Catarina Furtado - A verdadeira artista
Aos 10 anos entrou para o Conservatório Nacional. Saiu aos 18, sonhando ser bailarina, mas uma queda obrigou-a a desistir. Inspirada no pai, tentou o jornalismo, mas depressa percebeu que havia outras coisas que gostava de fazer - ser actriz.

António Simões do Paço - Que opinião tem em relação à telenovela, que é ainda vista como uma coisa menor?

Catarina Furtado - A telenovela nunca me entusiasmou como espectadora e em minha casa não se viam telenovelas. Mas é, nitidamente, cada vez menos uma arte menor. Porque hoje já se fazem telenovelas com textos bastante apurados e com grandes actores. Vemos isso no Brasil. Grandes actores do teatro e do cinema fazem telenovelas. Eu tinha sido convidada várias vezes antes da Ganância para fazer telenovelas, e nunca fiz porque sempre achei que devia tentar ir pelo outro caminho, o do teatro, do cinema. Continuo mais ou menos com a mesma opinião. No entanto, acho hoje que, como actriz, se pode aprender muito com a telenovela. Aprende-se técnica, sobretudo. E a técnica pode depois ser aplicada no teatro ou no cinema. E, se se apostar na qualidade, cada vez mais a telenovela pode ser um produto superior. E isso é que é o grande desafio.

ASP - Já fez dança, rádio, televisão, cinema, teatro, já escreveu histórias para crianças, crónicas quando estava em Londres…

CF - Letras de canções…

ASP - …e agora está a fazer a Ganância.

CF - As pessoas tendem a separar um bocadinho a história de fazer cinema e a telenovela. Ora eu sou actriz. Uma actriz pode não aceitar fazer telenovelas, pode não fazer peças de teatro, pode não fazer cinema. Mas uma actriz é uma actriz. Para tudo. Eu fiz dança, que é realmente uma arte à parte, tirei jornalismo, que é uma área à parte também, escrevo, mas, acima de tudo, do que gostei, quando tirei o curso em Londres, foi de representar, e represento no leque de possibilidades que pode haver. E onde mais me realizo é no teatro.

ASP - Então já se decidiu?

CF - Sempre tentaram rotular-me de qualquer coisa. Afinal como é: escreve letras, fez jornalismo, fez dança e agora é actriz, o que é que é afinal? Isso é uma tremenda injustiça. Eu vou ser muitas coisas enquanto tiver tempo. Comecei nesta vida quando tinha quatro anos. Obviamente, aos dezoito, ninguém sabe muito bem o que quer ser, o que quer fazer. E, depois de ter tirado o curso de dança, tirei o de jornalismo. Mas tirei o curso de dança numa escola de artes, onde convivi sempre com pessoas do cinema, do teatro, da música, da dança, das belas-artes. E ficou sempre cá esta minha vontade de experimentar representar. Depois fui para jornalismo. Tenho focos, que é querer ser actriz e representar. Nos meus espaços de fuga, que até podem ser ir para casa, ou ir para uma gravação, e de repente lembrar-me de uma canção, ou de uma letra que pode ser uma canção, então escrevo. Isto não é ser escritora de canções, é apenas ter vontade de o fazer e depois pô-lo em prática, porque eu sou extremamente activa. Quando não ajo, as coisas ficam lá guardadíssimas. Há coisas que não vou mostrar a ninguém, mas que já estão muito escritas. Quando acho que têm qualidade, ou sobretudo quando me apetece partilhar com as pessoas, faço que isso aconteça.

ASP - Quando foi para Londres…

CF - A certa altura, achei que já não queria mais, porque tive a percepção clara de que iria continuar no "Chuva de Estrelas" e em programas do género, e se calhar tive um pânico. Hoje, com a distância, já fez três ou quatro anos, percebo que foi um ataque de pânico que me fez ir embora, juntamente com a vontade de representar e de descobrir outras coisas a meu respeito. Mas foi sobretudo um ataque de pânico, de sentir que podia ficar fechada, só a fazer aquele tipo de programas, e eu achava que podia aprender muito mais e ser muito útil noutras coisas.

ASP - Tinha feito o conservatório. Oito anos. E não estava a pensar dedicar-se aos media, ou a deixar-se envolver pelos media. Foi então que uma queda a obrigou a fazer agulha.

CF - Essa queda foi o destino. Provavelmente, a dança iria levar-me à representação. Porque o mundo da dança sempre me fascinou, mas também como criativa. Uma das coisas de que gostava era de coreografar. E a dança-teatro era uma área de que sempre gostei muito, e era muito informada a esse respeito. Provavelmente, iria caminhar para o teatro, para a representação. Quando a médica me disse que tinha que deixar de dançar durante seis meses, eu não conseguia ficar esses seis meses sem fazer nada. E como gostava de escrever, sempre gostei, e tinha lá o meu pai em casa, jornalista, e um amigo do meu pai o sugeriu, achei engraçado tentar o jornalismo, e a agulha realmente virou para ali. O que é curioso é eu ter depois arriscado esta vontade que tinha cá escondida de representar. Mas foi como lhe digo. Hoje em dia, e é a primeira vez que me digo isto, foi um ataque de pânico. A sensação de ser irreversível assustou-me. E como eu, infelizmente, tenho muita consciência de que a vida passa depressa e que nós, provavelmente, assim como estamos aqui agora os dois juntos não vamos estar mais depois de morrermos, tenho essa ansiedade de experimentar as coisas de que gosto. Sou uma mulher de muita paixão, envolvo-me muito com as coisas, e sentir que não as posso ter - as de que gosto - deixa-me com algum pânico. Portanto, tentarei tudo, e aproveito bem o tempo.

ASP - Que peso têm nas suas decisões as relações com a família, com o pai, jornalista, com a mãe, educadora?

CF - A minha mãe é professora de arte, e foi durante muito tempo professora numa escola para deficientes. Bom, não sei se têm, se não. O meu pai e a minha mãe nunca se meteram nas minhas decisões, até porque elas eram muito de paixões e pouco de concreto, ainda não sabia muito bem o que queria, tinha 18 anos. Mas nunca se meteram. Eu sempre fui extremamente determinada e teimosa, e eles sempre souberam tudo sobre a minha vida e sempre me apoiaram. Sempre foram muito exigentes comigo. Provavelmente, também vem daí a minha necessidade de saber mais do que apresentar só um programa, que eu achava até muito fácil de fazer, e portanto essa exigência vem da formação: querer saber mais, querer fazer mais. Não é ser mais, é saber mais. E isso vem do berço, vem deles. O contacto com o meu pai, o vê-lo trabalhar enquanto jornalista, o vê-lo preparar as reportagens, provavelmente influenciou-me durante um período. E, seriamente, eu achava que queria ser jornalista, mas depressa percebi que não me preenchia. Há coisas que não são compatíveis. Eu não posso ser jornalista e representar de vez em quando, e escrever… Há coisas que nos levam a vida toda e a que nós temos que dedicar-nos a 100%. Agora tudo o resto é compatível: posso escrever, posso representar, até posso fazer um bailado, se voltar a dançar. Há uma série de coisas que se casam. O jornalismo nunca casa. E para ser uma jornalista faz-de-conta, também não …

ASP - Foi fácil, foi feliz a sua infância, crescer com estes seus pais?

CF - Foi maravilhoso. Não podia ter outros pais tão maravilhosos. São de uma grande generosidade, transmitiram-me coisas que para mim são hoje fulcrais e que ditam a minha própria vida. Eles transmitiram-me um sentido de justiça muito apurado, um sentido de dignidade, a necessidade de lutar pelas coisas, não numa perspectiva de ganância, mas sim de realização pessoal, transmitiram-me a sua generosidade e sensibilidade. São os dois muito sensíveis, a sensibilidade está muito à flor da pele, e eu acho que isso é importante, acho mesmo que é fundamental. E depois têm o outro lado: o meu pai é uma pessoa muito culta e a minha mãe é uma pessoa muito criativa. Ele também. Tem muito sentido de humor.

ASP - Aqui há tempos disse: "Apresenta-se o programa mais fútil na TV e tem-se imediatamente direito a entrevistas e capas de revista." Ainda tem a mesma opinião?

CF - Ainda e cada vez mais. Não tenho qualquer revolta contra o programa-espectáculo; como é que poderia ter, se também apresento programas de entretenimento? O que constato é que neste momento expõem-se vidas privadas, promovem-se pessoas que não têm um percurso de carreira, mas depois passam do anonimato para o estrelato. Não acho que isso seja necessariamente mau, mas gostaria que essas pessoas depois viessem a revelar-se nalguma área, qualquer que seja. Para que isto não seja apenas uma moda, mais uma coisa que dá audiências e share às televisões.

ASP - Então, se por artes mágicas se visse na pele do Emídio Rangel, não programava um "Big Brother"?

CF - A resposta mais fácil seria não. Mas não vou dizê-lo. O que vou dizer-lhe é que jamais estaria no papel do Emídio Rangel.

ASP - É lisboeta, já viveu em Londres, acabou por gostar de Londres…

CF - Demorei tempo, mas acabei por gostar muito.

ASP - E onde é que gostaria mais de viver hoje?

CF - Cá em Portugal? Sabe que eu tenho uma grande vontade de um dia ir outra vez embora durante uns tempos. Quando estive em Londres, gostei muito da sensação de estar fora do país e de sentir falta dele. E de gostar mais do país quando se está fora. Quando se está dentro, critica-se, critica-se, e eu sou muito crítica. Acho que ainda nos falta tanto… Falta aplicação, concentração, às vezes somos tão "terceiro mundo". Por um lado, somos carinhosos, temos um acolhimento quase comovente. Por outro, falta-nos o resto. Ficamos todos a olhar para o "Big Brother"! Mas adoro os portugueses, adoro Portugal, provavelmente porque nasci aqui, porque as minhas raízes são muito portuguesas. Quer dizer, se formos andar um bocadinho para trás, chegamos à Índia e ao meu bisavô. Mas gosto do que é meu, e cuido do que é meu. Desde as minhas coisas, os meus amigos, os meus cães e o meu país. E tento fazer alguma coisa por ele.

ASP - Apetece-lhe casar, ter filhos?

CF - Um dia.

ASP - E a família, os avós, são importantes?

CF - Claro. A todos os níveis. Não só no nível prático, que é o poderem ficar com as crianças, mas ao nível afectivo. Os meus avós foram as pessoas que mais me marcaram. Infelizmente, já não tenho as minhas duas avós, nem um dos meus avôs, mas foram de facto as pessoas que mais me marcaram. Foram as primeiras a desaparecer da minha vida. Foi a primeira vez que percebi o que significa morrer, o que é a morte. A falta que me fizeram quando percebi que já não voltavam… Mas foram também as pessoas que mais me fizeram, com a sua preocupação da educação, do que é correcto ou não, não só a preocupação e a vontade de dar e de entregar que cabe aos avós.

ASP - Tem medo da morte?

CF - Tenho. É uma coisa que ainda não resolvi. Não sei se é medo. Não queria morrer. E não queria que as pessoas de quem eu gosto morressem. Tenho ataques de ansiedade em relação à morte quando penso nela mais intensamente e a vejo num túnel muito negro e sem regresso. Se calhar, porque vivo a vida com muita intensidade, acordo a rir, acordo a dançar, acordo bem disposta, e dedico-me muito aos meus amigos e à minha família. E daqui a uns tempos vou sentir ainda mais isso, porque vou entrar numa fase da vida em que nos morrem pessoas… Provavelmente, se acreditasse em Deus iria resolver isso, mas não consigo acreditar, e sou de uma família extremamente católica. Mas tenho imenso respeito. Lembro-me de uma noite acordar em pânico, a chorar, e ir ter com os meus pais e dizer-lhes que não queria morrer e não queria que eles morressem… Sempre foi uma coisa muito consciente em mim, não sei porquê. Os meus pais são muito alegres, os meus avós também foram. E de repente, quando os meus avós morreram, foi uma coisa muito forte, porque tive consciência plena de que aquilo era verdade, a morte existia.

ASP - As pessoas definem-se muito, ou são definidas pelos outros, por aquilo que fazem, e às vezes parece que a sua vida está inteiramente organizada em torno do trabalho, uma profissão, uma carreira. E o amor? Era capaz de largar tudo por um amor?

CF - Estou a hesitar em responder. Quero ser muito sincera. Há uma diferença entre a paixão e o amor. A paixão faz-nos cegos, surdos, mudos, faz-nos vibrantes e poderosos. O amor é muito mais sólido e consistente, pressupõe uma construção a dois. Eu gosto muito daquilo que faço, da minha profissão, porque também é um amor para mim, e nesse sentido a pessoa que está ao meu lado, que eu amo e com quem quero construir esse amor sólido, tem que estar lá para mim também, na profissão, como eu tenho que estar lá para ele, na sua profissão. Portanto, acho que não se pode abdicar de uma coisa pela outra, porque ao abdicar-se vai sentir-se falta mais tarde. Se eu gosto tanto daquilo que faço, gosto mesmo muito, em não o tendo, esse amor iria diluir-se de certeza, iria dissipar-se, como as fogueiras, que se vão apagando.

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