O meu primeiro conflito com as lagostas teve lugar há alguns anos, num restaurante de Nova Iorque. Um empregado solícito inclinou-se para mim e sussurrou-me ao ouvido: «É a especialidade do chefe.»

Encomendei-a. A lagosta foi servida inteira, saída da panela, com a crusta intacta. Com ela, veio um babete especial e uma colecção completa de instrumentos de tortura. «Vamos a isto», disse para comigo, e atirei-me a ela. As tenazes escorregaram na carapaça, o buril raspou no prato, e o molho gorduroso salpicou-me a manga do casaco. Peguei num espeto para abrir a carapaça, sorrindo tranquilizadoramente para a senhora que me acompanhava à mesa. No instante seguinte, uma nódoa de molho de lagosta aterrava-lhe no decote. Tudo o que eu vestira para o jantar teve que ir para a lavandaria no dia seguinte.

Aprendida a lição, um ano mais tarde, num elegante jantar de negócios nos Campos Elíseos, em Paris, assegurei-me de que a lagosta seria servida já aberta. E assim foi, mas veio à la mode — com chocolate e gelado de baunilha —, o que me estragou o apetite para o resto do jantar.

A julgar por estes encontros, as lagostas devem ter-me uma aversão especial. Verdade ou mentira, não sei ao certo, mas o que sei mesmo é que elas são um exemplo típico dos chamados «pratos difíceis», ou mais propriamente pratos difíceis de comer em lugares públicos.

Outros pratos notoriamente «difíceis» são, por exemplo, as laranjas e as toranjas servidas inteiras, ou os mariscos servidos ao natural. À lista podem ser acrescentados os esparguetes, certas massas chinesas (em que cada fio tem vários quilómetros de comprido) e as ostras. Também podem incluir-se algumas especialidades da cozinha polaca: sopas de centeio levedado e de azedas com um ovo cozido inteiro lá dentro. O ovo tem uma certa tendência para escorregar da colher e cair na sopa, salpicando toda a gente nas redondezas, no meio das conversas mais interessantes.

Estas torturas são particularmente difíceis de suportar em todo o tipo de recepções «come em pé», como cocktails e bufetes. Como diabo é que se pode atacar um pedaço de carne assada inteiro, com um garfo numa mão e um prato em equlíbrio instável na outra? E, já que estamos nisto, que fazer com o copo de vinho?

Gostaria de dirigir um pedido encarecido aos organizadores de todos estes eventos «come em pé»: tenham dó dos convidados e escolham comidas que não precisem de ser descascadas, abertas, enroladas num garfo ou cortadas às fatias.

E já que falamos de garfos, todos sabem que no Extremo Oriente eles são substituídos por pauzinhos. Devo admitir que, durante anos, eles foram para mim o símbolo do masoquismo. Travei conhecimento com eles numa viagem de avião entre Hong Kong e Taipé. Serviram-me um prato de massa com dois pauzinhos ao lado. Fiz sinal a uma hospedeira com aspecto oriental e pedi-lhe um garfo.

«Mas esta refeição deve ser comida com pauzinhos», explicou ela, inclinando-se com humildade.

«Eu sei, mas estaria mais à vontade com talheres tradicionais», respondi eu, com o melhor sorriso que consegui. Ela fez nova vénia e disse, tranquilizadora: «Os pauzinhos são normais. Terei todo o gosto em explicar-lhe como se utilizam. É muito simples.» Não fiquei convencido, mas por fim tive que ceder. Os pauzinhos pareciam ser o único tipo de talheres a bordo.

Só então me dei conta de que os garfos e as facas são engenhocas usadas por apenas metade da população mundial. A outra metade tem maneiras diferentes de abordar o prato. Ocorreu-me que aquilo que nós consideramos «normal» pode parecer a outros algo original. Se os pauzinhos me incomodam, outros podem sentir-se incomodados com um garfo. E se suspeito das intenções vingativas das lagostas, alguns estrangeiros podem ver os pratos à base de beterraba como uma vingança dos vegetais.

«Que raio de cor e de consistência!», era uma observação ouvida durante muitos anos nos voos da LOT, que, com obstinação digna de um sádico, insistia em servir aos estrangeiros, como único acompanhamento dos pratos de carne, beterrabas cozidas. Seria igualmente cruel servir carne de vaca a um hindu, ou queijo curado aos Chineses, que não o suportam.

Enquanto ponderava sobre tudo isto, tive que admitir — não pela primeira vez — que a minha mãe tinha razão quando me dizia: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. Quando se trata de planear a ementa de uma recepção a convidados estrangeiros, esta não deve consistir exclusivamente de especialidades locais.

«É demasiado arriscado. E se quiseres homenagear alguém, não deves causar embaraços nem episódios desagradáveis», explicava a minha mãe. «Com costoletas de vaca enroladas podes servir bolinhos de trigo-sarraceno, se quiseres, mas ao lado põe também batatas cozidas.»

Sei, por experiência própria, que outro método eficaz de vexar convidados estrangeiros (e outros) é servir-lhes uma ementa rústica à la polonaise que consista unicamente de joelheira de porco cozida, rins guisados, chouriço de sangue e torresmos caseiros feitos seguindo a receita da avó.

Para ter a certeza absoluta de que os convidados nunca mais voltarão, insista que têm que comer tudo, até á última migalha, «em nome da hospitalidade polaca», o que não é muito diferente da chantagem. Dito por outras palavras: «Não quer comer? E eu que trabalhei tanto para cozinhá-lo!» O resultado é garantido.

Mas a vingança dos estrangeiros pode ser terrível! Os Japoneses têm peixe cru (sushi), os Franceses, caracoletas e perninhas de rã, os Espanhóis, gambas, e os Tailandeses … cobra frita. Que tal se eles decidirem forçar-vos a prová-los?

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