Entre os segredos de Alpalhão, os bons sabores de Nisa e o menir mais imponente da Península, uma rota de contrastes. De Castelo de Vide a Nisa, o granito domina a paisagem, a floresta e manto espesso e a giesta ilumina os campos. Abundam fontes e nas­centes, a água corre todo o ano. Caminhando para o Tejo, que, morando ali tão perto, vai servir outros lugares, reina o xisto e a esteva, a terra da magros pastos, pontifica o javali.

Castelo de Vide - Alpalhão

Saindo de Castelo de Vide para Alpalhão, a serra dá lugar à peneplanície granítica, que, passo a passo, vai desfiando uma longa historia. Depois do desvio para Portalegre, quando a estrada estreita, surge à direita o primeiro de uma série de monumentos megalíticos presentes neste percurso: a anta da Melriça, com três dos seus sete esteios equilibrando o imponente chapéu monolítico. Percorridos mais 13 km, Alpalhão emerge como um verdadeiro santuário de gravações deixadas pelos cristãos-novos.

Nos inícios do século XVI, esta vila estava circunscrita por uma muralha de feição medieval; um castelo, delimitado por torres quadrangulares, definia a alcáçova. As construções setecentistas absorveram grande parte da pedraria que protegia o núcleo urbano mais antigo; contudo, como o casario seiscentista se articulou com a implantação dos velhos muros protectores, ainda é possível, aqui e ali, redesenhar-se o traçado da antiga fortificação.

Aproveite para desentorpecer as pernas e descubra as cruzes abertas nas cantarias das portas, com as quais os Alpalhoenses convivem serenamente, desconhecendo, na maior parte das vezes, a razão de ser de tão notáveis marcações. Comece pela Rua Direita e vá até ao Largo do Terreiro; daqui passe ao de S. Tiago, vire à direita pela Rua de S. Pedro e continue pelas Ruas Nova, de Santa Maria, de Santo António ou dos Pelames, sempre em busca destas mensagens antigas, umas talhadas por medo, outras por verdadeira devoção.

Para sair de Alpalhão rumo à necrópole megalítica de S. Gens, procure o Largo da Devesa e siga a indicação para Termas de Nisa, entrando numa velha e estreita estrada ladeada de pedreiras de granito. Em invernias rigorosas, a passagem a vau de um dos afluentes da ribeira de Sor levara o condutor menos afoito a pensar em voltar para trás. Mas não desista.

Cerca de 5 km depois, encontra-se, à direita, a arruinada capela seiscentista de S. Gens, topónimo antigo indiciador de actividades campestres, hoje continuadas pelo Tio Herculano, que, com os seus mais de 80 anos, aqui costuma apascentar uma manada de vacas. A poucos metros para norte, avista-se a anta do mesmo nome, uma das várias já identificadas na necrópole. Do lado oposto da estrada, uma sepultura antropomórfica aberta na rocha testemunha a sacralização deste espaço na Alta Idade Média.

Algumas centenas de metros à frente, sinalizam-se as aprazíveis Termas de Nisa. No cruzamento seguinte, tome a direita e siga até Nisa, terra de queijos, barros e bordados.

Estacione no Rossio e dirija-se à Porta da Vila. Ao contrário de muitas fortificações das quais se diz, sem grandes certezas, que serão contemporâneas de D. Dinis, esta sabe-se que é resultado de uma das raras tentativas de constituição de um feudo em Portugal ao tempo deste rei. Pelo ano de 1281, encontrando-se D. Dinis em Beja, foi informado de que o infante D. Afonso, seu irmão e rival, ordenara a total destruição das muralhas de Nisa como retaliação pela fidelidade ao rei evidenciada pelas gentes desta região. A partir desta data, iniciar-se-ia a construção da nova Nisa, no "Valle do Azambujal", a pouca distância do antigo povoado, Nisa-a-Velha.

Caracteriza o novo espaço urbano o rectilíneo das suas ruas e o posicionamento de quatro portas que convergem para a praça principal, ao gosto dos arquitectos franceses da época, inspirados na malha urbana das cidades da Roma de Vitrúvio. Dos tempos dinisinos ainda subsistem alguns portados graníticos, onde, a semelhança do que se registou em Alpalhão, transparecem algumas mensagens de simbologia religiosa de origem cristã-nova. No interior do casco medieval, merecem destaque a fachada e o interior da Igreja da Misericórdia, na Praça do Município, na qual o granito da região regista esmerado trabalho.

Voltando ao Rossio, repare também como a maceta e o ponteiro conseguiram transformar a pedra informe em harmoniosas peças que embelezam igrejas e casas de gente abastada. Procure no comércio local o queijo e o mel, criados nas terras de esteva e xisto dos vales do Tejo e do Sever, e prove as cavacas e doces de ovos que dão nome à doçaria regional. Nas pequenas olarias, encontra a popular cerâmica pedrada. No posto de turismo, descubra os bordados e alinhavados de Nisa.

Nisa - Montalvão

Contorne as muralhas e procure o cruzamento para Nossa Senhora da Graça e Salavessa. A 3,5 km, ergue-se o chamado cabecinho de Nisa-a-Velha, coroado pela Igreja de Nossa Senhora da Graça. Neste local, protegido por um castelo, implantava-se até ao século XIII a antiga povoação de Nisa.

Após a fundação da nova vila, apenas alguns espaços religiosos se mantiveram e outros se renovaram. À esquerda da estrada, localiza-se a arruinada Capela de S. Lourenço. Um pouco mais à frente, à direita, junto a um cruzeiro seiscentista, ainda se observam os escombros do que foi a Igreja de S. Tiago. Uns cem metros depois, encontra-se a pequena Capela dos Fiéis de Deus, que, segundo a tradição, foi levantada sobre a sepultura de um condenado. Iniciando a íngreme subida, depara-se-nos a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, que ostenta uma elegante e inspirada galilé de gosto renascença. Continue a subida até a Igreja de Nossa Senhora da Graça. Hoje, observa-se um templo de características setecentistas, resultado das múltiplas reformas que sofreu.

Contudo, repare como o altar-mor é definido por uma estrutura quadrangular de cunhais graníticos, provavelmente de origem romana. Encontramo-nos na parte superior da estrutura defensiva de Nisa-a-Velha. Os trabalhos arqueológicos em curso mostram já uma fortíssima muralha duplamente reforçada. Note os vários patamares que se destacam nas encostas, claros testemunhos de outras linhas de fortificação que protegiam o antigo burgo. Estenda a vista e deixe-se embalar nos aromas de funcho verde nascido por entre estevas e oliveiras.

Prossiga caminho, transponha a ribeira de Nisa e vá olhar de perto a ponte romana. A estrada serpenteia até Pé da Serra, aldeia nascida à sombra do cabeço de S. Simão, local de ancestrais devoções. Atravesse-a por dentro e, à saída, tome a esquerda na bifurcação e avance até Salavessa, pequena povoação com antiquíssimas casas térreas e descomunais chaminés.

Com o recorte de Castelo Branco anunciando a proximidade do Tejo, chega-se a Montalvão. O depósito de água ergue-se por cima do que foi uma das sentinelas do Alentejo. O martirizado castelo para tudo serviu: esgotada a função de atalaia do Sever e do Tejo, acolheu os mortos da terra, foi palco de festas, e hoje, abandonado, decai ao ritmo a que, pela tardinha, a vila envelhece, sentada e esquecida, a porta da Igreja da Misericórdia. Em frente, o portal quinhentista da igreja paroquial lembra a Igreja de S. Tiago de Marvão.

A pretexto de espreitar a Ermida de S. Pedro, onde as velhas tricotam e trocam segredos com o santo, percorra a pé as ruas da vila e descubra os cafés e tabernas, que servem, por encomenda, sopas de peixe e petiscos de javali. Aqui e ali sempre haverá quem lhe queira dispensar um chouriço ou um mouro da matança da casa.

Antes de voltar para Castelo de Vide, percorra os 8 km que separam a secura de Montalvão da Barragem de Cedillo e refresque-se a ver o Sever desaguar no Tejo. Ao domingo, encontra passagem para Espanha pelo paredão.

 

Montalvão - Castelo de Vide

Nove quilómetros para sul de Montalvão, fica a aldeia de Póvoa e Meadas. Atravesse-a e, no Largo do Espírito Santo, corte a esquerda, na direcção de Meadas. Prossiga até ao entroncamento e tome a direita. Mais adiante, no cabeço da Casa da Meada, onde hoje se faz agro-turismo e se explora uma reserva de caça grossa, existiu a antiga povoação de Meadas, com paço manuelino.

Percorra cerca de 800 m na mesma estrada e vire à esquerda no caminho de acesso ao maior menir da Península Ibérica: o menir fálico da Meada, que testemunha dignamente o culto a fecundidade e fertilidade dos homens do Neolítico.

Regresse à estrada de alcatrão e prossiga para Castelo de Vide. A esquerda, esquecida das romarias de outrora, nas Limpas de Santo Amador, está a igrejinha do mesmo orago. No século XVIII, ainda aqui se fazia uma procissão das almas em lembrança dos muitos portugueses que ali caíram durante a Guerra da Restauração, na batalha que ficou conhecida como a Derrota de Santo Amador. No entroncamento seguinte, a 4 km, tome a estrada da direita. À esquerda, há-de vislumbrar um chafurdão e, logo a seguir, o Centro Hípico do Canto das Nogueiras.

Uma centena de metros depois, siga o primeiro caminho de terra a direita e descubra a necrópole megalítica dos Coureleiros: quatro antas de diferentes dimensões e espólios deixam transparecer que, já nas sociedades neolíticas, se estruturavam elites.

Regresse a estrada alcatroada, passe a linha do comboio e vire à esquerda no cruzamento em direcção a Castelo de Vide, já à vista.

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