A infância não foi pêra doce. Engravidou, teve um bebé com uma doença grave, sozinha, sem apoios. Para sobreviver, agarrou-se ao curso de estilista e fez-se à vida. Faz gorros e capas e camisolas e cachecóis e vende pela Internet. Ana Madragoa é como o vaso ruim sem ser ruim. Não quebra.

«NÃO QUERO», disse-lhe ele assim, sem paninhos quentes, sem rodeios, sem delongas. «Não quero, tira.»

Ana Madragoa ouviu a frase e levou instintivamente as mãos à barriga. A afirmação dele, peremptória, não a surpreendeu. Mas interromper a gravidez estava fora de questão. «Eu sou muito instintiva, tenho muitos feelings que depois acabam por se confirmar. E eu sentia que tinha de ter aquele bebé. Não sei explicar como nem porquê. Mas tinha uma certeza muito forte.»

Ana pegou na sua certeza e lutou contra tudo e contra todos. Os pais acharam que era doida, quiseram saber como sustentaria o filho, se pensava que era fácil ser mãe solteira, se fazia algum sentido trazer alguém ao Mundo com a vida instável que ela tinha. «Nem um emprego consegues manter!», gritou-lhe o pai.

Na verdade, as coisas não corriam bem na sua vida. Há muito tempo, de resto. Ana tinha o curso de estilista, trabalhara na loja de um tio que lhe infernizou os dias, a seguir numa loja que o pai abriu, mas que se revelou um inferno ainda maior: «O meu pai é uma pessoa … é muito austero, agressivo. Quer que tudo aconteça ao seu ritmo e não tem qualquer tolerância. De modo que optei por sair da loja dele, onde fiz colecções de roupa para senhora, porque pensei: “Ou vinga o meu sonho ou a minha sanidade mental.” Optei pela sanidade mental.»

Foi assim que naquele Inverno de 2003 ficou sozinha com uma barriga e sem saber muito bem o que fazer. Ainda reatou com o namorado, mas as discussões constantes levaram-na a desistir de uma relação condenada: «Aquela montanha-russa não me fazia bem e, sobretudo, eu sabia que não fazia bem ao bebé que vivia dentro de mim. E optei por acabar de vez com uma história que só fazia estragos.»

No final da gravidez, Ana Madragoa foi fazer a terceira ecografia. Por essa altura já sabia que ia ser mãe de um rapaz e tudo corria dentro da normalidade. Mas nesse dia, em Outubro de 2003, acordou angustiada. «Não sei o que tinha. Sentia um aperto no peito, uma ansiedade, uma falta de ar. Nem sequer associava aquele mal-estar à gravidez ou ao facto de ir fazer uma ecografia. Sentia uma ânsia qualquer.»

Quando se deitou na marquesa, a imagem do seu bebé não apareceu sozinha. Havia uma bolha grande no ecrã. A médica olhou, pressionou-lhe a barriga, voltou a olhar. O coração da futura mãe teve um pequeno sobressalto, logo serenado pelo comentário da médica: «Isto deve ser uma bolha de sangue, não deve ter importância.»

Ana Madragoa não quis dar importância, não quis ver. Sentia um desconforto crescente, mas fez o que a sua natureza mandou. Sorriu e fez de conta. Uma amiga, porém, não gostou da palavra «bolha». E ligou ao pai do bebé, para que ele tivesse a decência de estar por perto.

No dia seguinte de manhã, Ana foi ao obstetra com a ecografia. O médico ficou a olhar o papel com a imagem em silêncio. «Está tudo bem, doutor?» E o médico nada. «Ai, doutor, já estou a ficar nervosa. Está tudo bem ou não?» O obstetra manteve o silêncio até que disse: «Vou-lhe pedir que vá ter com um colega meu, de confiança, para fazer outra ecografia, está bem?» Ana não perguntou mais. Foi.

O nervoso começava a sufocá-la devagar. Nova ecografia, novo silêncio. Desta vez, só o silêncio. «Está tudo bem?» O médico pediu-lhe apenas que esperasse lá fora, que já a chamaria para falarem. Afinal, acabou por não aparecer. A assistente entregou-lhe um envelope com a nova eco, sugerindo-lhe que se dirigisse ao hospital onde estava previsto que a criança nascesse. Confusa, zangada, ligou ao obstetra: «Acabam de me dizer para ir para o hospital… É capaz de me dizer que raio é que se passa?» O médico pediu-lhe que fosse buscar uma carta e que, sim, se dirigisse a S. Francisco Xavier.

O pai do bebé e uma amiga foram com ela. Por essa altura, as pernas de Ana Madragoa pareciam feitas de gelatina. «Então o que é que se passa?», perguntou, seca, a médica que a recebeu. «Olhe, não sei. Tenho aqui uma ecografia e uma carta do médico. Diz que há para aí uma bolha, ou lá o que é.» A médica fixou os olhos nas imagens do seu filho, abanou a cabeça e exclamou: «Ah, mãe, mas o seu filho não tem só isto! O seu filho tem uma série de malformações! Aguarde lá fora um bocadinho, se faz o favor.» Assim. Como quem diz que uma saia está com a bainha descosida. Como quem protesta porque a carne está salgada. Assim. «O seu filho tem uma série de malformações.»

Ana saiu para a sala de espera e achou que morria. Chorou, chorou, chorou. Só conseguia imaginar o seu Guilherme deformado. Como seria? Teria pernas? Teria braços? Teria olhos? Teria deficiência mental? «De repente, o meu querido bebé passou a ser uma aberração. E eu não conseguia aguentar tanto sofrimento. Foram momentos muito difíceis.»

A seguir, mais exames. Análises, ecografias, médicos em redor, conversas paralelas a que tentava apanhar o sentido. Felizmente, outra médica chamou-a. Deu-lhe a mão e começou do princípio. «Foi muito querida. Fez-me um desenho onde explicava exactamente qual era o problema do Gui. Disse que ele tinha mielomeningocelo, a pior vertente da espinha bífida.» A bolha que se vislumbrava na ecografia era isso mesmo, uma bolsa no fundo da coluna que continha, além de tecido e líquido cefalorraquidiano, também raízes nervosas e parte da espinal medula. Nestes casos, a espinal medula está lesionada ou não totalmente desenvolvida. Tudo isto se deve a um não-encerramento dos arcos posteriores das vértebras. Além deste grave problema, o Guilherme tinha também hidrocefalia, ou seja, líquido cefalorraquidiano em excesso no interior da cavidade craniana.

E não só. Ao contrário do que lhe tinham dito, o bebé não estava no percentil 50, não tinha um tamanho normal. Era muito pequeno para o tempo de gestação, o que trazia ainda mais problemas. «Assim que nascer, o seu filho vai ter de ser operado. Mas, para isso, temos de o engordar.» Uma ou duas semanas depois desta torrente de informação, Ana Madragoa foi internada.

«Nesses primeiros tempos, voltei-me muito para dentro. Dormia muito para não pensar e comia. Eles pesavam-me todas as semanas para ver se eu estava pronta para a matança (Risos). E depois comecei a dar a volta. Ajudava as mulheres que entravam em trabalho de parto, andava com os bebés ao colo… As enfermeiras até se espantavam com a minha boa disposição. Mas o que é que eu havia de fazer? O Guilherme era o meu filho. E pronto. Era esperar que nascesse para ver o que acontecia.»

ASSIM QUE NASCEU, de uma cesariana marcada, o pequeno Gui, quilo e meio de gente, foi operado para se encerrar o mielomeningocelo. A mãe só o viu depois, na incubadora, e achou-o o bebé mais bonito do Mundo. Com duas semanas, o bebé foi operado de novo, dessa vez para colocar uma válvula que drenasse o líquido em excesso dentro da sua cabeça. E aos três meses voltou a ser operado para colocar uma nova válvula e meter gesso da cintura para baixo. «Coitadinho, parecia um boneco, engessado a partir das ancas, só com uma abertura no meio das pernas para pôr as fraldas. Sentava-o numa das minhas pernas e ele ficava muito direito. Chegava a ser cómico.»

A vida de Ana Madragoa levou mais uma volta. Não bastava a bipolaridade da mãe, o mau génio do pai; não bastava o desemprego e o facto de ser mãe solteira. Agora tinha de fazer a caminhada pelos médicos, pelos exames, pela fisioterapia. «Praticamente todos os dias tinha de andar pelos médicos. O Gui nasceu sem mexer as pernas e agora, com a fisioterapia, já mexe qualquer coisa. Cheguei a fazer uns saquinhos de areia com umas tiras de velcro para lhe meter nos pés. Achei que podia exercitar-lhe os músculos e a fisioterapeuta achou bem. Enfim (risos), fiz tudo o que qualquer mãe faz por um filho.»

Para sobreviver, andou a colocar papelinhos nas caixas do correio vizinhas: «Faço arranjos de costura.» E daí, de repente, a ideia. «E se eu fizesse uns gorros giros, diferentes do que se encontra no mercado?» Ana Madragoa queria usar tecido polar, bem quentinho para usar no Inverno. E foi então que se decepcionou: «As malhas polares tinham todas aquelas cores do costume: azul-escuro, bordeaux, beige … Mas, de repente, vi uns cobertores supercoloridos dentro de uns cestos. “Dê-me aí esses cobertores”, disse eu ao senhor da loja. E pronto. Fiquei logo rendida.»

Ao primeiro gorro que fez chamou Crista. Porque usou as farripas do cobertor para o topo da cabeça, tal como uma crista. Depois desse vieram outros, o Helicóptero, o Ovo Estrelado, a Clementina, o Dragão. Gorros cheios de cor, completamente diferentes de tudo o que havia à venda. Uma amiga fez-lhe um blogue. E Ana aproveitou a onda de ânimo que a invadia e escreveu à TVI. O programa «Você na TV» apresentava casos parecidos com o seu, histórias de gente a quem a vida deu uma pirueta. «Escrevi a carta a contar a minha história e a mostrar o meu trabalho. Achei que a exposição do Guilherme era um mal necessário para divulgar os meus gorros e, assim, poder ganhar a vida.»

Acertou em cheio. Os telefonemas começaram a chover. Vieram encomendas de todo o país. «Ligavam-me do Algarve, de Trás-os-Montes, do Alentejo… E diziam-me: “Só me apetece abraçá-la” ou “Ainda bem que existe, faz coisas tão bonitas…”».

Deixou de estar só. «Foi incrível! Eu que estava aqui sempre sozinha, de repente, passei a estar sempre acompanhada… E as pessoas elogiavam tanto o meu trabalho e encomendavam… foi espectacular.» Foi a solução. Porque seria difícil arranjar um emprego fora de casa. O Gui está na escola mas precisa de muito apoio e a mãe está sozinha.

Enquanto falamos, Guilherme, hoje com 4 anos, interrompe a conversa por várias vezes: «Ó mãe, mas eu quero brincar aqui!» Gui é uma criança como as outras. Irrequieto, brincalhão, divertido, traquina. A única diferença está nas pernas. Imóveis. Guilherme avança pela casa, de gatas, arrastando as pernas atrás de si. Sobe aos sofás, trepa para todo o lado, passa por debaixo das mesas, enfia-se dentro do saco do fotógrafo. A mãe ri-se, ralha quando ele estica demasiado a corda. E tem esperança na Medicina. Quer acreditar que o filho ainda vá andar, como os outros.

Até lá, vai fazendo os gorros que, agora, se estenderam também a capas, cachecóis, T-shirts, saias. O negócio tem altos e baixos, como todos. O blogue passou a site, e houve lojas a querer revender os produtos que a estilista, já apelidada de Agatha Ruiz de La Prada à portuguesa, vai fazendo. No último Verão, produziu coisas a mais que não foram escoadas. Só a muito custo conseguiu terminar o ano sem dívidas.

«Tenho de me conter. Não posso achar que vou vender muito só porque as coisas estão a correr bem num determinado momento. Vamos vendo», diz com aquele sorriso contagiante. Ana Madragoa é muito mais que uma sobrevivente. É inquebrável.

Quer saber mais? Clique aqui para visitar o site de Ana Madragoa.

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