Manuela Santos tinha 17 anos quando experimentou haxixe. Os amigos fumavam e quis experimentar. Começou a fumar todos os dias depois das aulas, tornando-se um hábito que lhe afectava o rendimento escolar. «Não passei a ser uma má aluna, mas deixei de me interessar», explica. «Passava muito tempo a “pairar”, sem fazer nada, porque o efeito deixava-me preguiçosa.» As notas na escola baixaram e diminuiu a actividade física.
Mais tarde, já empregada, apercebeu-se de que o efeito a impedia de ser eficiente no trabalho. «Agora só fumo quando saio ou para descontrair em ocasiões como festas, fins-de-semana...”, diz Manuela. Mas não deixou de consumir haxixe e marijuana. «Toda a gente consome, uns mais do que outros. E há quem passe para drogas mais duras a partir do haxixe.»
Ao entrar no recinto do festival Rock in Rio, realizado em Lisboa no Parque da Bela Vista, a primeira coisa a chamar a atenção era o cheiro a erva – marijuana, liamba ou haxixe, plantas da família das carabináceas (vulgo cannabis) utilizadas para fumar – no ar. Eram perfeitamente visíveis as nuvens de fumo branco a pairar acima das cabeças de alguns grupos de jovens. Os mais de 100 000 fãs de música passeavam-se pelo recinto, onde não faltavam os stands de tabaco – é usual comprar cigarros normais para os esvaziar de tabaco e encher com erva.
Este cenário não é único em acontecimentos deste tipo, festas ou mesmo em alguns locais da capital onde abundam os estabelecimentos de diversão nocturna. «Quando saio à noite, levo sempre um charro ou dois para me ajudar a descontrair. Claro que evito fumar dentro dos bares e discotecas, mas dou um salto à rua e acendo o meu cigarrinho especial», confessa Pedro Dias, assumido consumidor desde os 13 anos. «E não sou o único. Hoje em dia, a erva é tão comum como o tabaco.»

Segundo as últimas estatísticas do IDT – Instituto da Droga e da Toxicodependência –, e contrariamente ao que sucedia deste 1990, em 2002 foi o haxixe a substância apreendida mais vezes e em maior quantidade pela Polícia no País. Por sua vez, a liamba e o ecstasy registaram os maiores aumentos da última década, respectivamente de 54 e 76%.
Mais preocupante que o aumento do tráfico, porém, é o aumento do consumo de drogas entre a população estudantil. De 1999 para 2003, a percentagem de alunos de 16 anos que já experimentou alguma substância tóxica subiu de 12 para 18%, e relativamente ao consumo de cannabis, passou de 9 para 17%, de acordo com dados do ESPAD 2003 – European School Survey on Alcohol and Other Drugs. Apesar de tudo, estes níveis são os mais baixos da Europa.

O consumo não se limita aos estudantes problemáticos ou marginais. «Cerca de 60 a 70% dos jovens em idade escolar afirma já ter experimentado cannabis e o primeiro contacto tem lugar cada vez mais cedo, já na casa dos 9, 10 anos», afirma Nuno Freitas, presidente do IDT.
Embora a erva seja de longe a droga preferida pelos nossos jovens, os inalantes – produtos caseiros que exalam vapores químicos psicoactivos, ou seja, indutores de alterações da percepção – também são consumidos por 8% dos estudantes do 3.º ciclo e do ensino secundário. Segue-se o ecstasy, conhecido por provocar estados de euforia, com 4% de adeptos, que registou um aumento significativo da prevalência entre alunos de 16 anos. Outras substâncias são também utilizadas, como as anfetaminas, a cocaína e os cogumelos alucinógenos, favoritos de 3% cada uma, a heroína, crack e LSD, consumidos por 2% da população estudantil e o GHB e os esteróides anabolizantes (por cerca de 1% cada um).
A razão para o ressurgimento deste fenómeno é, segundo Fernando Negrão, anterior presidente do IDT, bastante clara: «Vivemos numa sociedade hedonista em que a procura do prazer começa cada vez mais cedo», diz. «Temos períodos de ócio maiores e, portanto, maior oferta para os preencher, tanto que penso tratar-se principalmente de uma alteração do quadro de consumos dirigido a substâncias mais recreativas, não do facto de haver mais pessoas a consumirem drogas.”

Claro que o facto de a cultura popular, especialmente a música, retratar o uso de drogas como normal não ajuda a debelar o problema. Ou o advento das raves, tão na moda entre os adolescentes, onde o som psicadélico é complementado com a ingestão de estimulantes como o ecstasy. «Conseguimos divertir-nos durante o dia e a noite toda sem nos cansarmos», explica um adolescente de 17 anos, amante incondicional deste tipo de festas. Sem pensar nas consequências para o organismo, como é típico nestas idades. Lígia Viana, médica no Centro de Atendimento (CAT) da Cedofeita, no Porto, explica o que pode acontecer. «O ecstasy tem algum nível de toxicidade e, além de poder provocar alucinações, especialmente em pessoas predispostas para patologias mentais, pode também levar a estados de agitação, crises de pânico, hipertermia, desidratação e taquicardia. Tem sido relacionado com alguns casos de morte súbita.»

Por outro lado, quem diz não às drogas explica porquê: «Os meus pais sempre me apontaram os perigos do consumo deste tipo de substâncias», explica Maria Pinto, «até porque cresci e frequentei a escola secundária na Damaia, uma zona onde os casos de toxicodependência eram abundantes e havia uma preocupação em casa.» Licenciada em Sociologia do Trabalho com especialização em Recursos Humanos, hoje casada e com dois filhos, Maria foi uma estudante brilhante. «Nunca me interessou sequer experimentar, pois tinha muitos exemplos entre os meus colegas dos resultados do consumo de drogas. Eram considerados falhados, repetentes que nunca chegariam a lado nenhum», acrescenta.

Apostar na prevenção
Na opinião do Grupo Parlamentar do PCP – Partido Comunista Português – cabe ao Governo a responsabilidade da falta de resposta ao recrudescimento do fenómeno da toxicodependência. O deputado Bruno Dias afirma que «houve um decréscimo de investimento e de recursos nesta área». O executivo responde com uma Estratégia Nacional de Luta Contra as Drogas que já implementou a descriminalização do consumo e a política da distribuição de agulhas para minorar os riscos sociais e para a saúde, mas Nuno Freitas considera a situação ainda preocupante. «As futuras estratégias terão que passar por uma maior prevenção em meio escolar, num trabalho que inclua professores, pais e associações de estudantes.»

Os defensores do modelo europeu de despenalização das drogas leves apresentam o exemplo holandês, onde marijuana e haxixe são vendidos livremente nos cafés. No entanto, outros problemas surgiram por causa disso. O fluxo de drogas nos países vizinhos cresceu, assim como a percentagem de assaltos à mão armada dentro das fronteiras da própria Holanda – mais de 65% desde 1985. E o consumo de marijuana entre adolescentes holandeses triplicou entre 1984 e 1992.

A legalização de drogas duras teve resultados semelhantes. Em Zurique, na Suíça, foi introduzido um programa que permitia a venda e consumo de drogas num dos parques da cidade. No Parque das Agulhas, como rapidamente passou a ser conhecido, os toxicodependentes tinham acesso a agulhas, preservativos, cuidados médicos, aconselhamento e oportunidade para tratamentos, tudo grátis. O número de frequentadores passou em pouco tempo de algumas centenas para vários milhares. Mas em 1992 o programa teve que ser extinto devido ao aumento súbito no número de casos de violência e mortes relacionadas com droga. Hoje, a Suíça tem um dos mais altos índices europeus de toxicodependência e de infecção por HIV per capita.

Os jovens recebem frequentemente mensagens a favor da droga, não só através de canções das estrelas musicais favoritas, mas também dos computadores. Na Internet, podem encontrar sites com instruções passo a passo sobre como enrolar um charro, fazer bolachas de erva ou fabricar LSD. Alguns adeptos da marijuana divulgam a mensagem de que o cânhamo – outro nome da planta e da fibra que se extrai da mesma – pode salvar o Mundo. Promovem-na como um recurso natural renovável que poderia ser utilizado para fabricar papel, comida, combustível e fibra, ao mesmo tempo que, segundo uma publicação defensora do consumo de marijuana, contribuiria para o equilíbrio do ecossistema mundial e para a renovação dos níveis de oxigénio da atmosfera.
E, na verdade, os produtos fabricados com cânhamo, como carteiras, calças de ganga e chapéus, têm proliferado, e a sua popularidade é evidente entre as camadas adolescentes. Por exemplo, quando a Adidas questionou os jovens americanos sobre ideias para novos ténis, o resultado foi um sapato feito de cânhamo.

Fernando Negrão considera contraproducente a passagem de mensagens contraditórias para os jovens. «Deve ser feita uma censura pedagógica, direccionada para o mal que faz à saúde, exactamente como no caso do tabaco. Quando perguntámos aos jovens que experimentaram pela primeira vez drogas porque é que não continuaram, responderam que fazia mal à saúde.»

Apesar das mensagens a favor das drogas, é um facto que a marijuana é prejudicial para a saúde. Vários estudos indicam que destrói a memória de curto prazo, desregula os níveis hormonais, pode interromper o ciclo menstrual nas mulheres jovens, altera as funções cerebrais e atinge os pulmões – um charro tem quatro vezes mais alcatrão que um cigarro normal. As capacidades motoras, como a coordenação e atenção, diminuem durante uma trip (viagem) de marijuana. Esta substância é também uma «droga de passagem»: são raros os consumidores de cocaína, heroína ou LSD que não começaram por fumar erva. Isto porque um adolescente que fuma cannabis tem maiores possibilidades de vir a contactar consumidores e vendedores de drogas mais duras. Jovens dos 12 aos 17 anos que fumam marijuana têm 85 vezes mais probabilidades de vir a utilizar cocaína do que os que a não consomem.

A dependência causada pelo consumo de cannabis é uma das principais preocupações dos próprios jovens, segundo um inquérito realizado online pelo IDT. Cerca de 14% apontaram a dependência física, e 10,8% a dependência psicológica como consequências a longo prazo do consumo frequente destas substâncias. Para 10,3%, outro perigo relacionado é a possibilidade de passar a consumir outro tipo de drogas.
Carlos Vieira, de Carcavelos, compreende perfeitamente os perigos da droga. O que começou por ser uma tentativa de se divertir com os amigos aos fins-de-semana rapidamente se transformou na necessidade constante de obter sensações fortes e imediatas.
«Tinha treze anos quando fumei o primeiro charro, aos dezasseis fumava regularmente, na faculdade experimentei cocaína e dois meses depois “chutava” (injectava) ácidos, cocaína e heroína todos os dias», conta. «Era um aluno excelente e perdi tudo. Cometi um erro que me estragou as possibilidades e as expectativas de vida.» Seropositivo, há cinco anos que tenta construir uma vida que lhe permita ter o prazer de beber um copo de vinho ao jantar sem que isso o conduza novamente a qualquer dependência química.
«Hoje, a situação é diferente. Vemos miúdos de doze anos a sair à noite com acesso muito facilitado a drogas e sexo. Chegam aos dezoito anos com tudo já experimentado, não têm qualquer noção dos seus limites, não acreditam em nada e a maior parte das vezes abandonam, pura e simplesmente, a sociedade civil», explica Carlos. «E ao fim de cinco ou seis anos de consumo de drogas duras, ou param ou morrem, porque bastam dois ou três anos nessa adição, para que o maior desejo do toxicodependente seja não sentir dores.»

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