«São muitos os anos e as histórias são muitas», diz alguém acerca de Rui Nabeiro, o homem que pôs no mapa uma vila e uma empresa, sem nunca renegar as suas origens. E ainda hoje é, só por si, todo um sistema de solidariedade social. O que deixa, diz, não é dinheiro, mas experiência, uma empresa, um bem-estar.

Onze e meia da manhã. Uma carroça avança pela estrada de paralelepípedos. Um homem segura as rédeas e acompanha o movimento do animal. Um compadre. As laranjeiras estão carregadas de fruta, e as folhas são viçosas. Cheira a café. Significa que o café, vindo do hemisfério sul, está a deixar de ser verde e cru, passa agora pela torrefacção. Ao fundo, encontramos a estátua que a vila dedica a Rui Nabeiro. Com afecto. Uma estátua que ele considera mais do que a comenda que lhe foi entregue pelo presidente da República. Porque é dos seus.

Ele podia ser o homem da carroça, apenas mais um alentejano. E também é. Mas é sobretudo aquele que transcendeu a sua condição. «Eu, sonhos … Qualquer pessoa tem sonhos.» Vivia num mundo profundamente estratificado. «Em Campo Maior, havia um café onde se juntavam à noite as pessoas; tinha a ala dos homens ricos, a ala dos remediados (os pequenos e médios lavradores) e a ala da gente pobre (que não eram trabalhadores do campo, mas o alfaiate, o barbeiro, o sapateiro). O trabalhador do campo não entrava sequer, tinha umas tabernas ao pé.»

Rui Nabeiro sentiu desde pequeno de que lado da cerca é que estava. Mas foi atrevido – para usar uma expressão sua. «Eu via essas pessoas [os ricos] irem à praia, e nós não íamos à praia, não é? Houve uma altura em que a Casa do Povo levou as crianças daqui para uma colónia de férias na Foz do Arelho. Fui logo dos primeiros a inscrever-me para ir. Portanto, com os meus sete aninhos, talvez, consegui ir para a praia. A alimentação era péssima nesses anos, e nesses sítios também. Mas adaptei-me bem. Havia uma outra pessoa que levava os gaiatos para outra colónia de férias – a da Brigada Naval, entre Paço de Arcos e Santo Amaro. Emocionava-me quando íamos passear um pouco na linha do comboio e via entrar as pessoas nos hotéis, nas casas. Perguntava-me: alguma vez serei capaz de entrar nestas casas? Era um sonho que eu tinha. De me impor um pouco. Ter algumas dessas regalias.»

Nasceu numa família humilíssima. «O meu pai começou como cavador; depois, teve a audácia e a ajuda, na tropa, para tirar a carta de condução. Ficou de motorista de um lavrador e médico. Como tal, fez que os filhos, nesse Alentejo dos anos 30, onde o analfabetismo era total, tirassem a quarta classe. O grande mérito do pai e da mãe foi o de se sacrificarem, trabalharem bastante para nos permitir que fôssemos à escola.» Eram quatro irmãos, só ele resta vivo, só ele singrou. Na sua constelação familiar, uma figura emerge como astro principal: o tio Joaquim.

Foi o homem que mais o marcou. Foi o sonhador, o audacioso, o destemperado, que começou com uma «fabriqueta artesanal» onde se torrava o café; e foi aquele que, em época de grande carestia, liderou grupos de homens que tinham as costas lombadas pelo peso dos sacos que passavam para o lado de lá. Há uma fotografia no escritório e outra no museu que mostram esses grupos de destemidos. Mais que tudo: de carenciados. Nessa altura, o contrabando não era contrabando. Era uma transacção de mercadoria de primeira necessidade – açúcar, arroz, café. Às autoridades tinha-lhes sido dito que deviam fechar os olhos. Outros tempos houve em que era devido um imposto. E por isso existia a distinção entre fronteira e arraia. «Na arraia, temos de procurar nas veredas o caminho que queremos atingir. A fronteira é um posto avançado onde está a aduana, a guarda, as autoridades. São mais audazes as pessoas que vivem na arraia: têm de procurar, descobrir como é que se podem infiltrar.» Guiavam-se pelas sete estrelas. Apuraram os sentidos.

Estamos no escritório de Rui Nabeiro. Lá fora, a paisagem tranquila da vila num dia de semana. Um menino ruivo que come pão com mortadela na soleira da porta. A planura que circunda Campo Maior. As nuvens soltas a pontuarem o azul do céu. Estamos onde tudo começou. «O ninho.» A sede podia ser faustosa, de montra espelhada. A sede é a de uma empresa que é líder de mercado e que exporta para o Mundo inteiro. E funciona ali, numa casa pequena, com um pátio onde param os carros e um edifício contíguo onde em tempos se fez a torrefacção do café. Do outro lado da rua, atravessando em linha recta, numa casa ampla de paredes brancas, vive Rui Nabeiro. Onde é casa para este homem que trabalha 16 horas por dia? Mais do que a morada da família, talvez seja o escritório, a sede, o ninho. É lá, verdadeiramente chez lui, que Rui Nabeiro nos recebe e nos mostra os retratos que dizem quase tudo.

Numa fotografia aparecem dois homens, um cavalo, dois homens, um burro, quatro homens. Homens maduros, rapazes que devem andar pelos 20. «Se só havia a agricultura … Campo Maior ainda tinha a felicidade de ter a fronteira e perto uma cidade como Badajoz. Estes homens: era a falta do trabalho que os levava a isto. O rigor da sua palavra, que davam ao próximo, era um valor. Era esse o segredo. Eram pessoas escolhidas. Quem não era sério era apontado com o dedo. Na sociedade, era encostado. Um percentual razoável das pessoas vivia dessa actividade. E foi isso que nos deu, nos primeiros anos, a [possibilidade] de cada um construir a sua casinha.»

A história destes homens coincide com a sua, com a da sua família. Por isso, lá está o retrato. E na parede central do escritório está, isolado, o seu retrato. De quando era um homem jovem, sem o bigode, que se tornou uma imagem de marca. Como é que ele era? Na fotografia, transpira tranquilidade. Como se soubesse desde sempre que chega lá. E não precisasse da raiva para alimentar esta determinação. Precisava só da audácia – o motor que partilha com o tio Joaquim.

Nunca foi um impulsivo. «Sou passivo a este ponto: nunca largo as coisas na hora. Eu espero. A gente aguarda. Por isso, há a expressão “saber esperar”. Na hora certa, a gente diz. Olho para as pessoas que vêm para ser nossos empregados: vê-se na cara e nos olhos o que é que está lá dentro. Como é que a pessoa se apresenta a si própria? Porque é que chegou cá? O que pretende de nós? E a certa altura, olhamos e vemos quem nos pode enganar – não no desvio, mas na atitude. A gente vê.»

Ele sempre soube. Mas demorou muito tempo. Sabe esperar, portanto. E sabe largar no momento certo. De quem falamos quando falamos de Rui Nabeiro? De um inconformado. De um homem que tinha a «ambição de ser alguém».

Olhando para o passado, é possível detectar este traço de carácter. «As notícias eram dadas através de um empregado da câmara, o pregoeiro. Ele bebia uns copos …, depois, brigava com todos, com a mulher, e metiam-no na cadeia umas horas até passar o efeito do álcool. Quem é que vai fazer este pregão? E lembravam-se de mim, sabiam que eu tinha interesse em ganhar uns tostões.» Vendeu peixe. Pegou nos carrinhos de mão que encontrou pelo caminho quando regressava da escola. Ajudou o professor primário a montar «uma cantinazinha» para os colegas. Tempos de penúria. «Não era que quisesse ter mais dinheiro: era que as pessoas não tinham mesmo nada. Os meios eram sempre escassos. Sonhei ser como o tio Joaquim, de uma forma mais concertada. Pensei sempre que era capaz de fazer melhor do que ele. Não porque fosse melhor do que ele, mas porque tinha mais ponderação e a época era outra.»

O seu momento chegou em 1961, quando constituiu a Delta. No Museu do Café, que visitámos juntos, lá está numa vitrina a primeira letra bancária. Cento e dez mil escudos. Lá está também o primeiro recibo: vinte e cinco mil escudos. A primeira carrinha da Delta, de matrícula II – 14 – 99, descoberta num ferro-velho da zona de Beja, a cair aos pedaços e recuperada para o museu. A lata de 5kg, com retorno, enferrujada pelo tempo, listada de verde, amarelo, vermelho.

«Quando criámos a Delta, o meu pai já não existia. Trabalhava com os tios, o tio Joaquim e o tio Silveira. Eu queria uma coisa que crescesse, andasse, tivesse meios. O meu trabalho e as parcas economias que tinha pu-los ao serviço e criei a empresa. Criei neste mesmo espaço onde estamos hoje um escritoriozinho, e lá ao fundo a fábrica. E não deixei de trabalhar na outra fábrica, de onde vinha o rendimento para mim e para a família. Levei muitos anos sem ser capaz de vender um quilo de café, muitos anos. As marcas estavam de tal forma fidelizadas no mercado que entrar outro qualquer era impossível. O que é que eu resolvi? Especializei-me nas misturas populares, a cevada moída, que se vendia muito no Centro e no Norte. Foi assim.»

Hora de almoço. Uma embaixada de um banco vem cumprimentá-lo e acertar agulhas. Os negócios vivem das duas: das boas relações e das agulhas que se acertam. Nabeiro sabe disso. Tem um Lexus porque, para começar, é amigo de Salvador Caetano (que distribui a marca em Portugal). Vai a Madrid e de caminho almoça em restaurantes de clientes, pernoita em hotéis de clientes. Tudo em família, uma alargada família. As boas relações cultivam-se.

O almoço com o banco estava marcado desde há muito, daí que gentilmente nos peça desculpa por não poder almoçar connosco. O restaurante do Hotel Santa Beatriz está reservado para estas duas mesas: aquela onde o anfitrião está, com o administrador do banco, vindo de Lisboa, em frente a si; e aquela onde estou, com a sua neta e um pequeno grupo.

O restaurante é seu, o hotel é seu. O vinho que bebemos é da sua adega. O pão que ele come ao pequeno-almoço é da sua padaria. As azeitonas são do seu olival. O café é, evidentemente, Delta.

Entre o escritório e o almoço, o seu director de serviços de contabilidade acompanha-nos num tour pela vila.

Em Campo Maior, estamos chez Nabeiro. O liceu, o infantário, o bairro que mandou construir quando foi presidente da Câmara (até 1984) – porque não gostava «daqueles caixotes» que serviam de habitação –, o centro de saúde, o centro cultural, o pavilhão: tudo tem a marca de Rui Nabeiro. Ou porque o plano de urbanização foi delineado por ele, ou porque levam o seu nome, ou porque os financia, ou porque emprega uma percentagem considerável das pessoas da vila, e, desse modo, toca aqueles que usufruem destes serviços. Quando se observa a vila, arrumada e caiada de branco, com o castelo no centro e os campos em volta, parece que estamos num ambiente antigo e resguardado. Um feudo. O feudo de Rui Nabeiro.

É um homem estimado. Se gosta de ser o patriarca da região? «Não faço alarde de sê-lo, mas qualquer ser humano gosta que seja conhecida a sua atitude. As pessoas de Campo Maior, e não só, mostraram como gostam de nós. Na rua de Campo Maior, e mesmo na rua de qualquer cidade do País, as pessoas conhecem-me e fazem referência: “É fulano.” Isso dá-nos uma felicidade grande. É porque não passamos anónimos, é porque passamos com admiração e carinho. Isso dá, de facto, uma força interior que nos empurra, nos faz lutar cada vez mais.» Usa o plural majestático. Um modo de falar que caiu em desuso. Mas que fica bem naquele homem de 77 anos, que partilha e torna a dar e que considera que esse é o único gesto possível. «Uma pessoa que investe na educação e na saúde está a investir em si própria. Só posso tirar mais-valias, quer seja no reconhecimento da pessoa, quer seja na leitura que todos fazem de mim. A vida torna-se mais feliz. E isso dá-me bem-estar, força, ânimo. Nunca vi ninguém, depois de eu ter dado determinada colaboração, que não tivesse para comigo um sentimento de respeito.»

O respeito chegou também sob a forma de Comenda e de Grã-Cruz. Estão expostas no Centro Internacional Pós-Graduação Comendador Rui Nabeiro juntamente com várias «interpretações» – diz-nos a directora – da figura do «senhor Rui». Trajes das confrarias, o busto em gesso, retratos a ponto cruz, a tinta-da-china, em madeira, em azulejo, a aguarela, a tinta, em versão Warhol, em fotografia.

«São muitos os anos e as histórias são muitas», como diz o coordenador da contabilidade do grupo que nos acompanha. Trabalha com Rui Nabeiro desde os tempos da Câmara Municipal, onde era seu assessor. Há mais de 20 anos. Quase todos os funcionários, aliás, estão na empresa longos e longos anos. E a Delta, que tem 2300 empregados, 1700 dos quais em Campo Maior, orgulha-se de não ter greves ou questões laborais graves desde o 25 de Abril de 74. Paga acima do contrato de trabalho, tem seguro de saúde para os funcionários e familiares directos, leva os efectivos a fazerem o mestrado. Qual o segredo deste homem?

«Hás-de bater à porta de fulano que fulano ajuda-te.» A ajuda era para um hospital público. Ajudou o Hospital Infantil Dona Estefânia. O Curry Cabral, onde uma máquina dispendiosa foi paga por si. O Garcia de Orta, onde financiou uma máquina de microcirurgia. «Vem a gratidão de uma placa. As pessoas que vão passando vão vendo. A minha obra vai crescendo, e o conceito que as pessoas têm de mim vai valorizando todos os dias.» Mas porque faz isto? «A pessoa é assim porque nasce mesmo assim. Os adjectivos que possa criar são explicações que quer encontrar. Este sentimento nasce connosco. Quem é bom não é quem quer. É quem Deus pretende, quem Deus encaminha para o ser.»

Após o almoço, seguimos para a adega. É um edifício assombroso criado por Siza Vieira. Há excursões de estudantes de Arquitectura do Mundo todo. Há artigos sobre a obra em revistas do Mundo todo. E há um vinho, Reserva do Comendador, que começa a amadurecer com os olhos postos no Mundo todo. O espelho de água, no terraço, oferece uma vista privilegiada: a vila, os 65 ha de vinha, a cordilheira da serra de S. Mamede em frente (que propicia um microclima). É um segundo castelo. Mas este construído de branco, mármore e luz. Resplandecente. Linhas puras, entradas de luz colocadas de modo cirúrgico (aparentemente não há janelas …).

Um edifício desenhado para uma «paisagem bela e incólume», escreveu Siza Vieira. Ao longe, ouve-se um cão a ladrar, o chocalho do gado. Nabeiro tem a cara iluminada por uma luz dourada e posa para as fotografias. Interrompe. Fala ao telefone. Muitas vezes. E poucas vezes, acrescenta ele, para o que costuma ser. Cumprimenta a enóloga, a técnica, a relações públicas, as senhoras todas de beijinho. Prova o vinho. Pergunta isto e aquilo. Mete-se em tudo. Todos o sabem. Ninguém o contesta. A empresa est lui. O génio que ergueu o império é dele. E continua a ser ele que acorda às 6 da manhã e faz perguntas ao padeiro, e que vê a correspondência a seguir ao jantar, quando lhe levantam o prato e ele inquire as coisas uma a uma.

Já quiseram comprar-lhe um império. Consta que foi assim: a Nestlé perguntou: «Quanto querem pela Delta?» Nabeiro respondeu: «Quanto querem pela vossa casa?» Se vendesse, provavelmente não seria o sobrinho do seu tio Joaquim – esse homem «a olhar para o futuro, com o peito atirado para a frente». Nem seria aquele jovem da fotografia, tranquilo, igualmente a olhar para o futuro e com o peito atirado para a frente. Qual o seu segredo? Quem é ele? «Uma semente que uso: quem não fizer hoje, amanhã é tarde. É uma máxima. O verdadeiro capital é o que é distribuído.»

A desgraça já lhe tocou à porta. Houve as perdas: dos pais, dos tios, dos irmãos. Recentemente, o neto, Rui Miguel, expedito, apontado como o sucessor do avô, caiu doente. «Foi doloroso para todos. Ele estava a começar [a vida profissional]. O moço sempre viveu o problema da fábrica, o que sentia era o bichinho do café … Pensava-se o pior, e o pior era. Felizmente que as coisas correram bem. Foi um grande sobressalto. E a mãe, o pai, o tio Joaquim: é difícil aceitar-se que morram. Estamos muito dentro deles, e eles dentro de nós. O meu pai faleceu jovem, ficam marcas. A mãe lutou anos com a diabetes. E eu lutei, lutei, lutei para que ela tivesse todo o carinho e mais algum. Por isso é que na saúde sou o primeiro a chegar ao pé das coisas ...»

Talvez Rui Nabeiro seja um como nós. Podia ser o que segura as rédeas da carroça. É ainda, quando diz: «Nunca se deve fugir das suas origens. A minha origem é Campo Maior.» Mas foi, é, um sonhador. «Nascer num recanto no interior e sentir que a sua terra pode ser diferente, que pode servir de exemplo, é extraordinário. Não foi por ter estado na câmara ou porque a empresa me proporciona esta forma de estar: é porque a população necessita que eu aqui esteja, eu ou alguém como eu.» É um rei entre a sua gente. Da sua gente mais chegada, tem três dos quatro netos a trabalharem consigo. Não lhes deixa casas de férias, deixa-lhes uma cultura de trabalho. (O gozo pelo trabalho é a mensagem que passa aos seus funcionários nas convenções do grupo.) E deixa-lhes a temperança.

«Tenho ponderado as coisas à distância. Quando os tempos são ruins, espera-se que a bonança venha. A pessoa tem consigo o bom senso. Não pode ser como o homem que se atira para debaixo do comboio ...»

Os reveses dão para ser prudente, ensinam a respeitar as coisas. O revés de primeira linha [que tive] foi nos anos 80.» Nessa altura, foi acusado de dívida fiscal e mudou-se para Espanha. «Quando fui daqui, foi para vencer. Para demonstrar com tranquilidade como as coisas eram e não eram. Se estivesse aqui, teria menos hipóteses de me defender. E seria inactivo. Em Espanha, com a protecção de ter passado de um lado para o outro, trabalhei todos os dias, geri de longe a minha empresa, dei trabalho da mesma forma, crescemos da mesma forma. À luz da lei, foi esclarecido, mas enquanto foi e não foi estive 17 meses ausente do País. Muito tempo. Aprendi a ser sensato, ponderado, a falar o suficiente, a nunca falar demais. A dar tempo ao tempo.»

Por momentos, Rui Nabeiro conduz o carro. Habitualmente tem um motorista – sobra-lhe, assim, tempo para trabalhar ao telefone. O rádio está sintonizado na Antena 2 e ouve-se Cecilia Bartoli. Gosta de música clássica. Regressamos ao escritório, onde começou o dia e onde começou o seu longo dia, a jornada que conduziu a este dia, a este império. Ter um império, ter muito dinheiro, como diz repetidamente, não era o objectivo. O seu móbil não é esse. Qual era? Talvez o reconhecimento. O gozo de ser capaz.

Olhamos novamente para o jovem homem da fotografia. Para a tranquilidade do seu olhar. Ele já sabia. «O que vou deixar: não são meios económicos. Deixo a experiência. Uma posição comercial que é só segui-la (e trabalhá-la mais). Deixo um bem-estar. Claro que estou a fazer declarações num dia, numa hora, num ambiente …, não se sabe o que a vida nos traz. Mas essa frase, “Quem não faz hoje, amanhã é tarde”, já a digo há muito tempo. Numa só legenda: fica a experiência do trabalho e do respeito que as pessoas têm por nós e que temos pelas pessoas.»

No dia seguinte, ele ia para Madrid, e na manhã seguinte deveria estar em Lisboa. Cansativo … «Não dá, mas faço. Adapto-me sempre.» Vence sempre.

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