Como controlar as birras
Maria, de 4 anos, do Porto, fazia birras por tudo e por nada. Arremessava com objectos para o ar, atirava-se para o chão e desatava a chorar aos berros. De tão exasperada que ficava, Rita, a mãe, acabava por bater na filha. Mas depois arrependia-se e dava-lhe um presente.
A birra é uma forma de expressão, pressão e manipulação de todos os seres humanos — em particular, das crianças. «A birra não é só uma forma de chantagem que as crianças usam para imporem as suas ideias e conseguirem o que querem, resulta também de uma má gestão do mal-estar», diz o pediatra Octávio Cunha, do Hospital Geral de Santo António, no Porto. Também Mário Cordeiro, pediatra de Lisboa, considera que «as crianças sentem dor na alma porque não alcançam os seus objectivos, e essa dor gera uma forma defensiva de reagir».
Quando, a partir dos seis meses de vida, o bebé começa a descobrir o mundo, quer explorá-lo sozinho e acha que tem direito a tudo. Mas para uma criança crescer de forma equilibrada, precisa de saber que há limites e que não pode ter tudo o que quer. «É durante os primeiros seis anos de vida que a criança aprende as regras sociais, comportamentais e o respeito pelas outras pessoas», diz Mário Cordeiro. «Se a deixam ser birrosa, chantagista, manipuladora e falsa, depois terá grande dificuldade em controlar-se na escola, no emprego e nas suas relações interpessoais futuras. Uma criança a quem fazem todas as vontades torna-se cada vez mais exigente, chegando a ser violenta.»
Todas as crianças fazem birras. Porém, quando se tornam constantes, os pais ficam sem saber o que fazer. Mas há formas de os pais as controlarem.
Dar mais atenção
Hoje em dia os pais trabalham cada vez mais, o que faz que tenham cada vez menos tempo para estar com os filhos. No entanto, as crianças necessitam de passar regularmente algum tempo com eles. Conversar com os filhos sobre os seus problemas, ajudá-los nos trabalhos de casa, ver filmes e passear com eles são atitudes essenciais para que eles não sintam necessidade de comportar-se mal só para se fazerem notados. À beira do desespero, Rita decidiu levar a filha à consulta de Octávio Cunha. Depois de conversarem, o pediatra chegou à conclusão de que a criança estava a receber uma forma de mau trato frequente na sociedade de hoje: a solidão. Como os pais da Maria eram muito ocupados, estavam pouco com a filha, e a única maneira que ela encontrou para lhes dizer, «Estou aqui», foi através das birras.
«O que a Maria necessita é de mais atenção», aconselhou Octávio Cunha. «A sua filha, como todas as crianças, precisa de sentir-se querida e desejada», disse-lhe então o pediatra. «Se não lhe ligar, sente-se abandonada e arranja qualquer forma para chamar a sua atenção.»
Rita começou a dar mais atenção à filha, e o comportamento de Maria melhorou substancialmente.
Explicar a razão da recusa
Se as regras de comportamento são bem explicadas às crianças, mais facilmente aprendem a ser disciplinadas. Por isso, é fundamental que haja diálogo entre os pais e os filhos, de modo a que uns e outros ouçam e discutam os seus pontos de vista.
Ricardo, de 4 anos, de Odemira, sempre que saía com os pais, e estes se recusavam a comprar-lhe o que ele pedia, fazia birras e atirava-se para o chão a chorar. Várias vezes, os pais ficaram de tal modo envergonhados com o comportamento do filho, que saíram do restaurante onde estavam com amigos e foram-se embora. A caminho de casa ralhavam com ele, e chegavam a dar-lhe uma bofetada. Mas não servia de nada.
Os pais de Ricardo falaram sobre o problema com Mário Cordeiro. «Se acham que não devem comprar uma coisa que o vosso filho pediu, dêem-lhe uma explicação para a vossa recusa, que ele a aceitará mais facilmente», aconselhou-os o pediatra. «A solução não é saírem dos sítios onde se encontram, senão essa atitude representa uma vitória para o Ricardo, que pensa que, se não conseguiu o objectivo, pelo menos conseguiu aborrecer os pais. E não batam no vosso filho, porque bater na cara é humilhante e maltratante.»
Os pais do Ricardo começaram a seguir os conselhos do pediatra e as birras do Ricardo diminuíram.
Sintonia na educação
As birras das crianças muitas vezes não só desgastam as famílias de uma forma tremenda como criam conflitos entre o pai e a mãe. Pais complexados porque não dedicam muito tempo aos filhos, que não estão em sintonia em relação à educação a dar-lhes, avós demasiado protectores, são terrenos propícios para as crianças fazerem pressão para conseguirem o que querem.
O pai de Francisco, de 3 anos, de Matosinhos, para compensar a falta de tempo que lhe dedicava, começou a comprar-lhe animais de plástico. Aos fins-de-semana, quando iam sair, o Francisco insistia em levá-los todos. A mãe ia então ao quarto dele, pegava em meia dúzia e metia-os num saco. Mas o Francisco fazia birra e dizia que só saía se os levasse todos. Gerava-se então um conflito entre os pais: a mãe não deixava que levasse mais nenhum, mas o pai insistia em fazer-lhe a vontade. O miúdo acabava sempre por ganhar e levava uma mala com todos bichos para onde quer que fosse.
A mãe de Francisco, sentindo que estava a perder autoridade e querendo saber qual a melhor forma de agir, falou com Octávio Cunha. «Nestas situações é muito importante que as crianças não se apercebam de que os pais estão em desacordo», disse-lhe o pediatra. «Elas são extremamente inteligentes e vão imediatamente verificar quem é o fraco e o forte, e quem está do lado delas. Aí, vão fazer chantagem afectiva e agravar ainda mais o conflito. Portanto, todas estas questões devem ser decididas pelos pais e mesmo que estejam em desacordo, não o devem manifestar à frente da criança e sim discutir o assunto entre ambos e planearem uma estratégia.»
Os pais do Francisco assim fizeram. Entraram em acordo e explicaram calmamente ao Francisco por que não podia ser assim. A criança compreendeu e deixou de fazer birras.
Evitar o stress
Até os bebés podem fazer birras, por não terem outra forma de exprimir o seu desconforto. Ana, de dois meses, de Santarém, chorava muitas vezes. Os pais davam-lhe leite, mudavam-lhe a fralda punham-lhe a chupeta e nada resultava. Só ao colo é que se calava. «Os pais eram muito ansiosos», diz Mário Cordeiro. «A Ana fora um filho muito esperado, e estavam sempre com medo que lhe acontecesse alguma coisa. O bebé apercebia-se do estado dos pais, até na maneira como lhe falavam e pegavam. Por outro lado, quando um bebé nasce, recebe uma sobrecarga de estímulos — excesso de luz, informação e barulho — a que não estava habituado enquanto estava na barriga da mãe. Tudo isso causa uma tensão acumulada, que pode chegar a gerar cólicas. Era o que a Ana tinha. No fundo, era uma situação de mal-estar que levava a Ana a chorar assim.».
Mário Cordeiro aconselhou os pais de Ana a agirem com serenidade, e a transmitirem carinho e afecto ao bebé. «O bebé percebe o tom de voz, a entoação e a melodia com que lhe falam. Percebe o toque, se é um toque eléctrico e tenso ou normal e afectuoso», explicou-lhes. «Se o bebé estiver a chorar com fome e lhe disserem ‘Ai, que maçada, pronto, já vou, calma!’, piora as coisas. Mas se agirem sem exaltações e lhe disserem com carinho ‘Pronto só mais um bocadinho, sei que estás com fome’, ele acalma-se.» Assim foi. Os pais mudaram de atitude e Ana foi-se acalmando gradualmente.
Conversar com os filhos Existem casos de birras que se devem ao facto de os pais terem uma atitude de certa forma prepotente e não conversarem com os filhos abertamente sobre os seus problemas. Carlos, de 9 anos, mora em Lisboa. Fazia birras terríveis porque não queria ir à natação, mas os pais achavam que ele devia fazer desporto e que a natação era o ideal, porque além do exercício, permitia-lhe conviver com outras crianças. Carlos arranjava então toda a espécie de desculpas para não ir. «Chegava ao ponto de vomitar antes de ir para a natação», conta Mário Cordeiro. «Uma vez até ficou com febre, e estou convencido de que foi causada pelo stress.» Tudo começou porque viu na televisão o filme Titanic, e tinha um medo terrível de se afogar como os malogrados passageiros do navio. A verdade é que os pais nunca se tinham dado ao trabalho de falar com o filho, para tentarem saber a razão de ele não querer ir para a natação, e explicar-lhe com calma que não haveria perigo porque era uma piscina vigiada e estariam lá outras crianças. Deviam inclusive ter-lhe perguntado que tipo de desporto é que ele gostaria de praticar. «Quando falei com o Carlos e ele me explicou os seus receios, só isso serviu para que se sentisse aliviado», conta Mário Cordeiro. «O que o assustava realmente era a morte e ele tentava fugir a isso de todas as maneiras.» Depois de uma conversa com o Carlos, ele acabou por ir para a natação sem qualquer problema. Que mais podem os pais fazer? «Não é possível evitar as birras», diz Teresa Ferreira, pedopsiquiatra no Hospital Dona Estefânia. «Há um período em que a criança não tem capacidade de exprimir verbalmente as suas frustrações, e reage desta forma porque está tensa ou aflita. A única forma de os pais atenuarem a situação é falando com ela, explicando-lhe por que não pode ter esse tipo de atitude.» Mário Cordeiro exemplifica: «Pode-se explicar educadamente ao filho, ‘Olha, agora é melhor não comeres o chocolate porque vais almoçar daqui a pouco e ficas sem fome’, ao invés de dizer, ‘Não, não te compro chocolate nenhum, que estupidez!’. Ou se a criança está a fazer uma birra porque, às oito da noite, lhe apetece ir ao jardim zoológico, em vez de dizer-lhe, ‘Deves estar mas é parvo, lá estás tu com ideias idiotas!’, o que seria injusto, melhor seria explicar-lhe, ‘Era uma óptima ideia, mas sabes, não podemos ir porque os bichos já estão todos a dormir. Vamos combinar para outro dia, de acordo?’. A criança fica bem, sente que não é uma parva cada vez que abre a boca, evita a birra, e até sente que teve uma boa ideia.» Segundo Mário Cordeiro, é preciso que os pais se mantenham calmos quando sentem que o filho os está a provocar. «Quando a criança se atirar para o chão e começar a chorar e a espernear de forma teatral, ignorem-na ou afastem-se e fiquem noutro quarto até ela se acalmar», recomenda. «Numa segunda fase, reduzam a birra à sua expressão mais simples, ou seja, quando se deitar no chão, devem dizer-lhe, ‘Olha, tem cuidado senão ainda te piso’, ou então, ‘Cantas muito bem, sim, senhor’. Podem até rir-se da situação. Não quer dizer que haja humilhação, o que é preciso é ridicularizar a situação ao máximo, de forma a que ela perceba que está a ser pateta.» Deve-se ralhar? Uma repreensão verbal, dizendo ao filho que se está muito zangado e aborrecido com o seu mau comportamento, pode surtir efeito. Mas não grite com ele, para não lhe servir de modelo. Não o trate com dureza nem o humilhe para não lhe criar um sentimento de culpa ou de inferioridade. Deve-se castigar? Por norma, a criança deve ser castigada de acordo com a idade e o grau de maldade do que fez. Quando faz uma birra, pode-se, por exemplo, obrigá-la a ficar sentada numa cadeira por um breve espaço de tempo até parar de chorar e se acalmar. Poderá também retirar-lhe certos privilégios. Não a deixe ver televisão nesse dia, por exemplo, ou não a deixe brincar com os brinquedos preferidos. «Repreender ou castigar uma criança torna-se mais eficaz quando ela acaba de portar-se mal», diz Octávio Cunha. «Isto porque, passado meia hora, já se esqueceu do que fez.» Deve-se bater na criança? Esta prática é desaconselhada. «Às vezes é necessário uma leve palmadinha no rabo para acalmar a criança e mostrar-lhe que não deve fazer uma coisa», diz Octávio Cunha. «Mas as crianças são muito sensíveis à injustiça, e quando são constantemente mal tratadas podem tornar-se potenciais pais violentos. Depois de castigada e acalmada, deve-se sempre explicar à criança a causa do castigo.» Uma boa solução para evitar as birras passa pela negociação de um acordo, desde que os pais mantenham o controle da situação. «As crianças fazem birras intermináveis de noite porque querem monopolizar a companhia dos pais, e estes acabam por ceder para não as ouvirem mais e porque não deixam dormir ninguém, chegando a metê-las na cama deles», diz Teresa Ferreira. «Mas essa cedência sai-lhes muito cara porque a criança vai usar todas as noites o mesmo truque e ficar com a noção de que é ela que controla os pais e não o contrário. Podem, em vez disso, contar-lhe uma história, e depois dizer-lhe ‘Agora vais domir, eu vou trabalhar um bocadinho e depois também vou deitar-me’. A mãe dá-lhe uma explicação e faz-lhe passar a mensagem de que os pais estão ali e nada lhe vai acontecer, o que a irá reconfortar.» Obrigar uma criança a cumprimentar as pessoas só pode piorar as coisas. «Os pais devem apenas sugerir, por exemplo, ‘A avó gostava que lhe fosses dar um beijinho’, e deixá-la decidir» acrescenta esta pedopsiquiatra. «Se a criança não for, deverão dizer-lhe, ‘Vês, a avó ficou triste porque não lhe deste um beijinho’. É um pouco diferente do ‘Vai já dar um beijinho à avó’. Deve ser a criança a decidir, até porque é importante para que ela se sinta apreciada. Quando não quer emprestar um brinquedo, também é preferível dizer, ‘Pois é, não emprestaste o teu brinquedo ao mano e quando quiseres brincar com o dele ele também não te vai emprestar’. É ensinar-lhe a reciprocidade do dar e receber.» Criar disciplina é o elemento chave para evitar birras. «Há duas coisas fundamentais em que se deve ser rigoroso: a hora das refeições e a de ir para a cama», diz Octávio Cunha. «Se a criança anda a comer a todas as horas acaba por não ter fome quando chega a hora da refeição. E é conveniente que se deite sempre a horas certas. Se não dorme o suficiente, no dia seguinte não se sente bem, e além de não ter rendimento na escola torna-se mais embirrenta.» E acrescenta: É importante que os pais não se demitam da sua autoridade e da sua vocação e obrigação de educar os filhos. Só lhes explicando claramente que há regras e limites e que não podem ter tudo o que querem, é que vão conseguir ajudá-los a lidar com as frustrações, a serem equilibrados — e a não precisarem de fazer birras para se fazerem notados. «A criança deve entender desde pequenina o significado da palavra ‘não’, porque também ela vai ter de utilizá-la durante toda a sua vida para as coisas de que não gosta», diz Octávio Cunha.
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1 Comentários |
| Paula Luxo on 18 Março 2010 ,12:41 Adorei este artigo. Ensinou-me várias coisas.Tenho dois filhos de 9 e de 2 anos e meio . O de 9 está constantemente a implicar com o irmão e nunca quer fazer os trabalhos de casa sozinho. O Duarte de 2 anos todos os dias conto-lhe uma historia antes de dormir,mas além disso tenho de ficar com ele no quarto até ele adormecer. A meio da noite levanta-se sozinho e vai para o quarto dos pais para tentar dormir conosco. (gosta muito de sentir a nossa pele, faz vestinhas na minha cara e mexe na orelha do pai). Eu volto a levar para o quarto dele mas mais uma vez tenho de ficar com ele até ele adormecer.Quando se sente novamente sozinho volta a fazer o mesmo e aí eu acabo por quebrar e deixo ficar na nossa cama porque entretanto só já falta 1 hora para me levantar. Isto passa-se noite após noite. É claro que chego ao final da semana e ando muito cansada pois não durmo o suficiente. Acho que sente necessidade de alguma coisa e não sei como devo mudar este comportamento. |
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