Em maior ou menor grau, sou sempre um atormentado. O meu cérebro passa a maior parte do tempo a pensar em coisas que podem cair-me em cima da cabeça, dar cabo de mim ou entrarem dentro de mim contra minha vontade.

Este estado pode ser comparado à hipocondria. Os meus amigos gozam comigo, mas, para mim, o melhor reconhecimento do maravilhoso dom da vida é esse receio constante de que ela possa acabar prematuramente por factores que escapam ao meu controle.

Graças ao Google, nunca foi tão fácil descobrir todos os padecimentos que podemos ou não ter. A comunicação social está permanentemente a assustar o público com um frenesim de temas de saúde – enquanto os hipocondríacos se reúnem em chat rooms onde podem não só discutir as suas próprias doenças, mas também especular sobre as doenças que possam afligir pessoas no outro canto do Globo.

A hipocondria veio para ficar. Propaga-se tão bem como as infecções bacteriológicas temidas pelos seus devotos. Porque não habituarmo-nos e ver os lados positivos?

Eu ia dar uma lista de 13, mas com medo de contrair triskaidecafobia (medo do número 13), vou dar apenas 6.

É estatisticamente impossível que todos os que julgam estar doentes estejam enganados.
Pelo menos, um pequeno número terá alguma doença que diagnosticaram imediatamente e que já sabiam que iam contrair antes mesmo de contraí-la. Que médico seria capaz de providenciar tal serviço? «Está de óptima saúde, Sr. Speight, mas lamento dizer-lhe que dentro de dois meses irá contrair a febre nasal do Camboja. Aqui está o remédio de que vai precisar.»

Se fôssemos todos hipocondríacos, o diagnóstico psíquico seria o próximo passo mais importante, os pacientes poderiam ser tratados antes de adoecerem e as listas de espera do Serviço Nacional de Saúde seriam mínimas.

Os melhores momentos da vida são aqueles que roubámos quando ninguém estava a olhar.
Um dia de gazeta em casa a ver péssimos programas de televisão que de repente nos parecem fantásticos e a apreciar a alegria infinda de comer um almoço empacotado, feito para o trabalho, anichado no sofá pode fazer muito bem. Mas os sentimentos de culpa abundam – mentiu-se ao patrão. Não será o dia mais proveitoso, e portanto mais benéfico para a sua saúde, se estiver realmente convencido de que está doente? Claro que sim.

Para arranjar curas para as doenças, temos primeiro que contar os pacientes.
A prioridade na descoberta de curas vai para aquelas doenças cujas consequências são mais graves e cujos doentes são mais numerosos. Mas quando o número de pessoas com determinada doença não chega para ela ser levada a sério, será que saber que está em minoria e que os fundos vão para outras pesquisas diminuirá o sofrimento dos que realmente sofrem dela? Claro que não.

Sendo assim, não nos deveríamos autoconvencer de que sofremos de males raros para aumentar os números? Assim praticada, a hipocondria é essencialmente trabalho de caridade, uma causa nobre para promover a cura de todas as doenças do Mundo.

As pessoas queixam-se muito de que as salas de espera dos médicos estão cheias de «aflitos».
Considero que este é um dos mais notáveis feitos dos hipocondríacos. Se as salas de espera dos médicos não estivessem cheias de pessoas que não estão realmente doentes, não haveria filas de espera. Se não houvesse filas de espera, não haveria espera. Sem espera, as salas de espera não existiriam e, então, quem tivesse uma doença a sério chegaria ao consultório e seria sugado por um buraco negro. É isso que querem? Não? Então, é melhor mexerem-se e irem ver o que é essa tosse. Parece grave.

Os clientes-mistério são pessoas que compram nas lojas coisas de que não precisam.
Fazem-no porque são doidos? Não, fazem-no para testar e melhorar o serviço ao cliente num país que bem precisa disso. Os hipocondríacos são os clientes-mistério do Serviço Nacional de Saúde, assegurando um melhor nível de cuidados de saúde para todos nós.

Seja como for, quem é que quer viver para sempre?
Não há gente mais irritante que aqueles santinhos que bebem imensa água, comem imensa fruta e são de um optimismo sem limites. São o género de pessoas que nos obrigam a fazer coisas durante as férias, quando tudo o que nos apetece é estar sentados a ler. Gostam de desafios, enquanto o resto das pessoas preferem coisas que façam bem sem terem que pensar. Eu gosto de preguiçar frente à televisão e mexer-me o menos possível. Se para me deixarem sossegado tiver que convencer-me a mim próprio de que tenho «raquitismo dos símios da Mesopotâmia», então seja.

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