Tem um sorriso de filho pródigo que faz que as mulheres o queiram abraçar. Tem a expressão de um miúdo reguila que inspira boa disposição. Tem a sensibilidade de pôr no centro da sua narrativa um homem que não sabe explicar porque é que é ferreiro. Tem o rigor profissional metamorfoseado pela descontracção contagiante.

Porque é que as pessoas gostam de Jorge Gabriel? Porque ele conhece como ela, momentos em que foi preciso apertar o cinto. Porque ele sente como todas as famílias as dores que afectam as famílias. Porque está sempre disponível, porque não é mal-educado ou vaidoso. Porque não sabe demasiado. Porque é uma pessoa normal. Tão normal que faz com naturalidade e descontracção o que outros transformam num bicho-de-sete-cabeças. O quê? Comunicar. E como é que se comunica? Partilhando sentimentos, foi o que ele respondeu.

Jorge Gabriel é o filho que as mães sonham, é o amigo, o «pá» que os homens arrastam para as jantaradas. Está sempre disponível, guarda a má disposição para o habitáculo do seu automóvel, para quando está sozinho, e parece levitar entre Porto e Lisboa. Divide-se entre as duas cidades. Instalou-se no Norte para substituir Manuel Luís Goucha na condução do «Praça da Alegria» e superou toda a concorrência. Com ele, as manhãs são uma festa.

Percebeu que a sua vida seria esta quando militava nas rádios piratas e depois na Energia e na TSF. Estudava à noite, atrasava cadeiras, abandonou Filosofia na Universidade Católica quando entrou para a SIC. Procura porquês com uma curiosidade insaciável, tem o «Livro dos Porquês» como marca na sua vida. Os porquês são também a causa do seu desassossego. Quando lhe pergunto pelo que o preocupa, responde: «O futuro dos meus filhos. Eu quero um mundo melhor para os meus filhos. Luto obstinadamente por um mundo melhor para os meus filhos.»

Tem 36 anos, é casado e tem três filhos. Eis uma estrela maior da nossa televisão.

Selecções do Reader`s Digest - É especialmente querido pelas mães e pelas avós. Pode falar-me da sua mãe?
Jorge Gabriel - A minha mãe sempre gostou de ser artista e nunca conseguiu sê-lo. Ela conta sempre como, numa festa de Natal, partiu a cabeça enquanto cantava ao espelho com um robe da irmã! O meu pai, um alentejano castiço, de Moura, tocou nas bandas filarmónicas. Talvez tenha bebido nessa formação artística primária parte daquilo que sou. Desde a escola primária que apresentava as festas de Natal, de Carnaval ...

SRD - Quis estar em cima de um palco a vida toda?
JG - Quis ser o que os jovens da minha idade quiseram ser: jogador de futebol ou astronauta. Perdi cedo essa esperança. Sou contemporâneo das rádios-piratas e surgiu a oportunidade de ... comunicar. Eu gostava de rádio, agarrava-me a um aparelho e tentava apanhar em onda média a Radio Caroline.

SRD - Quando perguntava pela sua mãe, tentava saber dos valores que ela lhe imprimiu, da marca do feminino que ela lhe deixou.
JG - Valores em torno do padrão do Bem e do Mal que todos conhecemos. Mas a partir dos 10, 11 anos, eu apenas via os meus pais à noite. Eles saíam de manhã e voltavam ao final do dia. Este contacto tão diminuto levou-me a ficar entregue a mim próprio. É verdade que sempre que tinha alguma dúvida indagava a minha mãe, mais do que o meu pai. Havia uma barreira maior entre mim e o meu pai que não existe actualmente. Ele era mais austero. A minha mãe, como todas as mães, era mais permissiva.

SRD - É filho único?
JG - Tenho uma irmã mais velha, que vivia em casa de uma tia e que, quando eu tinha 12, 13 anos, voltou para ocupar um espaço que até ali era o de um filho único. A minha irmã sofria de epilepsia, e para chegarmos ao Liceu da Amadora, tínhamos que atravessar as linhas do comboio; havia o receio de ela parar no meio das linhas do comboio ... Por isso, vivia com a minha tia em Lisboa. Voltou quando fez uma boa reacção aos medicamentos e as paragens passaram a ser praticamente nulas.

SRD - Como é que foi essa descoberta? Entre o ciúme e a protecção, presumo.
JG - Foi uma aprendizagem. A minha irmã era minha irmã, mas ao fim-de-semana. A partilha, que era pontual, cortês, passou a ser uma partilha habitual. Tínhamos que coabitar, e isso obrigou-me a um jogo de cedências. De repente, tinha ali uma mulher cinco anos mais velha. Para quem tem 13 anos, uma mulher de 18 anos é inalcançável. E havia as amigas da minha irmã ... O meu imaginário está povoado por mulheres mais velhas. A possibilidade de serem amigas íntimas era óptima.

SRD - Quando se mudou para o Porto, teve uma criança pouco tempo depois. Lembro-me de ter pensado como devia ser doloroso não poder estar com o bebé todos os dias.
JG - Essa separação da família dá-se há mais tempo, quando me separo da mãe do Duarte, que tem agora 12 anos.

SRD - Foi um pai adolescente, praticamente!
JG - Tinha 23 anos. A separação física do meu filho é uma coisa que me custa. Eu e o Duarte temos uma relação franca, quase a roçar a sensação que se tem quando se vê uma mulher com um bebé ao colo, quando se assiste àquela simbiose. Tive de criar anticorpos para conseguir resistir a essa distância.

SRD - Essa é a dor maior para um homem bem-sucedido? É um apresentador ultra-requisitado, deve estar riquíssimo ... As dores situam-se no plano da família?
JG - Gosto de dizer que comunico, que não faço televisão, que comunico. É assim que sinto desde miúdo. Comunicar compensa-me muito a falta que me faz o afecto da família. Estou ali com um concorrente à frente e estou a partilhar angústia, satisfação, humilhação. Podem sentir-se humilhados por não conseguirem dar a resposta certa ou responder a uma pergunta trivial na «Praça da Alegria», como «porque é que é ferreiro?» A pessoa não consegue articular duas frases e basta um toque no pulso para se sentir segura.

SRD - A que é que se resume, então, a arte de comunicar?
JG - À partilha de sentimentos.

SRD - Penso que o que o faz funcionar tão bem em televisão é a sensação de que «é um deles». Há um sentimento de pertença e identificação. As pessoas reconhecem-no como o senhor Jorge Gabriel da televisão, mas também como aquele que lhes segura no pulso e as sossega. Mas o que é que lhe suscita curiosidade nas pessoas?
JG - Ter a certeza absoluta de que vou aprender e de que posso partilhar algo que faz que a outra pessoa seja mais feliz. Custa-me muito estar com um convidado ou concorrente e ter a sensação de que está a medo ou que desconfia de mim.

SRD - Se o segredo é dar-lhes atenção, tocá-las, fazê-las perceber que é uma delas, há, por outro lado, a noção evidente de que tem de proteger-se. É comum sentir-se devassado?
JG - Sou parcialmente dono de mim. Sou de muita gente a partir do momento em que ali apareço e comunico. Se as pessoas me têm afecto, então também sou delas.

SRD - Fica refém do Jorge Gabriel público?
JG - Vivo naturalmente com esse Jorge Gabriel público. O Jorge Gabriel público é o Jorge Gabriel dos bastidores, é o Jorge Gabriel de casa. Não há uma separação inequívoca do Jorge Gabriel apresentador do Jorge Gabriel cidadão. Quanto mais próximo a televisão comunica a genuinidade de uma pessoa, melhor ela passa.

SRD - Na rua, é abordado de cinco em cinco metros. Como é que faz naqueles dias em que está deprimido, com saudades do filho, e quer que o deixem em paz?
JG - Não posso! Tenho que respeitar as pessoas que me vêem. Houve uma senhora que foi de Coimbra à «Praça da Alegria» [no Porto], gastou 140 euros em táxi para me oferecer um prato do serviço de casamento do falecido, como ela disse. Como é que depois eu me posso cruzar com ela na rua e estar carrancudo, maldisposto? Se preciso de estar sozinho, maldisposto, tenho que evitar que esse mal-estar aconteça num local público.

SRD - Quem é que pode assistir às suas crises de mau humor?
JG - A minha família, os meus amigos mais próximos. Mas principalmente eu. Eu e o meu carro. Adoro conduzir sozinho. Ajuda-me a pôr a cabeça no lugar.

SRD - Conheceu apertos e agora vive com imenso dinheiro. Qual é a força do dinheiro na sua vida?
JG - Eu odeio dinheiro. Tenho uma péssima relação com o dinheiro, sou o pior negociador dos meus contratos. A razão por que tenho algum cuidado são os meus filhos e a minha mulher. Se puderem ter uma vida mais facilitada do que aquela que tive, tanto melhor. Mas eles têm que saber dar valor às coisas. Não pode ser «eu tenho», mas «eu mereço ter». Antes do Natal há uma escolha: «Não acham que estão a pedir brinquedos a mais, quais são os brinquedos que vamos dar aos meninos pobres, àqueles que não têm?»

SRD - Em que é que gasta o dinheiro?
JG - Há uma coisa absolutamente banal onde gasto algum dinheiro: adoro fazer colecções de carros de rali, aviões, cavaleiros da Idade Média ...

SRD - Tem aqui no camarim uma playstation! O que é que procura na playstation e nas colecções de aviões? É uma alienação do mundo dos adultos? É libertar-se?
JG - Exactamente, é conseguir aquilo que as crianças conseguem. O meu lado de criança ajuda-me a gozar a vida como poucos adultos conseguem. Há depois aí uma mistura de rebeldia. Rebeldia sem ser rebelde ... Sem querer ferir alguém.

SRD - Quando é que percebeu que a sua vida seria mesmo esta: ser comunicador?
JG - Quando estive na rádio. Há episódios que não esqueço nunca. Recebi uma carta, em oitenta e seis, linda de morrer, assinada por «Anjo Azul», só podia ser uma mulher; descrevia-me de uma ponta a outra, via-me no café e ouvia-me no programa ... Não sabia quem era, nunca descobri quem era. Como não esqueço o episódio do João Ferreira (meu amigo, escreveu aquele livro da ressaca); ia ver-me à rádio só para me ver trabalhar e dizia-me: «Um dia quero ser como tu.»

SRD - Tem 36 anos e trabalha que se desalma. Que coisas gostaria de fazer no futuro?
JG - Gostaria de continuar a fazer televisão. E gostaria de coisas de putos: tirar o curso de treinador porque adoro futebol e experimentar teatro (só experimentei no liceu). Gostava de ter mais tempo para o que gosto.

SRD - Tempo é o que lhe falta? Parece que anda sempre a correr.
JG - E ando. Se pudesse, não dormia. Gosto tanto de viver que acho que quando estou a dormir não vivo.

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