Já não são, dizemos nós, desde que uma Virgem - a Senhora da Lapa milagrosamente lá quis habitar numa estranha morada feita de rochedos.

O passeio dá para ver como isso aconteceu.

Estamos na pequena aldeia da Lapa, no largo frente ao santuário que os Padres Jesuítas levantaram com rigor e sobriedade no século XVII. Está calor ou frio, conforme é Verão ou Inverno. Não há mais estações aqui!

Entramos e espantam-se os olhos. Retábulos barrocos de forte dramatismo contam a Morte de S. José, a Visão de Santo António, a dolorosa Descida da Cruz e o abandono de Cristo na Cruz com guardas romanos que as gentes chamam de judeus.

Surpresa maior é o grande rochedo que o templo abriga, onde se vê a abertura de uma gruta (a Lapa) e ao lado desta, à esquerda, o altar de um lindo Menino Jesus de Vestir; à direita, o altar da Dormição de Nossa Senhora. Dentro da gruta, a luz ilumina uma pequena imagem de Nossa Senhora da Lapa.

Conta o povo que uma pastora da vizinha aldeia de Quintela, Joana, muda e inocente, terá encontrado aquela imagem há 500 anos, levando-a para a sua aldeia. Entronizaram-na na igreja, mas a imagem regressava à sua Lapa, onde lhe levantaram uma capela, e começaram então os milagres e as romarias.

Na parte exterior do rochedo, pode ver-se a cenografia de um presépio da Escola de Machado de Castro (século XVIII). Em frente, vale a pena entrar o portão de ferro que se abre para a Capela do Santíssimo, de belíssima talha barroca. Ali jazem os restos mortais de velhos senhores desta terra.

Indo em volta do rochedo, encontra-se, pendurado do telhado, o corpanzil de um lagarto de uma lenda e de um milagre.
Verdadeiramente, é o corpo de um jacaré oferecido como o ex-voto.

Há ali, na face sul da cabeceira do santuário, uma porta. Se estiver aberta, podemos subir ao sitio do Calvário, atrás do santuário, e olhar a paisagem agra e o casaria pobre-ao redor.

De volta ao largo, reparemos no Colégio, impressionante edificação do século XVII, gémeo do santuário, que educou gerações de meninos da serra e os enrijeceu dentro dos enormes corredores, das frias salas de aulas e das guaridas dos quartos. Provavelmente, poderemos entrar e ver estes espaços renovados. Aquilino Ribeiro aprendeu aqui dentro as primeiras letras, e desde então a Lapa foi para ele "Uma luz ao longe".

Na face sul do Colégio, há um casaria de arquitectura típica, hoje abandonado. No largo, a correnteza das casas mostra sítios de antigas hospedarias. Solenes algumas. Caminhando para poente, há casas com marcas de posse da Universidade de Coimbra (século XVIII), o pelourinho, da elevação a vila em 1740, o pequeno Solar dos Condes da Lapa, senhores da terra.
Descendo, vamos até ao chafariz, erguido em 1734, onde bicas de bronze despejam abundantes águas, que são as primeiras, diz o povo, do rio Vouga. Mas o rio nasce mais além, no descampado.

Pode beber-se daquela água, pois não há melhor pela serra, como não há pão melhor que o pão de trigo cozido nos fornos da aldeia da Lapa, onde apenas se inicia um programa de recuperação benfazeja.

 

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