Homens, mulheres, solteiros ou casados, m novo filme retrata o seu pesadelo: o endividamento, a vida arruinada. É um novo drama, o dos novos pobres.


E agora, onde é que vou buscar o dinheiro?


Um Casal: “Começámos com um crédito, um terceiro, um quarto. No meio havia uns para pagar os outros. Chegámos a ter 12 créditos.

O meu marido foi-se muito abaixo”. “Agradeço-lhe a ela ter-me dado força. Pela parte que me toca, já tinha feito uma asneira…”.

Uma mulher descarrega mobílias: “Tentei segurar as pontas, empenhar o ouro, pedir dinheiro aqui, pedir dinheiro acolá. Acabei por desistir. Mas ali era a casa dos meus sonhos”.

Uma família: “O mês de Outubro tem mais um dia e tem mais dias úteis… faz toda a diferença. Quantos dias tem um mês? Há meses, para mim, que têm 40 dias”.

São homens e mulheres, sozinhos, separados, casados, famílias inteiras, de todas as idades. São pessoas com quem nos cruzamos todos os dias, no trabalho, nos serviços, no metro. Vivem o pesadelo do sobreendividamento. “Muitos Dias Tem o Mês”, o filme de Margarida Leitão, nas salas em Setembro, retrata-as.

É um documento que mostra uma nova forma de pobreza. “É uma pobreza que não é visível, nem facilmente identificável. São pessoas integradas na sociedade. Apesar de a maioria auferir de um salário ao fim do mês, o dinheiro desaparece em pagamentos de dívidas de crédito e com as penhoras a que são sujeitos. No silêncio, fazem uma ginástica difícil com os números, para conseguir manter a sua subsistência básica: casa e comida. A maior parte dos sobreendividados que encontrei trabalham na função pública. A explicação que deduzi é que têm crédito aprovado com maior facilidade. Oferecem aos bancos e instituições financeiras uma garantia única: em caso de não cumprimento, é possível penhorar o salário”.

O filme acompanha um lote de “personagens”, as suas vivências, a sua luta, o seu desespero, a sua resistência. Assiste a um leilão de imóveis que deixaram de ser pagos. Vai a uma casa encarregue de cobranças difíceis – “Ele tem alguma coisa que possa ser penhorável?” Ouve assistentes da DECO. Regista o alívio do casal que não tem cartas no correio – “Ainda bem!”. Gente que mal consegue abrir a boca. “As entidades telefonavam. O meu marido nunca falou ao telefone. Os nervos eram tantos que não saía nada”. Os relatos que vinham dos bancos: “Lamento muito, mas não quero saber”. Relatos dos senhores da Cofidis que foram lá a casa. Mulheres que ainda lavam umas escadas na hora do almoço. “Muitos Dias Tem o Mês” fala de gente que conhecemos, e cuja realidade desconhecemos.

“Perder o controlo é realmente fácil. Basta acontecer algo de que não se está à espera. Desemprego, divórcio e doença compõem os 3 D´s mais responsáveis pelo sobreendividamento. A partir do momento em que se perde o controlo, a pequena prestação que ficou por pagar num mês transforma-se numa bola de neve, com os juros a crescerem a níveis incomportáveis. As pessoas, de início, não se apercebem da gravidade e das implicações que umas prestações em atraso trazem. Existem lacunas na educação financeira. Na maioria dos casos, acabam por contrair mais créditos para pagar o inicial em dívida, desencadeando uma espiral da qual é difícil sair. Diariamente, debatem-se com decisões complexas. Se pagam a dívida do cartão de crédito ou se tiram os filhos do colégio, se pagam a prestação da casa ou se compram comida. Este problema atinge estatutos sociais muito diferenciados. De licenciados a pessoas com a 4ª classe, de bancários a seguranças, homens e mulheres”.

Os relatos no filme de Margarida Leitão são dramáticos, pungentes. Como o da mulher cuja filha ficou invisual e que se viu, de repente, desempregada e com 400 euros de renda para pagar. Pelo meio, quando ainda tinha um emprego, aderiu a um cartão, não leu as letras pequeninas, sucumbiu à pressão. “O senhor parou em cada secção do meu emprego, fez questão de preencher o formulário. É claro que não fui obrigada a ficar com o cartão, mas que houve muita pressão, houve. Usei o cartão. A loucura de juros que punham quando não pagávamos um mês: era a triplicar!”

Quando se viu desempregada, deprimiu. “Como é que eu faço? Onde é que vou buscar o dinheiro? De Junho para Julho, emagreci 18 quilos”. A sua situação, subitamente, parecia-lhe a dos animais que vê nos documentários de vida selvagem: “Quando a presa está ferida, quando está a precisar de ajuda, é quando os lobos atacam mais depressa. Lobos, leões, tudo e mais alguma coisa”. Margarida Leitão observou que “a depressão é uma consequência natural desta realidade. Nos jornais e televisão acompanhamos o aumento de consumo de anti-depressivos; penso que em alguns dos casos a questão do endividamento estará presente. A pressão e a perseguição são tais que as pessoas quebram. Existem pessoas que se isolam em casa, passando os dias à base de anti-depressivos, desligando os telemóveis para não terem telefonemas indesejados.

Mas no filme, mais do que procurar formas de desistência, andava à procura de formas de resistência. Como se resiste aos telefonemas, à falta de dinheiro, às penhoras dos bens e salários?”

Bela trabalha nos jardins da Câmara, ajeita as plantas, mexe na terra. Mostra umas folhas que escreveu. “Era um desabafo que eu fazia, quando estava chateada com o meu marido. Fiz um resumo das contas. Seis mil euros [de gastos] que na minha vida de casada são causados pelo meu marido. Ele pediu-me desculpa, a chorar, para que não fosse embora. Deu-me 160 euros para pagar a luz. Fui empenhar o meu ouro para pagar o gás e a água”.

É quase irreconhecível quando, no final de “Muitos Dias Tem o Mês” a vemos de camisola decotada, o corpo liberto. “Gosto muito de dançar. Todos os fins de semana vou ao baile. Fico solta. Preciso mesmo daquele bocadinho, de divertir-me. Se não sair, se não for ao baile, não ando bem comigo mesma. Preciso de tirar forças de cá de dentro para continuar a semana na minha luta”.

É fácil passar para o lado de lá. Ou seja, perder o controlo sobre a situação e entrar em colapso financeiro. Conseguir manter o quotidiano é a luta diária desta pessoas. Margarida Leitão assistiu a meses de dificuldades. “Vêem-se obrigadas a manter um jogo de aparências. Ganham importância os pequenos gestos banais – que eram inquestionáveis e que agora já não estão seguros. No filme existe uma ida de uma mulher ao cabeleireiro. Poderá parecer algo supérfluo, mas o facto de durante seis meses não ter podido pintar o cabelo afectou-a psicologicamente. “Custou-me um bocado. Afastarmo-nos desses nossos hábitos…, não só porque gostamos de nos ver a nós próprios, como gostamos de frequentar o espaço.”. A imagem que ela tinha de si própria ficou comprometida, além de ter ficado excluída socialmente de um ritual do qual fazia parte”.

A reacção ao problema do sobreendividamento não é unívoca. Mas, num momento ou noutro, a negação é uma constante. “A princípio, as faltas de pagamento são vistas como algo facilmente remediável. Quando se vêem com dívidas que não conseguem pagar, contraem outros créditos, adiando assim o problema e negando-o mais uma vez. A espiral de dívidas começa a sufocá-los, mas procuram manter as aparências. Fazem viagens com amigos, põem os filhos em colégios, compram carros novos sem terem dinheiro para os pagar. Mas há um momento em que não podem esconder mais e aí são confrontados com uma realidade dura e implacável.

Contudo, quando vemos o homem que está prestes a declarar insolvência dizer que comprou uns óculos de 700 euros, questionamos até que ponto a situação de crise é por ele aceite…”. Este homem é Jorge. E vemo-lo ao longo do filme, sobretudo em contacto com uma assistente. Deixou de pagar créditos, perdeu a mãe, viu-se aflito para fazer face a todas as despesas. “Escrevi umas cartinhas, quero pagar, sim senhora, mas têm de aguardar, tem de ser de acordo com as minhas possibilidades. Pago nem que seja 25 euros por mês”. A assistente sentencia, peremptória: “Os encargos são de 300 e tal euros e tem 500 de ordenado. Não sobra quase nada. Neste momento, a dívida ascende aos 17 750 euros, por baixo”. Sugere-lhe que peça insolvência por incapacidade de liquidação. E acompanha-o à porta com um conselho: “Sabe o que é que a minha avó me dizia? Que só devemos estender os pés de acordo com o tamanho dos lençóis”.

É preciso aprender a estender os pés de acordo com o tamanho dos lençóis. O filme regista, também, um momento em que crianças aprendem que aforrar é um valor. Respondem a questões simples como: “O que deves fazer se tiveres dinheiro?” Gastar em brinquedos e poupar são possibilidades de respostas. A “correcta”, claro está, é a última. É, pelo menos, a aconselhável. Eles vivem intimamente os problemas dos pais, e têm as suas vidas implicadas na tempestade que se sente em casa.

Uma mulher começa por explicar, justamente, que não lhe foi ensinado a gerir o dinheiro. É uma mulher que limpa o pó, freneticamente, e que por fim vemos a olhar uma montra de um centro comercial. Ninguém diria que é uma compradora compulsiva, que não soube resistir à magia do cartão de crédito. “Eu não sabia controlar o dinheiro. A minha maior frustração era viver com os meus pais aos 35 anos. Não tinha a minha independência. Discutia com os meus pais e ia para centros comerciais. Comprava coisas de pele, roupas de marca. Quando comprava aquela peça, sentia-me outra pessoa, feliz. Já que não tinha a minha casa, já que não podia controlar o meu dinheiro… Era um vício e uma alegria ao mesmo tempo”.

Muitas destas pessoas estão sozinhas. No filme, ouve-se: “Para a gente se desenrascar, começámos a recorrer aos cartões de crédito. Não tínhamos auxílio nenhum”. Outras só sobrevivem com o apoio da família. “Continuam a ser as redes de solidariedade familiar e pessoal a valer a muitos, num momento complicado. A mulher que se separou, foi em casa da filha que arranjou refúgio. O casal que leva comida à filha, na escola, teve a ajuda dos pais, que muitas vezes puseram comida na sua mesa. No entanto, em muito dos casos, a vergonha faz com que a pessoa esconda principalmente da sua família a gravidade da sua situação. Noutros casos, quando a situação é muito desesperante e procuram ajudam, esta é-lhes negada por aqueles a quem chamavam família”, diz Margarida Leitão.

Os depoimentos do filme são de uma crueza impressionante. “Umas vezes paga-se a luz, noutro mês paga-se o telefone. Ainda temos 19 meses para acabar de vez com o mal e nunca mais me meto em créditos”. “É impensável juntar dinheiro… Há sempre coisas a surgir, as dívidas, as despesas do dia-a-dia”. “Comprar é a pronto. Créditos, não vale a pena. Ninguém nos daria. E seria pôr mais problemas sobre problemas. Era um poço sem fundo”.

“Muitos Dias Tem o Mês” chega às salas numa altura em que a crise é um dado adquirido, uma realidade tentacular que limita a vida de milhares de pessoas. Mas a ideia do filme é antiga. “Comecei a debruçar-me sobre o tema em 2005. A crise ainda era um cenário remoto. Bancos e instituições colocavam à disposição vários produtos de crédito, tornando acessível a qualquer um sonhos dantes impensáveis. Mas já se liam pequenas notícias nos jornais alertando para o progressivo endividamento dos portugueses, e o tema surgia nas conversas banais que ia tendo. Veio-me parar às mãos um estudo desenvolvido pelo Observatório do Endividamento dos Consumidores do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia de Coimbra que me inquietou mais em relação a esta realidade”.

Entre pesquisa e filmagens, o filme demorou cerca de oito meses a ser construído. A equipa multiplicou contactos, afinou o tom, encontrou aqueles que aceitaram expor o seu drama. “Acho que algumas pessoas tinham vergonha da sua situação e de como perderam o controlo sobre o seu dinheiro. Algumas sentiam principalmente medo. Um medo enorme de serem julgados pelos outros, e condenadas. A crise não era notória e falar sobre dinheiro era tema tabu. Parecia ser mais fácil pôr as pessoas a falar sobre a sua vida íntima do que sobre a forma como geriam o seu dinheiro. Ironicamente ou não, o filme e o facto de serem filmados ajudou alguns a sair do isolamento. Finalmente tinham alguém a quem podiam contar a sua história sem medo de serem julgados. A câmara acompanhava-os na sua luta diária, ouvindo-os sem ter pena ou os condenar. Em “Muitos Dias Tem o Mês” queria em confronto dois padrões antagónicos: a expectativa e realidade, necessidade e desejo, prazer e disciplina. O filme procura reflectir sobre a nossa postura enquanto trabalhador-devedor e consumidor-gastador”.

Um binómio presente no aforismo de Oscar Wilde, que cita: “Há duas tragédias na vida: uma, a de não satisfazermos os nossos desejos, a outra, a de os satisfazermos”.

 

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