Quando os implacáveis militantes islâmicos os fizeram reféns, muitos dos prisioneiros tiveram extraordinárias reacções de coragem e heroísmo.

1 de Setembro de 2004 – 9.10 da manhã. O Pátio da Escola

Era a manhã de um novo ano escolar na Escola N.º1 de Beslan, uma cidade de cerca de 35 000 habitantes num vale do Cáucaso da República Russa da Ossétia do Norte. Os antigos alunos estavam alinhados ao lado do edifício de tijolos encarnados e a brincar com flores, chocolates e balões, enquanto esperavam a apresentação anual, altura em que os novos alunos marchariam em frente deles, indicando o começo das suas vidas académicas.
Zalina Levina estava a tomar conta de Amina, a sua neta de 2 anos e meio. A criança tinha visto as outras crianças a dirigirem-se para a escola e disse: «Avó, vamos também!» Zalina vestiu um vestido de ganga e juntaram-se aos outros.

Os terroristas apareceram não se sabe de onde. Um camião militar parou e saíram da parte de trás vários homens que disparavam e gritavam: «Allahu Akhbar!» Os da frente precipitaram-se para o portão do pátio da escola, bloqueando a saída. Um dos pais agarrou numa pistola e começou a disparar. Foi morto.
Zalina viu um homem mascarado a correr com uma arma. A seguir, outro. Muitos dos estudantes estavam de costas para os homens que avançavam, mas alguns que se encontravam de frente desataram a correr. Os terroristas encaminharam a multidão em pânico para um pátio nas traseiras. Zalina correu com outras pessoas para dentro da casa das caldeiras para se esconderem. Um dos homens parou à entrada e disse: «Saiam ou começo a disparar.»

Zalina pensou pedir misericórdia. A sua neta estava com ela. Não se mexeu. Quando apenas faltava entrarem ela e Amina, o terrorista, irritado, disse: «Precisas de um convite especial ? Mato-te já aqui!»
Saiu para o pátio, juntando-se a uma quantidade de gente a quem obrigavam a entrar para o ginásio. Enquanto os reféns entravam para o campo de basquetebol, um dos terroristas disparou para o tecto, dizendo: «Todos calados! Vocês foram feitos reféns. Vamos agora apresentar as nossas condições.»
As regras foram ditadas. Ninguém podia falar sem licença. Tudo o que se dissesse tinha de ser em russo, e não em ossetiano, para que os terroristas conseguissem entender. Qualquer resistência equivaleria a uma execução.

Quando o terrorista acabou de falar, um dos pais levantou-se para fazer a tradução das instruções para ossetiano. Os terroristas deixaram-no falar. Quando ele acabou, um deles aproximou-se e perguntou: «Já acabaste?» Ele fez que sim com a cabeça, e o terrorista deu-lhe um tiro.
Quase todos os estudantes tinham sido feitos prisioneiros – 1100 reféns, incluindo pais e professores. O choro das crianças enchia o ar. Um grande rasto de sangue marcava o sítio por onde o corpo do tradutor tinha sido arrastado.
Duas mulheres jovens com cintos explosivos passeavam pelo chão de madeira, vestidas de preto, as caras tapadas com véus. Eram shahidkas, mártires femininas islamitas, empurradas para o islão militante e por vingança pela perda dos jovens da Chechénia. Dois terroristas com mochilas entraram na sala e começaram a descarregar equipamento. Com alicates e cortadores de arame, estenderam cabos de um aro de basquetebol ao outro, pendurando bombas em ganchos. Armaram explosivos maiores no chão.
As bombas penduradas explodiriam em estilhaços de cima para baixo, não permitindo qualquer abrigo. Um terrorista estava em cima do detonador, e o sistema ligado a uma bateria. Se ele levantasse o pé, o circuito fechar-se-ia. A electricidade passaria. As bombas explodiriam.

De tarde. O ginásio

Kazbek Misikov olhava intensamente para a bomba pendurada por cima da sua família – um simples balde de plástico atulhado de massa explosiva e metal. Se explodisse, atiraria estilhaços que penetrariam na sua mulher, Irina, nos seus dois filhos, Atsamaz e Batraz, e nele próprio, matando-os a todos.
Ao longo do dia, Kazbek tinha estudado a bomba até ao pormenor do fio de electricidade que a ligava à rede de explosivos ao seu redor. Agora, os seus olhos percorriam a multidão de crianças, pais e professores agachados no campo de basquetebol. A temperatura tinha subido, e a sua cadeira improvisada havia-se tornado nauseabunda com urina e medo.

Os captores usavam coletes com munições e tinham espingardas Kalashnikov à tiracolo. Alguns escondiam-se atrás de máscaras de esqui, mas a maior parte tinha-as tirado devido ao calor. Alguns pareciam assassinos semianalfabetos, o tipo de criminoso que se tinha espalhado da Chechénia durante uma década de guerra. Kazbek calculou que este cerco acabasse numa luta e sabia que, quando os soldados russos irrompessem nestas salas, o seu ataque seria violento e impreciso. Sabia isto porque ele próprio já tinha sido um soldado russo. Kazbek não queria que alguém visse o que ele estava a fazer. Devagar, a sua mão deslocou-se para o fio. A bomba por cima estava ligada a uma bateria de automóvel. Se os terroristas fechassem o circuito, a corrente passaria e detonaria as bombas. Mas se Kazbek tirasse o fio, a bomba por cima da sua família não explodiria. Kazbek passou grande parte do dia a trabalhar no fio, dobrando-o de trás para a frente. Olhou directamente para os homens, que o matariam se soubessem o que estava a fazer. Desligaria a bomba. Era um passo. Cada passo contava. Aslan Kudzayev levava uma cadeira através da entrada sob os olhares dos guardas. Aslan tinha sido posto a trabalhar num grupo para barricar as janelas da sala de aula. Tinha 33 anos e era magrizela, com cabelo castanho curto. Enquanto transportava a cadeira, um terrorista apontou-lhe uma pistola à cara e disse:
«Tens o cabelo curto. És um chui.» Aslan disse que não com a cabeça e acrescentou:
«Não.»

O terrorista mandou-o despejar os bolsos. Nada a respeito dele indicava ser polícia. Aslan era dono de uma loja de materiais de construção. A sua filha tinha sido escolhida para tocar um sino indicando o começo do novo ano escolar. O terrorista fez-lhe sinal para voltar ao trabalho. Uma vez as janelas entaipadas, os homens foram mandados sentar na entrada, mãos atrás das costas. Por esta altura, os reféns já começavam a ter uma ideia sobre os seus raptores.

Todos os terroristas mostravam respeito a um homem com uma barba basta e avermelhada a quem chamavam o Coronel. Este andava pelo corredor, a sua cabeça rapada coberta por um solidéu preto. Abaixo dele, estavam os comandantes, incluindo um eslavo chamado Abdullah, que tinha apontado a pistola à cara de Aslan.

O terrorista estava farto de Larisa Kudziyeva. Tinha estado a gritar, mesmo depois de eles terem mandado calar toda a gente. Era magra e bela, de uma forma única do Cáucaso, de pele fina, cabelo escuro e olhos castanhos. O terrorista dirigiu-se a ela para a calar para sempre. Larisa tinha estado a cuidar de Vadim Bolloyev, que tinha sido baleado perto do ombro direito. Estava deitado no campo de basquetebol, a sua camisa encharcada de vermelho. Estava a enfraquecer. Ela perguntou-lhe:
«Porque é que o balearam?»

«Recusei-me a ajoelhar», disse ele.
Larisa examinou a ferida. O osso estava estilhaçado. Debruçou-se sobre o homem, que sangrava, lutando para o salvar.
«Precisamos de água e ligaduras!», disse.
O terrorista aproximou-se:
«De pé!» Larisa levantou-se, e o terrorista empurrou-a com a sua espingarda. Depois, mandou-a ajoelhar-se. Ela disse:
«Não.»
Bolloyev tinha sido baleado por isto.
«Eu disse-lhe», disse ele.
«Ponha-se de joelhos.»
«Não», disse ela.

Por um momento, olharam um para o outro. O terrorista levantou a sua Kalashnikov à altura da testa dela. Encostou o cano à sua fronte. Larisa sentiu o aço na sua pele. Bolloyev soergueu-se sobre um cotovelo, enquanto os filhos de Larisa olhavam.
Ela estendeu um braço, agarrou o cano, afastou-o e disse com mau modo:
«Que espécie de espectáculo estão a dar aqui. Há mulheres e crianças que já estão assustadas.»

O terrorista parou. Abdullah atravessou o ginásio apressadamente e perguntou:
«Que se está a passar aqui?»
«Este tipo quer executar-me porque pedi ligaduras», disse ela.
Abdullah estudou os dois: o seu jovem pistoleiro e a mulher, que o fitava olhos nos olhos. Ele disse:
«Aqui não há nada para ti, volta para o teu lugar e cala-te.»
Larisa voltou para o seu lugar. Bolloyev tornou a deitar-se.

Zalina Levina não conseguia consolar a sua neta, Amina, e não sabia o que fazer. Os reféns estavam aflitos com o calor. O ginásio estava apinhado, obrigando-os a fazerem turnos para esticar as pernas. Quando o ginásio se encheu com o barulho de crianças a chorarem, os terroristas escolheram um refém para ficar de pé, depois avisaram toda a gente: «Calem-se ou será morto.»

Mas silêncio era um pedido quase impossível. As crianças só podem estar caladas um certo tempo. Amina chorava sem parar. «Tenho de salvar esta criança», pensou Zalina. Abriu o vestido e pôs um mamilo debaixo do nariz de Amina, pensando que qualquer mamilo talvez pudesse consolar. Amina pegou no peito. Começou a mamar. A sua respiração ficou mais vagarosa. «Fica quieta», pensou Zalina. «Fica quieta.» Larisa Kudziyeva reparou num terrorista a olhar para ela. Era um negociador e passava grande parte do tempo a falar pelo telefone com os russos no exterior.
Entre as chamadas, pousava os olhos em Larisa. Ela continuava a cuidar de Bolloyev, fazendo pressão, com trapos, na sua ferida. Mais uma vez, gritou por ajuda, mas ninguém prestou atenção. Quase a morrer, Bolloyev perguntou pelas filhas, que também estavam no ginásio, e Larisa chamou-as. Os terroristas castigaram-na colocando ao seu lado uma shahidka com instruções para lhe dar um tiro se ela tornasse a fazer barulho. Mais tarde, como a temperatura aumentava muito, levou um grupo de crianças à casa de banho. Na volta, sentou-se ao lado do que a tinha mirado. Aqui havia uma ligação, e ela disse-lhe:
«Provavelmente, é a única pessoa que nos pode dizer qualquer coisa sobre o nosso destino.»
Ele olhou de perto para ela pela primeira vez.

«Ficarão aqui até à saída da Chechénia das últimas tropas federais», disse ele.
«Isso não é coisa para um dia» retorquiu ela.
«Uma vez que comecem as negociações, terão tudo», disse ele. Comida, água.»
«Qual é o teu nome?», perguntou ela.
«Ali», respondeu ele.
«É alcunha ou nome verdadeiro?», perguntou ela.
«É alcunha», disse ele.
«E o nome verdadeiro?» indagou ela.
«Já não preciso dele», respondeu ele. «Já não há ninguém vivo que me possa chamar pelo meu nome.» Há uns anos, disse Ali, um avião russo despejara bombas na sua aldeia. Essas bombas explodiram entre a sua mulher e cinco filhos. Todos os que o amavam estavam mortos. Olhou para Larisa. «A minha mulher era muito parecida consigo.»

Fim de tarde

Aslan Kudzayev estava sentado na entrada. O Coronel apareceu e ordenou que ele e outro refém fossem para uma sala de aula no segundo andar onde estavam, num charco de sangue, oito homens mortos. Aslan compreendeu. Ao longo do dia, tinham sido levados homens. Os que não regressaram haviam sido levados para ali e mortos a tiro.
O Coronel ordenou:
«Abram a janela e deitem fora estes cadáveres.» Os dois reféns levantaram um corpo até ao parapeito e atiraram-no fora. Passaram ao seguinte. Então, seria assim que Aslan iria passar os últimos minutos da sua vida: quando o oitavo corpo tivesse sido atirado para a relva, sabia que seria morto a tiro. Olhou à volta da sala. O Coronel não estava. Um terrorista solitário encontrava-se de guarda. O terrorista tinha retirado o carregador da sua Kalashnikov e estava a recarregá-la. «Vamos saltar pela janela», disse Aslan baixinho ao outro refém.

«Como?», disse ele, parecendo desfeito.
Aslan compreendeu que, se saltasse, saltaria sozinho. A espingarda do guarda estava descarregada. Era agora. Correu para o parapeito ensanguentado e atirou-se para fora. A queda era de cerca de 5,50 m e caiu sobre os corpos no solo. Um osso do seu pé estalou. Ouviu-se o som de armas de fogo enquanto corria para o parque de automóveis. Soldados atiraram granadas de fumo, e uma nuvem surgiu atrás dele enquanto se rebolava para dentro de uma vala. Aslan estava fora. A mulher e duas filhas continuavam lá dentro.

Karen Mdinaradze não era suposto estar ali. Ajoelhou-se na entrada, mãos atrás da cabeça. À sua esquerda, estava um homem mais velho. Atrás, de pé, estava uma shahidka. Karen não era um morador de Beslan. Tinha sido contratado para fazer um vídeo da filha de Aslan, que ia tocar o sino. Tinha a jovem no visor da sua câmara quando os terroristas chegaram.

Sem aviso prévio, a mulher perto dele explodiu. Num segundo, ela estava ali de pé, uma mulher com um véu vestida de preto. No seguinte, já não estava. A sua carne espirrou pelas paredes. Os estilhaços atingiram homens no corredor, assim como um guarda. A outra shahidka também foi atingida por estilhaços. Caiu, corria-lhe sangue pelo nariz. Karen sentiu fragmentos baterem-lhe nas costas. O seu olho esquerdo apagou-se. Mas o homem mais velho tinha absorvido a maior parte dos estilhaços, fazendo escudo e poupando Karen do pior. Esteve inconsciente por breves momentos, mas voltou a si tombou para a frente contra a parede. Passou as palmas das mãos pela cabeça. Tinha a pálpebra rasgada e estilhaços na cara. O homem mais velho, que o tinha resguardado, respirava com dificuldade. As suas ancas e pernas estavam viradas na direcção errada, como se a parte final da sua coluna tivesse dado uma volta. Karen sabia que estava nos derradeiros momentos de vida.
Um terrorista dirigiu-se aos feridos.
«Vão ao segundo andar e nós proporcionaremos assistência médica.»
Karen juntou-se aos que estavam capazes e coxeou escada acima para uma sala de aula onde viu reféns mortos empilhados no chão. Os feridos receberam uma ordem:
«Deitem-se.»

Um terrorista deu um passo em frente, gritou: «Allahu Akhbar!», e disparou, varrendo a arma para a frente e para trás. O ar encheu-se de gritos e do ruído das balas batendo na carne. Quando os reféns ficaram quietos, o terrorista largou o gatilho. Um gemido saiu do monte. Ele disparou outra vez. A sala ficou silenciosa e ele afastou-se.

Fora da escola, as autoridades esforçavam-se por reagir à crise dos reféns. Foram enviados para Beslan, de avião, soldados de Vladikavkaz, a capital da Ossétia do Norte. Mas o máximo que alguém tinha feito fora traçar um perímetro de segurança. Centenas de familiares dirigiram-se para a sala de cinema, animando-se uns aos outros, a imagem viva do medo.
Dentro da escola, Karen Mdinaradze estava deitado num charco de sangue. Estava escuro. A sala permanecia silenciosa. Karen tinha caído atrás de um homem que deveria pesar mais de cento e trinta quilos e não fora atingido. Karen sobreviveu à sua própria execução.

Mais tarde, o terrorista voltou com mais dois reféns e mandou-os livrarem-se dos corpos. Restavam três cadáveres quando chegaram a Karen. Este não sabia o que fazer. Mas sabia que não podia ser atirado pela janela fora. Quando os homens se dobraram para o levantar, ele virou-se e levantou-se. Os homens ficaram atónitos. O terrorista olhou-o, observando o seu corpo intacto. «Caminhas sob a protecção de Alá», disse ele.
Os três reféns foram conduzidos para o ginásio. Karen tinha a cabeça com golpes e hematomas, o olho esquerdo cego, as roupas ensopadas em sangue. Desmaiou.

2 de Setembro

Kasbek Misikov sentiu o fio separar-se entre os dedos. Sentou-se para trás, com a sua família sob a bomba desactivada. Atsamaz, o seu filho do primeiro ano, estava exausto e desidratado. Kazbek olhou para os seus olhos; por vezes, pareciam apagados. Mas ele encontrou um modo de o manter. Outros adultos tinham dito baixinho que era possível beber pequenas quantidades de urina. Kazbek tinha recolhido a deles. Atsamaz tinha dito quando lha mandaram beber:
«Quero uma coca-cola.»

Kasbek disse:
«Quando sairmos, compro-te uma caixa de coca-cola». O rapaz bebeu a urina. Durante a noite, Zalina Levina e a sua neta, Amina, tinham conseguido chegar à casa de banho. Sentaram-se ao lado de Fatima Tskayeva e dos seus filhos pequenos. À medida que as horas passavam, mais mães com crianças pequenas enfiaram-se lá dentro.

Abdullah provocava-as, dizendo:
«Talvez tenha qualquer coisa para vos dizer.»
Fatima suplicou que lhes desse informações. Ele riu-se. Duas horas mais tarde, deu uma pista:
«Se o deixarem entrar, talvez deixemos as crianças sair.» A mente de Zalina andava à roda. Quem viria?

Pelas 3 da madrugada, um homem alto com um bigode farto passou a porta, Reconheceram-no imediatamente: Ruslan Aushev, ex-presidente de Ingushetia, uma república fronteiriça com a Chechénia, um veterano soviético condecorado do Afeganistão. Aushev tinha conquistado o respeito tanto entre o seu povo, como entre os separatistas da Chechénia.
«Aushev!», pensou Zalina. Vão deixar-nos partir! As mulheres levantaram-se com os bebés ao colo, tremendo de ansiedade. Tinham estado presas mais de 30 horas, com pouca comida e água. Abdullah veio à porta.

«Vamos libertá-las», disse ele.
«Uma criança com uma mulher.»
Fatima suplicou:
«Deixe-me levar todos os meus filhos. Deixem-nos ir todos.»
«Não», disse ele.
Fatima soluçava. «Então, deixe a minha filha Kristina partir com o meu bebé», implorou. A ira de Abdullah faiscou. «Disse-lhe que não», disse. «Agora não liberto ninguém. Todos de volta para o ginásio.»
O pânico apoderou-se de Zalina. Agarrando na neta, passou ao lado de Abdullah. Em vez de virar à esquerda, para o ginásio, virou à direita. «Vou-me embora», pensou. «Deixai-os darem-me um tiro nas costas». Um terrorista barrou-lhe a passagem.
«Aonde vai?», inquiriu ele.
Com a cabeça apontou, para Abdullah.
«Ele deu licença», disse ela, e passou adiante. Zalina viu Aushev junto da saída. Ele fez-lhe sinal para avançar.

O coração de Zalina batia forte. Não olhou para trás. O corredor estava coberto de vidros, mas ela não sentia os golpes nos pés descalços. Outras mulheres se seguiram. Uma cadeia de mães e crianças de colo avançaram. Zalina concentrou-se na porta. Passou Aushev, que estava com o Coronel.
«Obrigada», disse ela. Um terrorista abriu-lhe a porta e ela saiu.
Atrás dela, no corredor, Fatima Tskayeva lamentava-se ao mesmo tempo que levava o seu bebé. Não podia fazer mais. Tinha outras duas crianças ali. Decidiu ficar. Soluçando, entregou o bebé a Aushev.

3 de Setembro. O Ginásio

Após 48 horas, os presos estavam desidratados, sujos, esvaziados pelo medo. Encostavam-se uns aos outros e às paredes. Os terroristas também pareciam cansados, conscientes de que as suas exigências estavam a ser ignoradas.
Minutos depois da 1 da tarde, um trovão abalou o ginásio. Passados 22 segundos, uma segunda explosão sacudiu a sala. A sua força abriu as janelas, espalhando estilhaços pelas paredes, empurrando as pessoas através da sala. Uma das explosões abriu um buraco na parede de tijolo, atirando tijolos em cascata para o relvado e levantando o telhado e o vigamento por cima do buraco. A maior parte do tecto caiu sobre os reféns. Ao princípio, os sobreviventes quase não se mexeram. Muitos tinham ficado inconscientes. Mas por fim começaram a mexer-se e a fugir. A filha de Aslan tinha estado a dormir. A rapariga agora viu a luz do Sol e escapou-se. Atravessou o pátio e veio para junto dos soldados que cercavam a escola. Estava livre.

Começou uma fuga desesperada. Os que não estavam gravemente feridos correram para os parapeitos das janelas, subiram e deixaram-se cair para o solo.
Karen Mdinaradze tinha estado inconsciente no chão. Acordou e viu as pessoas atirarem-se das janelas. Reuniu as suas forças, tropeçou até ao parapeito e seguiu-as na fuga. Aterrou no pátio e correu com uma manada humana em pânico. Uma mãe ziguezagueava à sua frente, puxando o seu filho pequeno. As balas assobiavam por cima. Atravessaram o pátio a correr para o canto mais afastado. A mãe tombou.
O filho parou e gritou: «Mamã!»

Karen abaixou-se e apanhou o rapaz enquanto corria. Atravessou a vedação e saiu da linha de fogo. A mãe correu pelo canto. Não tinha levado um tiro. Havia tropeçado. Caiu em cima do filho a soluçar. No ginásio, Aida Archegova tinha ficado atordoada pelas explosões. Um pedaço de tecto havia-lhe caído em cima. Acordou e vislumbrou o filho mais velho a escapar. Não viu o filho mais novo. Afastou o tecto e olhou cuidadosamente à volta da sala. Onde está Soslan? Aida caminhou com cuidado através dos feridos, procurando Soslan. Não estava entre eles. As balas atravessavam o ginásio, as marcas de brilho vermelho batiam nas paredes.

Abdullah mandou os reféns para a cantina e empurrou as mulheres para as janelas. «Ponham as crianças aí também», disse ele. Aida ficou gelada. Balas zumbiam pelo ar, mordendo a fachada de tijolo.
«Se as crianças estiverem aí, não vão atirar e vocês estarão seguras», disse Abdullah. Seis janelas grandes faziam a frontaria da escola, cada uma com grades, o que evitava fugas. Aida chegou-se a uma janela, levantando uma criança para o parapeito. Eram um alvo muito visível. Outras mães estavam a ser usadas da mesma maneira. Eram escudos humanos. «Não atirem!», gritavam as mulheres aos russos que avançavam. «Não atirem!»

1.10 da tarde

Atsamaz estava de pé junto do seu pai inconsciente. «Pai!», gritou.
O seu pai, Kazbek, estava atordoado. Abriu os olhos. A bomba por cima não tinha explodido. Ainda lá estava pendurada. Viu Atsamaz e viu a sua mulher, Irina, rastejando para Batraz, o seu filho mais velho, que estava enrolado no chão sem sinais de vida. Virou-o. «Batik!», guinchou. Corria sangue do seu joelho esquerdo. «Batik!»
Batraz mexeu-se. Irina embalou-o, tentando despertá-lo.
Kazbek embrulhou o filho com os braços e aos solavancos dirigiu-se à sala dos pesos, perto do ginásio. Faltava um pedaço do antebraço esquerdo a Kazbek. Pulsava sangue da ferida. O seu braço direito também estava ferido.

Havia três janelas, cada uma com grades. Estavam encurralados. Cerca de uma dúzia de reféns permanecia na sala, incluindo Larisa Kudziyeva. Os terroristas tinham armazenado equipamento na sala dos pesos, e Larisa pesquisou as suas mochilas, encontrando rebuçados, passas de uva, bolachas. Distribuiu a comida aos reféns.
Os terroristas na cantina queriam mais reféns para servir de escudos. Um terrorista voltou à sala dos pesos para recuperar o grupo que se escondera ali. Kazbek estava lá, parecendo perto da morte. Outros pareciam capazes de andar.

«Os que quiserem viver, venham», gritou o terrorista.
Ninguém obedeceu.
«Levem as pessoas para fora», gritou. «O tecto está a arder.» Larisa estava preocupada: E se ele começasse a matar? Encaminhou um grupo para a porta.
A cantina era um horror. Mulheres estavam às janelas, aos gritos e a agitarem panos brancos. As balas atingiam as paredes. Larisa com o filho e a filha viraram uma esquina perto da copa, onde estavam, pelo menos, 20 outros reféns muito apertados. Ocuparam um lugar no chão.

Kazbek Misikov tentou concentrar-se. Tinha desmaiado pela perda de sangue, mas Atsamaz havia-o feito voltar a si, deitando-lhe água na cara. Sabia que tinha de se segurar a si próprio. Mais ou menos uma dúzia de reféns permaneciam na sala dos pesos, mas só três eram adultos e ele era o único homem. Calor e uma luz alaranjada vinham do ginásio. Sons de batalha intensos vinham do exterior. Irina encontrou papel e fez um desenho com bâton encarnado. DETI, dizia. «Crianças» em russo. Segurou-o a uma janela, Kazbek cambaleou até junto dela.

«Aqui há crianças!», gritou. «Não disparem!»
Perscrutando a ruela estreita, viu soldados. Kazbek estava fraco, mas conseguiu levantar um pé-de-cabra e passá-lo por entre as grades. Os homens do lado de fora usaram-no para soltar a armação. Estava aberto um caminho de fuga. Irina passou as crianças, seguiram-se os adultos. Os Misikov apareceram por detrás da escola, enquanto os soldados passaram em sentido contrário, com pressa de penetrar no edifício. O ginásio estava agora a arder. Kazbek dirigiu-se, estonteado, para uma maca, deitou-se e deslizou na inconsciência. Atsamaz encontrou os braços do tio e agarrou-se a ele, dizendo-lhe:
«O Pai disse-me que podia beber uma coca-cola.»

Aida estava à janela há pelo menos 20 minutos; por qualquer razão, as balas não a atingiram nem ao rapaz que estava ao lado dela. Ela não sabia o nome dele. Quando Abdullah olhou para outro lado, ela balouçou o rapaz para fora do parapeito. Endireitou-se e sentiu uma enorme bofetada do lado esquerdo da cara. Tinha sido atingida. Olhou para Abdullah, que a estava a usar como escudo.
«Posso sentar-me agora?», perguntou. «Estou mal.»
«Não quero saber se está mal», disse ele. «Ponha-se de pé se quer viver.»
Ela estava tonta. Houve uma explosão. Aida caiu.

Estava toda a gente ferida, agachada ou morta. Um ruído áspero e contínuo ouviu-se vindo de fora e apareceu um tanque. O seu canhão faiscou. Houve um choque estrondoso. Havia sobreviventes caídos no canto perto da copa. As balas ainda continuavam a vir. Ouviu-se um estrondo ao longo da parede exterior; repararam que tinham desaparecido as grades da janela do canto esquerdo. Três comandos russos entraram pela janela. Estacaram entre os mortos e os feridos, de armas prontas.

«Onde estão os sacanas?», disse baixinho um deles.
A porta para a despensa abriu-se. Apareceu um terrorista com duas granadas. As balas atingiram-no enquanto ele as deixava cair. Larisa Kudziyeva viu uma das granadas passar por cima dela, cair ao chão e saltar em direcção aos soldados. O seu filho estava debaixo dela, e a filha, ao seu lado. Apertou o filho entre as pernas, tapou-o com uma delas e tapou a cara da filha. A granada explodiu. Depois da onda de metais a ter atingido, Larisa ficou a sentir uma espécie de campainhas nos ouvidos. «É tão fácil morrer», pensou ela. Mas ela não tinha morrido.

Os estilhaços tinham atingido o lado direito da sua cara. Larisa não queria que o rapaz visse o estado em que ela tinha ficado, por isso virou a cara e pôs a mão por cima. As suas mãos sentiram as feridas e o osso que tinha ficado exposto.
A filha aninhou-se contra ela. Um dos comandos tinha morrido. Larisa parecia morta, mas a filha tomou-lhe o pulso e viu que estava viva. Os comandos ordenaram aos sobreviventes que saíssem com eles.
«A minha mãe ainda está viva», disse ela. «Nós cuidamos dela», disse um dos soldados. Ela agarrou no irmãozinho e passou-o para fora da janela. Estavam salvos.

Consequência

A morgue em Beslan estava superlotada. Muitas famílias não tinham sobrevivido. Numa sala do hospital em Vladikavkaz, um médico analisou Larisa. Por duas vezes, foi operada, mas ela permaneceu em estado de coma. O hospital tinha imensos doentes, e Larisa foi deixada à sua sorte. Larisa não morreria, e mais tarde outro médico encontrou-a. Foi, novamente na mesa de operações. Quando acordou, o cirurgião perguntou-lhe: «Em que dia faz anos?»
Ela respondeu: «Dia catorze.»
«De que mês?»
«Maio», disse ela. Não era totalmente verdade.

O médico disse: «Não esqueça o dia. O seu dia de anos é quatro de Setembro.»
O cerco de Beslan terminou com a morte de 331 vítimas e 31 terroristas. Ficaram feridas mais de 700 pessoas. Não houve vitoriosos. A confiança no Governo Russo foi abalada. A simpatia pela independência da Chechénia diminuiu. Até alguns separatistas chechénios, questionaram-se sobre as suas estratégias. O Parlamento Russo abriu um inquérito. O Governo insiste que só um terrorista sobreviveu e foi apanhado. Mas os reféns dizem que Ali e os outros não estavam entre os mortos e não terão sido vistos no último dia.

Aida Archegova, que serviu de escudo humano, foi resgatada e soube que o seu filho Soslan tinha escapado. A mulher de Aslan Kudzayev, que tinha saltado da janela do segundo andar, foi libertada com a sua filha e outras mães. Fatima Tskayeva, que mandou embora o seu filho mais novo, mas ficou para trás com os seus outros dois filhos, morreu com a sua filha Kristina. O filho de 3 anos de Fatima sobreviveu.

Karen Mdinaradze, que sobreviveu à execução, teve de substituir o seu olho esquerdo por um artificial. Mesmo vendo ao pé, parece verdadeiro.
Kazbek Misikov e a sua família recuperaram. A 22 de Janeiro de 2006, Irina deu à luz um terceiro filho, a quem deu o nome de Elbrus, cujo nome, tal como o do seu pai, é o de uma montanha no Cáucaso.

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