O regresso a Shaolin

Dez anos mais tarde, visitou novamente o local e verificou que muita coisa tinha mudado.
No momento em que meu táxi sai da auto-estrada e entra na aldeia de Shaolin, o simples olhar para o mosteiro rodeado de cinco montanhas corta-me a respiração. Era assim que em tempos eu imaginava Shaolin, da forma como é retratado em inúmeros filmes de Kung fu.
Mas não fora isso que eu descobrira em 1992, aquando da minha primeira visita ao local, durante os festejos do 1500º aniversário do mosteiro. O Templo de Shaolin teve um século XX difícil. Localizado na cadeia montanhosa de Songshan, na província de Henan, foi ocupado e parcialmente queimado durante a guerra civil da década de 1920 a que se seguiu mais uma fase de destruição às mãos dos Japoneses cerca de 20 anos depois.
Mão Tse-Tung, que queria cortar com o passado feudal da China, proibiu o Kung fu na década de 1950, o que levou à fuga de muitos monges. Finalmente, durante a Revolução Cultural, os seus Guardas Vermelhos arrastaram os poucos monges que ainda lá viviam pelas ruas da aldeia.
O templo não passava de um conjunto de ruínas abandonadas em 1981, altura em que o actor e perito em artes marciais Jet Li fez O Templo de Shaolin, um filme em homenagem à lenda
dos 13 monges oriundos daquele local que libertaram o imperador Tang, que fora capturado por um senhor da guerra malévolo. Foi um sucesso de bilheteira na Asia! Pouco depois, a vida real começou a parecer-se com o filme, com milhares de jovens a fugirem de suas casas para se tornarem monges de Shaolin. Dezenas de milhares de turistas do Extremo Oriente, para quem Shaolin é um sitio cultural bastante apreciado, deslocavam-se anualmente até este local.
Na altura em que cheguei, uma década depois, havia lá perto de 100 monges e 6 grandes escolas de Kung fu com centenas de instrutores (alguns deles monges ou antigos monges e, na sua maioria, simples especialistas em artes marciais), que davam instrução a 10 000 rapazes (e a algumas raparigas).
Isto para além de dezenas de restaurantes para turistas e quiosques que vendiam bugigangas relacionadas com o Kung fu. Era um grande centro de caça ao turista, e o mosteiro isolado transformara-se no sustentáculo do mundo do Kung fu. Mas deixou de o ser.
Em 1999, um novo e controverso abade chamado Shi Yongxin, pessoa bem relacionada, reconheceu que a reputação e a vida espiritual de Shaolin estavam a ser destruídas pelo turismo. Então fazendo uso dos seus conhecimentos no Exército e na Polícia, mandou afastar os vendilhões e destruir os seus quiosques.
Agora, enquanto caminho pela rua abaixo, sinto-me como
se estivesse numa cidade-fantasma. Desde que aqui estive, a
população da aldeia baixou das 10 000 para as menos de 1000
pessoas. Onde dantes havia edifícios uns a seguir aos outros, existe agora um espaço vazio. As únicas estruturas importantes que sobreviveram foram o templo e a floresta dos pagodes, para além das poucas instituições que foram capazes de mover influências suficientes para resistirem à vontade de Shi Yongxin: a Tago (uma escola de Kung fu privada), o centro de venda de bilhetes da aldeia, o templo e o Centro Wushu, a escola de Kung fu gerida pelo Governo, onde eu treinei.
No edifício principal do Centro Wushu, o mármore substituiu o linóleo estalado e os pilares de betão. Antigamente, o salão de actuação consistia basicamente num grande tapete vermelho cercado por cadeiras de madeira. Mas agora parece a Broadway: cadeiras tipo estádio e palco subido.
Infiltro-me numa exibição de tarde para cerca de 10 turistas. Os monges guerreiros continuam tão bons como eram dantes, talvez até mais profissionais. Sem dúvida que o sistema de som Dolby e a música temporizada com o sistema de iluminação do palco ajudam, mas os da velha guarda, com quem treinei, pensavam em si próprios antes de mais como monges e só depois (por necessidade) como artistas. Tal como actores que servem à mesa, faziam aquilo para sustentar a sua arte. No entanto, o grupo de hoje parece levar o seu trabalho de actuação muito mais a sério. Partem tijolos sobre a cabeça e varas de madeira sobre os ombros com precisão e pouca emoção. E fazem as diferentes posições (espada ébria, macaco, luohan de Shaolin) com brio.
Depois, regresso à sala de treinos, onde verti sangue e suor ao longo de dois anos. Fico muito feliz ao ver que está tudo na mesma: um tapete verde antigo, espelhos rachados e paredes brancas com manchas de mãos e pés, que costumávamos pontapear e esmurrar para endurecer essas partes do nosso corpo.
Uma equipa vai começar a treinar. Apresento-me e faço algumas perguntas. Já esperava a resposta: esta nova geração tem poucas ligações ao templo. Shaolin sempre se caracterizou por ter dois tipos de monges: os budistas e os guerreiros. Mas agora parece ter uma nova classe: a dos monges de exibição.
Encontro, por acaso, dois monges guerreiros que faziam parte da minha antiga equipa: Pequeno Wang e Baotung, que agora tem as suas próprias escolas de Kung fu em Dengfeng, próximo dali. Pergunto-lhes pelo treinador Cheng, que foi meu treinador de kickboxing e meu mestre. Perdemos o contacto um com o outro. O Pequeno Wang diz-me que ele está a trabalhar para o seu irmão mais velho, o Grande Wang, na escola deste e que no dia seguinte haverá lá uma competição, na qual poderei encontrá-lo.
No pátio do Templo de Shaolin, deparo-me com o Alto, o único monge dali com mais de 1,80 m e único elemento da equipa de exibição original que continua a ser monge. Falamos sobre as mudanças em Shaolin enquanto passeamos pelo templo. Um
grupo de monges budistas reuniu-se para as orações da noite. Devido ao excesso de turismo, o budismo não era algo que fosse muito praticado por ali há 10 anos atrás. Segundo o Alto, que é assistente de Shi Yongxin, o abade investiu tempo e dinheiro para reconstruir ali uma comunidade de monges budistas.
Na brincadeira, o meu interlocutor pergunta-me se quero correr até lá acima à gruta de Damo para tirar umas fotografias. É claro que não quero. Trata-se de um trajecto encimado montanha acima por detrás do templo. Os treinadores ordenavam que corrêssemos até à gruta como forma de nos castigarem. Conta a história que Bodhidharma, um missionário budista indiano do século VI (conhecido pelo nome de Damo na China), esteve em meditação naquela gruta durante nove anos, após o que ensinou aos monges de Shaolin que a meditação sentada era a chave para a iluminação. Mais tarde, devido ao facto de os monges ficarem com os músculos fracos por estarem sentados todo o dia, o missionário concebeu 18 exercícios calisténicos, que estão na origem do Kung fu de Shaolin.
Regresso depois ao motel do Centro Wushu, que não é limpo desde que me fui embora. Quando a noite cai, as recordações da solidão que senti neste local em 1992 abalam-me por dentro. Como pude aguentar tanto tempo ali? E depois lembro-me: foi pelo Kung fu, pelo glorioso Kung fu.
Os treinos começavam às 6 horas e prolongavam-se durante seis horas, interrompidos apenas pelas refeições e por uma sesta após o almoço. Éramos 10 000 pessoas a fazer a mesma coisa todos os dias às mesmas horas. Corríamos pelas montanhas, fazíamos alongamentos, praticávamos pontapés e socos, endurecíamos o corpo, aprendíamos como rodar as nossas armas ... Era como estarmos dentro de um casulo de objectivos comuns. Enquanto
treinava, tudo estava bem. Era só quando me lesionava e não podia treinar que Shaolin me parecia o fim do Mundo.
No dia seguinte, assim que vejo o treinador Cheng, a primeira coisa que ele me diz é: «Matt, engordaste! Ainda treinas?»
«Alguma coisa, mas não o suficiente», respondo.
«É evidente. Para se praticar Kung fu, não se pode ter medo de comer coisas que sabem mal. E pelo teu aspecto parece que só gostas de comer coisas boas.»
Meu Deus, que saudades eu tinha dele!
Ainda tem aquele bigodinho estranhíssimo, ainda caminha com os ombros curvados e ainda tem aquelas mãos em forma de presunto que faziam recuar os seus adversários no tempo em que era campeão nacional de kickboxing.
O almoço é um banquete para festejar o regresso do filho pródigo. Conforme o baijiou (a bebida alcoólica feita de arroz dos Chineses) vai correndo, recordamos a ocasião em que, com um
simples pontapé, o treinador Cheng derrotou o seu adversário japonês por knock out, bem como o dia em que deixei o instrutor da Tago inconsciente com vários pontapés.
Nessa tarde, realiza-se uma competição de posições. As escolas de Shãolin ensinam posições tradicionais (Kung fu), wushu moderno (que é como se fosse uma mistura de artes marciais e patinagem de exibição) e sanda (kickboxing do tipo chinês). Os competidores são, na sua maioria, jovens alunos. Mas existe também uma categoria para veteranos, que no Kung fu são todos os praticantes com mais de 40 anos. A maior parte dos membros deste grupo são instrutores extremamente versados nesta arte provenientes de
diversas escolas.
Contudo, o homem que mais me impressiona é um camponês na casa dos 70 anos, cujo cabelo grisalho é aqui e ali pontilhado por cabelos mais escuros. Não enverga o trajo flamejante de seda, típico das competições de Kung fu: apresenta-se com as mesmas roupas que usa para trabalhar: um casaco de algodão azul bastante espesso, calças de algodão cinzentas e sapatilhas pretas de Kung fu. A sua arma é o pudao, uma comprida vara com uma lâmina numa das extremidades e uma ponta afiada na outra. Não se trata de um pudao leve para combates de exibição feito de madeira oca e com uma lâmina fraca, mas sim da versão tradicional desta arma, de madeira sólida e com uma lâmina de aço enferrujada, do tipo que passa de pais para filhos.
A sua técnica não é nada do outro mundo, mas move-se graciosamente. Conforme se desloca, com as costas curvadas, ocorre-me o pensamento de que ele já pratica esta arte há pelo menos 60 anos, tendo por isso sobrevivido à guerra civil, à invasão japonesa, à proibição do Kung fu e à Revolução Cultural. A julgar pela aspereza das suas mãos e pelo bronzeado, sulcado de rugas, da sua cara, foi agricultor ou trabalhador de sol a sol a vida toda, uma vida árdua e de labuta diária. No entanto, arranjou sempre tempo para praticar esta arte.
Tal pensamento envolve-me numa onda de emoção inesperada: tiro-lhe uma fotografia, mantendo a máquina sempre encostada ao rosto para esconder as minhas lágrimas, que, libertadas pelo baijiou e pela emoção de ver novamente o meu mestre, não param de cair.
Quando tinha 21 anos, aquilo que mais admirava era a tremenda habilidade dos monges. Queria ser assim tão bom como eles, nalguma coisa fosse o que fosse. Mas quando observo aquele ancião, aquilo que mais me impressiona é a sua dedicação. Foi isso que permitiu que esta cultura sobrevivesse apesar dos traumas. Quando ele termina a sua exibição, aquilo que eu quero é amar alguma coisa, seja o que for, tanto como ele (de uma forma tão evidente) ama a arte do Kung fu de Shaolin.
|
| |||||
Faça um Comentário
| Nome* | |
| Comentário* | |

Mais Populares
Mais Populares
Favoritos da Semana
![]() Receitas e Alimentos | ![]() Dicas e Truques | ![]() Alimentação Saudável | ![]() Destinos e Viagens | ![]() Notas de Lazer | ![]() Consultas de Especialistas |
Precisa-se: Uma Boa História!
Precisa-se: Uma Boa História!
Escreva-nos e poderá ganhar:
50€ por cada história verídica e inédita que for publicada em Flagrantes da Vida Real.
20€ por cada texto publicado em Rir é o Melhor Remédio.

Partilhe






















