Alimentos transgénicos

É uma estrela dos meios de comunicação, bela e inesperada. Com os seus 10 cm de envergadura de asas, cor negra e alaranjada e migrações difíceis e agitadas, a borboleta-monarca há muito que é uma favorita dos naturalistas. Mas só em Maio de 1999 é que se tornou uma verdadeira celebridade, quando investigadores de uma universidade norte-americana anunciaram que as lagartas da borboleta-monarca morriam depois de se alimentarem com pólen de milho geneticamente modificado.
A notícia provocou alvoroço. Os grupos ambientalistas proclamaram imediatamente, como um activista do Greenpeace, que «os organismos geneticamente modificados (OGMs) poderão levar à destruição dos ecossistemas naturais e ameaçar a saúde humana». Os Amigos da Terra também alertaram estridentemente: «Há um risco real de as explorações agrícolas se tornarem, dentro de pouco tempo, em desertos.»
O gene Bt, que permite às plantas produzirem o seu próprio pesticida, tem sido usado nalguns cereais aprovados pelo comité científico da União Europeia. Mas com a opinião pública alarmada, os ministros do Ambiente da UE recusaram-se a considerar a concessão de autorizações para quaisquer outros produtos geneticamente modificados. Isso ajudou a cancelar a importação de uns 200 milhões de dólares de cereais norte-americanos e quase desencadeou uma guerra comercial entre os dois lados do Atlântico. Entretanto, pouco depois de a investigação sobre a borboleta-monarca ter chegado às primeiras páginas dos jornais, uma avaliação independente feita por cientistas demonstrou que ela não devia ter sido levada demasiado a sério — era muito preliminar e confinada a um laboratório, não necessariamente com implicações para as borboletas-monarcas na Natureza. «Já sabíamos que os insecticidas matam borboletas», diz Jean-Pierre Prunier, um agrónomo do INRA, o Instituto Nacional da Investigação Agrícola de França. «Isso não prova que o milho geneticamente modificado seja mais perigoso para as monarcas que os pesticidas habituais, que são provavelmente muito piores.» Funcionários do Ministério da Agricultura britânico estão de acordo. «As pessoas tiraram conclusões precipitadas», diz um porta-voz do Grupo de Trabalho para a Segurança e os Padrões Alimentares. «A Bt, derivada de uma bactéria do solo, é um pesticida natural usado durante anos pelos agricultores, tanto orgânicos como tradicionais. É necessária mais investigação antes de podermos tomar uma decisão sobre este estudo do ambiente agrícola.» Mesmo os autores do estudo sobre a monarca alertaram para que não se tirassem conclusões apressadas sobre os riscos envolvidos. Ainda assim, a campanha contra os OGMs tornou-se frenética. Alguns grupos vão ao ponto de destruir as colheitas experimentais. Vestidos com fatos brancos para «catástrofes ambientais», invadem explorações agrícolas e rasam carreiras de trigo ou soja experimentais. «As nossas acções são proporcionais ao risco que representam os OGMs», diz Hans Wolters, chefe do gabinete europeu do Greenpeace. Frequentemente, os fotógrafos e operadores de câmara dos meios de comunicação são alertados com antecedência. Em Janeiro passado, estas pressões levaram a que 130 países assinassem um novo protocolo, em Montreal, no Canadá. Este permite aos países banirem as importações de alimentos geneticamente modificados se acharem que as provas de que são seguros não são suficientes. Os países produtores (sobretudo os Estados Unidos e o Canadá) têm que assinalar os carregamentos que «podem conter» OGMs. Presentemente, não há frutos ou vegetais frescos geneticamente modificados disponíveis para consumo humano na Europa. Contudo, Robin Woo, director-adjunto do Centro de Nutrição e Política Alimentar da Universidade de Georgetown, em Washington, diz: «A ciência séria indica que há uma certeza razoável de os OGMs serem seguros para o consumo humano e para o ambiente.» Para pormos em perspectiva esta controvérsia, eis algumas respostas às perguntas mais comuns sobre os alimentos oriundos da biotecnologia:
Qual é a diferença entre os alimentos comuns e os OGMs? Durante milhares de anos, os agricultores modificaram as plantas, seleccionando sementes que dão melhores colheitas, paladar e nutrição. Para conseguirem essas sementes, cruzam diversas variedades de uma planta, misturando milhares de genes desconhecidos com resultados largamente imprevisíveis. Depois, esperam pela colheita. Se não obtiverem um híbrido adequado, repetem o mesmo processo por tentativas. As técnicas de modificação genética permitem aos agricultores escolher com muito maior precisão o que pretendem obter. Um gene específico de entre os 50 000 que estão presentes, por exemplo, num tomate, pode ser isolado e transmitido directamente para outra planta, para se obterem resultados como resistência às pestes ou melhor qualidade. Isto não afecta negativamente os aspectos nutritivos ou de saúde da planta modificada. O Greenpeace e outros grupos alegam que as técnicas usadas nos OGMs provocam riscos especiais que não estão presentes nos tradicionais cruzamentos de plantas. «Em todos os estudos de OGMs feitos até hoje, não se encontraram provas de que os alimentos transgénicos apresentem quaisquer riscos particulares», diz R. James Cook, professor de patologia das plantas na Universidade Estadual de Washington e membro da Academia das Ciências dos EUA. «Os riscos são exactamente os mesmos que nas plantas modificadas pelos métodos tradicionais de cruzamento.» Foram feitos testes para garantir a segurança humana? Cientistas contactados pela Reader’s Digest dizem que os alimentos transgénicos hoje disponíveis foram mais testados que quaisquer outros na História. Em todo o Mundo, foram feitos mais de 25 000 testes de campo, em mais de 60 colheitas e em 45 países, entre os quais a maioria dos 15 que compõem a União Europeia. Antes de serem aprovados para consumo, os alimentos transgénicos são avaliados para «equivalência substancial» segundo as orientações determinadas pela OMS (Organização Mundial de Saúde), a FAO (organismo das Nações Unidas para os Alimentos e a Agricultura), a OCDE e o organismo europeu regulador dos novos alimentos, entre outros. Isto significa que os cientistas os compararam com os alimentos tradicionais que lhes correspondem e não encontraram diferenças em valor nutritivo e efeitos sobre a saúde. Diz Maurice Lex, da Unidade de Biotecnologia da Comissão Europeia: «Aqui, na União Europeia, já gastámos 43 milhões de euros desde 1986 com a segurança das biotecnologias. Dizer, como alguns dizem, que não houve estudos sobre a segurança dos OGMs é um perfeito disparate.» Se um gene fosse transferido, por exemplo, da planta do amendoim para a cenoura, isso poderia provocar uma reacção em alguém que seja alérgico aos amendoins que pensasse estar apenas a comer uma cenoura. Assim, os alimentos transgénicos são submetidos a testes rigorosos para avaliar potenciais problemas alérgicos. Da mesma maneira, não se crê que os pesticidas introduzidos no milho Bt afectem os seres humanos, ao contrário de alguns pesticidas convencionais muito usados, que podem provocar sintomas ao nível muscular e do sistema nervoso se consumidos acidentalmente. Resumindo, Maurice Hofnung, chefe da Unidade de Programação Molecular e Toxicologia Genética do Instituto Pasteur, em Paris, afirma: «Nunca tivemos o mais pequeno incidente com OGMs; nem um só, em mais de 25 anos de investigação e utilização. Assim, desde que as linhas de orientação sejam seguidas, concluo que são seguros.»
Porquê aplicar a biotecnologia na agricultura? Quase 40% das colheitas mundiais de alimentos são anualmente perdidas por causa dos insectos, das doenças fúngicas e da deterioração. A biotecnologia poderia evitá-lo. Os nutricionistas dizem que as plantas geneticamente modificadas serão também necessárias para ajudar a aumentar as colheitas para fazer face às necessidades de comida, especialmente no Terceiro Mundo. O Dr. Manvendra Kachole, dirigente sindical dos agricultores indianos, criticou recentemente os activistas anti-OGMs dizendo: «Hoje, a Índia não pode permitir-se o luxo de dar ouvidos a esta retórica pseudo-científica.» No horizonte da biotecnologia estão plantas que necessitam de menos pesticidas e água durante o seu crescimento e têm um conteúdo nutritivo melhorado. Um tipo de arroz geneticamente modificado, que está a ser desenvolvido no Instituto Suíço de Tecnologia, em Zurique, tem beta-caroteno suficiente para satisfazer as necessidades diárias de vitamina A com apenas 300 g de arroz cozido — uma bênção para os 250 milhões de pessoas em todo o Mundo que sofrem de deficiências graves de vitamina A. O mesmo arroz tem mais ferro, e ajudará a combater a deficiência deste mineral, que afecta mais de 4000 milhões de pessoas. Investigadores dinamarqueses estão a trabalhar numa mandioca geneticamente modificada que pode ser consumida sem risco de provocar bócio e paralisia dos membros inferiores, mesmo que não tenha sido devidamente cozinhada, ao contrário da variedade actualmente consumida por mais de 400 milhões de pessoas, sobretudo nos países menos desenvolvidos. Os OGMs são seguros para o ambiente? A maioria dos cientistas assinala que não houve quaisquer novos problemas ecológicos nem ambientais nos milhares de experiências biotecnológicas de campo e nos milhões de hectares de plantações comerciais. De facto, todos os sinais apontam para menos danos ambientais que com as plantações tradicionais. Um estudo do ano passado, do Centro Nacional de Política Agro-Alimentar dos EUA, mostrava que plantar milho transgénico em que está presente o gene Bt, que mata o insecto que ataca as maçarocas, reduziu em 810 000 hectares a quantidade de terra que teria sido aspergida com insecticidas tradicionais como os organofosfatos. Isto significa milhares de litros de produtos químicos que não vão parar aos lençóis freáticos. Semear plantas resistentes aos herbicidas durante o seu crescimento, em vez de tratar o solo antes da sementeira, também pode reduzir a quantidade de produtos químicos utilizados. Os herbicidas usados com estes OGMs poderão ser menos poluentes que os convencionais, como a atrazina, segundo Bill French, do Instituto Nacional de Botânica Agrícola, de Cambridge, Inglaterra. Cada vez mais, os cientistas do ambiente começam a compreender que é a agricultura intensiva tradicional europeia, encorajada pela PAC (Política Agrícola Comum), a responsável por uma devastação dos campos de uma forma que as plantas geneticamente modificadas nunca teriam feito. Três décadas de PAC envenenaram os lençóis freáticos e criaram dezenas de «super-ervas daninhas», que desenvolveram tolerância aos herbicidas. Só no Reino Unido, e nos últimos 20 anos, desapareceram dos campos mais de 20 milhões de aves, de 10 espécies. «Na Europa, já temos problemas graves com a agricultura tradicional, entre os quais a poluição do solo e dos aquíferos», diz Brian Johnson, da English Nature, os conselheiros oficiais do Governo em questões de conservação da Natureza. «A biotecnologia poderá fornecer uma saída.» Poderemos confiar nos especialistas? Recentemente, uma sucessão de desastres relacionados com a segurança dos alimentos, desde a BSE (vacas loucas) às dioxinas, e mesmo os problemas em França com o sangue contaminado com HIV, diminuíram seriamente a confiança das pessoas na capacidade das autoridades para proteger a saúde pública. No entanto, os dados científicos que apontam para a segurança dos alimentos transgénicos são impressionantes. Foram os dirigentes políticos da União Europeia, não os cientistas, quem lançou o pânico em Junho passado, em Bruxelas, provocando uma moratória de facto sobre as autorizações para os OGMs na sequência do relatório sobre a borboleta-monarca. Porém, o milho com o gene Bt em causa já tinha sido aprovado pelos cientistas dos EUA, Chile, Argentina e França, bem como pelo próprio comité científico da UE. Vários cientistas de relevo da comissão disseram em privado à Reader’s Digest que estão consternados com a confusão política gerada em Bruxelas sobre os OGMs. «É um caos», diz um deles. «Os OGMs são agora vistos como alimentos diferentes dos outros, o que não é verdade.» Especialistas em segurança alimentar estão de acordo em que a Comissão Europeia deveria criar um organismo regulador, de base científica, não política, para tratar do processo de aprovação dos OGMs. Em Janeiro, propôs-se lançar uma autoridade alimentar independente europeia em 2002. Um modelo possível é a actual Agência Europeia para a Avaliação de Produtos Medicinais, que é altamente respeitada e politicamente isenta. Porém, isto não quer dizer que os cidadãos não devam ter uma palavra a dizer. Na Suíça, por exemplo, houve cinco meses de discussão pública em 1998. Depois, os cidadãos votaram, numa proporção de dois para um, contra que se banissem diversos aspectos da biotecnologia, como as plantações experimentais de OGMs. Nenhum outro país europeu passou por um processo semelhante. Os políticos europeus devem dar ouvidos aos cientistas e dar-lhes mais autoridade na determinação das políticas sobre OGMs. O assunto é demasiado complexo, e estão demasiadas coisas em causa, para que as políticas a tomar sejam determinadas pelos calendários políticos. Até que haja estas alterações, os Europeus continuarão a recear por aquilo que lhes chega aos pratos. E a preocupar-se com o destino das borboletas.
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1 Comentários |
| maisa on 23 Junho 2010 ,18:51 goste do artigo porque me ajudou na minha pesquisa na escola |
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