezbollah no Líbano. Entre as cartas encontrava-se uma nota do líder espiritual xeque Fadlallah acusando a recepção de uma contribuição no valor de 1300 dólares. Para Bell, isso confirmou o que os informadores e os relatórios de vigilância tinham indicado: Hammoud tinha contactos aos níveis mais elevados do Hezbollah.

Na maioria, os réus estavam dispostos a confessar-se culpados de associação criminosa, extorsão e fraude. Mas Bell queria que a acusação contra Hammoud fosse mais grave. Depois do atentado bombista na cidade de Oklahoma, o Congresso dera força de crime federal à prestação de apoio financeiro a qualquer organização terrorista. Até àquele momento nenhum delegado do Ministério Público tentara levar uma tal acusação a tribunal. Bell tencionava ser o primeiro a fazê-lo. Mas para ser bem-sucedido precisava que um dos terroristas se virasse contra Hammoud.

O membro da célula que lhe parecia mais vulnerável era Said Harb. Harb, um homem insinuante e de expressão inocente, era talvez o mais versátil do bando de patifes. Desempenhara um papel fundamental nas actividades criminosas do grupo levando pessoalmente cigarros para o Michigan e fazendo uma grande quantidade de dinheiro através de fraudes bancarárias e com os cartões de crédito. A certa altura, possuíra 12 cartões de crédito e três cartas de condução, todos em nomes diferentes. O seu telemóvel tinha cinco toques diferentes, correspondendo cada toque a uma identidade distinta, e precisava de recorrer a uma agenda para se orientar no meio de uma míriade de números da Segurança Social e de contas bancárias. Também se encarregara de parte do trabalho mais sensível da célula.

Os Serviços Secretos Canadianos haviam monitorizado duas viagens suas a Vancouver em finais dos anos de 1990. Da primeira vez, fora encontrar-se com um amigo de infância chamado Mohamad Dbouk. Este, segundo os detectives, era responsável pela aquisição de equipamento para o Hezbollah na América do Norte, e Harb fornecera-lhe cartões de crédito e cheques falsos para fazer as suas compras. A lista de compras, compilada por um comandante veterano do Hezbollah, era longa: óculos de visão nocturna, distanciómetros de laser, detonadores, dispositivos GPS, detectores de minas, armas para repelir cães, entre outras coisas. O material seria expedido para o Líbano, onde seria utilizado em operações militares contra Israel.

Mas Harb tinha um fraco pelas tentações materiais da América. Frequentava os clubes nocturnos de Charlotte, consumia pornografia pela Internet e comprara um BMW de 36 000 dólares. Detestava as políticas americanas, mas, simultaneamente, parecia adorar as suas liberdades. Era mais egoísta, mais ocidentalizado e menos empenhado do ponto de vista ideológico do que qualquer dos outros. Talvez fosse o tipo de homem disposto a fazer um acordo a fim de salvar a própria pele. Bell esperava conseguir que Harb o ajudasse a apanhar Hammoud se o pressionasse com provas sobre as suas viagens ao Canadá.

Isso implicava obter a colaboração das autoridades canadianas, cujas gravações continham os detalhes das viagens de Harb. Mas eram raros os casos em que tinham sido utilizadas informações de serviços estrangeiros em tribunais americanos, pelo que a ideia de Bell foi encarada com cepticismo pelas autoridades federais. No entanto, Bell foi até ao Canadá no início de 2002 para se encontrar com alguns dos manda-chuvas locais. Um dos principais responsáveis canadianos foi direito ao assunto: «Diga-me, o que quer realmente de nós?» Bell fitou-o: «O que queremos é levar as vossas gravações e utilizá-las num tribunal americano.» O canadiano pareceu apreciar a frontalidade de Bell. Não tardou que chegassem a acordo.

O plano de Bell resultou às mil maravilhas. Pouco depois de ter mostrado algumas das cassetes incriminatórias ao advogado de Harb, o terrorista aceitou negociar um acordo. Mas temia pela sua segurança e pela segurança da sua família no Líbano, pelo que insistiu em que as negociações permanecessem secretas. Isso significava que Bell não podia falar com ele na cadeia. Encontraram-se numa sala vazia do Tribunal Federal. O delegado do Ministério Público acomodou a sua corpulência de um lado da mesa diante do franzino Harb. Este usava um macaco da prisão cor de laranja e estava algemado. Com o tempo, conseguiram estabelecer uma espécie de relação estranha: Harb cantava laudas ao islão, Bell contrapunha-lhe as suas firmes convicções católicas.

A troco de uma sentença com atenuantes, Harb dispôs-se a incriminar Hammoud como cérebro da célula e a dizer que este fornecera «apoio material ao Hezbollah» na forma de contribuições financeiras. Mas punha uma condição essencial: visto que a sua cooperação representaria uma sentença de morte por parte do Hezbollah contra a família no Líbano, exigia que todos os seus 12 familiares fossem recebidos nos Estados Unidos. Bell explicou-lhe que não podia fazer tal promessa, pois para isso era necessário obter aprovação ao mais alto nível de Washington.

«Você há-de arranjar maneira ...», retorquiu Harb. Não sendo assim, o Ministério Público teria de encontrar outra testemunha. Com a data do julgamento a aproximar-se a grande velocidade, Bell mandou avaliar a família de Harb para se certificar de que não eram terroristas e convenceu o Departamento de Estado a flexibilizar algumas das suas regras.

Na segunda-feira de Páscoa de 2002, a família do prisioneiro libanês viajou de carro para a Síria a coberto da escuridão para embarcar num voo para os Estados Unidos. Mas houve um problema de última hora com os vistos. Bell foi obrigado a interromper várias vezes o jantar de Páscoa com a família a fim de atender telefonemas urgentes. Depois de cada telefonema, voltava para a mesa com o rosto sorumbático e debicava o peru. «Não posso falar no assunto», explicava à laia de pedido de desculpa.

O problema acabou por resolver-se, e Harb conseguiu finalmente o que queria: um telefonema dos seus familiares comunicando que se encontravam a salvo em solo americano. Bell podia agora apresentar a confissão de Harb e aproveitou para formular novas acusações muito mais graves contra Hammoud. A partir daí, seguir-se-ia o confronto directo entre os dois homens no julgamento.

O delegado do Ministério Público trabalhou febrilmente noite e dia para preparar a primeira sessão do julgamento, marcada para Abril de 2002. Mas não conseguia deixar de se preocupar com a segurança da sua família e com um telefonema perturbante que recebera do FBI havia alguns meses.

«Hammoud quer mandá-lo matar», dissera-lhe um agente. Um informador comunicara ao FBI que Hammoud lhe pedira para «meter duas balas no crânio desse estupor arrogante do delegado do Ministério Público» e para fazer explodir uma bomba no tribunal a fim de destruir as provas. Bell falara com a mulher na possibilidade de enviar os filhos para casa de familiares noutra cidade até ao fim do julgamento. Mas Gayle acabara por tomar outra resolução. «Ficamos cá e fazemos isto juntos», declarara. Bell recusara mesmo uma oferta de protecção policial de 24 horas por dia. Achava preferível não assustar os rapazes.

Entretanto, descobriu que não era o único a correr riscos. Uma tarde, Bob Fromme chegara a casa mais cedo e encontrara dois homens de aparência árabe na sala a revistarem uma pasta. O par fugiu pelas traseiras assim que o viu. Apesar de a Polícia ter passado a área a pente fino e de a comunidade árabo-americana ter colaborado secretamente, não conseguiram identificar os intrusos.

Quando o julgamento de Hammoud finalmente começou, o tribunal parecia uma zona militar. Bell deu por si num edifício rodeado de barreiras de cimento. Polícias federais armados de espingardas e metralhadoras montavam guarda. Os jurados, cujos nomes foram mantidos em segredo, eram levados até ao tribunal por guardas armados a partir de um local não revelado.

Todas essas precauções eram justificadas: os irmãos de Harb tinham relatado que antes de deixarem o Líbano haviam sido interrogados por líderes do Hezbollah que pretendiam obter pormenores sobre a segurança do tribunal. Hammoud, agora com 29 anos, estava sentado, algemado, «apunhalando Bell com os olhos», como dizia um dos agentes encarregados do caso.

O advogado de Hammoud, Deke Falls, disse ao júri que o seu cliente era vítima de uma injusta caça às bruxas resultante do 11 de Setembro e que a sua simpatia pelo Hezbollah se limitava ao trabalho social e às actividades políticas pacíficas da organização. «Este homem que aqui vêem não é um terrorista», declarou, apontando para Hammoud. «Tudo isto não passa de um caso de contrabando de cigarros muito empolado.»

A esse discurso, Bell contrapôs várias cassetes apreendidas na casa do arguido, numa das quais se via uma «brigada de mártires», umas poucas dúzias de homens vestidos de camuflados e com cintos de explosivos à cintura. Um porta-voz do grupo proclama que «vamos detonar-nos para fazer que a terra trema sob os pés dos nossos inimigos, América e Israel». Noutra cassete, ouvia-se a irmã de Hammoud a falar com os dois primos. «Quem são vocês?», pergunta ela. Um deles, um rapazinho, começa a gritar quando ouve a resposta: «Hezbollah.»
«Hezbollah!», repete o rapaz, erguendo o punho. «Hezbollah!»

No seu depoimento, Said Harb declarou que Hammoud solicitava donativos para o Hezbollah nas reuniões das noites de quinta-feira e que lhe dera 3500 dólares para entregar a responsáveis do Hezbollah no Líbano. Falls tentou desacreditá-lo como sendo um vigarista esperto cujo depoimento não passava de mais uma vigarice.

Todos sabiam que o contra-interrogatório de Bell a Hammoud seria o clímax do julgamento. Esse momento chegou no dia 14 de Junho de 2002. Bell interrogou Hammoud durante mais de três horas acerca das suas ligações ao Hezbollah.

O réu manteve a compostura e falou num tom suave e caloroso. Bell pressentiu que aquele homem bem-parecido se dava ao luxo de estabelecer contactos visuais sedutores com as juradas. Hammoud declarou ter vindo do Líbano sem propósitos sinistros, tendo como único objectivo fugir à violência constante que assolava o seu país natal, como o bombardeamento israelita que matara um dos seus amigos de infância. Reconheceu simpatizar com o Hezbollah, mas apenas pela sua resistência a Israel e pelo seu trabalho político e humanitário no Líbano. Disse que não odiava os Americanos e que, se os odiasse, não viveria com eles. Também insinuou que estava a ser acusado injustamente. «Estou nos Estados Unidos. Não estou na Síria nem em qualquer outro país.» A América, observou, «é a mãe da democracia».

Bell exibiu então uma impressionante fotografia de Hammoud adolescente num centro de juventude do Hezbollah no Líbano. A imagem mostrava Hammoud em traje militar empunhando uma metralhadora. «Aquilo que tem na mão faz parte do bom trabalho do Hezbollah?», inquiriu o delegado do Ministério Público.

Também o pressionou acerca de uma carta que fora encontrada em sua casa, remetida pelo Xeque Abbas Harake, um líder militar do Hezbollah em Beirute. Segundo o depoimento de Said Harb, Harake recebera um «donativo» no valor de 3500 dólares. «A carta refere-se a Hammoud como “um querido irmão que não esqueceu o seu campo de trabalho”». Mencionava ainda lugares não especificados onde Harake e Hammoud tinham trabalhado juntos.

«Qual é o seu “campo de trabalho”?», perguntou Bell.
«Não sei do que ele está a falar», respondeu o arguido.
Foi a única vez em que não teve uma resposta pronta. No entanto, nunca perdeu completamente a compostura da forma que qualquer advogado de acusação desejaria. Exausto, Bell regressou ao seu lugar profundamente desanimado. Voltou-se para um dos seus colegas e murmurou: «Não sei se consegui sequer arranhar-lhe o disfarce.»

O delegado do ministério Público sempre detestara a fase de deliberação dos júris. Era a única parte dos julgamentos em que os acontecimentos saíam inteiramente do seu controle. Podia ter ido para o seu gabinete trabalhar um bocado, mas deixou-se ficar no tribunal. Passou-se um dia, depois dois, três dias.

As deliberações estavam a demorar muito mais do que ele gostaria. A avaliar pelas perguntas que eram enviadas ao juiz, Bell suspeitava de que o júri se convencera sem dificuldade da veracidade das acusações menores, de fraude e contrabando, mas que estaria num impasse no que se referia à questão crucial do «apoio material» ao terrorismo. Ou seja, Mohamad Hammoud podia ter sobrevivido bem demais ao interrogatório acerca das suas ligações ao Hezbollah.

No terceiro dia, sexta-feira, Bell ouviu gritos provenientes da sala do júri. Sentiu um nó no estômago. «Perdemos», disse para consigo. Ficaria conhecido em todo o país como o delegado do Ministério Público que desperdiçara o primeiro grande caso de terrorismo depois do 11 de Setembro.

Pouco depois, o júri regressou com o veredicto. Um dos jurados, uma mulher, tinha lágrimas nos olhos. Bell deduziu que os gritos tinham tido a ver com ela. Hammoud foi chamado à sala de audiências, e o juiz leu a lista de acusações e veredictos. Culpado. Culpado. E quanto à acusação crucial: culpado. Bell sentiu um misto de alívio e alegria. Hammoud olhava fixamente em frente, sabendo que seria condenado a muito tempo de prisão.

À porta do tribunal, Bell foi rodeado de repórteres. «Não vamos fazer distinções entre terroristas e aqueles que os financiam», declarou o delegado do Ministério Público. «Os actos terroristas não poderiam realizar-se sem a ajuda daqueles que os financiam.» Poucos meses depois, Mohamad Hammoud era condenado a 155 anos de prisão. Afirmou sempre a sua inocência, alegando ser uma vítima de paranóia pós-11 de Setembro. Diz que ao longo de todo o julgamento os jurados o olhavam «como se me odiassem».

As autoridades federais elogiaram o caso como um exemplo da tarefa urgente de desmantelar células terroristas nos Estados Unidos. Bell e Fromme receberam louvores do Ministério da Justiça, e o procurador-geral, John Ashcroft, deu-lhes pessoalmente os parabéns. Pouco tempo depois, Bell deixou o Ministério Público e tornou-se sócio de uma prestigiada firma de advogados de Charlotte. Fromme continua no Gabinete do Xerife do Condado de Iredale.

Na Primavera passada, teve finalmente oportunidade de gozar a sua lua-de-mel – sete anos depois do casamento. Said Harb foi libertado entretanto, depois de cumprir uma pena reduzida. O seu actual paradeiro é um segredo bem guardado.

Embora o julgamento de Hammoud esteja concluído, o caso da célula terrorista do Hezbollah em Charlotte continua em aberto. Cinco arguidos ainda andam a monte e o FBI continua a procurá-los. As autoridades estão particularmente preocupadas com Mohamad Dbouk, o contacto de Said Harb no Canadá.

Num depoimento recente perante o Congresso, o procurador Robert Conrad testemunhou que Dbouk se oferecera por cinco vezes aos líderes do Hezbollah para se transformar em mártir, executando uma missão suicida. A sua oferta foi sempre recusada, com o argumento de que ele era demasiado importante para o grupo. Ninguém sabe se ainda estará a tentar morrer pela causa. Entretanto, os agentes federais dizem estar a vigiar alegadas células do Hezbollah em várias outras cidades americanas.

Pelo seu lado, Bob Fromme entende que o perigo está muito longe de ser ultrapassado. Ainda no Outono passado recebeu um telefonema perturbante de um informador: um grupo de homens de etnia árabe havia aparecido na JR’s em veículos com matrículas de outros estados, comprara uma grande quantidade de cigarros e pagara em dinheiro.

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