Quem vê o mapa de Portugal, dificilmente se apercebe de que possa haver um Algarve Interior. Os geógrafos dividem esta região em três faixas quase paralelas (a orla, o barrocal e a serra), e os Algarvios sabem bem distinguir estes três espaços. Ainda hoje se encontram na serra homens e mulheres que nunca viram o mar! O itinerário que hoje propomos vai da orla à serra, atravessando o barrocal. Três Algarves distintos nos esperam.

Estói – S. Brás de Alportel

Partimos de Faro pela Nacional 2, rumo ao norte, ou saímos da Via do Infante nas proximidades de Estói. Estamos numa região plana e bem fértil, apertada entre as primeiras colinas e o mar. A zona urbana, crescendo, vai estreitando esta zona, mas ainda se encontram bons pomares e hortas abundantes. A serra, por trás, protege tudo isto dos ventos do norte e permite um clima quase subtropical.

Estói é uma pequena aldeia no início do barrocal. Antes de entrarmos, encontramos à direita a indicação "Ruínas de Milreu". É talvez o mais importante vestígio romano de todo o Algarve. Julga-se que seria uma estância de lazer para os habitantes da vizinha Ossónoba, a antecessora de Faro, a importante cidade de que guardamos tantos registos. O que nos é mostrado revela umas termas e um templo. Mas muito mais haverá debaixo das figueiras e das amendoeiras que enchem o local.

A aldeia é logo a seguir. Chama a atenção a grande igreja, no alto de larga escadaria. O interior não é muito interessante, para além de um ou outro pormenor. Por uma pequena rua à esquerda chegamos ao Palácio dos Viscondes de Estói, que refizeram e acrescentaram o grande edifício, comprado nos fins do século XVIII a uns condes arruinados. Os recentes trabalhos de restauro devolveram-lhe a magnificência de outrora que os anos tinham apagado. Hoje, passear pelos jardins, regalar-se com os azulejos e admirar as belas proporções dos diferentes corpos é um convite que não se pode recusar.

Se retomar a Nacional 2, chegará a S. Brás em 10 minutos. Mas é uma pena o visitante estar aqui e não subir ao cerro de S. Miguel, ponto mais alto da serra de Monte Figo, miradouro ímpar sobre todo o Sotavento. Pode ir-se pela estrada que, para norte, passa por Azinhal e Amendoeira ou por Moncarapacho. Esta segunda hipótese, mais longa, justifica-se pela oportunidade de se ver o portal da igreja matriz, obra-prima do Renascimento, talvez o melhor exemplar algarvio.

Daqui, sobe-se ao cerro por um desvio da estrada que leva a S. Brás. A subida é suave, e os horizontes vão-se alargando, permitindo um panorama com diversos graus de aproximação. Chegados ao cimo, junto às antenas da televisão, os olhos estendem-se da Quarteira a Tavira, com toda a ria Formosa diante de nós.

A caminho de S. Brás, atravessaremos os belos e variados campos do barrocal, cheios de amendoeiras e alfarrobeiras, recortados de muros de pedra, com um ou outro vale onde a água permite uma agricultura mais intensa.

A estrada que liga Loulé a Tavira, a Nacional 270, é um dos eixos de S. Brás que deveu o seu crescimento à cortiça, abundante nos cerros que se desdobram para norte. O outro eixo é a Nacional 2. Terra de cruzamento, S. Brás cresceu harmoniosamente, e disso são testemunho as belas casas do início do século, hoje entremeadas de grandes blocos ao sabor dos novos gostos. O adro da igreja é um excelente miradouro virado a sul sobre o vale que desce até junto dos cerros de Monte Figo. É perto da igreja que se encontram os edifícios mais antigos, como a residência de Verão dos bispos do Algarve, mais tarde transformada em escola primária.

Esta última parte do percurso, provavelmente a mais interessante, é toda ela através da serra. A proposta que fazemos depende do tipo de veículo de que disponha. Um percurso possível vai a Alportel (pela Nacional 2) e daí, pela estrada municipal que passa pela Cova da Muda e por Javali, alcança a Nacional 124 na Feiteira. O segundo, se dispuser de um carro mais sólido, passa por Mealhas (perto da Nacional 270, como quem vai para Tavira) e ruma a norte por caminhos de piso irregular através da serra, juntando-se ao primeiro percurso em Cabanas.

A diferença entre um e outro não é grande. Nos dois casos, a mesma paisagem de serra. Na segunda hipótese, contudo, ao prazer do olhar soma-se o do inesperado, o da aventura que espreita, do rebanho desprevenido, do ribeiro a que se pode descer ou do cerro, ali mesmo ao lado, que nos convida a deixar tudo e a exercitarmos a nossa habilidade e o nosso equilíbrio.

Mas voltemos a S. Brás. Seja qual for o percurso que escolhamos para atravessar a serra, não nos esqueçamos de dizer adeus aos campos de Alportel, um dos mais férteis e aprazíveis jardins do Algarve, o Chenchir dos Árabes, cruzamento de ribeiras em pleno barrocal, terra de limoeiros e ameixeiras, canteiro de flores, espaço de convivência de legumes euro¬peus com bananeiras ou abacateiros.

A entrada na serra não deixará de nos espantar. Numa mudança rápida, deixamos a flora algarvia e entramos em campos de sobreiros, como se o Alentejo viesse ao nosso encontro.

As estradas mais interiores oferecem-nos panoramas inesquecíveis, porque, de repente, numa curva, os nossos olhos alcançam o mar, que já julgávamos tão longe, e, logo a seguir, mergulham num vale fundo e denso onde vestígios de uma ribeira permitem um campo de milho ou um renque de laranjeiras. Aqui e além, também de forma inesperada, surgem os pinhais e eucaliptais de origem duvidosa. E, nos campos mais planos, chapadas de cereais que vão sugando as entranhas da serra.

As aldeias, Javali, Parises, Cabanas, Lajes, são pouco mais do que memórias que no Inverno se esvaziam. Mas, salpicando a serra, há casas de gente acolhedora que cria ove¬lhas e cabras entre tojos e sargaços.

Todos estes caminhos, rumo ao Norte, levar-nos-ão necessariamente à estrada que vem do Cachopo. É um caminho de encosta, bem arborizado e generoso de amplas vistas. Tão amplas que, chegando a Montes Novos, vale a pena deixar o carro e partir à descoberta por uma das veredas que saem da aldeia. Os panoramas são lindíssimos, e o contacto com uma natureza quase em estado pri¬mitivo revigorará as nossas forças.

Poucos quilómetros além, chegamos a Barranco do Velho. (Estamos outra vez na Nacional 2 no grande entroncamento de onde partem as estradas para Lisboa, Faro, Loulé, Messines e Alcoutim pela serra). Aldeia empoleirada à volta da sua pequena igreja, o convite que faz é que subamos até onde pudermos. E quanto mais alto for, mais ampla será a panorâmica, mais numerosas serão as curvas em que a serra se recorta, mais convencidos ficamos de que é, afinal, domesticável a terra rude que acabámos de atravessar.

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