António Lança de Carvalho

Pôs dinheiro de parte e deu-lhe um bom destino. Não deu comida, não deu roupa. António Lança de Carvalho não deu o peixe. Mas quis ensinar a pescar.
Talvez tenha sido o cinquentenário. «Fazer cinquenta anos mexe com a gente», explica, com um sorriso, António Lança de Carvalho. Talvez. Ou talvez tenham sido as notícias, sempre a bater na tecla gasta das desigualdades, do aumento do abandono escolar, miúdos a dizer para as câmaras: «Eu queria estudar, mas o dinheiro não estica e tenho de ir ganhar para sustentar a casa.» Talvez. Mas talvez também possam ter ajudado as conversas domingueiras com o pai, Afonso Baptista de Carvalho, quando iam os dois a pé desde casa, no Saldanha, até ao Estádio de Alvalade, ver o clube do coração defrontar as equipas visitantes.
António Lança de Carvalho não sabe precisar se foi só um destes factores ou o caldo onde todos cozeram durante anos, devagar. A verdade é que uma ideia começou a ganhar forma na sua cabeça. Parecia-lhe uma boa ideia, daquelas que mereciam sair de dentro do seu crânio para a rua, para a vida real, sair da teoria para passar à prática. E assim, em Maio de 2007, António ligou para a Junta de Freguesia de São Domingos de Rana, marcou uma reunião com o presidente, e esperou até ao dia em que a sua ideia saiu, por fim, do interior da sua cabeça para uma sala, primeiro, e para o interior de várias vidas, depois. «Sempre me pareceu criminoso haver miúdos condenados a abandonarem a escola por culpa das condições económicas. O meu pai ensinou-me uma coisa que é preciosa: “Nós não temos de ser espectadores da nossa própria vida.”»
Na reunião com Manuel do Carmo Mendes, o presidente da Junta, António explicou a ideia: queria dar um prémio de mérito de 1000 euros, no final de cada ano lectivo, aos melhores alunos da freguesia que tivessem concluído a escolaridade obrigatória e que usufruíssem dos SASE, os Serviços de Apoio Social aos Estudantes. «E não só. Não bastava que fossem bons alunos e que tivessem direito ao SASE. Para ganhar este prémio era preciso que os miúdos estivessem já inscritos no ano lectivo seguinte, ou seja, o 10.º. Só assim a ideia podia promover a continuidade do percurso escolar, que era o meu objectivo primeiro.»
O presidente da Junta de São Domingos de Rana ficou exultante com a ideia do controlador aéreo. E, logo ali, naquela primeira reunião, decidiu engrossar o prémio, juntando mais 1000 euros ao valor oferecido por António Lança de Carvalho. Quando chegou o momento de dar um nome a este reconhecimento público dos estudantes carenciados, António não teve dúvidas: «Queria homenagear o meu pai, que foi um homem que também teve de subir a pulso.» Assim, o galardão ficou a chamar-se Prémio Afonso Baptista de Carvalho.
«O meu pai teve um percurso semelhante ao de muitos dos jovens que estudam com dificuldades. Mas ele não se conformou com a sorte. Quis mudar o destino. E conseguiu.» Afonso Baptista de Carvalho ficou órfão de pai e mãe aos quatro anos. «Foi entregue a uma tia pobre que o sustentava com dificuldades e o primeiro curso que tirou foi o de serralheiro, na escola Machado de Castro.» Depois, empregou-se como paquete num escritório de advogados, ao mesmo tempo que tirava o curso de Direito, à noite.
Nessa altura, para ganhar mais uns trocados, fez traduções de livros policiais, da Colecção Vampiro (Livros do Brasil). O filho já tem alguns desses livrinhos pretos traduzidos pelo pai, mas ainda terá de continuar o seu périplo pelos alfarrabistas para terminar a colecção. Quando terminou o curso de Direito, ficou a trabalhar no mesmo escritório. Mas já não como paquete. Por fim, abriu o seu próprio escritório e acabou por se tornar um jurista conceituado.
António emociona-se a falar do pai, hoje nome de prémio. «Ele ficaria bem contente por estar associado a uma coisa destas. Logo ele, a antítese do conformismo.» O filho herdou do pai a força para mudar o destino, não apenas o seu, mas o de outros. António Lança de Carvalho, 50 anos, nasceu em Lisboa e por altura do 25 de Abril interrompeu os estudos. Queria ser advogado, como o pai, mas as convulsões políticas obrigaram-no a suspender os estudos. Depois da tropa, entrou na ANA, Aeroportos de Portugal, como controlador do tráfego aéreo. Esteve seis anos na ilha de Santa Maria, Açores, e a seguir veio para Lisboa, onde se manteve como controlador mais 8 ou 9 anos. Hoje é supervisor da aproximação dos aviões a terra. «Dizem que é das profissões mais stressantes que há mas eu gosto muito. E desde que se goste tudo parece mais simples.»
Pelo caminho, António casou, teve dois filhos (a Sara, hoje com 26 anos; o João, com 16), terminou o curso de Direito, separou-se, tornou a casar, teve mais um filho (o Rafael, com quase 2 anos). E a ideia, claro, a ideia que já faz parte dele enquanto gente, a ideia que o define tanto ou mais que o percurso de vida atrás descrito.
No final do ano lectivo de 2006-2007, seis alunos da freguesia de São Domingos de Rana foram chamados à Junta. Os pais preocuparam-se: o que teriam aprontado? Porque quereria o presidente falar-lhes? Os próprios inquietaram-se: que raio fiz eu?
O que estes seis alunos fizeram foi ter boas notas e estarem inscritos no 10º ano, apesar de a vida não lhes ser fácil. António Lança de Carvalho diz que não esquece o olhar dos seis, com o diploma e o cheque nas mãos, a expressão espantada, o sorriso aberto. O primeiro prémio (500 euros para cada vencedor) foi para Joana Soraia Florêncio e Joceane Semedo. Natacha Pires e Otaniel Landim receberam o segundo prémio (de 300 euros). E o terceiro galardão (200 euros) foi para Andreia Martins e Suelly Fernandes.
Na cerimónia, o presidente da Junta sublinhou que não podia ter ficado indiferente à proposta de António Lança de Carvalho: «É bom que os jovens se apercebam que, nos tempos difíceis que correm, ainda há pessoas que se preocupam com eles.» António também discursou: «O sucesso do meu pai, após todas as dificuldades por que passou, serviu de exemplo para a instituição deste prémio. A partir de hoje vocês passam também a ser um exemplo. Parabéns. Estou feliz por vocês».
António gostava que a sua ideia fosse copiada por outras pessoas, pelo país fora. Afinal, bastam três euros por dia para juntar mil euros. «Há de certeza muito mais gente com muito mais dinheiro que eu, que podia dar este estímulo a jovens com dificuldades económicas mas que têm vontade de estudar. Este dinheiro não lhes muda a vida. Mas ajuda-os a perceber que, se trabalharem, se forem bons, vai sempre haver quem repare neles. Quem os reconheça. E o futuro será certamente diferente para os que têm valor e se esforçam.» Além disso, para António Lança de Carvalho, o olhar, aquele olhar dos que ganham é um prémio bem maior do que os mil euros postos de parte. «Bem maior.»
|
| |||||
Faça um Comentário
| Nome* | |
| Email* | |
| Comentário* | |

Mais Populares
Mais Populares
Favoritos da Semana
![]() Receitas e Alimentos | ![]() Dicas e Truques | ![]() Alimentação Saudável | ![]() Destinos e Viagens | ![]() Notas de Lazer | ![]() Consultas de Especialistas |
Precisa-se: Uma Boa História!
Precisa-se: Uma Boa História!
Escreva-nos e poderá ganhar:
50€ por cada história verídica e inédita que for publicada em Flagrantes da Vida Real.
20€ por cada texto publicado em Rir é o Melhor Remédio.

Partilhe






.jpg)
















