Como se faz um terrorista
A leste da passagem de Khyber, na província fronteiriça do Noroeste do Paquistão, fica uma escola chamada Madrassa Haqqania. Uma madrassa é um seminário religioso muçulmano, e a Haqqania é uma das maiores madrassas do Paquistão. As salas de aula, dormitórios e mesquitas espalham-se por uma área de mais de 3 ha cobertos de ervas. A escola acolhe mais de 2800 estudantes do sexo masculino, na maioria recrutados entre os mais pobres dos pobres. A educação, alojamento e alimentação são gratuitos; a madrassa é financiada por paquistaneses ricos e por muçulmanos devotos e politizados de diversos países do golfo Pérsico.
As idades dos alunos vão dos 8 aos 35 anos. Os rapazes mais novos passam quatro a oito horas por dia sentados de pernas cruzadas no chão de salas de aula mal arejadas, decorando o Corão na língua árabe original. Os estudantes de idade liceal ou universitária seguem cursos de oito anos, centrados na interpretação do Corão e da Hadith (uma narração da vida e palavras do Profeta Maomé), em jurisprudência islâmica e em história do islão. Aqui não se estuda história universal, nem outras línguas, nem matemática, nem informática, nem ciências.
Na Haqqania, os estudantes mais velhos aspiram a tornar-se muftis. Um mufti é um académico que pode emitir fatwas (ditames religiosos) sobre diversos assuntos, até mesmo sobre a declaração de uma jihad, ou guerra santa. A Madrassa Haqqania é, na verdade, uma fábrica de jihad. Não é a única no Paquistão. As cerca de 10 000 madrassas do país albergam um milhão de estudantes, e a maior parte delas gira em torno do islamismo militante. O que torna a Haqqania notável é o facto de ter formado mais líderes talibãs, a facção que governou o Afeganistão durante mais de meia década, que qualquer outra escola do Mundo.
Os talibãs irromperam de Kandahar em 1994 e, na sua rápida marcha até Cabul, proibiram a educação para as raparigas, despediram todas as mulheres médicas, mataram homossexuais, encenaram amputações públicas e, em termos gerais, denegriram a reputação do Profeta, em cujo nome dizem agir. Celebrizaram-se mundialmente pela sua boa vontade para com terroristas — muito especialmente, para com Osama bin Laden, o exilado saudita que esteve por detrás dos ataques de Setembro contra Nova Iorque e o Pentágono.
A maioria dos estudantes da Haqqania são do Paquistão, facto que preocupa as autoridades de Washington, Moscovo, Nova Deli e Jerusalém. Os muçulmanos paquistaneses estão cada vez mais radicais — «talibanizados», como dizem algumas pessoas —, em parte devido a madrassas como a Haqqania. Acontece que o Paquistão também possui armas nucleares, e muitos radicais muçulmanos pensam que estas armas deviam ser integradas no arsenal da jihad. É esta também a convicção dos alunos da Haqqania.
Numa manhã enevoada de Março de 2000, fui recebido pelo director da madrassa, um mulá chamado Samiul Haq. O meu objectivo: inscrever-me na escola e ver por dentro o que estava a produzir aquela fábrica de jihad. O Maulana Haq — maulana significa «nosso mestre» — é um islamita muito conhecido, com opiniões anti-americanas. Amigo de bin Laden, Haq gostaria de ver o Paquistão transformar-se em algo mais parecido com o Afeganistão dos talibãs. Devido aos seus pontos de vista — e ao facto de ter apoiado uma fatwa emitida por bin Laden, apelando aos Muçulmanos para matarem americanos —, não sabia bem como iríamos entender-nos. Fizeram-me esperar à porta do gabinete dele durante vinte minutos. Finalmente, fui convidado a entrar. O maulana, um homem de 65 anos, estava descalço e usava um turbante e uma longa barba pintada de castanho-fosforescente. Quase imediatamente, deixou-se de conversas de circunstância:
— O problema não é entre nós, Muçulmanos, e os cristãos — disse-me por intermédio de um intérprete. Já sabia a continuação, mas permaneci calado. — O único inimigo que o islão e o cristianismo têm são os Judeus — prosseguiu. — Os Judeus estão a servir-se da América para combater o islão. — Eu sou judeu — disse eu. Fez-se uma pausa. Depois, ele disse: — Bem, é muito bem-vindo aqui. E fui mesmo.
Com efeito, Haq fez-me uma oferta: podia passar quanto tempo quisesse na madrassa, podia ir onde quisesse, falar com quem me apetecesse, até estudar o Corão com ele. O que pretendia era demonstrar que a sua madrassa podia ser a Universidade Talibã, mas não era um campo de treino para terroristas. No sentido estrito, tinha razão. Nunca vi uma arma nem ouvi uma prelecção sobre a manufactura de bombas na madrassa. Mas quando os talibãs começaram a ser mal-sucedidos na guerra contra a Aliança do Norte, Haq fechou a escola e enviou os estudantes para a frente de combate.
Para uma escola apertada e que albergava tantos alunos, o ambiente era estranhamente tranquilo. Não havia televisores nem rádios. Os estudantes acordavam antes da madrugada para rezar na mesquita da madrassa. Os dormitórios estavam sujos, com os tecidos no fio, e não havia uma cantina propriamente dita: os alunos faziam fila na cozinha e recebiam arroz, caril e nan, um pão chato. Escusado será dizer que não há qualquer presença feminina na madrassa. Também não há um dia livre para a família. Mas, como todos os paquistaneses, os jovens estudantes são fanáticos do críquete e, ao fim da tarde, jogam num campo de terra do outro lado da rua. Os mais novos são mantidos em clausura num dormitório guardado pelos estudantes mais velhos, e não fui autorizado a ver como viviam. Mas eram justamente os mais novos que mais me interessavam. Ainda não estavam couraçados na dura ideologia da jihad e, no entanto, pareciam incorporar a política da madrassa nas suas brincadeiras. Dois rapazes de 11 anos seguiam-me para onde quer que fosse. A sua versão do jogo das escondidas consistia em saltarem subitamente de detrás de uma árvore, gritarem «Osama!» e fingirem matar-me.
Tentei descobrir o mais possível acerca destes rapazes, mas eles mostravam-se reticentes. E os meus vigilantes — geralmente, havia alguém do gabinete de Haq a ouvir as minhas conversas — não queriam que eu investigasse como os rapazes ali tinham vindo parar. Acabei por saber que os meus dois atormentadores eram refugiados, pobres entre os pobres. Um deles perdera o pai no Afeganistão; as mães de ambos passavam os dias a apanhar lenha. Comparada com um campo de refugiados, a madrassa é um palácio. Para eles, é uma bênção estarem ali, onde todos os dias têm comida. Ninguém mais — e certamente não o Governo Paquistanês — lhes proporcionaria educação, alojamento e alimentação.
Durante as horas de aulas, assisti a classes nas quais se ensinava a Hadith. Muito do pensamento islâmico é baseado neste texto, que se entende estar aberto a interpretação, discussão e rigoroso escrutínio intelectual. Mas não era assim na Madrassa Haqqania. Nas aulas a que assisti, um professor, geralmente um antigo mulá, lia o texto e os estudantes escutavam-no. Não havia debate.
Decorrido algum tempo, os estudantes começaram a interrogar-me acerca da América. Um dia, na aula, perguntaram-me por que razão os americanos não gostavam de Osama bin Laden. Foi uma experiência perturbadora, no mínimo, estar sentado numa mesquita a assistir a uma aula orientada por um mulá e seguida por 200 estudantes de turbante na cabeça e ter de responder a tal pergunta.
Comecei por dizer que o programa de bin Laden viola um dos princípios básicos do islamismo, segundo o qual mesmo numa jihad há que poupar as vidas dos inocentes. Li directamente da Hadith: «Foi narrado por Ibn Umar que uma mulher foi encontrada morta numa dessas batalhas, pelo que o Mensageiro de Alá, que a paz seja com ele, proibiu a matança de mulheres e crianças.» Eles não gostaram de me ver citar o Profeta e puseram- -se a cantar: «Osama, Osama.» Depois, à vez, tomaram a defesa de bin Laden. — Osama bin Laden é um grande muçulmano — declarou um estudante chamado Wali. — O Ocidente tem medo de muçulmanos fortes, portanto proclamaram-no como inimigo. Osama quer manter o islão livre da poluição dos infiéis. Quer levar o islão a todo o Mundo. Repliquei que o Corão afirma «não há compulsão na religião». Na sua essência, o islão é moderado e tolerante para com os outros. — Não há compulsão — diz Wali —, mas o Ocidente força os Muçulmanos a viverem sob o controle de infiéis. Visto os estudantes terem transformado a aula do dia numa espé-cie de seminário político, fiz-lhes eu próprio uma pergunta: «Seria admissível, pelas leis do islão, utilizar uma bomba nuclear no decurso de uma jihad?» — Todas as coisas vêm de Alá — replicou um dos rapazes. — A bomba atómica vem de Alá, portanto deve ser usada. Perguntei então: «Quem quer ver bin Laden na posse de armas nucleares?» Todas as mãos se levantaram a um tempo. Os estudantes riram, alguns aplaudiram. Mas, argumentei, se a bomba fosse usada, morreriam pessoas inocentes. Ainda que o Ocidente ou a Rússia estejam a subjugar muçulmanos, isso dá a bin Laden o direito de matar inocentes? — Osama nunca matou um inocente — disse outro estudante. Apresentei um cenário hipoté- tico: — E se — perguntei — vos mostrassem um vídeo no qual Osama bin Laden fosse visto a matar uma mulher? Que fariam? Houve uma pausa. Então, um rapaz chamado Fazlur Razaq respondeu: — Os Americanos dispõem de todos os truques cinematográficos. Podiam pôr a cabeça de Osama sobre o corpo de outra pessoa qualquer e dar a impressão de que era ele que estava a matar, quando na verdade não era. Peguei no meu bloco e extraí a minha arma secreta — a fatwa emitida por bin Laden em 1998. Li a seguinte passagem: «A ordem para matar os Americanos e os seus aliados — civis ou militares — é um dever individual para todo o muçulmano que o possa fazer, em qualquer país onde tenha essa possibilidade.» — Osama não escreveu isso — bradou um estudante, e os outros apoiaram-no ruidosamente. — Isso é uma falsificação dos Americanos. A minha pergunta final: — Que fariam se ouvissem dizer que a CIA capturara bin Laden e o levara para a América para ser julgado? Um estudante chamado Muhammad ergueu-se: — Sacrificaríamos as nossas vi-das por Osama. Mataríamos americanos. — Que tipo de americanos? — Todos. Mais tarde, disse a Haq que, a meu ver, alguns dos seus alunos acreditavam que o terrorismo era aceitável à luz do Corão em determinadas circunstâncias. — Então, não compreende o que estamos a ensinar — redarguiu ele, franzindo o sobrolho. — Há uma grande diferença entre jihad e terrorismo.
Haq transmite a mesma visão a preto e branco a todos os inscritos na sua madrassa: a América é dominada pelos Judeus, que são, por sua vez, dominados por Satanás. Para Haq, o mundo divide-se em dois domínios, separados e mutuamente hostis: o dar-al-islão, o «domínio da paz», e o dar-al-harb, o «domínio da guerra». O dar-al-islão é a comunidade mundial de muçulmanos, o dar-al-harb é tudo o resto, e neste momento é simbolizado pelos Estados Unidos da América. Uma escola de pensamento — a do Maulana Haq — afirma que o imperialismo americano e a exportação dos hábitos sociais e sexuais americanos são a razão deste ódio. Outras defendem que o islão, pela sua própria natureza, está em constante competição com as outras civilizações. Esta é a teoria de Samuel Huntington, professor de Harvard, que criou a expressão «fronteiras sangrentas do islão», uma alusão ao facto de parecerem rebentar guerras onde quer que o islão entre em contacto com outras civilizações.
Como muitos outros paquistaneses, Haq crê que o Ocidente alimenta uma implacável hostilidade contra a mensagem do islão, pelo que é perpetuamente necessário preparar-se para a jihad. — A jihad contra o opressor dos Muçulmanos é um dever absoluto — declara. Questionei-o diversas vezes acerca dos talibãs. Por que procedem daquela forma? Por fim, ele fartou-se: — Ouça, se vocês, Americanos, não pararem de nos aborrecer com os talibãs, damos-lhes a bomba nuclear. Gostariam disso? Haq disse ainda que era necessário lançar uma jihad contra a América devido à «ocupação» da Arábia Saudita. É essa a obsessão particular de Osama bin Laden: a luta para expulsar as tropas americanas da Arábia Saudita, onde se encontram a convite do rei saudita. Haq diz que essas tropas poluem solo sagrado. A jihad é, pois, uma obrigação. É isso o que ele ensina aos seus alunos? — Os meus alunos aprendem o islamismo. Isto não é uma escola militar.
Fiquei quase um mês na Madrassa Haqqania. O segredo de Haq, como vim a compreender, não é que a sua madrassa seja um campo de treino para terroristas. Não. O seu segredo é visível nos dois rapazes de 11 anos que apontam os dedos na minha direcção, nos sarcasmos dos estudantes que levantaram a mão em favor de Osama bin Laden, nas centenas de milhares de jovens que frequentam as madrassas do Paquistão e do Afeganistão. São rapazes pobres e impressionáveis, mantidos na ignorância do Mundo e, para dizer a verdade, de praticamente todas as interpretações do islão, à excepção de uma única. São perfeitas máquinas da jihad.
|
| |||||
2 Comentários |
| AMISSE João on 23 August 2011 ,09:29 Comentando sobre a madrassa é boa iniciativa e continue assim, e pedindo para nos apoiar anos também da nossa madrassa aqui em Moçambique/Nampula bairro de Carrupeia perto do posto Adminstrativo que neste momento esta em obra e tera duas sala comprimentos de quinze metro e meio e larcura de oito metros e meio |
| valdy on 02 January 2010 ,18:13 uma mistura infalível ,pobresa,fanatismo religioso,percepção zero do que se passa a sua volta e no mundo= homens bombas, |
Faça um Comentário
| Nome* | |
| Email* | |
| Comentário* | |

Mais Populares
Mais Populares
Favoritos da Semana
![]() Receitas e Alimentos | ![]() Dicas e Truques | ![]() Alimentação Saudável | ![]() Destinos e Viagens | ![]() Notas de Lazer | ![]() Consultas de Especialistas |
Precisa-se: Uma Boa História!
Precisa-se: Uma Boa História!
Escreva-nos e poderá ganhar:
50€ por cada história verídica e inédita que for publicada em Flagrantes da Vida Real.
20€ por cada texto publicado em Rir é o Melhor Remédio.

Partilhe






.jpg)
















