A demarcação e a individualidade da região onde se situam os domínios do pinhal profundo são-lhe conferidas pelas características da sua paisagem, que condicionaram um modo de vida e reafirmaram interioridades e solidões. Mas na sua dominância cromática ainda se podem observar resquícios das antigas fruições entre a terra e os homens dos tempos de antes da propagação do mar verde que tudo cobriu e ofuscou.

Sertã – Pedrogão – Álvaro – Oleiros

É um relevo movimentado, contorcido, o desta zona, resultado do entalhe profunda na rocha dominante pela erosão da densa rede hidrográfica do Zêzere. A ribeira que corre aos pés da vila da Sertã é uma dessas linhas de água que sulcaram a rocha. A vila, de povoamento antigo, esteve primitivamente enquadrada em território templário até 1174, quando foi doada à Ordem de S. João do Hospital de Jerusalém.

Talvez date desses tempos o castelo que dominava o frondoso e fértil vale. Hoje, é um monumento arruinado, e dele apenas se percepcionam alguns muros da cerca defensiva. No seu antigo recinto, actualmente transformado em miradouro, ainda são visíveis as ruínas da Cape la de S. João Baptista, primeira matriz da vila. A cadeia e o grande celeiro em que a Ordem recolhia os produtos das gentes do alfoz são simples memórias.

A actual igreja matriz é um templo de três naves, separadas por arcaria apontada, assentes em elegantes colunas de granito de arestas chanfradas. As paredes encontram-se revestidas de azulejos policromados dos séculos XVI e XVII, salientando-se as representações dos apóstolos na nave principal.

A sua construção data da primeira metade do século XV, o que se atesta por uma inscrição que pode ser lida numa das paredes exteriores. Uma outra inscrição, em latim, alude a S. Pedro, padroeiro da igreja, ostentando no seu centro o escudo de D. João sobre a cruz de Avis.

O interior do templo é riquíssimo em talha dourada, distinguindo-se o altar-mor com o cadeiral da antiga colegiada. Atente no púlpito renascentista em forma de urna, apoiado num colunelo de mármore rematado por um capitel de desenho arcaico e, na sacristia, num conjunto pictórico dos séculos XVI, XVII e XVIII, no qual se salientam duas tábuas maneiristas, representando passagens da vida de S. Pedro.

Descendo da Praça da República em direcção à ribeira, percorra a Rua do Vale, fervilhante de comércio. Embrenhando-se no emaranhado do núcleo mais antigo, visite a Igreja da Misericórdia, construída talvez no século XVI. No seu interior, ao qual se ascende por uma íngreme escadaria de granito de original traça, são notáveis os painéis de azulejos do século XVIII, com passagens da vida de Nossa Senhora.

Siga depois para a parte baixa da vila e observe as hortas ao longo da ribeira. Percorra a Alameda da Carvalha em direcção ao antigo Convento de Santo António e deixe-se envolver pela frescura das águas e pelo som dos açudes.

Terra de hospitalários, várias capelas pontuam a malha urbana: S. Sebastião, Santo António (no local chamado do Calvário e com um harmonioso alpendre) e a de Santo Amaro. Mas é a Capela de Nossa Senhora dos Remédios, situada a 2 km, na extremidade norte da vila, que merece particular relevância.

Conhecida por Nossa Senhora do Meio, por se situar no centro geográfico de Portugal, ou do Olival, a ela recorreu D. Nuno Álvares Pereira em momentos cruciais da História de Portugal, como referem as crónicas. Junto à estrada que conduz a Cernache do Bonjardim, num moderno restaurante pode deliciar-se com alguns dos pratos da gastronomia local: sopa de peixe, bucho à moda da Sertã e os maranhos.

Partindo da Sertã, pode optar por um de dois rumos: seguir em direcção a Cernache do Bonjardim ou tomar a estrada que o conduzirá a Pedrogão Pequeno. Em Cernache, visite a matriz, do século XVI, com três altares de talha e com imaginária antiga, e, ainda, a Quinta das Águias, que pertence ao antigo Convento de S. José, dos finais do século XVII. O desenvolvimento da localidade deve-se ao grande Colégio das Missões, fundado por D. João V.

A igreja do convento e pombalina. Se optar pela rota de Pedrogão Pequeno, suba ao Santuário de Nossa Senhora da Confiança, situado num alto cabeço, conhecido outrora por Calvário. Mais adiante encontrará Pedrogão Pequeno. Visite a igreja matriz, fundada talvez no século XVII, com belos altares adornados com alguma imaginária de qualidade. Um pouco mais adiante, repouse os olhos na pureza azulada da Barragem do Cabril.

Partindo de Pedrogão Pequeno e atravessando a serra de Alvelos, dirija-se para a antiga vila de Álvaro. No cimo de uma colina, encontrará uma espécie de miradouro donde se abarca uma panorâmica geral da povoação que se desenvolveu num íngreme e estreito esporão sobre o Zêzere. Descendo do miradouro por uma inclinada e longa rua, alcançamos a parte mais baixa do casario.

Na Praça da Misericórdia situa-se a igreja do mesmo nome, construção dos finais do século XVI. Nela sobressai um invulgar conjunto escultórico quinhentista em pedra de Ançã: uma deposição de Cristo no altar da capela. Ladeando o mesmo altar e em tamanho natural, avultam as figuras de José de Arimateia e de Nicodemos.

Observe também a imagem do Senhor dos Passos e o conjunto de ingénuos ex-votos do século XVIII comemorativos de evocações e de preces atendidas pelo Senhor em momentos de aflição. Na igreja matriz, muito adulterada, evidenciam-se um sacrário de pedra de Ançã e uma imagem do Espírito Santo.

Siga para Oleiros, vila que teve foral em 1232 e que se manteve sempre sob a alçada da poderosa Ordem do Hospital. Visite a matriz, templo de três naves. O altar-mor tem talhas ricas. A capela-mor é revestida por azulejos do século XVIII com temática mariana.

Os tectos são notáveis: neles se conservam ainda toda a estrutura de madeira e quarenta quadros com pinturas de lendas do Antigo e do Novo Testamento, de forte carga simbólica religiosa. A Igreja da Misericórdia, dedicada a Nossa Senhora da Visitação, foi templo reconstruído nos inícios do século XVIII. A vila, muito descaracterizada, possui alguns elementos arquitectónicos de interesse, como o Solar dos Viscondes de Oleiros, com a sua capela privativa.

Num jardinzinho em frente à Câmara Municipal, uma placa relembra o Padre António de Andrade, aqui nascido em 1591, e o primeiro europeu a fazer a subida do Tibete, de que nos deixou pormenorizado relato.

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