Acelerando com a sua carrinha por caminhos de terra ladeados de arrozais em Battambang, no Noroeste do Camboja, Youk Chhang tremia de raiva. Decorria o Outono de 1995 e ele estava prestes a confrontar o homem responsável pelas mortes do seu cunhado e da sua sobrinha e pelo desaparecimento do seu tio.

Chhang visualizava o homem que procurava: duro e forte, Chhoung tinha sido chefe da aldeia para onde as famílias da capital, Pnom Penh, tinham sido enviadas à força durante o regime dos Khmers Vermelhos de Pol Pot, nos anos de 1970. Sob o domínio brutal de Chhoung, Chhang e a sua família sofreram privações terríveis. Adolescente, Chhang via-se incapaz de evitar que o seu cunhado e a sua sobrinha fossem mortos à fome. O seu tio mais querido, Keo Chhoeun, desapareceu sem deixar rasto.

Agora, quase duas décadas depois, alto e forte, este cambojano-americano regressava. «Se ele resistir, dou-lhe uma sova», pensava Chhang.

Encontrou o antigo chefe da aldeia sentado, de tronco nu, à porta de uma pequena casa a fazer um cesto. Estava velho e magro, longe da figura imponente da memória de Chhang.

«Vivi nesta aldeia durante o regime de Pol Pot», disse-lhe Chhang. O chefe respondeu que não se lembrava.

Insatisfeito, Chhang decidiu que queria pôr a descoberto a verdade acerca daqueles anos – confrontar o passado e deixar repousar aquelas terríveis memórias, suas e de milhares de outros cambojanos.

«Esta», diz Chhang, apontando para uma imagem no ecrã do seu computador no seu escritório, em Pnom Penh, «é a única fotografia que tenho da minha infância.» A fotografia a preto e branco mostra o casamento da sua irmã Tithsorye, em Pnom Penh, em 1968. Chhang, de calções, é uma das oito pessoas na fotografia. Uma década mais tarde, sete delas estavam mortas.

Contavam-se entre os cerca de 1,7 milhões de cambojanos, mais de 20% da população, que perderam a vida entre 1975 e 1979. Pol Pot morreu há uma década, escondido na selva, e nenhum dos líderes principais sobreviventes foi julgado ou castigado. De facto, muitos deles têm vivido às claras e em liberdade no Camboja.

Durante mais de uma década, Chhang tem trabalhado sem descanso para remediar esta situação, juntando um arquivo histórico único da era dos Khmers Vermelhos. Espera que este registo realista do que aconteceu forneça provas vitais para as acusações.

Durante este ano, cinco líderes seniores dos Khmers Vermelhos irão finalmente ser julgados por um tribunal especial – as Salas de Audiências Extraordinárias dos Tribunais do Camboja (SAETC). «Somos a conclusão lógica do trabalho de Youk Chhang», diz o procurador Robert Petit. «Podemos demonstrar às pessoas do Camboja como se pode fazer justiça.»

Um tribunal especial foi construído para o julgamento dos poucos líderes sobreviventes.

Os Khmers Vermelhos mantinham documentos detalhados das pessoas que executavam, incluindo fotografias. Youk Chhang utilizou esta documentação para elaborar o seu processo contra os líderes brutais do regime.

Mas a missão de Chhang não terminou. Comprometeu-se a ensinar aos Cambojanos a sua história perturbadora e a ajudá-los a sararem as suas profundas feridas psicológicas.

Chhang registou os momentos mais obscuros do Camboja, de forma a permitir à nação começar a sarar.

A jornada extraordinária de Youk Chhang estava apenas no seu início, quando o exército vietnamita invasor afastou Pol Pot do poder em 1979. «De repente, todos os Khmers Vermelhos desapareceram da aldeia», recorda Chhang.

O seu pai tinha falecido quando era garoto, e todos os membros masculinos mais velhos da família estavam mortos ou desaparecidos. Agora, com 17 anos, regressava a Pnom Penh com a sua mãe e outros familiares sobreviventes.

Mas a vida naquela capital desolada oferecia pouca esperança. A pedido da sua mãe, Chhang fugiu para a Tailândia e foi parar a Khao-I-Dang, um campo de refugiados perto da fronteira com o Camboja.

Chhang aprendeu inglês sozinho a jogar Scrabble (espécie de jogo de palavras cruzadas), e em 1987, com 26 anos, foi aceite para recolocação nos Estados Unidos. Arranjou um emprego a fazer estores em Dallas, Texas, melhorou os seus conhecimentos de inglês e ingressou na Universidade do Texas para estudar Ciências Políticas.

Enquanto estava na universidade, juntou-se a uma campanha para persuadir o Governo dos Estados Unidos a ajudar a acusar judicialmente os líderes dos Khmers Vermelhos, tomando parte em manifestações e distribuindo panfletos. Poucas pessoas estavam interessadas. «As pessoas diziam: “Você é do Camboja? Aquilo aconteceu realmente?” Depois, afastavam-se», recorda Chhang. «Eu não podia forçar as pessoas a acreditarem a não ser que eu o conseguisse provar.»

Em Setembro de 1991, após a licenciatura, regressou ao Camboja durante quase dois anos para trabalhar como agente eleitoral para as eleições patrocinadas pelas Nações Unidas. Então, em 1994, a Universidade de Yale conseguiu fundos, ao abrigo da nova Lei de Justiça do Genocídio no Camboja, aprovada pelo Governo dos Estados Unidos, com a finalidade de documentar os assassínios em massa praticados pelos Khmers Vermelhos, e contratou Chhang como seu representante local.

Chhang queria desesperadamente contribuir, mas regressar ao Camboja teria um custo. Ele havia casado com uma asiático-americana e tinham dois filhos. O casal concordou que a mulher ficaria no Texas com os filhos. Desde então, Chhang seria um marido e pai à distância. «Tenho saudades dos meus filhos a toda a hora», diz. «Eles são a minha força, a minha disciplina, o meu compromisso.»

Chegado a Pnom Penh em Janeiro de 1995, Chhang ajudou a montar o Centro de Documentação do Camboja (DC-Cam) com voluntários locais e académicos do Ocidente. O seu primeiro trabalho foi descobrir documentos – minutas de reuniões, ordens, biografias, registos prisionais, confissões, listas de execução – que estabelecessem o rasto, em papel, de responsabilidades. A tarefa era assustadora. «Alguns membros seniores do Governo, antigos oficiais dos Khmers Vermelhos, têm segredos para esconder», explica o advogado de direitos humanos Theary Seng.

«Há muita gente com as mãos manchadas de sangue.» Para tornar as coisas piores, nos 16 anos que se seguiram ao afastamento dos Khmers Vermelhos do poder, foram destruídos camiões repletos de documentos. Outros ficheiros foram arquivados ao acaso em gabinetes do Governo. Na Biblioteca e Arquivos Nacionais, os documentos estavam sem cor e a desfazer-se, minados pelos insectos, pelo calor tropical e pela humidade.

No entanto, lentamente, Chhang e a sua equipa fizeram progressos. De uma vez, conseguiram localizar a história em arquivo da Santebal – a polícia secreta dos Khmers Vermelhos. Após terem elaborado uma petição, o primeiro-ministro, Hun Sen, entregou-lhes os mais de «um milhão de documentos», listas dos assassínios e perdas dos Khmers Vermelhos confirmados por um milhão de impressões digitais de polegar.

Em 1997, Chhang solicitou à Universidade de Yale que lhe desse autonomia. «Isto necessita de ser feito pelas vítimas e pelos sobreviventes», disse. A universidade concordou. Embora tanto Yale como outras instituições académicas dos Estados Unidos e da Suécia continuem a fornecer fundos para o DC-Cam, é Chhang quem controla a sua actividade.

Em 1997, com o regresso da estabilidade ao Camboja, os políticos começaram a falar em levar os líderes dos Khmers Vermelhos a tribunal.

No mesmo ano, com a estabilidade de regresso ao Camboja, os políticos começaram a falar em julgar os líderes dos Khmers Vermelhos. Sobretudo com base nos dados submetidos por Chhang, um grupo de peritos legais das Nações Unidas concluíram que havia provas e testemunhos suficientes para iniciar o processo judicial.

Mas os inimigos de Chhang estavam determinados a pará-lo. Em 1999, Ieng Thirith, a mulher do homem do leme de Pol Pot, Ieng Sary, declarou que Chhang era uma marioneta imperialista. Mais tarde, o filho de Ieng Sary enviou os seus homens à casa da irmã de Chhang com um aviso sinistro: «Diga ao seu irmão para não fazer tanta investigação.»

Chhang recusou-se a ser intimidado. Quando o Departamento de Estado dos Estados Unidos forneceu fundos para equipar o seu gabinete com vidros à prova de bala, ele gastou a verba a transformar os armários dos seus ficheiros em armários à prova de fogo.

Talvez o pior fosse o processo legal estar sempre a empeçar por disputas infindáveis. Quais as leis, advogados e juízes que seriam aceitáveis? Quem pagaria as contas? Quando em 2002 as Nações Unidas se retiraram das conversações, Chhang temeu que os julgamentos nunca viessem a acontecer.

Numa semana em que não dormiu, escreveu um pedido comovente para a página de opinião do jornal New York Times e bombardeou os seus contactos com telefonemas e e-mails. Tantas vozes se ouviram nos Estados Unidos e no Camboja que as Nações Unidas voltaram à mesa de negociações.

Os documentos, por si sós, não seriam suficientes para quaisquer julgamentos. Os investigadores do DC-Cam palmilharam o Camboja, recolhendo histórias orais, compilando listas de potenciais testemunhas. Chhang falou pessoalmente com milhares de pessoas, tanto vítimas como perpetradores. Alguns dos testemunhos que recolheu ficarão para sempre escondidos no coração do regime.

Um dia, Bou Meng apareceu no escritório de Chhang para contar a sua história. O antigo professor de Desenho sobreviveu 20 meses em Tuol Sleng, uma prisão dos Khmers Vermelhos em Pnom Penh. As costas deste homem de 66 anos mostram cicatrizes das sovas recebidas dos guardas. No entanto, ele foi um dos que tiveram sorte. Dos 17 000 prisioneiros que passaram pela S-21, como a cadeia era conhecida, somente 12 sobreviveram para contar o que passaram.

A provação de Bou começou em meados de 1977, quando ele e a sua mulher foram levados para a S-21. Ele nunca mais viu a mulher e os seus dois filhos, que foram levados para uma outra prisão.

Meses mais tarde, quando os guardas perguntaram se alguém sabia pintar, Bou ergueu a mão. Foi-lhe dada uma fotografia de Pol Pot. O director da S-21, Kang Kek Ieu, vulgarmente conhecido por Duch, deu-lhe as seguintes instruções: «Pinta o Irmão Número Um. Se não conseguires, matar-te-ei.»

Quando a tela ficou terminada, Duch aprovou-a, e foi ordenado a Bou que pintasse mais. Estava a trabalhar no quarto retrato de Pol Pot quando a S-21 foi evacuada antes da chegada das tropas vietnamitas.

Trinta anos mais tarde, Bou está desejoso de testemunhar. «Se houver pessoas a serem acusadas e enviadas para a cadeia, isso trará justiça para a minha mulher e outros», diz.

O DC-Cam também está a tentar dar respostas às pessoas que não sabem o que aconteceu aos seus entes queridos. «No geral, procuram pelos maridos, pais, mães», diz Chhang. «Por vezes, encontramos fotografias, pedaços de papel, a data da execução; outras vezes, uma confissão – e outras vezes, não encontramos nada.»

Vorn Sean viu o seu pai pela última vez há 32 anos. «Ele estava a cortar bambu», recorda esta mulher de 50anos. Em 2005, a unidade de localização de famílias do DC-Cam organizou uma visita à S-21, que é agora um museu, para Vorn. Acreditavam que o seu pai tinha sido ali executado, disseram-lhe.

A infame Prisão S-21, em Pnom Penh, é agora o Museu do Genocídio Toul Sleng.

Andando ansiosamente de sala em sala, Vorn observou centenas de fotografias perturbadoras a preto e branco de prisioneiros aguardando execução que forram as paredes. Finalmente, ela encontrou fotografias do seu pai, bem como do seu irmão mais velho, cada um com um número de identificação no peito.

A busca de Vorn tinha acabado: o seu pai havia falecido, juntamente com milhares de outros, na sinistra prisão. «Senti muita tristeza. Tenho muitas saudades dele», diz. «Mas fiquei contente por o ter encontrado.»

Ao fim de três décadas, poucos sobreviventes conseguiram ver qualquer sentido no que aconteceu, criando uma sociedade traumatizada, atormentada pela ansiedade, depressão, pesadelos e problemas de comportamento. Segundo o professor Ka Sunbaunat, presidente do Programa Nacional de Saúde Mental do Camboja, 60% da população sofrem de problemas psicológicos ligados, directa ou indirectamente, aos anos dos Khmers Vermelhos. O próprio Ka sofre de pesadelos. «Eu vi os Khmers Vermelhos assassinarem pessoas», diz. «Nos meus pesadelos, vejo-os a arrastarem pessoas das suas casas. Preocupo-me como poderei proteger os meus filhos.»

Além do mais, o Governo do Camboja pouco fez para informar as pessoas acerca do genocídio após o regime. Em 2002, os livros de História tinham unicamente cinco frases sobre a era dos Khmers Vermelhos.

Para remediar esta situação, Chhang designou Khamboly Dy, o jovem líder do Projecto de Educação sobre o Genocídio, do DC-Cam, para elaborar o primeiro livro sobre o regime dos Khmers Vermelhos escrito por um cambojano. Com a ajuda de académicos ocidentais, o livro, ricamente ilustrado, foi publicado no ano passado e distribuído em 259 escolas secundárias. «Eles têm de saber para assegurar que não volta a acontecer», diz Khamboly.

Em 2000, Chhang lançou a Searching for the Truth (Em Busca da Verdade), uma revista quadrimestral contendo documentação, histórias pessoais e actualizações dos julgamentos iminentes. Para a informação chegar às pessoas do campo e aos analfabetos, transmite via rádio extractos da revista duas vezes por semana.

Chhang também quer que os Cambojanos entendam melhor o trabalho do SAETC. O DC-Cam organizou uma visita de mais de 10 000 pessoas comuns aos escritórios do SAETC e enviou estudantes universitários para o campo para responderem a questões acerca do tribunal.

Recentemente, numa manhã de segunda-feira, às 7.30, Chhang caminha de um lado para o outro na entrada do DC-Cam perante uma multidão de 100 voluntários de caras frescas. Diz-lhes, antes de partirem para o campo, que irão falar com oficiais do SAETC.

«O trabalho do tribunal é implementar a lei, fazer justiça», explica Chhang. «O vosso trabalho é dar às pessoas esperança de que o processo de julgamentos irá ter sucesso.»

Chhang também acalmou os seus próprios demónios. Quando confrontou Chhoung, que tinha sido responsável pela morte do seu cunhado e sobrinha, perguntou ao velho que explicasse o que tinha corrido mal. Chhoung confessou que muita gente sob a sua alçada tinha morrido. «As decisões vinham de cima para baixo e eu obedecia», disse.

Ao longo dos anos seguintes, Chhang encontrou-se várias vezes com o antigo quadro dos Khmers Vermelhos. Lentamente, ele começou a vê-lo, não como um homem mau, mas como um homem que fez coisas más porque a revolução lhe prometeu uma vida e sociedade melhores.

Chhang não estava pronto para perdoar, mas já não se sentia zangado ou com sede de vingança. «Estava em branco», diz. «Sem ira, sem ódio, sem perdão. Mais tarde, percebi que ele já não fazia parte da minha vida.»

Quando o julgamento dos líderes dos Khmers Vermelhos finalmente terminar, Chhang quer algum tempo para descansar e reflectir. «Quando um deles estiver na cadeia», diz, «será uma missão cumprida.»

O DC-Cam entregou mais de 400 000 documentos e outro material ao SAETC. O tribunal acusou cinco líderes sobreviventes dos Khmers Vermelhos – Ieng Sary; a sua mulher, Ieng Thirith; Duch; Khieu Samphan, o chefe de Estado do regime; e Nuon Chea, conhecido como o Irmão Número Dois – de inúmeros crimes contra a Humanidade, incluindo assassínio, tortura e escravidão. Os julgamentos há muito aguardados começaram.

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