Distância percorrida neste percurso:110 quilómetros

Guarda-Sortelha

Saindo da Guarda pelo antigo sanatório, de imediato começamos a descer pelo vale da Vela, com os seus castanheiros a romper por entre um granito que em Aldeia do Bispo apresenta conglomerações um tanto sui generis.

Com a serra da Estrela do lado direito, e antes de chegarmos ao cruzamento que nos conduzirá a Belmonte, fazemos uma primeira paragem na Torre de Centum Cellas. É um monumento romano cuja função ainda hoje divide os arqueólogos. De prisão a estalagem, de templo a pretório de acampamento, esta construção de três pisos e de grandes silhares de granito teve funções defensivas durante a Idade Média.

Em Belmonte, apreciemos o castelo (Paço dos Cabrais) com a bela janela manuelina, a interessante Igreja de Santiago, com um raro conjunto formado por pia de água benta, púlpito e baldaquino, de granito lavrado, e o Panteão dos Cabrais, com vários exemplares de arcos tumulares renascentistas.

Aqui subsiste a maior comunidade de judeus que, contra todas as inquisições e perseguições, conseguiram continuar com o seu credo.

Seguimos por Inguias, entre vinhas, pinhais e terras centeeiras, atéao início da subida para Sortelha. De novo os castanheiros e as grandes pedras de granito que parecem querer descer pela encosta.

Quando entramos na povoação, intramuros, é bem provável que encontremos no burgo o forcão com que as gentes da raia costumam capear os touros.

Sortelha é um dos monumentos ao granito que temos entre nós. Alcáçova, cerca, calçadas e casas, nada destoa. O passeio pela vila mostra-nos algumas casas de férias de "gente da cidade" e um conjunto que adquire monumentalidade pela unidade que ainda preserva. Entramos na alcáçova por uma porta encimada por um balcão de mata-cães (buracos por onde se lançavam os últimos recursos defensivos para proteger a entrada) para um pátio que já teve andares sobrados e onde se encontram a cisterna, a porta da traição e a torre de menagem.

Aqui apercebemo-nos da posição estratégica do castelo, que continuou a ter importância defensiva com a utilização das armas de fogo, o que é comprovado pelas troneiras que se situam no parapeito que ladeia os adarves. Também aqui se percebe a unidade do conjunto, que continua perfeitamente delimitado pela muralha.

Continuemos o percurso, ladeando o pelourinho manuelino e apreciando o tecto mudéjar da capela-mor da igreja matriz, até às portas que estão voltadas para a cidade da Covilhã e a serra da Estrela. Atente numa das aduelas da porta, no exterior, e aí poderá ver gravadas as medidas (braça, côvado e palmo) que eram utilizadas no interior do burgo.

No exterior, pode fazer um percurso que, por uma via romano-medieval, passa ao lado de uma igreja em ruínas, que se pode visitar, e de algumas sepulturas antropomórficas, que podem ver-se em propriedades contíguas.

Respira-se calma e ar puro. Já fora do burgo medieval, apercebemo-nos de que há gente empenhada em reabilitar tradições e actividades artesanais.

Sortelha-Sabugal-Vilar formoso

Já na estrada, a caminho do Sabugal, e como que a coroar uma sucessão de montes, podemos vislumbrar, do lado esquerdo, a pequena Ermida de S. Cornélio.

A aproximação à vila do Sabugal, com a vista do rio Côa e do castelo, revela-se das mais interessantes. Ao passarmos a ponte, entramos numa região que, desde o Tratado de Alcanizes, sempre se singularizou - a região de Ribacôa.

O castelo, dionisino, com a sua famosa torre de menagem pentagonal, é uma obra-prima do sistema defensivo medieval, fortemente protegido pela barbacã, torreões, mata-cães e troneiras. O Largo da Câmara, com a sua calçada antiga, e a pedra com côvado gravado e uma inscrição gótica que se encontra na parede norte da Igreja da Misericórdia são pormenores que não podemos deixar de apreciar no Sabugal.

Seguimos na direcção de Vilar Maior, que podemos alcançar virando na Nave ou indo até Alfaiates, e aí visitar o castelo (com intervenção manuelina) e a Misericórdia (com a cachorrada, porta e rosácea românicas) e dar uma saltada até às insólitas ruínas do Convento de Sacaparte, ligado a lendas de lutas de D. Dinis com ursos.

A aproximação a Vilar Maior não pode deixar de nos levar a pensar como a povoação que hoje vemos, encimada pelo seu castelo, se encontra tão próxima daquela que Duarte Darmas desenhou no século XVI.

É um conjunto que apetece calcorrear até ao castelo e à capela-mor de um antigo templo românico que tem parte das suas cantarias no cemitério em frente. É um castelo onde nunca houve qualquer intervenção depois de ter perdido a sua função militar.

Antes de prosseguirmos até Malhada Sorda, vamos visitar a Ponte de Sequeiros, que atravessa o Côa e que, numa paisagem repousante, tem a rara particularidade de manter os arcos da base da torre de protecção e portagem. Vale, sem dúvida, a visita.

Os muros, com grandes lajes de granito, caracterizam a paisagem próximo de Malhada Sorda, e isto deve-se a um particularismo geológico da região que começa a ser apetecido "até" pelos espanhóis. Na igreja encontram-se importantes frescos recém-descobertos.

Com alguma sorte ainda encontramos cerâmica feita por algum dos muitos oleiros que há poucos anos aqui tinham as suas olarias. São peças inconfundíveis pelas características do seu fabrico e pela carena muito acentuada.

Prosseguimos pela Freineda, onde a história "recente" das Invasões Francesas nos é recordada por uma lápide colocada numa bela casa com varanda alpendrada que serviu de quartel-general às tropas de Wellington.

Habituados que estamos a passar em Vilar Formoso a caminho de Espanha, ficaremos surpreendidos com uma visita ao povo antigo, com a sua estrutura urbana, com a sua arquitectura tradicional, com a sua igreja, onde sobressaem o tecto mudéjar da capela-mor, com capelas alpendradas (Nossa Senhora da Paz).

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