Cabular é comum para 90% dos estudantes

Na altura em que a avaliação dos estudantes ainda dependia das notas dos exames finais, Maria Ângelo, docente do Ensino Superior em Santarém, apanhou uma aluna a copiar. «Entrego sempre aos meus alunos a folha da prova e duas de rascunho devidamente rubricadas e datadas. Passados cinco minutos após o início do exame, reparei por acaso que uma rapariga, sentada no fundo da sala, só tinha uma folha de rascunho sobre a mesa, que estava totalmente escrita, e achei estranho. Fiquei atenta. A Clara parece ter percebido e ficou nervosa. Pouco depois, pediu-me para fumar um cigarro. Eu não os deixo ir à casa de banho, mas deixo-os fumar à entrada da sala com a porta aberta porque os consigo ver.» Enquanto Clara fumava, Maria atravessou a sala e verificou que a folha de rascunho da aluna não estava rubricada nem datada. «Não disse nada mas os outros alunos devem tê-la avisado, porque antes de terminar a prova, Clara pediu-me outra folha de exame. Mais tarde quando já estava a corrigir a prova verifiquei, para minha surpresa, que essa última folha era uma confissão por escrito a dizer-me que tinha razão para desconfiar dela, pois tinha realmente tentado copiar, só que de nada lhe tinha servido», conclui esta professora de Técnicas Audiovisuais.
À colega Eugénia Pereira, também docente do Ensino Superior em Santarém, aconteceu um caso mais dramático. «Apanhei as cábulas escritas da Natália em cima da secretária, ao lado da frequência. Não tive outra alternativa senão dizer-lhe que lamentava, mas a prova dela estava acabada. Isso significava anular o teste e pedir-lhe para sair, o que ela acabou por fazer», conta esta docente de 38 anos. «Pouco depois, já na porta da sala, fico perplexa quando ela se ajoelha aos meus pés e suplica-me, a chorar, que a deixe continuar!». Eugénia recusou o pedido e fechou a porta da sala. «Foi uma situação muito desagradável, mais grave ainda porque devido a ter sido apanhada a copiar, a Natália foi obrigada a ir a exame, desperdiçando todo o trabalho anterior que teve com a disciplina – já era a 2ª prova do 2º semestre e nas anteriores ela tinha sido avaliada favoravelmente.»
Embora as professoras considerem estes casos como actos isolados, os dados estatísticos sugerem infelizmente que o copianço é uma prática comum nas escolas secundárias e universidades portuguesas.
Segundo as investigações de Ivo Domingues, professor auxiliar do Núcleo de Estudos em Sociologia, na Universidade do Minho e autor de um artigo intitulado «Atitudes face ao copianço na universidade», são os próprios docentes a considerar que «copiar é uma fraude continuada, não um acto pontual, e está inscrito nas estruturas sociais da acção académica». Ao inquirir uma turma do 1º ano descobriu ainda que a grande maioria dos alunos já copiava no ensino secundário. «95% confessou já ter copiado anteriormente, enquanto apenas 5% revelou ter iniciado a prática na universidade. Esta transferência só acontece porque aqui se mantêm motivações que a tornam desejada e condições sócio-organizacionais que a tornam possível.»
Outra pesquisa, esta feita a nível nacional no universo de alunos de Gestão e Economia, por Fátima Rocha e Aurora Teixeira – investigadoras da Faculdade de Economia da Universidade do Porto –, revelou que mais de 60% dos estudantes do ensino superior copiam nos exames. É entre os alunos com médias entre os 10 e 12 valores que a tendência para cabular é maior (64,8%). Geograficamente, é no Alentejo que se cometem mais fraudes académicas (75%), enquanto nos Açores metade dos inquiridos diz nunca ter copiado.
Copiar não é de agora. Desde que existem regras que há pessoas a tentar contorná-las. «Outro dado que nos leva a pensar ser o fenómeno superior ao que as estatísticas revelam, é o facto de mais de 90% dos estudantes estarem familiarizados com esta prática», explica Aurora Teixeira, o que confirma o quão generalizado se tornou o copianço. «E são os finalistas que tendem a usar mais cábulas. Penso que existirá nessa altura uma grande pressão para a média, que condiciona a primeira entrada no mercado de trabalho.»
Casimiro Pinto, professor de Matemática em São Miguel, Açores, considera: «Muitos alunos não têm consciência da incorrecção – é grave para a sociedade – acham bem, necessário e que os fins justificam os meios».
Sucesso a todo o custo
Vários especialistas defendem a presença de duas forças que corroem o comportamento ético. Em primeiro lugar surgem os avanços da tecnologia – principalmente a Internet e os aparelhos digitais portáteis – que tornaram o copiar mais fácil. No entanto, o factor mais importante é a forma como certos comportamentos desonestos são socialmente aceites – atletas a tomar esteróides, executivos a falsificar livros de contas, jornalistas a inventar citações e até mesmo professores a falsear resultados de testes para manter altos os níveis de aproveitamento das escolas –, sinais de que nada é demais quando se trata de alcançar o sucesso.
«Os alunos acham que copiar é normal, porque é muito tão frequente. Para eles não é um comportamento reprovável. Quando são apanhados consideram-no um contratempo», afirma a investigadora da Faculdade de Economia do Porto. O mesmo estudo foi alargado a países da Europa do Norte, onde os resultados foram muito diferentes. «Na Finlândia nem quiseram passar o inquérito porque perguntar a um finlandês se copia é um insulto. Quanto aos suecos, já vi os resultados e eles mostram que neste país não se copia e nunca se vê os colegas copiar.».
Numa pesquisa mais recente, de Junho de 2006 das mesmas investigadoras da Universidade do Porto, envolvendo 7213 estudantes de 21 países da América, Europa, África e Oceânia, Aurora Teixeira e Fátima Rocha verificaram que a taxa de copianço dos alunos de Gestão e Economia é bastante elevada (62%) mas heterogénea. Assim, a probabilidade de fraude é significativamente mais baixa nos Países Nórdicos, nos Estados Unidos e nas Ilhas Britânicas quando comparada com os países da Europa do Sul e surpreendentemente ainda mais baixa à verificada nos Países Africanos. Também de acordo com as estatísticas, os alunos que frequentam as universidades da Europa Ocidental e principalmente da Europa de Leste são mais propensos a cometer fraudes. O artigo sugere, por último que a tendência para copiar está intimamente ligada à corrupção que se verifica no mundo real dos negócios.
Chamam-lhe “auxiliar de memória”, “método de estudo” e “coisa normal”. «A maior parte dos alunos reconhecem que, em geral, o copianço é uma prática ilícita face à norma que os professores descoordenadamente defendem, desonesto em relação à função métrica da avaliação e à função formadora da universidade, mas praticam-no porque desejam mais os benefícios que permite – sucesso escolar certificado – do que respeitar a regra que o interdita», defende Ivo Domingues.
Alia Ahmed de Lisboa, estudante de 17 anos no secundário, já usou cábulas. «Tirando os que gostam de dificultar a vida aos outros, os marrões, os cromos, copia-se muito. E é normal. Facilita imenso ter boas notas. Eu não sou muito de copiar porque tenho medo, mas para Física levo sempre fórmulas na máquina gráfica, porque se trata de uma disciplina especialmente difícil. E dá muito jeito.»
«A minha relação com as cábulas é de amor/ódio. Não gosto muito delas nem acho muito bonito, mas também não acho bem, nem gosto do que nos obrigam a estudar nem a forma como o fazem. Para saber o que é uma supernova só preciso de um pouco de química, não de cursos quilométricos. Por isso, usava cábulas quando não me apetecia estudar», conta César Morais de 27 anos, ex-estudante lisboeta. «Fui apanhado duas vezes e numa delas, em Técnicas Laboratoriais de Química do 12º ano, a professora viu-me a consultar tiras de papel. Levantou-se, disse o meu nome, e eu só tive uma hipótese: comer as cábulas. Quando chegou ao pé de mim não encontrou nada.»
Segundo Ana Fernandes, estudante do 11º ano na Escola Secundária da Lourinhã, «há pessoas que escondem os testes para os outros não copiarem e assim conseguirem as melhores notas da turma».
Para a presidente do Conselho Directivo da mesma escola, Élia Morais, «o copianço é uma erva daninha que cresce e acaba por invadir, podendo tornar-se num hábito deplorável. Mas muitos alunos compreendem que a aprendizagem pode ser útil, uma vez que têm outros objectivos: a universidade».
Fraude digital
O papel da tecnologia na arte do copianço é incontornável. Os estudantes convergem para sites que disponibilizam trabalhos “chave na mão” sobre qualquer tema, muitas vezes já com bibliografia e no formato certo. Usam câmaras de telemóveis para fotografar e transmitir os testes. Os seus leitores de MP3 escondem cábulas gravadas. E as calculadoras gráficas armazenam as fórmulas necessárias para solucionar os problemas matemáticos.
«Quando andava no 10º ano uma colega de outra turma usou o telemóvel para tirar uma foto do teste de matemática, e passou-nos, o que deu muito jeito porque tinha um gráfico com uma função e só tivemos que resolvê-la antes do teste», conta Alia Ahmed.
Isabel Vaz, professora de português na Escola Secundária da Lourinhã, já foi confrontada com o plágio via Internet. «No ano passado a minha turma do 10º ano era nova. Pedi um trabalho de uma página sobre um dos livros obrigatórios para a cadeira. Estavam muito bons. Comecei a desconfiar porque apresentavam algumas formas verbais abrasileiradas e pronomes invertidos. Tirei a prova dos nove no teste seguinte: os 19 e 20 valores atribuídos ao trabalho não tiveram continuidade. Conclui que foram à net e limitaram-se a fazer copy e paste para o trabalho.»
Para Fernanda Carmo, professora do ensino Secundário de Lagos, no Algarve, os avanços da tecnologia permitem um aumento do copianço, porque mesmo que os adolescentes não se interessem pelas matérias escolares, sentem uma atracção irresistível pelas últimas tecnologias e tendem a explorá-las imediatamente, utilizando-as para resolver situações imediatas de falta de estudo. «Estão habituados a ter tudo muito facilitado», acrescenta Isabel Vaz.
Depois, há a questão ética e moral. «Ou se encara a situação como um ilícito e se tem um sentido ético e moral apurado, provocando mal estar ao lidar com a situação, ou a questão ética nem se põe e o copianço torna-se uma prática habitual. Tem muito a ver com os valores», defende Fernanda Carmo.
Onde estão os pais?
Os avanços tecnológicos explicam o como mas não o porquê da epidemia.
«No caso da matemática deve-se, sobretudo à falta de estudo atempado, que é fundamental para uma boa assimilação e compreensão dos conceitos, e à ausência de valores», afirma Casimiro Pinto.
O estudo de Fátima Rocha e Aurora Teixeira conclui que existe um ambiente propício à prática do copianço entre os alunos. «Além disso ser apanhado a copiar não acarreta sanções sérias fora da sala de exame e as penalizações não têm um efeito eficiente: o exame é anulado e o aluno chumba, o que aconteceria na mesma, caso não tivesse copiado porque não tinha estudado».
Para Maria Ângelo a culpa, também pode ser atribuída em parte aos professores. «Existe uma atitude de aceitação condicionada porque se admite que a preparação das cábulas é facilitadora da aprendizagem dos conteúdos programáticos», acrescenta Ivo Domingues. «Eles ao fazerem as cábulas acabam por estudar e aprendem melhor as matérias, dizem alguns professores.»
Mas o que também faz muita falta, dizem os educadores, são as vozes dos pais que se esforçam por ajudar os filhos, mas falham completamente quando se trata de definir a importância de seguir as regras. «Deixei de mandar trabalhos para casa porque não posso controlar quem os faz. Muitas vezes são os próprios pais», confessa Isabel Vaz.
Já Élia Morais é peremptória: «Tenho uma filha na universidade, que aprendeu desde muito cedo que é desonesto passar a vida a copiar. Tanto que quando comenta comigo e com o pai sobre um ou outro colega que copia, é visível a repulsa e reprovação ao acto em si.»
«Não falo com o meu pai sobre cábulas e com a minha mãe mostro-lhe, às vezes, a mão com coisas escritas e ela apenas me diz ‘ai, ai, ai!’», conta Ana Fernandes. A colega de turma Bernice Carreira diz que só quando lhe perguntam sobre o assunto fala com os pais sobre copianço. «À minha mãe confesso, mas ela só faz uma cara de desaprovação, nem me diz nada.»
Depois, os professores desprezam eventuais aliados que entre os alunos possam encontrar para melhorar a eficácia do controle na realização das provas académicas, afirma Ivo Domingues. «É dominante a atitude da desvalorização da delação. Esta conduz à criação de barreiras para que não ocorra e, quando isso acontece, desvaloriza a entidade social real do delator, cujo comportamento pode ser considerado mais desviante do que o dos colegas que copiaram.»
Embora mais de metade dos estudantes inquiridos por Aurora Teixeira e Fátima Rocha garantam já ter visto um colega a ser apanhado por um professor a copiar durante um exame, apenas 5% admitiram terem sido surpreendidos a cometer fraude durante a realização de uma prova. «É suposto os pais falarem com os filhos sobre sexo, droga, consumo de álcool e de tabaco, mas nenhuma campanha publicitária os incita a abordarem o tema da integridade», assinala a professora de português da Escola Secundária da Lourinhã. «Quando os apanhei a cometer plágio, nem sequer se sentiram envergonhados e no mínimo deveriam ter sido mais competentes na adaptação do português.»
Mas nem tudo são más notícias. Algumas escolas baniram os telemóveis, máquinas fotográficas e outros gadgets nas provas. E há alunos com sentido de honra.
«Lembro-me perfeitamente de uma colega me ajudar num teste de matemática do 8º ano – passou-me uma borracha com a resposta. De tão nervosa, comecei a suar das mãos. Estava certa que seria apanhada, mas não fui», conta Umme Hina, lisboeta de 22 anos. «Foi a única vez que o fiz. Além do medo e do nervosismo, a vergonha se fosse apanhada seria insuportável!». Umme Salma, a sua irmã mais velha, licenciada em Antropologia afirma «Nunca cabulei e sou contra. Acho horrível. Houve um teste em que um professor saiu da sala e toda a gente começou imediatamente a puxar dos apontamentos… Foi uma situação muito desconfortável.»
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