Encha uma caneca de chocolate, sente-se no seu sofá preferido e saboreie as memórias.
O Sofá Branco
Christine Langlois
Como filho de uma mãe pintora, que pintava sobretudo paisagens, mas via oportunidades de pintar em todo o lado, eu sabia que faltavam poucos dias para o Natal sempre que chegava da escola e via que o velho sofá tinha levado uma nova demão de tinta branca.
O pequeno sofá em questão estava de esguelha a um canto junto ao sofá mais novo, numa das pontas da sala. Estava forrado com um couro de imitação que a nossa criativa e despachada mãe descobriu que podia ficar como novo se levasse uma rápida demão de látex de cada vez que parecia gasto. Isso era bom, porque criar seis filhos com uma única fonte de rendimento traduzia-se em que o orçamento para decoração era sempre muito apertado.
A mãe gostava especialmente de arranjar a casa para a festa de aniversário de casamento e brigas que ela e o pai celebravam todos os anos no dia a seguir ao Natal. Era uma coisa chique para adultos – as senhoras traziam vestidos de cocktail e toda a gente bebia punch. E assim, tão perto do Natal quanto possível (pois antes disso qualquer criança descuidada poderia estragar-lhe o trabalho), ela atirava-se ao sofá com rolo e tinta.
Depois, punha-lhe em frente um enorme pinheiro que roçava o tecto, com as suas luzes multicores a contrastarem com o branco-brilhante do sofá. (A colocação da árvore era uma precaução adicional para evitar que alguém se sentasse no sofá. As visitas assíduas já sabiam como era, mas todos os anos uma convidada nova e desprevenida caía nesse erro, para logo dar um salto ao som da tinta a estalar e acabando com a parte de trás das meias de nylon cheias de malhas.)
Chegados ao dia 27 de Dezembro, a mãe afrouxava as regras do sofá, e os meus irmãos voltavam a fazer corridas de carrinhos Dinky Toys sobre as almofadas, abrindo fissuras e fazendo cortes ao longo do debrum. Mas durante uns poucos dias, o sofá resplandecia como um farol de elegância imaculada, a nossa versão muito própria de um Natal branco. E ainda hoje o mais leve cheiro de látex em Dezembro deixa-me num estado de enlevada expectativa.
A Bola dos Harris
Rona Maynard
Para mim, o primeiro dia do Natal calha quando quer que eu desembrulhe as decorações das suas camadas de papel de seda amarrotado. Saem cá para fora os meus tesouros, cada um a recordar-me um Natal passado. Pássaros de papel, anjinhos de madeira pequenos que já encantaram o nosso filho, o boneco de um Karate Kid sardento que marcou o ano em que o nosso neto se dedicou à modalidade.
E todos os anos, num momento de descuido, deixo cair uma ou duas decorações. A caixa cheia de pássaros de vidro com cores de jóias e caudas longas está reduzida a uma meia dúzia. E a bola de vidro transparente com riscas pintadas à mão é hoje a única sobrevivente de um conjunto a que costumávamos chamar «as bolas dos Harris», nome do casal idoso que as deu aos meus pais recém-casados.
Quando eu era criança, não ligava às bolas dos Harris. Pareciam-me relíquias da época em que os carros tinham tabliers corridos. Por mim, preferia decorações de Natal a brilharem como os últimos modelos de automóveis de luxo. A minha irmã e eu costumávamos brigar pelo privilégio de pendurarmos uma lágrima brilhante coberta de neve de imitação. Às vezes, a nossa bulha lá partia outra bola dos Harris, e a nossa mãe varria os estilhaços com uma inenarrável expressão de tristeza. «Bem que eu gostava que as meninas tivessem mais cuidado», suspirava ela.
Hoje, chegado o dia de armar a árvore de Natal, sustenho a respiração ao desembrulhar a minha bola dos Harris. Penduro-a no centro da árvore, colocada para apanhar a luz. E enquanto prendo bem o gancho metálico a um ramo da árvore, penso para mim própria: «Ainda cá estás.»
O Acompanhamento
David Hayes
Quando tinha quase 20 anos, trouxe uma namorada ao jantar de Natal da família. Mais tarde, ela disse oito palavras que me surpreenderam e inquietaram: «Que coisa é aquela do arroz de caril?»
Com o peru, a minha mãe servia sempre recheio de pão, puré de batata, puré de nabo e arroz de caril. E, pela primeira vez, eu encarei esse lado do nosso terno e acolhedor ritual de família como uma excentricidade.
Embora estivesse sempre bem para acompanhar criação, o arroz de caril tornara-se um elemento indispensável do nosso Natal. Não era nada que pudesse confundir-se com o que servem num bom restaurante indiano; na nossa família, esse acompanhamento era feito com pó de caril do supermercado, misturado com manteiga derretida dentro de um tacho de arroz branco instantâneo Uncle Ben’s. O arroz ficava de um amarelo de caneta de feltro, e o sabor estava um grau acima de insípido. A mãe explicava que a mãe dela sempre o servira assim.
Não sabia da proveniência, mas calculava que a sua avó, talvez mesmo a sua bisavó, o teria feito assim. Ninguém desenhara uma árvore genealógica, mas de certeza que a família da minha mãe era oriunda de Inglaterra, e a colonização tinha dado aos Britânicos uma certa preferência por pratos indianos.
Ao longo dos anos, mantive uma relação de amor e ódio com o arroz de caril. Sugeri muitas vezes à minha família que o dispensássemos, invocando a redundância de amido e o geral excesso de comida, mas eles insistem acaloradamente em que mantenhamos a tradição: temos sempre peru, e alguém traz sempre uma enorme tigela de arroz de caril.
Um dia, percebi que o arroz de caril simbolizara, durante anos, tudo o que me parecia pouco sofisticado na minha família. Como adultos, criamos os nossos próprios rituais, mas, à medida que os pais vão envelhecendo e partindo, os rituais de infância de que nos cansáramos ou que tínhamos rejeitado assumem um novo significado. Por isso, quando nos juntarmos este ano no Natal, tenciono levar o arroz de caril, comê-lo e gostar.
Um Coração Dividido
Anne Mullens
Vivo a 3000 km dos meus pais e da maioria das minhas irmãs, sobrinhas, sobrinhos e outros familiares. Isso significa que, chegado o Natal, tenho o coração dividido: feliz e grata pela família próxima e maravilhosa que tenho – o meu marido e as minhas duas filhas adolescentes – e cheia de saudades da família em que cresci.
Os rituais do Natal, tão enraizados nas tradições familiares, ampliam esse sentimento agridoce. Um ritual em particular encarna essa emoção: ouvir uma gravação de canções de Natal que o meu pai fez para mim.
Quando eu era rapariga, a primeira coisa que fazíamos na manhã de Natal era tocar as músicas sentimentais e fáceis de apanhar do «Singalong Jubilee Singers Christmas Album», da CBC-TV, gravado nos anos de 1960. Começam com uma contagiosa versão em banjo da canção It’s Christmas Day, um banjo que nunca deixa de pôr toda a gente a bater o pé.
Há cerca de 20 anos, o meu pai mandou-me uma gravação do álbum, que começa com a sua voz terna e reconfortante a dizer-me que, onde quer que eu esteja no Mundo, aquela gravação irá ligar-me à música do Natal do meu passado e ao amor que têm por mim. Muito embora eu possa telefonar ao meu pai ou enviar-lhe um e-mail em qualquer altura (e, de facto, o faça), ouvir a voz dele na manhã de Natal emociona-me e vêm-me sempre lágrimas aos olhos. Depois, arranca com o banjo e não podemos deixar de dançar.
Sei que um dia aquela fita gravada vai partir-se; já está muito riscada. A manhã de Natal nunca será a mesma sem ela, e espero que alguém tenha um ficheiro MP3 de onde eu possa fazer o download. Saberei sempre evocar a voz do meu pai a dizer-me que, esteja eu onde estiver, sou muito amada. É uma coisa que espero ser capaz de legar às minhas filhas à medida que se vão tornando adultas e comecem a celebrar o Natal com as suas próprias famílias. Mas até lá, a cada Natal continuaremos a pôr essa fita gasta no aparelho, a sorrir por entre as lágrimas e a dançar pela casa fora.
Nostalgia de Natal
Dave Bidini
Na nossa família – pai, mãe e duas crianças de 6 e 8 anos –, o Natal significa ir ao centro comercial. Quase nunca lá vamos, excepto em Dezembro. No parque de estacionamento, um tipo que pode bem ter acabado de sair da prisão, ou do mato, ou de um navio pirata vende pinheiros entre 20 e 50 euros. Escolhemos o mais barato, uma coisa desalinhada, fraca e a precisar de um canto numa sala de estar.
No centro comercial, pais empurram carrinhos de bebé, passando por lojas de electrodomésticos e de gangas enfeitadas com campainhas de Natal de plástico. No seu castelo, o Pai Natal parece demasiado gordo e cansado e a barba está amarelada. A cada ano, fica maior e mais sonolento, a barriga a cair-lhe sobre o colo, o fato encarnado mais apertado que no ano anterior.
Mas as crianças adoram-no e parecem nunca reparar nas mudanças: como, hoje em dia, ele se franze ao ver as crianças correrem na sua direcção; como julga que toda a gente ainda quer camiões de brincar, giz de cores e Barbies; como faz microssestas entre visitas para acabar acordado por uma cotovelada do seu assistente. Nas fotografias com o Pai Natal, que pagamos demasiado caras, ele parece absorto, quando antes os olhos lhe brilhavam por detrás dos óculos. Talvez tenha sido atraído a uma espécie de estado catatónico sazonal pelos cânticos de Natal intermináveis do centro comercial. Ou talvez esteja simplesmente a ficar demasiado velho para a função. Seja como for, apesar de os pais lamentarem estas mudanças, as crianças não lamentam. Para elas, ele continua a ser o porto seguro de todo os presentes.
Ah, que bom voltar a ser criança.
Dois Pais
Douglas Todd
Acontecia sempre qualquer coisa antes do jantar de Natal quando o meu padrasto, Eric, preparava as suas bebidas fora de estação. Os daiquíris gelados costumam destinar-se a refrescar as pessoas nos dias de Verão. Mas Eric preparava-os para aquecerem as reuniões familiares na época do Natal da nossa família alargada: uma variedade de parentes pouco sentimentais, meios-irmãos e membros afastados da família que muitas vezes não sabiam de que falar quando se encontravam uma vez por ano por esta altura. Famoso pela sua falta de tacto, Eric dava tudo o que tinha ao elaborar uma tigela de daiquíris gelados. Radiante, passava à volta um tabuleiro de copos cheios de algo que bem podia ser confundido com semifrios de loja de conveniência.
Até os adolescentes, sempre difíceis de impressionar, sorriam quando os adultos, supostamente mais sofisticados, se derretiam ao primeiro gole destas bebidas mágicas geladas. Toda a gente se descontraía, a boa disposição soltava-se, abundavam as conversas boas. Chame-se-lhe comunhão secular, com daiquíris de lima em vez de vinho tinto; todos os Natais, durante algumas horas, as criações do Eric traziam alegria ao nosso mundo.
No dia seguinte, a disposição era sempre bem diferente. Será possível que o ritual menos desejado possa também ser, afinal, o favorito, ou, pelo menos, o mais valioso? No dia a seguir ao Natal, o meu irmão e eu visitávamos o nosso pai e trocávamos presentes com ele. Não se tratava de uma situação típica de divórcio: os nossos pais tinham-se separado porque o meu pai, Harold, sucumbira a uma doença mental.
O meu pai era um homem bom, mas a doença e o internamento tornaram-no passivo e reservado e, verdade seja dita, um pouco estranho. Não posso dizer que gostasse desse dia 26. Mas o meu irmão e eu tentávamos bravamente manter o ambiente alegre enquanto dávamos ao nosso pai presentes de revistas, livros e camisolas. E havia sempre algo de doloroso na maneira como o pai sorria acanhadamente enquanto nos dava os nossos presentes. Eram sempre os mesmos dois presentes por embrulhar todos os anos: uma caixa de chocolates e um par de meias escuras. Ele tentava dar de si aos seus filhos da única maneira que podia. Era trágico e lindo ao mesmo tempo. Em cada um desses dias, aprendi que a época do Natal, decididamente, não tem a ver só com a nossa pessoa. E nunca teria desejado que fosse de outra maneira.
Renas no Telhado
Arthur Black
Eu ouvi-as mesmo. Lá em cima, no telhado, a escavarem com as patas e a fazerem barulho como uma trupe de bailarinos com nervos. Renas. Sem dúvida nenhuma. Eu já andava à escuta há vários anos, desde que o pai começou a adormecer-nos na véspera de Natal com uma leitura da história «A Véspera do Natal». Todos os anos, quando ele estava a chegar às últimas linhas, eu ajeitava ostensivamente a almofada, voltava-me para o lado e fingia que dormia. Mas sempre decidido a, desta vez, ir ver com os meus olhos. Porque. Eu. Cá. Tinha. Dúvidas.
Para começar, a simples logística. Eu sabia quanto tempo se gastava até à quinta do tio Roy, a menos de 100 km dali . O Pai Natal ia aterrar em todos os telhados entre cá e lá? Numa só noite? Num trenó?
Além disso, uma vez tinha encontrado um pardal desorientado a deixar pegadas de fuligem no tapete da nossa sala. Ora, se um 10 réis de penas tinha saído da chaminé todo enfarruscado, como é que não ficaria um senhor rotundo de bigodes brancos e fato encarnado?
Portanto, quando ouvi as renas, soube logo o que tinha de fazer. Primeiro, fechei os olhos outra vez. Só para dar tempo ao Pai Natal para atirar os meus presentes chaminé abaixo. Depois, adormeci. E quando acordei e corri escada abaixo … a magia já tinha acontecido outra vez. As bolachas tinham desaparecido, a chávena de leite tinha sido bebida e a árvore de Natal estava pejada de caixas e sacos vistosamente embrulhados que não estavam lá na véspera.
Cinquenta anos e muitas bolachas depois, tenho a barba grisalha e uma cintura mais ao jeito do tipo que se espera saltar da chaminé. Estou mais velho e, segundo reza a lenda, mais sábio. Mas, ai, o que eu daria para ter ouvidos suficientemente jovens para ouvir as renas no telhado outra vez.
Um Filme de Natal
Bill Richardson
White Christmas, Miracle on 34th Street, A Christmas Carol: são muitos e variados os filmes apropriados para o Natal que lideram a lista de aluguer na época festiva. Mas aquele para o qual eu me sinto mais atraído é Bell, Book and Candle (Sortilégio de Amor). Este é de longe o meu ritual de Natal favorito. Saiu em 1958, e Kim Novak e James Stewart representam os papéis principais. Passa-se em Nova Iorque na noite de Natal, e é a história de uma lindíssima bruxa (Novak) que tem de escolher entre manter os seus poderes ou ficar com o homem que ama (Stewart). A história é um pouco manca, mas as cenas de Greenwich Village no Inverno, a decoração elegante e o ambiente ardente de Kim Novak a fumar voltam-me sempre à memória ano após ano.
Mas eu não sou grande fã do Natal, e por isso há muitos anos que me habituei a partir da cidade. Quase sempre, faço uma curta viagem para a costa de São Francisco, onde me escondo em qualquer hotel na montanha, peço que me sirvam as refeições no quarto e faço longos passeios a pé a olhar para Alcatraz: uma forte advertência de que não é possível fugirmos das coisas que nos incomodam se nos trouxermos a nós próprios para a viagem.
Eu nem sequer gosto de São Francisco, valha-me Deus! Porque é que eu estou sempre a voltar para lá? Bom, há cerca de 10 anos, no bar do Hotel The Fairmont, vi uma mulher que, estou convencido, era a Kim Novak. Fui ter com ela? Claro que não. Mas é a memória dessa possibilidade que me persegue, e se ela esteve lá uma vez, poderá vir a estar outra vez, não é? E eu gostaria de ter oportunidade de lhe agradecer, passados 50 anos, pela sua participação na única coisa de que eu realmente gosto no Natal.