... e depois de nos termos apercebido de como Castelo Rodrigo se desenvolve urbanisticamente pelo monte que ocupou, iniciemos o passeio pela antiga vila, que teve o seu primeiro foral em 1209, concedido por um rei leonês, Afonso IX, e que só em 1297, com o Tratado de Alcanizes, passou para a coroa portuguesa. É uma terra que pertenceu ao lendário João das Regras.

Entramos na vila pela Porta do Sol, que nos conduz, pela Rua da Praça e a Rua do Relógio, até à alcáçova, onde se encontram, num clima caracteristicamente romântico, as ruínas do Palácio de D. Cristóvão de Moura. A cisterna e vários níveis de divisões, onde se vêem vestígios dos primitivos pavimentos, permitem-nos imaginar o que seria a grandeza daquele palácio. Virada a norte, no lado oposto da povoação, encontra-se, como é norma de todas as portas da traição, a Porta da Traição, que podemos franquear, e dirigimo-nos a uma pequena plataforma que conduz a galerias subterrâneas, que, segundo a lenda, levam ao Convento de Santa Maria de Aguiar, que se vê no vale.

Vamos descer pela Rua do Pelourinho, que encontramos junto à cabeceira da igreja. O pelourinho é uma interessante peça, manuelina, de granito, rematada por uma pinha em gaiola.

A igreja, com invocação e orago de Nossa Senhora do Reclamador, ou Rocamador (que representa a antiga associação assistencial criada pelos Hospitalários para apoio aos peregrinos de Santiago), é um templo merecedor de uma demorada visita.

Esta igreja românica, de que ainda subsiste a cachorrada no lado norte, tem um interior profundamente marcado pelas capelas e altares de granito, em que é possível verificar a sobrevivência da primitiva policromia. De entre as ricas imagens que são o orgulho da vila, permitimo-nos salientar uma imagem medieval de S. Sebastião e a sempre alegre imagem de Santiago (ou S. Jorge?) a cavalo. É uma escultura do século XVII.

Descemos pela Rua da Misericórdia e, no antigo edifício da Misericórdia, a direita de quem desce, vemos uma rara janela que, na espessura da parede, apresenta uma abóbada com nervuras cruzadas.

Chegamos a Rua da Cadeia, onde, no gaveta com a Rua do Poço, encontramos a notável cisterna com um arco árabe em ferradura e outro gótico. Com 13m de profundidade, é um dos espaços privilegiados para as muitas lendas que aqui têm o seu cenário.

A Rua da Cadeia, que começa na Porta de Alverca, junto à cisterna, é, talvez, a mais "monumental" pelas suas janelas e, entre os n.º 32 e 36, com uma inscrição gótica.

A Rua da Sinagoga lembra-nos que, também aqui, os judeus tinham uma comunidade organizada.  Acabamos com um passeio pelas muralhas, que, com os seus cubelos redondos, nos fazem lembrar Ávila.

Se quisermos saber mais sobre aquilo que foi a vivência medieval destes espaços, podemos ler o precioso estudo que o Prof. Lindley Cintra publicou sobre a carta de foros e costumes de Castelo Rodrigo.

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