«VIVIA NUM DESESPERO profundo. A depressão incapacita-nos. É como se tivéssemos um inimigo dentro de nós que nos leva a fazer sempre o que é errado e nos faz mal.» Hermínia Sá, de 33 anos, é secretária de profissão. Desde a infância que esta mulher diz sofrer de depressão, com episódios de cada vez maior gravidade e frequência a partir da adolescência.
A depressão transformou-se numa epidemia. A Direcção-Geral de Saúde revelou recentemente que esta doença pode atingir cerca de 20% dos portugueses. Em todo o continente europeu, os números são mais dramáticos: dados recentes apontam para mais de 30 milhões de pessoas afectadas. Em todo o Mundo, estão-no cerca de 65% da população. E esta tendência é inabalável.
No livro (Sobre)viver na Depressão, Rui Carreteiro, psicólogo clínico, conta a historia de Maria, uma jovem de 16 anos que sempre foi boa aluna, mas que a dado momento, com a mudança de escola, começou a ficar deprimida porque «ia ficar sem amigos». Era frequente ficar triste de um momento para o outro e começar a chorar. A situação piorou desde o início do ano lectivo, e começou a ser frequente ouvir a Maria dizer que não se sentia bem, mas que não sabia explicar o que tinha. Afirma não gostar dela própria e queixa-se frequentemente de ter rápidas oscilações de humor. Pode estar contente e até a demonstrar esse contentamento com alguma exuberância, e de um momento para o outro fica apática e triste. Maria terminou há pouco tempo um romance com um rapaz de 22 anos. Mas ambos continuam a ser amigos, embora o desejo de Maria fosse manter o relacionamento amoroso.

A depressão é mais do que se sentir apenas triste, porque houve problemas com o chefe ou um romance teve um fim infeliz. Coloca a vida de pernas para o ar. Uma pessoa deprimida não consegue tirar prazer de nada, não consegue tomar uma decisão, sente-se completamente desesperada, perdeu a fé nos outros seres humanos e em Deus.
Uma mulher que sofre de depressão coloca a questão nestes termos: «Sinto sempre um cansaço físico grande, uma sensação de impotência, de ter o peso do Mundo em cima de mim e a necessidade de esconder o que se passa, porque todos ficam desiludidos e não podem ajudar. Sinto culpa por não ser capaz de fazer o que tenho a fazer e pensar que sou responsável por isso, tendo vergonha de ser diferente. Perdi o interesse pelas coisas que antes me davam prazer e faziam sentido na minha vida, e tenho dificuldade em fazer as coisas comuns do dia-a-dia», conta Hermínia Sá.
Isto transforma a doença num risco de vida. Em Portugal, e segundo informações divulgadas pela Sociedade Portuguesa de Suicidologia (SPS), estima-se que ocorram cerca de 600 casos de suicídios por ano, 50% dos quais são motivados por depressão. No entanto, sabe-se que quase todos os deprimidos consideram a hipótese do suicídio em alguma fase da doença. «O deprimido não vê o suicídio como uma forma de acabar com a vida, mas sim como uma forma de começar a viver. As pessoas deprimidas que se querem suicidar não querem morrer. Acham é que a vida é tão insuportável que querem, de alguma forma, aliviarem-se daquele sacrifício e ver se conseguem, finalmente, acalmar», explica Rui Carreteiro.

A ciência está a trabalhar na procura da identificação da causa da depressão. «Nesta doença o que acontece é a alteração dos mediadores químicos cerebrais. O balanço entre eles está errado e, como tal, as pessoas sentem-se mais ou menos tristes», explica Carlos Vara Luiz, neurocirurgião do Hospital de S. José. «Nós temos morfina endógena e há zonas do nosso cérebro em que os neurónios segregam substâncias idênticas à morfina. Se sou feliz é porque tenho um volume muito elevado de morfina cerebral. Quando estou feliz porque tive um filho, passei num teste difícil ou saiu-me a lotaria, libertaram-se muitas endorfinas que me dão gozo e prazer. Quando esses níveis de endorfinas baixam, entramos em depressão.»
Quando as pessoas estão sob stress, os níveis de cortisol são elevados e provocam um aumento da pressão sanguínea e do ritmo cardíaco. Num curto espaço de tempo, a pessoa fica pronta a fugir ou a lutar. Passado o perigo, os níveis de cortisol voltam ao normal. Os deprimidos reagem de forma diferente: eles permanecem em estado de alarme até muito depois de o perigo ter desaparecido.
Porque reagem as pessoas deprimidas de uma forma tão descontrolada ao stress? Rui Carreteiro considera que «o stress em si acaba por ser um quadro de depressão. Stress e depressão acabam por estar muito próximos». Para o autor de (Sobre)viver na Depressão, esta situação também se pode relacionar com os primeiros anos de vida do indivíduo deprimido. «Geralmente, existem acontecimentos na infância a que a pessoa não atribui o devido valor, ou seja, que ultrapassou mais ou menos. Só que, mais tarde, vão surgir outros acontecimentos que vão reflectir-se nos actos passados e é aí, pela sua magnitude maior, que as coisas acabam por eclodir.»
Existe algum tipo de prevenção contra a depressão quando causada por stress? Rui Carreteiro considera que a medicação, às vezes, é importante, mas não como resolução. «A medicação vai atacar os sintomas, e não a causa. Os fármacos, por vezes, são mais um meio que um fim, até porque ninguém está disposto a tomar medicação indefinidamente. Por isso, a melhor forma é tentar viver a vida com uma certa calma, no sentido de não reagir exageradamente quer aos aspectos negativos, quer aos positivos. No fundo, é conseguir ter uma certa moderação perante aquilo que nos vai acontecendo.»

As pessoas deprimidas também podem, para fortalecer a sua resistência, fazer algo por elas próprias. As três regras que se seguem ajudam a formar um escudo protector contra a depressão:
1 – Pensamento positivo;
2 – Relaxamento regular;
3 – Grupos de apoio social.

Pensar positivamente

As pessoas com tendência para a depressão devem examinar o seu próprio processo de pensamento e perguntarem-se a si mesmas: «Como é que eu reajo aos acontecimentos negativos, ao comportamento das outras pessoas? Tenho tendência para ter conversas negativas comigo mesmo, levo tudo muito a peito, generalizo os erros?» Se pensa de uma forma pessimista acerca de si próprio e das suas capacidades, pode estar a entrar numa depressão.
Ninguém nasce pessimista. Aprende-se um modo negativo de pensar que pode ser desaprendido. Muitos investigadores têm-no demonstrado em numerosos estudos. Uma forma é o «método ABC» desenvolvido pelo psicólogo americano Albert Ellis. O A significa o acontecimento desencadeador, o B, o acontecimento em si, e o C, a consequência.
Exemplo: O chefe, que normalmente pára para trocar algumas palavras consigo, passa por si no corredor e dirige-lhe apenas um breve aceno (acontecimento desencadeador).
Você pensa: O que é que ele tem contra mim? Fiz alguma coisa de errado? (acerca do acontecimento). Consequência: Você cisma, a sua autoconfiança afunda-se, sente-se inseguro. Prende-se a uma corrente pessimista de pensamentos. Encara o facto de o chefe não lhe ter feito um cumprimento habitual como algo pessoal. Pensa que a culpa é sua ou que fez algo de errado.
Como cortar a corrente pessimista de pensamentos:
- Seja sensível para com os seus monólogos interiores. Conserve um registo escrito das situações stressantes ou experiências negativas.
- Anote o que pensava e sentia nessas alturas para reconhecer o seu padrão de pensamentos.
- Aprenda a examinar as suas deduções espontâneas. Pergunte a si próprio: «É por culpa minha que o chefe não me cumprimenta? Que outras explicações poderão existir?»
- Sempre que algo corra mal, lembre-se de que é apenas um caso isolado que não deve ser generalizado. «Desta vez, cometi um erro, mas isso não significa que eu seja incompetente». «Hoje, o chefe está em dia não, mas amanhã estará melhor.» Diga a si mesmo que não pode ser responsabilizado por tudo. «Tal não teria acontecido se o meu colega me tivesse apoiado.»
Se aplicar regularmente o «método ABC», verá que muito do que assume como verdadeiro apenas existe na sua imaginação.

Relaxar mais

As pessoas que sofrem de depressão precisam de relaxar e de fazer pausas para recuperarem, mas porque reagem de uma forma mais intensa ao stress que os não-deprimidos, raramente conseguem encontrar um estado de calma.
Segundo o Prof. Herbert Benson, de Harvard, todos os indivíduos possuem uma capacidade inata para relaxar. Eis os truques:
- Escolha uma palavra para se concentrar (por exemplo, «um» ou «ámen»).
- Sente-se sossegado numa posição confortável.
- Feche os olhos.
- Respire devagar e naturalmente. Cada vez que expirar repita a palavra em que se concentrou.
- Se se distrair dos seus pensamentos, concentre-se novamente. Faça este exercício durante 10 a 15 minutos, uma ou, de preferência, duas vezes por dia.

Este método de relaxamento assegura uma série de benefícios psicológicos, garante o seu autor. Pode ajudar na resolução de problemas físicos causados pelo stress e aliviar casos de depressão suaves ou moderados. O efeito do relaxamento é interromper a «onda de pensamentos diários: o que teria acontecido se … não teria sido melhor eu … não deveria …», explica o Prof. Benson.

Terapia de grupo

Quem frequentemente não consegue confiar em alguém começa a ficar doente mental e psicologicamente. Os deprimidos tendem a ver tudo muito negativo à sua volta. Tentam manter a aparência de que «está tudo bem». Mas acabam por pagar um preço muito alto por esta atitude.
É por isso que os especialistas em depressão aconselham vivamente: «Falar!» Falar com alguém em quem se acredite, que perceba as nossas preocupações e que seja capaz de lidar com elas.
Se não conhece ninguém com estas características, deve confiar num psicoterapeuta à sua escolha. Os grupos de terapia também são uma boa escolha. «O mais importante é saber ouvir. Mas às pessoas deprimidas, ninguém as ouve. Se houver quem as ouça, por vezes as coisas não avançam tanto», defende Vara Luíz.
«A grande vantagem que a terapia de grupo traz é que a pessoa vê em seu redor e apercebe-se que, afinal, não está só no seu problema. Não é só ela que sofre daquele mal», alerta Rui Carreteiro, que, ainda, assim, continua a privilegiar a terapia individual.
Em Portugal, não estão oficialmente quantificados os grupos de auto-ajuda, mas a Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares promove alguns destes grupos. Delfim Oliveira, de 57 anos, frequentou um destes grupos durante um ano e é actualmente o presidente da direcção nacional da instituição. «É uma das formas para combater a doença. Os grupos de auto-ajuda são importantes porque são formados por pessoas que sofrem da mesma patologia com grande espírito de entreajuda, tolerância, solidariedade, e isso dá-nos auto-confiança, auto-estima e estabilidade emocional. Há uma maior consciencialização da doença,combatendo a solidão e permitindo uma reaprendizagem das competências sociais.»

Teste: Sofre de depressão?

- Sente-se quase de forma permanente triste, rejeitado, sem esperança?
- Perdeu o interesse em quase tudo? Já não sente prazer em nada, mesmo nas coisas que antes lhe agradavam?
- Não tem apetite e sofreu uma perda significativa de peso? A comida já não lhe sabe tão bem como antigamente?
- Sofre, quase diariamente, de insónia?
- O seu desejo sexual diminuiu ou aumentou?
- O seu discurso e movimentos estão mais lentos?

Este questionário foi desenvolvido pelo Instituto Psiquiátrico Max Planck, em Munique. Se respondeu «sim» a mais de quatro perguntas, pode sofrer de depressão. Neste caso, deve procurar um médico ou um terapeuta treinado.

Um «porto de abrigo» no País

Associação presta auxílio a doentes

Os doentes de depressão em Portugal, para além das unidades hospitalares competentes, profissionais e técnicos de saúde, podem encontrar um bom «porto de abrigo» na Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares (ADEB). Foi fundada em 5 de Junho de 1991 por um grupo de doentes, médicos e técnicos de saúde mental, inspirados no trabalho desenvolvido pela National Depressive and Maniac Depressive Association, nos Estados Unidos da América. Até ao ano de 2003, a instituição teve uma outra designação e sigla: Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Maníaco-Depressivos (ADMD).
A ADEB está registada na Direcção-Geral de Acção Social como instituição particular de solidariedade social com fins de saúde e utilidade pública. Presentemente, a associação conta com mais de 2300 associados a nível nacional, apesar de dar apoio a um número muito maior de doentes que procuram a instituição para se informar sobre a doença unipolar ou bipolar ou para procurar ajuda no campo da reabilitação psicossocial, que compreende o Apoio telefónico - S.O.S ADEB, as sessões de apoio psicossocial, os grupos de auto-ajuda e as sessões psicopedagógicas.
Os associados da ADEB preenchem uma faixa etária bastante abrangente, sendo que a mais frequente situa-se entre os 45 e os 55 anos. Destes, as mulheres são em maior número, algo que encontra explicação em factores de índole cultural e social que permitem ao sexo feminino recorrer mais ao pedido de ajuda.
A Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares tem a sua sede nacional na Av. Dr. Alfredo Bensaúde, lotes C2 e C3, Loja A,1800-174 Lisboa, com o telefone 21 854 07 40/8 e conta com duas delegações, uma no Norte (Rua Júlio Dinis, 748, 5.º, 4050-321 Porto, com o telefone 22 606 64 14) e outra na Região Centro (Rua Central, 82, Mesura – Santa Clara, 3040-197 Coimbra, com o telefone 239 81 25 74).

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3 of 6 Comentários

Filho on 09 February 2012 ,13:40

A medicina é uma ferramenta importante nessa questão, mas definitivamente se o ser humano nao considera DEUS em sua vida dificilmente suportará grandes tempestades ok.

Carlos Alberto on 09 August 2011 ,21:58

boa noite, gostei mto deste artigo. sou uma pessoa sózinha 42 anos, tenho dificuldade em arranjar amigos, contudo penso que não estou deprimido. gostaria que me ajudassem. meu tlm- 965769315- Montemor-o-Velho.

neifi on 17 July 2011 ,18:43

Bastante esclarecedor este artigo,principalmente quando menciona o comportamento do chefe.Acho que ele está depresso.Como sou discreta,não pergunto,mas,gostaria de ajudá-lo.Quase caí na onda,mas,prefiro cuidar de plantas e flores.Amo demais as belas coisas da vida...Quero viver!!!!

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