Diz Madalena d’Orey com simplicidade: «Compreendi que, se fiquei viva, por algum motivo foi. E foi, seguramente, para poder ajudar os outros.»

«Vamos lá, todos! Um, dois, três: “O meu chapéu tem três bicos/ tem três bicos o meu chapéu/ se não tivesse três bicos/ o chapéu não era meu.” Muito bem! Agora, não vale dizer chapéu, Ok? “O meu … tem três bicos/ tem três bicos o meu …/ se não tivesse três bicos/ o … não era meu.”»

Quem lidera as cantigas é Madalena d’Orey. Ela canta, ela bate palmas, ela levanta o moral. Ela lembra a hora dos remédios, ela liga para as famílias, ela toma as decisões do grupo. Ela dá a mão, ela dá colo, ela rebola no chão. Assim é Madalena d’Orey, de 38 anos, sempre que sai em grupo com crianças a precisarem de levantar o moral. Assim foi durante 10 anos nos campos de férias da Acreditar (Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro). A ex-gestora de empresas tornava-se gestora de miúdos surpreendidos pela doença.

Foi em 1993. Um grupo de pais e de médicos desafiou-a a estar na equipa fundadora da Acreditar, e ela percebeu que tinha chegado o dia. Era altura de retribuir uma dádiva antiga. «Tive cancro aos 10 anos. Na altura em que fiquei doente, não se falava em cancro infantil, não havia. Cancro era sinónimo de morte e, por isso, foi um verdadeiro milagre ter sobrevivido.»

Na altura, Madalena não percebeu bem a dimensão da doença: «Mas calculei que fosse grave porque senti os efeitos da quimioterapia, ficava muito enjoada, vomitava, fiquei sem cabelo … Há 30 anos, os tratamentos eram muito mais agressivos e eu percebi que estava muito doente. Passado um ano, uma amiga da escola também teve cancro, só que ela acabou por morrer. Foi aí que comecei a processar tudo e a fazer perguntas: porque é que ela morreu e eu não?

O que é que se passa? Qual é o sentido de tudo isto? E então, com o passar do tempo, compreendi que, se fiquei viva, por algum motivo foi. E foi, seguramente, para poder ajudar os outros.»

O convite para fundar a Acreditar fez, por isso mesmo, todo o sentido. Madalena d’Orey tinha 22 anos e achou logo que aquela associação fazia todo o sentido. «Quando eu estive doente, tive a vida muito facilitada por viver em Lisboa. Fazia os tratamentos e ia para casa, fazia análises e ia lanchar a casa … não fiquei longe da minha família, o que ajudou muito. A Acreditar tem como objectivo proporcionar qualidade de vida aos miúdos doentes no IPO longe de casa. Porque para quem tem a família longe é ainda mais difícil. Então, achei que, de facto, eu podia ajudar, sobretudo com a minha experiência de ex-doente.»

Na altura em que teve o convite, Madalena tinha acabado o curso de Gestão e trabalhava no Santander. No tempo livre, apoiava as crianças e as famílias no hospital. Logo depois, começou a organizar os campos de férias dos miúdos e o trabalho não parou de crescer. «Havia tanto para fazer, e aquele trabalho dava-me tanto gozo, era tão importante, era tão gratificante, que resolvi deixar o banco e dedicar-me em exclusivo à Acreditar.»

Com a dedicação exclusiva, Madalena deixou de ter fins-de-semana, noites ou férias. «Cheguei a levar 300 crianças, de mochila às costas, para campos de férias. Era uma aventura!» Ganhou muito durante esses anos. Também perdeu. Porque, quando se lida com uma doença como o cancro, é preciso estar preparado para perder. Mas ela não se deixa abater. «Não me foco na morte, percebe? Prefiro pensar: ainda bem que eles puderam estar acompanhados nos últimos momentos das suas vidas. Pelo menos, pude contribuir para lhes proporcionar o melhor enquanto viveram. Sou uma pessoa muito positiva e acredito que há sempre alguma coisa a fazer, nem que seja ajudar alguém a sorrir.»

De todas as crianças que lhe passaram pela vida, é difícil destacar uma. Madalena desfia um novelo delas, descreve os seus risos, a luz do seu olhar nos momentos de alegria, a força que as fez dar a volta por cima ou a forma corajosa com que viveram os últimos dias de vida. «Viemos tantas vezes de ambulância com as crianças para Lisboa quando estávamos nos campos de férias … tantas vezes. Uma vez, fui de Seia a Coimbra de ambulância com um dos rapazes e depois de Coimbra para o IPO em Lisboa. Ele tinha 8 anos. No dia seguinte, morreu. Lembro-me sempre da médica dele, a Dr.ª Margarida Ferreira, se cruzar comigo no corredor e dizer: “Obrigada, Madalena, porque os últimos dias dele foram felizes.” Eu sabia que ele não podia morrer ali no campo de férias. Enquanto lá esteve, foi muito feliz e depois morreu em paz no hospital.»

Madalena aprendeu muito com os 10 anos de dedicação à Acreditar. «Aprendi a ouvir. Aprendi a estar. Porque, quando estamos a acompanhar miúdos doentes e as famílias, às vezes nem é preciso falar. Basta estar. Basta que sintam que nós estamos ali. Para o que for preciso. Para dar o ombro, para um abraço, uma festinha. Para um desabafo. Ou para nada. Só para que se sintam acompanhados.» Além disso, há alturas em que um voluntário pode ser um precioso tradutor. «A equipa de médicos do IPO é extraordinária, mas todos sabemos que os médicos falam por vezes de modo muito técnico que os pais não percebem. É bom terem alguém que descodifique, sobretudo se for alguém que já passou pelo mesmo e que já acompanhou muita gente na mesma situação.»

Não é só o cancro propriamente dito que Madalena d’Orey trata por tu. É também a parte psicológica, o medo, a vertigem da morte ali tão perto. «Uns tempos depois de já estar curada, assim que tinha uma dor achava que era um cancro. Tinha uma dor de cabeça, achava que era um cancro na cabeça. Tinha uma dor de estômago, era um cancro no estômago. Nessa altura, não estava tão vulgarizado o recurso à ajuda psicológica e eu tive de superar isso sozinha. Um dia, meti na cabeça que, se tinha dores de cabeça, era porque tinha cabeça, e pronto. Passou-me a pancada. Mas andei um ano a bater mal. Por isso, sei como o medo atinge as famílias, como a angústia vive a par e passo com a doença. É normal e é preciso tempo e calma para saber ultrapassar.»

Durante os 10 anos em que esteve em dedicação exclusiva à Acreditar, Madalena sabia que havia de chegar o dia em que tinha de abrandar. «Não era possível manter aquele ritmo louco e desenfreado para sempre. Não sabia quando ia chegar o dia, mas sabia que havia de chegar. E chegou quando casei. Nessa altura, a minha família tinha de estar em primeiro lugar, o que era incompatível com a dedicação exclusiva à Acreditar. Por isso, deixei de pertencer aos quadros e fiquei só como colaboradora. Nessa ocasião, eu e o meu marido fomos dar a volta ao Mundo. Foram quatro meses maravilhosos.»

E depois da volta ao Mundo, nova volta da vida. Frederico Fezas Vital, fundador da associação Terra dos Sonhos (uma associação que tem por objectivo a realização de sonhos de crianças com doenças crónicas e/ou terminais), convidou-a para se juntar ao projecto. «Foi uma longa conversa, de horas sem fim, em que ele me explicou a ideia da associação, em que eu dei dicas baseadas na minha experiência, e pronto, fiquei presidente de conselho consultivo da Terra dos Sonhos.»

Neste momento, Madalena já não leva 300 crianças de mochila às costas, já não canta cantigas infantis, já não bate palmas, já não passa todos os fins-de-semana e férias a cuidar de crianças doentes. Está nos bastidores, coordena equipas de voluntariado, dá o lugar a outros voluntários, novos e cheios de energia. «Tenho aprendido muito aqui. Os voluntários são extraordinários! Já realizámos 81 sonhos, o que só é possível com o esforço de todos. Agora já não participo dos campos de férias, mas organizo e tenho muito prazer em saber que continuo a proporcionar momentos de grande felicidade a crianças com doenças várias que, quer por questões de saúde, quer por questões financeiras, de outro modo não poderiam viver esses momentos de felicidade.»

Apesar de estar nos bastidores, Madalena não quis deixar de participar na primeira viagem da Terra dos Sonhos. No Natal do ano passado, viajou com 10 crianças até à Lapónia, a terra do Pai Natal. «Foi muito comovente ver crianças dos 7 aos 11 anos a sorrirem como há muito não sorriam, vê-las a escorregarem na neve e, sobretudo, ver a magia do encontro com o Pai Natal. Tocou-me especialmente ouvir algumas destas crianças a pedirem saúde ao Pai Natal em vez de presentes. Aprende-se muito quando se lida com estes meninos.»

Desde que está na Terra dos Sonhos, já viu de perto muitos sonhos de crianças: «Há de tudo, coisas tão simples … Passar um dia num spa, conhecer a Lucy [Luciana Abreu], andar de avião, ir a uma fábrica de material escolar … Às vezes, é tão fácil fazer uma pessoa feliz!» Talvez o caso que mais a tenha comovido tenha sido o de Laura, a primeira criança a ver o sonho realizado pela associação: «Realizou o sonho num dia e morreu no dia seguinte. Ela só queria uma Playstation. Só usufruiu do sonho durante 24 horas … mas usufruiu! E morreu, contente por ter conseguido realizar um desejo.»

Madalena d’Orey é feliz assim. A ajudar quem precisa. A realizar sonhos, sejam eles grandes ou pequenos. É a sua forma de retribuir a dádiva. «Sei qual é o projecto de Deus para mim. E isso é um privilégio. Além disso, ao dar, recebo muito mais em troca. Não era possível uma felicidade maior.»

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3 of 9 Comentários

Rui Manuel Alves on 17 January 2012 ,16:03

Olá, eu já tive cancro e posso dizer que com a Acreditar, durante as minhas idas ao hospital me senti em casa ... Estas pessoas são fenomais .... Gostaria de saber como estão todos !!! Beijinhos e abraços, Gostava de saber também como está a Madala ....

francisco josé on 28 July 2011 ,13:23

Fico muito agradecido por este grande enrequecimento de nos, esclarerecer, como os alimentos são ricos em proteínas. obrigado por voces usarem uma máquina desta para o bem estar daqueles de necessitam de uma boa palestra que Jesus possa e esta lhe abençoando muito por saber usa a mesma!!!!!!!.

aida pedrosa on 03 Março 2011 ,12:15

Apenas posso dizer QUE DEUS A ABENÇOE

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