Mónica Sintra sobre anorexia e bulimia

Dias depois do nosso encontro, Mónica Sintra ia fazer anos. 30 anos. Simbolicamente, inaugurava-se ali um novo ciclo: o de uma mulher madura que aprendeu a viver com o seu corpo. E encerrava-se um longo período dominado pelos distúrbios alimentares. Oito anos de oscilações drásticas na balança, mentiras e omissões, misantropia. Experimentou todas as dietas, tomou laxantes e diuréticos, passou da anorexia para a bulimia.
Quis ser perfeita. A filha perfeita. A cantora perfeita. A lindíssima, a que canta bem, a magra. Sobretudo, a magra. A que não é abandonada porque é gorda. A que não é excluída porque é gorda. Uma luta que a deixou exaurida.
Aparece no último andar do hotel em que marcámos encontro. É uma menina que veste corsários e tem aparelho nos dentes. A mãe, que é também a sua agente, fica noutra mesa a fazer telefonemas. Ela senta-se e conta baixinho o tormento por que passou. Tivemos uma conversa íntima.
O ponto de partida era o livro «A um Passo do Abismo», no qual revela a relação difícil com o corpo e a comida. Pela primeira vez, em Portugal, uma figura pública toca na ferida dos distúrbios alimentares. Mónica Sintra revela que durante anos, afinal, havia outra …
Selecções do Reader`s Digest – Começamos pela sua relação com o espelho? O problema reside na forma como vê a imagem projectada? Ou é de si para si, sem a intermediação do espelho?
Mónica Sintra – A relação é comigo. Num determinado período, não conseguia pôr creme hidratante – mesmo sem espelho –, porque isso implicava tocar-me. Tocar numa coisa que abominava. A relação difícil não é com o espelho, se bem que durante um tempo ele tenha sido um inimigo. Reflectia aquilo que eu não queria ver.
SRD – Quando é que o corpo, o seu corpo, passou a ser um problema?
MS – Tive a percepção de que o corpo era um empecilho, ou algo que devia modificar, quando constatei que a maioria das cantoras e artistas eram perfeitas em termos de corpo, lindíssimas ao nível do rosto; esse conjunto deslumbrava-me. Elas estavam no meio onde eu queria estar inserida. Adoptei-as como referência. Aos 13 anos, eram raparigas dos Onda Choc, por exemplo. Não me lembro de alguma vez ter gostado do meu corpo.
SRD – Em que momento foi uma evidência que queria ser cantora? Foi a música que a acordou para o drama que estava a viver – teve medo de danificar as cordas vocais. Os distúrbios alimentares colidiam com o motor da sua vida.
MS – Sempre me lembro de mim a cantar. Não tinha microfones, mas pegava em escovas, lacas, em tudo o que fosse semelhante a um microfone, e cantava. Nos casamentos e baptizados era posta em cima de uma cadeira para cantar. Tive outras brincadeiras com Barbies e Póneis. Mas a minha preferida era pôr música e cantar em frente ao espelho ou fazer coreografias. Aos sete anos cantei numa festa com público, no trabalho da minha mãe. E o nervosismo foi inferior à alegria que senti após ter cantado. Depois de receber as palmas, pensei: «Não sou só eu que gosto de cantar, pelos vistos as pessoas gostam de me ouvir.» [Na adolescência], peguei na lista telefónica e fui à procura de produtores musicais. Tinha 13 anos. Marquei uma reunião e depois comuniquei aos meus pais.
SRD – A persona pública Mónica Sintra rouba muito da sua identidade privada? A relação com o corpo é afectada por isso? Porque assenta na ideia de que só será aceite se corresponder a um estereótipo.
MS – A relação com o corpo perturba-me mais por causa da profissão que tenho. As cantoras da cena internacional, e com sucesso, são perfeitas. Mas sempre me inferiorizei em relação aos outros por causa do corpo que tinha.
SRD – Como assim?
MS – Na escola, sempre me dei mais com rapazes do que com raparigas. Elas eram mais sérias… E, com esta distância, faço outra leitura: não me aproximava com receio de ser posta de parte. Com os rapazes, se entrava nas brincadeiras eu era uma deles. Tudo mudou quando os rapazes começaram a manifestar interesse ou a escrever cartas a raparigas e a usar-me como elo de comunicação. Então e não há nenhum que me escreva a mim, que goste de mim? Eles viam-me como uma amiga, e não como rapariga que quer ser cortejada. Havia também a questão das roupas. Elas vestiam roupas que lhes ficavam muito bem e que eram muito bonitas, eu vestia-me de preto, porque tinha ouvido dizer que o preto fazia as pessoas mais magras. Já que não podia vestir aqueles tops justinhos…
SRD – Chegou a experimentar os tops justinhos?
MS – Experimentei. Ficava ridícula. Aliás, na «fase rebelde» usei-os mesmo! E depois olhei para as fotografias e disse à minha mãe: «Como é que me deixaste sair à rua assim? Eu estava horrível!» Eu tinha ódio do meu corpo. Repulsa. Mas não sabia como mudá-lo. Queria fazer dieta, dieta. Mas só a assumi de forma rígida aos 19 anos. Até então, era uma palavra constante, mas sem grandes concretizações.
SRD – Era incentivada a fazer dieta?
MS – Os meus pais diziam-me que estava bem, que não era por causa disso que as pessoas gostavam de mim. Mas eu não achava isso. Achava precisamente o contrário.
SRD – A vida amorosa e sexual ressentiu-se dessa rejeição que tinha em relação ao seu corpo?
MS – Sim. Eu era extremamente insegura. Perguntava-me: «Como é que é possível? Como é que ele gosta de mim? O que é que ele viu em mim?» E depois achava que era porque sou boa pessoa. Tinha sempre o receio de ser trocada por uma rapariga mais magra.
SRD – O fantasma das mulheres de outra idade é serem trocadas por uma mais nova...
MS – Quando terminava uma relação tinha sempre curiosidade em saber como era a nova namorada do meu ex. Às vezes eram até feias, mas eu olhava e dizia: «Pois, é mais magra do que eu. Trocou-me por causa disso.» Perguntava constantemente: «Achas-me gorda?» Muito do meu insucesso amoroso deveu-se a mim.
SRD – À sua insegurança.
MS – Sim.
SRD – No livro fala do marco terrível que foi ser rejeitada pelos Onda Choc, com a justificação de que era maior do que os outros meninos. Este «ser maior» foi lido por si como «ser mais gorda».
MS – Mas foi mesmo assim. Não podia ser a altura, porque havia meninos mais altos do que eu. Se ali estivesse, ia destoar. Elas eram magrinhas, vestiam roupas que eu nunca poderia usar.
SRD – Foi concomitante a explosão em termos mediáticos e uma atitude destrutiva em relação ao corpo. As duas coisas têm uma relação?
MS – As duas coisas coincidem. Eu já cantava o «Afinal havia outra» há alguns meses, e não se passava rigorosamente nada. Quando integrei o júri do Big Show SIC, de uma semana para outra, comecei a ser reconhecida na rua de uma forma de que não estava à espera. As pessoas estavam muito atentas ao que eu estava a fazer, aos penteados que usava, à roupa que vestia. Umas criticavam severamente, outras nem por isso. Isto acabou por acender a paranóia que eu tinha.
SRD – Que cuidados tinha com a sua imagem?
MS – O meu visual era estudado por mim e por um estilista. Usava umas saias compridas e uns corpetes. Sentia-me protegida naquele tipo de roupa, sabia que era para camuflar muita coisa. Usava uns collants que me apertavam muito… Tinha nas pernas uma espécie de bolsas. Praticamente não ia à praia e, quando ia, não me despia por causa daquela zona. Fiz uma lipo-aspiração e fiquei com uma perna diferente da outra. A operação não resultou bem, e fez com que ficasse deformada. Mesmo com collants era notório. Podia não ser para as outras pessoas…
SRD – Mas quando olhava ao espelho, só olhava para aquele sítio.
MS – Sim. Percebi imediatamente que aquilo não tinha ficado bem. Mas tinha esperança que o corpo fosse ao lugar passado o período pós-operatório. Mais tarde corrigi, mas nunca ficou bem.
SRD – Como é que a anorexia se instalou na sua vida?
MS – Quando percebi que, fazendo dieta, de facto, emagrecia. Tinha de abdicar de coisas na minha alimentação para que o processo fosse mais rápido e eficaz. O meu pensamento, ao deitar-me e ao acordar, era: a ver se amanhã não caio em tentação, se não como coisas que me vão engordar. De um momento para o outro, passa a ser a coisa para a qual vivo. Já nem era a música ou a universidade.
SRD – Tem uma relação de enorme intimidade com a sua mãe, e escondeu de todos, inclusive dela, o drama da anorexia. Como é que conseguiu? Que estratégias adoptou?
MS – Estava numa fase de muitos concertos, e a minha mãe achou que tudo isto se devia a excesso de trabalho, a não conseguir dormir, que o meu metabolismo estava acelerado e que por isso estava a emagrecer. Quando acabou um relacionamento que tinha na altura, juntou aos espectáculos e à universidade o desgosto amoroso. Como não estava presente em todas as refeições, não podia desconfiar. A minha mãe achava que eu tinha a mania das dietas, se lhe contasse a verdade, isso ia tornar-se um motivo de preocupação. E ela já tinha muitas!
SRD – Queria ser a filha perfeita. Aquela que não dá preocupações aos pais, aquela que é boa aluna, aquela que está em cima de um palco, aquela que tem um corpo perfeito.
MS – Era isso. Queria que se orgulhassem de eu ser uma pessoa completa e o top.
SRD – Um dos problemas das dietas é serem anti-sociais. No livro fala dessa dificuldade. De evitar estar com outros, porque estar com outros representa estar à mesa. As suas relações pessoais ficaram muito afectadas nesses oito anos?
MS – Sim. As minhas amigas de sempre, que me conheceram a falar de dietas, quando eu escolhia apenas uma salada, ficavam quase ofendidas. «Pára de pensar nisso. Agora vais comer uma pizza como nós.» Escolhiam restaurantes onde era difícil resistir…
SRD – Resistir era uma meta? Passava a ser um jogo consigo mesma?
MS – A partir de certa altura comecei a sentir que era poderosa. Porque conseguia mandar no meu corpo. Estar com as minhas amigas representava um desafio muito grande: eu estava sempre a ser tentada.
SRD – Como se tivesse um anjinho e um diabinho, a apontar o bom caminho e a descaminhá-la?
MS – Exactamente. Às vezes cedia. Decidi, então, que só sairia a seguir ao jantar, ou muito antes. Por fim, deixei de sair. Pensava que ninguém merecia ver o quanto gorda eu estava! E já estava magra. «Porque é que vamos sair se ninguém vai olhar para mim enquanto mulher? Eu sou muito pior que todas as outras porque sou gorda.» E afasto-me completamente. Pus de parte imensas pessoas que sempre participaram na minha vida. E na fase da bulimia também.
SRD – Diz também no livro que não se revia nas imagens das anorécticas que são veiculadas.
MS – Ainda há poucos dias me perguntaram pelo meu peso mínimo, que foi 47kg. Não é muito longe do ideal, que são 53. Foi-nos incutido pelos media que uma anoréctica tem de estar a morrer ou a caminho do hospital, tem de ser uma carga de ossos. Mas isto é uma patologia que não tem que chegar a esse ponto. Muitas pessoas podem ter sintomas de anorexia e bulimia e eles não serem tão explícitos quanto os da modelo brasileira que morreu.
SRD – Olhava para essas imagens e não só não se considerava anoréctica ...
MS – Eu dizia: «Não quero ficar magra como elas … Só um bocadinho mais gordinha.» Já na fase bulímica – constatei quando fiz pesquisa na Internet – identificava-me com todos os sinais e consequências. Tenho um comportamento para-anoréctico: tenho uma grande predisposição para ter anorexia, tenho alguns comportamentos, mas não sou uma anoréctica «verdadeira».
SRD – Passou dias sem comer?
MS – Não. Mas passava metade do dia a ingerir líquidos: chá verde, sumos light – para entreter. Se estava com alguém, dizia: «Já comi, mas só para te acompanhar vou beber um sumo.» Assim, não se dá nas vistas. Comia morangos, maçãs e uma coisa que sabia que me engordava: massa integral. Mas precisava de energia para cantar. A massa era um excesso equivalente a chocolates. Paralelamente, fazia hidroginástica às sete da manhã e ao meio dia. Para tonificar o corpo e emagrecer ainda mais.
SRD – Como é que passou da anorexia para a bulimia?
MS – Houve uma altura em que me dizia: «Passo o dia a trabalhar ou a estudar; tenho direito, de vez em quando, a comer uma coisinha boa.» Um chocolate, umas batatas fritas. Dou por mim a comprar coisas. A não comprar só uma. A comprar para ficarem em casa. Lembro-me de ter comido tudo compulsivamente e de ter sentido um desconforto muito grande. Um calor exagerado e o coração acelerado. Só me ocorreu provocar o vómito para resolver o desconforto.
SRD – Entretanto, tinha comido um cornetto, batatas fritas, bollycao, amendoins …
MS – Tudo. Em muito poucos minutos. Tentava chegar a casa o mais depressa possível. Numa primeira fase, sentava-me. Depois, não. Nem ligava a televisão. Comia tudo, tudo, e depois invadia-me um sentimento de culpa. Um sentimento de fraqueza. Se outrora, eu comandava, agora pensava que não prestava porque era fraca. E não queria deixar aqueles alimentos no meu corpo porque senão ia acordar mais gorda. Acabava de comer e o vómito era o reverso da medalha. Ingeria também chás diuréticos e laxantes.
SRD – A tentativa era a de purgar o organismo dos excessos. Como é que o seu peso se ressentiu desse choque alimentar?
MS – Tive grandes oscilações de peso. E um estômago enorme. Em seis meses passei dos 47 kg para os 65. Fiquei pior em termos sociais – achava-me obesa. Mas aquilo era mais forte do que eu. Durante o dia, não tinha as coisas comigo. Se alguém fosse a minha casa e as visse desconfiaria que algo não estava bem. Mesmo com a minha mãe, quando passei a comer melhor e até a pedir sobremesa, ela achou que eu tinha largado a mania das dietas. E saía da mesa para lavar os dentes. A minha mãe não ia atrás e não sabia o que lá se passava … Enquanto estamos a fazer isso, puxamos constantemente o autoclismo para que as pessoas do lado não ouçam.
SRD – Tudo isso é um comportamento de adição: iludir os outros, enganar-se a si mesma, a luta entre o anjinho e o diabinho, a dependência e a não dependência.
MS – Sim.
SRD – Em todo o processo, a comida continuava a dar-lhe prazer?
MS – O prazer era vomitar. Era prazer e um modo de me maltratar … «Agora tens de pagar por aquilo que fizeste.» Depois de fazer isto muitas vezes, já não é preciso provocar o vómito. O estômago já rejeitava qualquer coisa que eu comesse.
SRD – Passou a fazer aquilo a que no seu livro chama «assaltos a bombas de gasolina». Ia a bombas diferentes para criar dispersão …
MS – As pessoas que trabalham a essas horas são sempre as mesmas, e conheciam-me. Deviam pensar que eu era louca ou que tinha muitas pessoas lá em casa … Se fosse todos os dias à mesma, de certeza que iam fazer um juízo de valor. Daí que tentasse ir a bombas diferentes. E quando aumento a quantidade, é a pensar que no dia seguinte já não teria de voltar às bombas. Era para guardar religiosamente. A questão é que olhava para as coisas e pensava que talvez no dia seguinte já não fosse, que ia tentar travar aquele comportamento. Durante muito tempo andei neste ciclo: comprava muita coisa a pensar que era a última vez.
SRD – Vivia para esse momento?
MS – Eu não comia durante o dia, mas estava ansiosa que a noite chegasse. Qualquer adição é negativa, mas com o álcool ou a droga somos privados totalmente disso quando estamos em recuperação. A cura passa por aí. Neste caso, não. E temos a tentação constantemente à nossa frente.
SRD – Acabou por partilhar com a sua psicóloga, e depois com a sua mãe, a luta que travava. Iniciou um tratamento para reaprender a comer. O seu discurso, no livro, parece o de um frequentador dos Alcoólicos Anónimos: em recuperação, degrau a degrau, dia a dia.
MS – Combato esta minha tendência diariamente. Mas a verdade é que estou sempre com receio de cair em tentação. A tentação é pensar que aliviava o modo como me sinto – nos dias maus – se comesse um chocolate… O problema é se a seguir a esse como outro e outro e outro… Não quer dizer que não coma. Como. Mas só em dias em que sei que posso parar. Nos dias em que estou descontrolada, nem sequer toco. Não quero provocar a minha tentação. Hoje em dia, convivo melhor com o meu corpo. Não está como eu gostaria, mas agora é um trabalho meu – em termos de exercício e alimentação.
SRD – O livro é uma maneira de publicamente se comprometer, se exigir de si própria um comportamento mais disciplinado? É um modo de aumentar a vigilância?
MS – Também é, claro. O livro é um desafio para mim. Está ali, sempre, a dizer-me qual é o caminho.
Talvez tudo tenha começado antes de a Mónica ser nascida. Maria João tinha 20 anos quando casou, como mandam os livros, a tradição, o amor. Eram jovens. Eram como plantas viçosas, prestes a florescer. Sobretudo, tinham a elegância própria dos verdes anos. Ela pesava 47 kilos, ele não tinha os kilos extra que parecem chegar com o bolo de aniversário – um de cada vez, depois cinco de ano para ano. Maria João, a mãe, descreve à filha essa imagem dourada. A filha, Mónica, fica presa na balança, nos 47 kilos. Uma miragem. Uma felicidade de cintura fina, vestida de branco. Não por acaso, o seu peso mínimo foram 47 kilos. Fazendo uma psicanálise abreviada, conclui-se que tinha 20 anos e queria pesar o mesmo que a mãe.
Mónica Sintra era já uma cantora famosa; em privado, lutava com o corpo. Contra a sua natureza. “Aquela era a sua estrutura” – diz a mãe. “Nasceu com 2950 kg, mas a partir de determinada altura ficou gordinha. Comia o mesmo que os primos: iogurtes, sandes, sumos. Mas o metabolismo era diferente”.
A primeira vez que Maria João se apercebeu que o peso era um problema foi quando a filha foi rejeitada pelo grupo Onda Choc. Ouviu-lhe a revolta, contrariou a curva decrescente da auto-estima. Recusou-se a aceitar que uma criança quisesse tão desesperadamente cortar no pão e na manteiga. “Achava impensável que uma criança quisesse fazer dieta”.
Maria João refere-se à filha assim: “uma criança”. Depois corrige, e Mónica passa a adolescente; mas começa sempre por se referir a ela, (como todas as mães?), como a sua “criança”. Há quinze anos, falava-se pouco de anorexia e bulimia. O terror dos pais eram as drogas, o álcool, os excessos que marcavam aquela geração. Maria João levava a filha às soirées infantis, inspeccionava-lhe os olhos à saída – estariam vidrados?, não estavam – sentia-lhe o cheiro a tabaco – teria começado a fumar? “Sinceramente, desta doença não tinha conhecimento, não podia decifrar os sinais”.
Diz isto de modo ponderado. Racionaliza. Para acalmar a culpa que a martiriza. Esta mãe sente que não esteve lá quando a filha precisava dela. “Entre os 18 e 19 emagreceu 10 kilos. Olhando para trás, recordo que o prato saía da mesa mais ou menos como chegava… Mas eu achava que isso se devia ao trabalho, ao excesso de concertos, a um desgosto amoroso. Ela disfarçava muito bem”. Perguntava-lhe o que as mães perguntam: “Mas tu comes? Jantas? O que é que comeste?”. Mas sem a insistência e a vigilância devidas.
Debitava conselhos: as vitaminas, a fruta, os energéticos. Nunca pensou. Não desconfiou. Nem quando começaram a faltar os agudos nos espectáculos. Nem quando ela começou a levantar-se da mesa logo após o jantar. “Eu nunca consegui provocar um vómito. Era inimaginável que a minha filha fosse capaz disso. A bulimia assusta-me mais do que a anorexia. No caso da anorexia, pode saltar uma refeição, mas sempre come uma peça de fruta ou uma bolacha, sempre tem qualquer coisa no estômago. Comer e deitar fora: faz-me impressão… Felizmente ela não chegou a vomitar sangue”.
Foi num dia como os outros que o mundo desmoronou. Na véspera, a Mónica tinha confessado à terapeuta o tormento em que vivia. Depois disso, violado o segredo, desbloqueado a impossibilidade, não havia razão para o esconder da mãe. “Chegou a chorar, pediu-me ajuda. Disse-me que comia e vomitava e que precisava que eu estivesse atenta, que não a deixasse fazer aquilo”. Tratava-se de uma doente em recuperação.
A consciência é o primeiro passo dessa cadeia. Fez o que a filha lhe pediu, não fez grandes perguntas. “Não quis massacrá-la. Na verdade, só quando o livro saiu é que soube de muitos detalhes. Ela nunca me tinha contado que ia às bombas de gasolina na fase bulímica… Li-o em duas horas, e chorei, chorei, chorei”.
Passou a viver em alerta laranja. “Vou a casa dela e inspecciono a despensa e o frigorífico. Ontem, por acaso, só tinha iogurtes. Mas se ela os comer, já não é mau. Sei que se estiver sozinha, salta refeições. Mesmo que esteja curada, pode sempre fazer disparates”. Maria João é mãe, amiga e agente de Mónica Sintra. É ela que atende o telefone, organiza a agenda. É ela que ama e cuida.
Acompanha-a nos espectáculos, nas entrevistas, nas sessões de autógrafos. Nas idas às escolas, onde a cantora conta a sua história. “Há tanta adolescente com este problema… Recebo todos os dias emails de escolas onde ela tenta ir e dar o seu testemunho. É uma situação muito triste”. O pior parece ter passado. Mónica completou 30 anos, iniciou uma nova etapa. Maria João fez 50 e já não repete que casou com 47 kilos. Ambas tentam ajudar. Ajudar-se uma à outra. Ajudar as outras mães, e aquelas que sofrem de distúrbios alimentares. Não sabe bem.
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