Amor e paciência
Pedro Videira é capaz de gastar horas a cativar um animal que outros veriam como uma fera.
By Sónia Morais Santos
Sentado no chão, Pedro fala num tom de voz baixo. E doce. Ninguém lhe responde mas ele não parece importar-se. Por vezes, do outro lado da porta com grades ouve-se um rosnar ameaçador, perigoso, crescente. Pedro nem pestaneja. Prossegue numa ladainha terna, serena, imperturbável. Pega em bolachas e entrega-as, através das grades, uma a uma, num jogo de sedução demorado. Depois, levanta-se e desaparece pelo corredor.
No dia seguinte, Pedro senta-se novamente no chão. E fala outra vez no mesmo tom de voz baixo. E doce. Ninguém lhe responde, mas ele não se incomoda. O rosnar torna-se menos ameaçador, menos perigoso, menos crescente. Pedro não pestaneja e continua o seu jogo de sedução, que mete falinhas-mansas e bolachas.
Semanas e semanas nisto. Até que um dia abriu a porta e entrou numa casa que não era sua. Foi cheirado, foi lambido, rosnado. Saiu. E voltou no dia seguinte. Cheirado, lambido, rosnado. E quando já não houve rosnar nem olhar crispado, Pedro pediu autorização à directora da União Zoófila para sair à rua com uma nova amiga: uma cadela que alguém ensinou a lutar quase até à morte. Uma cadela que teve de reaprender a olhar os humanos como seres de confiança, com a ajuda de uma voz meiga e … bolachas. Um bicho que ninguém imaginaria a regressar à rua por uma trela porque ninguém se imaginava a tocar-lhe nem com um dedo. E, no entanto, há mais de dois anos que todos os domingos sai à rua para passear com o seu melhor amigo: Pedro.
Pedro Videira tem 33 anos e é louco por animais. Não só cães e gatos. Animais em geral. Por eles é capaz de se sentar assim, semanas e semanas, à porta de uma boxe, a tentar falar a mesma linguagem. E a conseguir. Pedro teve sucesso com esta cadela bravia e já conseguiu outros feitos do género. Tudo porque tem com os animais uma relação particular. Para começo de conversa, não os come. Pedro não é só vegetariano. É vegan. Ou seja, não come nada que seja de origem animal: leite, derivados, ovos. «As vacas são engravidadas para se transformar em produtoras constantes de leite, muito para além do tempo necessário para alimentar os seus bezerros. Os seus bebés são-lhes retirados, com todo o sofrimento para ambos, e transformados em vitela “tenrinha”. As vacas são então estimuladas para produzir leite até ao infinito. Quando, por alguma razão, deixam de ter leite, são novamente engravidadas ou seguem para fast food. Por isso, não. Não bebo leite nem derivados. E a lógica é a mesma para os ovos.»
A sua atitude é mais do que uma mania, uma extravagância. É um princípio de vida, uma filosofia: «Não me sento à mesma mesa com quem come cadáveres. Não consigo. Sou vegetariano desde Abril de 2005 e vegan há um ano e meio. Se soubesse o tormento que é para mim pensar que já fui capaz de comer carne, de comer cadáveres! Sinto uma profunda repulsa por esse eu que já fui. Se pudesse voltar atrás, nunca comeria nada que proviesse de um animal. E, por isso, hoje não consigo estar à mesa com quem o faz. Perturba-me.» É este o nível de amor que tem aos bichos. Tal como não os come, não os dá a comer. De modo que, sim, os seus cães são vegans, tal como ele.
De onde lhe vem esta paixão animal? «Diz a minha mãe que na noite em que eu nasci houve um dos gatos da minha avó que dormiu debaixo do meu berço.» Pedro cresceu rodeado de bichos. Gatos, sobretudo. A primeira palavra que pronunciou foi premonitória: «cão». Em casa da mãe, começou por haver o gato Pimpão. E depois veio mais um gato, e mais outro, e outro e ainda outro. Hoje, a mãe tem uns oito gatos. Ele, por sua vez, adoptou o primeiro cão há pouco mais de três anos. «Estava a passear com a minha namorada da altura perto do rio Judeu, no Seixal, quando apareceu esta cadelinha a querer brincadeira. Vimos que ela tinha qualquer coisa na boca, fomos ver mais perto e … era um anzol! Levámo-la logo ao veterinário, ele teve de a anestesiar, abrir, tirar … depois levámo-la para casa da minha ex-namorada e eu fui ter uma conversa com a minha mãe.» Pedro traçou um cenário ainda pior da cadela, coitadinha, uma desgraça, nem sabemos se tem safa, pediu à mãe que a fosse ver, que era tão gira, que estava tão fragilizada. A mãe há-de ter sorrido para dentro, a fazer de conta que não percebia o esquema, como quando ele era miúdo e lhe tirava o retrato sem que fosse preciso falar. «Nem precisei de lhe pedir. A minha mãe só quis que eu me comprometesse a levá-la para minha casa quando arranjasse casa. E eu cumpri.»
A Lessa está há três anos e pouco a viver com o Pedro. Agora, apareceu o Rafa. «Apareceu lá na rua e, como é arraçado de Husky ou de Samoiedo e tinha duas coleiras, uma de cabedal e outra de antiparasitas, pensei que se tinha perdido. Fui ao site Encontra-me.org, pus fotografias dele, colei cartazes na zona, fui à Polícia, ao canil do Seixal … nunca apareceu ninguém a reclamá-lo. Ficou.»
Pedro confessa que tem de controlar-se. Por ele, levava para casa todos os bichos abandonados e maltratados. «Quando vejo ao longe um animal abandonado aos caídos, tento fazer outro caminho, tento olhar para outro lado. Porque eu não posso ter mais. Não posso mesmo. Estou sozinho a pagar a renda da casa e a ração de dois cães … não dá para mais. Mas, sim, fico de rastos e tenho mesmo de me esforçar por não ver.»
Em Outubro de 2004, a ex-namorada viu no site da União Zoófila (UZ) um pedido de voluntários. Perguntou-lhe se queria ir, ele disse que sim, e foi assim que começou a sua actividade como herói dos bichos. «No início, tinha receio das desgraças que ia encontrar. Depois, pensei que não podia ser egoísta. Tinha de ajudar mesmo que me impressionasse. E assim foi. Logo no dia em que lá chegámos, havia montes de mantas que tinham sido lavadas e que estavam empilhadas, ainda húmidas e a ganhar bolor, porque não havia mãos que chegassem para pôr aquilo em condições.»
De um grupo grande de gente candidata ao voluntariado na UZ, ficaram o Pedro e a namorada de então. «As pessoas, quando percebem que têm de mexer em porcaria, desistem. E há outras que realmente não suportam o estado em que alguns animais chegam: doentes, feridos, abandonados, decepcionados, tristes. É preciso estômago. A solução está em tentar não pensar nisso enquanto se lá está. Nem que se chore depois, como eu chorei várias vezes. Porque alguém tem de fazer. E quem sofre mais são eles.»
Uma das situações que mais o impressionou aconteceu este ano e foi uma luta de cães dentro de uma das boxes da UZ. «Fui o primeiro a entrar. Nem pensei, não demorei nem um segundo a entrar na boxe. E nunca vi tanto sangue em toda a minha vida. Um dos cães não parava de sangrar, e havia sangue por todo o lado, pelas paredes, no chão … um cenário de horror.»
Pedro teve conhecimento da Associação Animal através dos protestos contra as touradas do Campo Pequeno. No decorrer dos protestos, conheceu os mentores da associação, Rita Silva e Miguel Moutinho, e achou que a Animal, por ser mais abrangente na defesa dos bichos, era mais a sua cara: «Não é que não goste da União Zoófila. Mas a Animal não defende apenas cães e gatos. Defende todos os animais. Senti-me mais compreendido ali.»
Já participou em dezenas e dezenas de protestos contra as touradas, claro, nem seria de prever outra coisa de quem, como ele, defende os bichos, todos os bichos, com unhas e dentes.
Pedro Videira é técnico de electrónica e trabalha na Vodafone. Tem pena de não haver em Portugal um mecenato a sério que pague dinheiro a sério às associações que cuidam dos animais. Se lhe saísse o euromilhões, não tinha dúvidas, investia muito na Associação Animal, na qual diz ter total confiança. Sobre a sua vida pessoal, não adianta muito mais. Mas sublinha que não pretende ser pai de um humano.
Di-lo assim mesmo: «Não tenciono ser pai de uma criança humana. Se me passasse isso pela cabeça, adoptava. Mais vale fazer a diferença entre as crianças que já existem e que estão a viver em instituições, sem mãe nem pai. Mas, ainda assim, prefiro dedicar-me às crianças não-humanas, porque há muito menos gente a preocupar-se com elas. E os bichos serão sempre os meus miúdos.»
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2 Comentários |
| armindo sousa on 27 Dezembro 2011 ,17:13 Pedro, chocou-me, no bom sentido este artigo, cada vez mais conheço os animais mais os prefiro aos humanos, desde garoto sempre houve animais em casa dos meus pais e avós, vacas, ovelhas, cabras, porcos cães e gatos agora nos meus pais muita passarada . Costumo dizer em ar de gozo que me nasceram os dentes no curral das vacas, mas é verdade, bebia o leite direto da teta, por isso comprrendo bem a tua situação. Um grande abraço AMIGO de bem haja Armindo Sousa |
| Clara coelho on 21 Maio 2011 ,19:55 adorei esta reportagem sobre herois do dia a dia (amor e paciencia) Quem dera no mundo existessem mais pessoas como o Pedro,tambem eu sou uma apaixonada por animais. |
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