Isabel Figueira - A cigarra trabalhadora

Às 11 da manhã é uma mulher como as outras. Deixou o filho no colégio, veste confortavelmente, está de cara lavada. Bebe chá de frutos silvestres e põe açúcar, cumprimenta na rua uma amiga que passa. É certo que chega num carro que dá nas vistas – e que, diz com orgulho, comprou; não é um carro emprestado por uma marca qualquer que se quer associar à «marca» Isabel Figueira. E os óculos também dão nas vistas: são vermelhos e dourados; sobretudo são gigantes. E esses, sim, são patrocinados por uma marca que apostou nela para a sua campanha europeia.
Porque é que se aposta em Isabel Figueira? Porque ela é célebre. É um troféu para os homens, uma apresentadora de televisão, uma manequim disputada.
Tem esse je ne sais quoi que a fez vingar. Um grão de sal que faz que hoje saibamos quem ela é – apesar de não ser a mais alta, nem a mais magra, nem a mais perfeita. Se fosse em inglês, diríamos que é uma it girl.
Sentámo-nos num café do Chiado, e a voz dela, grave, encheu a sala toda. Respondeu com simpatia, foi articulada, insistiu na ideia de que lutou pelo seu sonho – e isso fez dela aquilo que é.
Pelo menos uma parte de Portugal sonha com ela. As pessoas olham-na na rua. Porque é a Isabel Figueira? Sim. Mas também porque sabe como pisar, sabe como fazer para que notem que passa. E tudo isso com um sorriso que não ostraciza as mulheres, não faz que a vejam como uma rival. Em muitos aspectos, é uma Isabelinha como as outras. E isso também é parte do seu sucesso.
Saiba como conseguiu chegar aonde queria.
Selecções do Reader’s Digest – O seu filho tem dois anos e meio. Como era a sua vida quando tinha a idade dele?
Isabel Figueira – Agitada. Andava já num colégio em Linda-a-Velha. Eu era uma criança muito parecida com o meu filho. Tinha a energia dele e era independente. Fazia tudo o que uma criança de dois anos e meio faz: brincar, ver DVDs, ler.
SRD – Fiquemos na sua infância. Nasceu onde? Em que família?
IF – Nasci em Lisboa, o meu pai trabalha na Unicre, a minha mãe a vida toda trabalhou no Pingo Doce. Uma família de classe média, humilde, que me deu uma educação e um berço de ouro. Tudo o que conquistei não teria conquistado se não fosse a educação que me deram. Tenho um irmão que não andou em colégios. Os meus pais tinham uma educação muito religiosa. Andei 13 anos na catequese, tenho o crisma, ia à igreja todos os domingos com a minha mãe.
SRD – O que ficou dessa relação com o catolicismo?
IF – Muito pouco. Há uma relação íntima com Deus. Quando chego à cama e preciso, falo. Para mim, a religião é acreditarmos em nós próprios, gostarmos de nós próprios, tratar bem o próximo – o que, hoje em dia, é pouco evidente. Sou católica, acredito em «algo» que nos faz sair do Mundo, abstrairmo-nos. Mas se não formos nós a ajudar-nos a nós próprios, ninguém nos ajuda. Ninguém nos vai dar trabalho se estivermos sentados o dia todo.
SRD – A sua formação fez-se em colégios. Entrou com que idade? Qual foi o seu percurso?
IF – Fui uma menina de fardas. Entrei com 4 anos e saí aos 14. Andei num primeiro colégio até ao quinto ano, depois frequentei um colégio de freiras no Restelo e por fim fui para as Escolas Secundárias de Linda-a-Velha e de Carnaxide. Fiz o 12.º ano, não passei daí. Comecei a trabalhar com 17 anos numa pizaria.
SRD – Vamos mais devagar … Porque deixou os colégios?
IF – Disse ao meu pai: «Quero ser uma menina normal, quero ir para uma escola normal. Preciso descobrir o que é a vida.» Nos colégios, as pessoas são muito protegidas. Vivem num mundo de pessoas que têm o mesmo nível económico e não têm noção do mundo exterior. Eu era do «senhora Professora» … A primeira vez que ouvi dizer «stora» fez-me imensa confusão. Não quer dizer que as pessoas [cá fora] sejam menos educadas; mas [nos colégios] a educação era muito rígida. Sempre fui rebelde: por causa disto.
SRD – Deixou a escola para ser modelo. Nesse quadro familiar e social, como foi recebida a sua decisão?
IF – Para os meus pais, era impensável que eu abandonasse o 12.º ano para seguir uma carreira de modelo! O meu pai é formado, fez agora o mestrado; era de muito boas famílias, andou em bons colégios. A minha mãe era o oposto; e por nunca ter tido possibilidades monetárias para prosseguir [os estudos], tentou incutir-me isso. Então, foi uma grande desilusão quando, aos 17 anos, disse que não queria estudar mais. Queria dedicar-me à moda e lutar por um sonho: ser apresentadora.
SRD – Conte-me a história de amor do seu pai e da sua mãe.
IF – Contar é expor um pouco a vida deles, e não sei se querem … Eu também não falo da minha. Já falei e arrependo-me. Mas, resumindo muito, é uma história de amor bonita entre duas pessoas que olharam uma para a outra numa fase da vida em que não estavam bem. Deram oportunidade ao coração de amar uma vez mais. E um ano depois nasci eu. O meu irmão tem agora 22 anos, é mais novo.
SRD – A sua mãe é parecida consigo? O seu pai apaixonou-se pela beleza dela?
IF – Era uma mulher extremamente bonita, asseada. Tinha um corpo admirável. Ainda hoje, tem uma pele fantástica. Não saía à noite como nós saímos, não bebe como nós bebemos, não apanhava sol como nós apanhamos sol – todas as asneiras que fazemos quando somos jovens e que temos de fazer: são experiências que nos fazem crescer interiormente. O meu pai também era um galã. O meu irmão prefere o anonimato.
SRD – Não quer ser reconhecido como «o irmão da Isabel Figueira»?
IF – Precisamente. Ele sofreu imenso quando foi a campanha da Triumph e quando comecei a ser conhecida. Tinha medo de que as raparigas se aproximassem dele por ser «o irmão da Isabel Figueira». Hoje, vive melhor com isso e tem orgulho na irmã. Porque ele viu-me a lutar pelo meu sonho.
SRD – Os seus pais também são conhecidos como «os pais da Isabel Figueira»? Isso incomoda-os?
IF – Não propriamente. Mas para o meu pai, quando fiz a primeira capa da Maxmen e ele viu a filha de biquíni para Portugal inteiro, foi complicado. Hoje, tenho cinco capas da Maxmen, duas capas da GQ, várias capas como manequim e consegui fazer um percurso profissional óptimo. Tenho as capas de biquíni que tentei equilibrar com campanhas mais sérias ou com o programa na televisão (que faço há seis anos). Para as pessoas não terem só a imagem da …
SRD – Pecadora. Está sempre entre a Santa e a Pecadora. Que é o que ocorre olhando para o seu passado de menina de colégio de freiras e para as capas das revistas.
IF – Exactamente. O meu trabalho ajudou os meus pais a compreenderem que é possível viver deste mundo. Mas que é indispensável que eu acredite em mim. Não sou uma manequim muito alta, nunca fui muito magra e sempre consegui fazer trabalhos que uma manequim de 1,80m e espadaúda faria. Continuo a trabalhar aos 28 anos.
SRD – O seu pai receava que ficasse mal falada?
IF – Não. Tinha medo pelo meu futuro. Sem formação profissional, se não me desse bem neste meio, que é que ia fazer? Não ia estudar mais? Para ser manequim não são precisos estudos. É preciso talento e trabalhar a técnica. Para apresentar, tive um curso na RTP. Sentia falta. Tinha medo de improvisar. Na verdade, não era medo de improvisar: era medo de errar. Aprende-se com o tempo, com a experiência. Na representação, temos 20% de talento todos, e se tivermos 80% de técnica, podemos rir em dois minutos e chorar logo a seguir. É uma mecânica gira. Estou a tirar um curso, e está a tornar-se uma paixão!
SRD – Como é que se instalou nesta rapariga rebelde a noção de que o corpo era uma ferramenta para concretizar o sonho? Quando era pequena, era o tipo de criança de quem todos dizem: ai que bonita?
IF – Nada disso. Era gordinha. Nem sabia arranjar-me ao fim-de-semana. Durante a semana, andava de farda: saia aos quadrados castanhos e brancos, meia castanha pelo joelho, sapatinho de vela, camisa branca, pulôver castanho e fitinha. Levava a minha lancheira com o almoço e tínhamos de estar a horas para fazer filinha e entrar na sala de aula; não podíamos sentar-nos no chão; se respondíamos mal, levávamos reguadas. Revoltei-me contra isto tudo. Fiz um pacto com o meu pai: «Se tirar boas notas, vais tirar-me daqui porque quero ir para uma escola normal.» E fui. Na escola normal, vi o que era a real life – que não é fácil.
SRD – O que foi tão diferente assim?
IF – A escola para onde fui era ao lado do Bairro dos Húngaros. Arranjei grandes amigos, que ainda hoje mantenho, todos desse bairro. Mas ao início eu era a menina queque, e gozavam-me porque era muito educada. Cresci imenso. Foi esta escola da vida que me ensinou a ter as minhas opções. «Estou a estudar Economia porquê? Se não é isto que quero…»
SRD – O que é que via na televisão e a fazia ter vontade de ser apresentadora?
IF – Por exemplo, a Catarina Furtado. Admirava-a. Por coincidência, apresentava o Top Mais. Hoje, estou a fazer o Top Mais. Estou a viver o meu sonho de menina. Também tinha o sonho de fazer um filme e fiz [Sorte Muda, de Fernando Fragata]. Não digo que foi fácil. As pessoas vêem o produto final na televisão e acham que estamos sempre bem-dispostos e felizes – não é assim.
SRD – A consciência de que era gira teve-a quando?
IF – Nunca tive. Levei anos a perceber porque é que me aconteciam certas coisas. Enveredei pelo mundo da moda, pondo alma no que fazia, mas sentindo-me mal ao lado de colegas de trabalho. Porque eram mais altas, porque eram mais magras, porque eu tinha muitas mamas. Hoje em dia, toda a gente mete [silicone], mas há dez anos não era assim. Mas o que nos magoa torna-nos mais fortes e fazia-me continuar, continuar, continuar. E vou conseguir, conseguir, conseguir. Olho para trás e tenho trabalhos lindíssimos. Mas sem dúvida que os melhores são os de há dois anos a esta parte.
SRD – Enquanto mulher madura. Que é mãe.
IF – Gosto mais de me ver agora. O meu filho é a minha razão de viver, foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. Deu-me um ar mais maduro, deu-me responsabilidade. Agradeço-lhe por isso.
SRD – Entre os colegas, mesmo antes da moda, não era a giraça do grupo?
IF – Sempre sobressaía um bocadinho. Mas era muito pela maneira de ser. Não é só preciso ter uma cara e um corpo bonitos. A personalidade é muito importante. É preciso ter salé. Uma mulher com salé é a que dá nas vistas, a que sabe estar. As brasileiras têm, as espanholas também, as portuguesas têm de trabalhar para ter salé. Eu ia aos castings e não tinha vergonha de lutar pelo que queria, sempre falei com os clientes: «Identifico-me com esta marca, adorava ficar com este catálogo.» Salé é um termo que se usa no mundo da moda; para mim, é ter qualquer coisa; não é uma sonsinha, tem sal.
SRD – De onde vem o seu salé?
IF – Da minha rebeldia, da minha luta. Todas as pessoas que trabalham comigo sabem que nunca baixei os braços. Dou-me bem com toda a gente, não crio problemas, continuo a trabalhar. O salé vem de ser feliz, gostar de mim própria, ter saúde. Aprendi a usar a minha diferença como uma qualidade. Há fotografias que sei que não posso fazer porque não tenho aquele corpo; mas posso fazer outras e muito melhor. Vivemos todos na ditadura da beleza. Uma mulher normal vai à papelaria, olha para a capa da revista e quer ser assim, e esquece-se dela própria e da sua beleza. Ninguém é como aparece na capa da revista! – digo isto a toda a gente. Toda a gente leva photoshop.
SRD – No seu caso, fica muito parecida pessoalmente e de cara lavada – em relação ao que vemos nas revistas.
IF – [Risos.] Sim, mas toda a gente é retocada. Aquilo é uma revista e tem de ser perfeito. Esta ditadura preocupa-me. Cada vez mais vejo miúdas de 15 anos a porem peito! Eu tenho 28 anos e não tenho nada! Não quer dizer que um dia não vá pôr peito, fazer uma lipoaspiração.
SRD – Sempre viveu bem com o seu corpo? Apeteceu-lhe mudar, retocar cirurgicamente esta parte ou aquela?
IF – Nunca estamos contentes com o que temos … Fiquei com muito menos peito depois de amamentar o meu filho. Tinha 96 cm e agora tenho 90. Mas foi por uma boa causa: amamentei seis meses. E se tivesse de amamentar outra vez e ficar sem nada, era já.
SRD – Imagino que na relação com os homens se tenha perguntado muitas vezes: será que ele gosta verdadeiramente de mim ou está interessado fisicamente em mim …
IF – Ou está interessado porque eu sou quem sou? É uma questão diária. E é isso que me faz perder o interesse … Há fundamentalmente três coisas que me fazem perder o interesse pelos homens: a falta de respeito, a proibição (acharem que são donos) e essa. Muitos dos homens aproximam-se de mim porque sou um troféu.
SRD – Como é que os distingue?
IF – Consegue-se. Mas o problema, às vezes, está dentro de nós, não neles. Tenho amigos que me dizem que eram incapazes de namorar com uma mulher como eu. Porque sou muito conhecida e muito assediada.
SRD – O seu casamento foi muito exposto. É como se toda a gente em Portugal tivesse sido convidada. Isso marcou a sua relação?
IF – Estive casada dois anos e qualquer coisa. Quando casamos, é para o resto da vida. Foi um amor muito forte. Três meses depois, estava a ser pedida em casamento, sete meses depois, estava a casar, quinze dias depois, estava grávida. O que quero é que ele seja feliz; se ele for feliz, faz o meu filho feliz e eu fico feliz (porque o meu filho é feliz). A minha parte sentimental, ao pé da felicidade do meu filho, não é nada. Mas um divórcio é uma marca que fica para o resto da vida. Com a educação que tive, é um falhanço.
SRD – Viveu uma parte do seu casamento em Espanha. Desistiu das coisas que tinha cá, do seu sonho? Como se estivesse a viver uma vida que não era a sua.
IF – Foi isso que me fez mal, precisamente – e outras coisas. Adoro trabalhar, ganhar o meu dinheiro, sou muito independente. Saí do meu casamento e não quis nada. Da maneira como entrei, saí. Casámos com comunhão de bens adquiridos e não quis absolutamente nada! Zero. Quis o divórcio assinado e a minha liberdade. E voltei a ser feliz. Hoje, sou uma mulher muito mais feliz, sou amada, amo, tenho um filho maravilhoso. É tão bom acompanhar o primeiro teatrinho de Natal (fez de anjinho), comprar os fatos de Carnaval ...
SRD – A sua profissão alimenta-se de beleza e de juventude. Ameaça-a o fantasma do envelhecimento? De o corpo não ser o mesmo? De o impacto nos outros não ser o mesmo?
IF – É impensável ser manequim o resto da vida. [Vou retirar-me] com 33, 34 anos. Vai custar-me. Porque sou apaixonada por fotografia. Quando viajo, compro as Vogue todas e depois vou para casa, para a frente do espelho, imitar as poses. Ainda faço isso! Como se fosse uma bebé que acaba de chegar ao mundo da moda e quer vingar. Tenho um espelho gigante, quer na sala, quer no quarto. Também é muito bom para representar: vermo-nos, ver a postura do corpo. As rugas? Cada ruga é uma linha de vida. Já ganhei coisas no corpo que me fazem pensar em acontecimentos da minha vida (principalmente o nascimento do meu filho). A barriga nunca mais é a mesma, as hormonas nunca mais são as mesmas, dormir nunca mais é a mesma coisa. Mas lido bem com a velhice. Imagino-me uma velhinha que faz aquilo que gosta. A representar. A lutar.
SRD – Não é fácil imaginá-la a chorar …
IF – Mas choro. Sou a mulher que sou, mas já sofri, já passei por muito.
SRD – As coisas duras por que passou têm que ver com quê? Rejeição?
IF – Rejeição, ser posta de parte, muita coisa. Na representação aprendemos a conhecer o nosso corpo e a nossa cabeça; e temos caixinhas de emoções guardadas. Temos de aprender a defender-nos. Mas não deixo de ser a Isabelinha que chega a casa e lava o chão, cozinha almôndegas e bacalhau à Brás, brinca com o filho, e que chora, e que berra, e que vive intensamente as coisas. Tenho 28 anos e sou uma mulher como outra qualquer.
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