Situada no centro de uma vasta área de barros vermelhos com grande aptidão agrícola, a torre de menagem (século XIV) do Castelo de Beja ergue-se como sentinela da planície dourada.

Terra de temperaturas extremadas, o seu clima forjou o carácter forte das suas gentes, que a prosa e a poesia tórridas de amor carnal tem em Mariana Alcoforado e Al-Mu'tamid a sua maior expressão. Herdeiros dessa intensa vivência dos sentidos são os poem as de sabores que dão pelo nome de toucinho-do-céu e papos-de-anjo, queijos-de-ovos e barrigas-de-freira, bolos folhados e doces de amêndoa.

Povoado pelo menos desde a primeira Idade do Ferro, realidade que a arqueologia pôs a descoberto na Rua do Sembrano, foram os Romanos que lhe elevaram muralhas e a tornaram centro jurídico-administrativo no território correspondente ao Sul de Portugal. A domus senhorial do Sembrano, os arcos de Évora (na página seguinte, em cima, à esquerda) e de Avis ou o espólio arqueológico existente no Museu Regional (na página seguinte, em baixo) são outros tantos testemunhos da Pax Julia, onde César fez a paz com os Lusitanos. o mais importante núcleo museológico visigótico existente em Portugal. patente na Igreja de Santo Amaro, evidencia a importância da cidade nos séculos V-VIII, que a conquista islâmica não diminuiu.

Castigada pelas vicissitudes da Reconquista entre os séculos XII e XIII, de D. Sancho II a D. Fernando reconstruíram-se o castelo, a Igreja de Santa Maria da Feira (séculos XIII-XVI), com a sua Árvore de Jessé, e a Ermida de Santo Estevão (séculos XIII-XVII). Cidade onde se constroem muros para se ter sombra, nela subsistem a memória da antiga Judiaria, na Rua da Guia, e da Mouraria, na Rua das Portas de Moura.

A fama e o esplendor voltaram nos séculos XV-XVI com a instituição do ducado de Beja e a elevação de dois dos mais ilustres filhos da cidade a mais alta instância do país: D. Leonor, rainha pelo casamento com D. João II e fundadora das Misericórdias, bem como o seu irmão D. Manuel, venturoso na sucessão colateral do cunhado. Embora se tenha perdido uma boa parte da herança manuelina, ainda podemos ver o pelourinho, reconstruído, o claustro do Convento de São Francisco - hoje pousada da Enatur -, o antigo Hospital de Nossa Senhora da Piedade - Universidade Moderna -, a Ermida de Santo André, além de portais e janelas que o amor ao passado soube preservar.

Também é desse período o Convento da Conceição, onde está instalado o Museu Regional, que terá sido o palco dos desventurados amores descritos nas Lettres Portugaises, célebres na literatura europeia. Ao gosto da Renascença e a loggia que o infante D. Luís mandou construir para açougues na actual Praça da República, depois beneficiada com a Igreja da Misericórdia. A sé catedral, adaptação da antiga Igreja de Santiago, e uma igreja-salão enriquecida com azulejos e talha barroca.

Feitos por mãos sabias e pacientes segundo receitas que o tempo apurou, o pao e o vinho da regiao sao a constante de uma gastronomia feita de queijos e enchidos, açordas e ensopados, borregos e porcos pretos, lebres e perdizes, que as ervas do campo perfumam e adornam. Com tudo isto, a planície torna-se mais profunda e o tempo parece parar nas longas e quentes tardes de Verão. E o convite ao ócio nas páginas de um livro ou numa descontraída e amena cavaqueira. No campo, homens e animais, recolhidos à benção da sombra, saboreiam a calma, quase imóvel, do fio do tempo. O céu e a terra estão no seu lugar.

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