Com o coração alvoroçado, estendi o meu passaporte a um guarda da fronteira. Alguns oficiais em uniformes verdes observavam-me, enquanto soldados armados olhavam, impávidos. Aquele estalinho ruidoso seria o som do obturador do diafragma?

Numa noite fria e chuvosa de Novembro de 1963, no pico da Guerra Fria, passava eu pelo balcão da Polícia das Fronteiras para entrar em Berlim Leste. Excitado e assustado, eu tinha 20 anos e este era o meu primeiro encontro com o mundo da bandeira vermelha.

Com o passaporte na mão, deixei o capitalismo para trás e entrei no severo, depressivo e perturbador mundo do comunismo. As luzes das ruas eram fracas, as lojas, escuras e com poucas coisas. Os buracos das bombas ainda se viam entre os prédios. Virtualmente sem tráfego, apenas ocasionalmente um carro de duas mudanças que deixava um rasto de fumo. As poucas pessoas que se viam pareciam sujas e absorvidas pelos seus pensamentos.

Projectada a negro pelas luzes brilhantes de Berlim Leste, via-se a Porta de Brandeburgo. Tremi só de olhar para o lado «errado» do Muro, com a sua linha de morte escondida na muralha interior, e toquei no meu passaporte para me certificar de que ainda o tinha.

Quase meio século mais tarde, voltei ao mesmo local. Espreitando da Porta de Brandeburgo para aquilo que tinha sido Berlim Leste, a primeira coisa que vi foi um Starbucks, exactamente em frente da Embaixada dos Estados Unidos.

Como visitante da nova Berlim, há sempre uma pergunta que, invariavelmente, nos vem à cabeça: onde era o Muro? Seguindo a fila de pedra arredondada que atravessa cruzamentos e passa por debaixo dos carros, encontro a faixa da morte ainda visível.

Pode ser difícil encontrar pedaços do Muro. Os que melhor se vêem são os pólos curvos ou em forma de cotovelo que suportavam os holofotes ao longo da primeira faixa da morte e, abaixo desta, os restos da estrada de patrulha. Existem postes pintados de um encarnado e branco desmaiados, marcando a zona de controle onde os Berlinenses Ocidentais não podiam entrar e terminais nas esquinas das casas para fios de electricidade ou arames de alarme. E algumas relíquias são nítidas.

Explorando o comprido relvado na parte de fora da estação de metropolitano de Nordbahnhof, no local onde foi em tempos a zona da faixa da morte, raspei com a canela numa trave enferrujada saída do chão, talvez um resto de uma barreira para os veículos. Com um gemido, vi que o sangue gotejava através dos meus jeans, mas não liguei importância.

Imaginem a cena há 20 anos – as luzes cor-de-laranja, cães enraivecidos presos às suas correntes, sirenes estridentes, luzes que cegam e a seguir as balas.

Actualmente, não podia ser mais diferente. Saindo da Estação de Wollankstrasse pelo caminho de asfalto, encontro pessoas a correr, a passear cães e um pai ensinando à sua linda e loira filha de 5 anos a andar num unicycle. Depois, avistei os candeeiros de rua arqueados por cima da minha cabeça e realizei com surpresa que estava passeando ao longo da faixa da morte do Muro. Um dos candeeiros tinha faixas «encarnadas, brancas, verdes, brancas», indicando a distância-limite de uma patrulha, porque os guardas das fronteiras não as podiam atravessar, pois seriam mortos como desertores. Do Muro propriamente dito, apenas vi algumas secções que bordejavam alguns quintais e algumas placas de cimento empilhadas num armazém.

Mais tarde, quando num domingo passeava por Wannsee, a sudoeste da cidade, deparei com um campo cheio de flores, tão largo como uma auto-estrada de seis faixas, a aparecer do pinhal. Era outra reminiscência do Muro, do qual desapareceram todos os traços, excepto o próprio local, que permanece. Caminhei ao longo do campo até um local chamado Teltow Canal, que foi fronteira, e encontrei uma torre de vigilância que era agora um bloco de casas de banho para os campistas.

Os vestígios mais significativos do Muro, penso eu, não são os tijolos e a argamassa, mas o espaço vazio que se vê no mapa. Na cidade como nos subúrbios, esse espaço é uma bênção.

Ao longo de toda a Cortina de Ferro, como neste local, a um número muito restrito de pessoas era permitido o acesso à zona de controle do lado ocidental e à zona da fronteira propriamente dita, de forma que esta se transformou num refúgio de vida selvagem.

Mais tarde, continuando a seguir os trilhos, desci até Zimmerstrasse. De um lado e de outro, há edifícios novos com lojas e escritórios. Sem esperar, encontrei um pilar de bronze com a história de Peter Fechter gravada, o infeliz pedreiro de 18 anos que foi morto quando, em Agosto de 1962, subia o Muro neste local. Ao morrer numa poça de sangue, murmurou: «Porque é que ninguém me ajuda?» Ninguém ajudou porque tanto as pessoas de um lado como as do outro pensaram que o lado oposto ia disparar.

Ainda me lembro de ver nos jornais as fotografias do seu corpo crispado. Fechter tinha exactamente a mesma idade que eu. O que é que o terá levado a fazer esta coisa tão irreflectida e até tão estúpida? Porque não está ele a brincar com os seus netos, olhando para trás, para uma vida cheia, como eu?

O horror da «muralha dos comunistas, de protecção contra o antifascismo», não está nos seus tijolos e arame, mas no sangue derramado de pessoas desejosas de gozarem da liberdade que a nossa geração do Ocidente tinha como certa. O espírito do Muro de Berlim está nas suas histórias verídicas, como as contadas no museu ao lado do Checkpoint Charlie. Nos quartos apinhados e caóticos de três casas geminadas, fiquei pasmado com as fotografias desfocadas dos tanques soviéticos e americanos confrontando-se em Outubro de 1961 nesta rua, quando o Mundo esteve na iminência de outra guerra. Li histórias sobre fugitivos, vítimas da Stasi, famílias separadas pelo terror.

O espírito do Muro voltou a tocar-me na Bernauer Strasse. Existe aqui uma relíquia da parte principal do Muro e uma secção da faixa da morte totalmente restaurada.

Mesmo a seguir ao Muro, no meio de algumas árvores, vi uma estátua prateada de Conrad Schumann caída sobre arame farpado, com a sua arma pendurada. Conseguimos aperceber-nos do bater do seu coração, da sua boca seca, do seu olhar fixo nas espirais do arame farpado que seriam a sua morte se ele tropeçasse nas suas calças e caísse durante a sua espantosa tentativa de liberdade.

Perto, uma placa de bronze no pavimento homenageia Ida Siekmann, uma mulher de meia-idade que saltou da janela de um terceiro andar do seu apartamento e que morreu. Imaginem o pânico, a coragem, o salto desesperado.

À tarde, o som dos sinos levou-me até à Capela da Reconciliação. Nesse lugar, no meio da faixa da morte, existiu em tempos uma igreja de estilo gótico que não podia ser usada por ninguém. O pastor Manfred Fischer, o pároco, nunca tinha entrado na sua própria igreja porque esta se encontrava entre os dois Muros. Quando em 1985 visitou Nova Iorque, olhou por acaso para as notícias da televisão e viu a sua igreja ser deitada abaixo.

Depois de o Muro ter caído, as paredes da pequena e simples capela oval que agora aí existe foram construídas com parte do cascalho do Muro misturado com argila. Juntei-me a 70 pessoas, a maioria adolescentes de escolas alemãs. O pastor Hermann Jäger leu um trecho da curta vida e tentativa de evasão de um jovem alfaiate chamado Günter Litfin, o primeiro a ser alvejado a tiro no Muro. Foram acendidas velas e rezadas algumas orações.

Mais tarde, soube que o pastor Fischer tinha deixado a sua paróquia à pressa para evitar que um bulldozer começasse a deitar abaixo a parede do lado de fora. Porque seriam as ruínas tão importantes?

«Estas relíquias são uma mensagem de esperança», disse-me ele. «A ideologia comunista envenenou não apenas o solo da RDA, como também as almas. O seu sistema retirou toda a confiança da sociedade, e sem confiança não há liberdade. Mas o sistema foi derrotado pacificamente. O que o Muro nos lembra é que, se estas coisas são possíveis, se aconteceram aqui, podem acontecer em qualquer lugar.

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1 Comentários

M Santos on 27 October 2009 ,09:49

Era assim na terra das amplas liberdades: faziam-se muros para evitar que as pessoas fugissem para onde a liberdade não existia... Mas ainda há muitos a acreditar nessa utopia, infelizmente!

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