A Guerra dos Mundos: a última guerra do Planeta

Os nossos monstros de estimação dizem muito sobre nós próprios: inventamo-los em livros, televisão e filmes, dizendo que se trata apenas de histórias arrepiantes e divertidas. Mas os que deixam em nós memórias indeléveis valem um pouco mais que isso: eles encarnam os nossos pesadelos pessoais, os nossos receios sociais e ansiedades nacionais. Na década de 1950, quando o caminho para o abrigo anti-nuclear era quase tão vital como o caminho para casa, as criaturas mutantes atómicas como o monstro Godzilla preenchiam os nossos receios colectivos. Os bandos de extraterrestres que «roubavam» os corpos e assim deixavam de ser identificáveis assustavam os frequentadores das salas de cinema, mas simultaneamente simbolizavam os inimigos da Guerra Fria.
Se os monstros e o seu significado o fascinam (ou se gosta apenas de apanhar uns sustos valentes), prepare-se para uma lição de mestre: no dia 29 de Junho estreia mundialmente A Guerra dos Mundos, o mais recente filme do realizador Steven Spielberg, com Tom Cruise no papel principal. Quando, em 1938, Orson Welles transmitiu a sua adaptação radiofónica muito realista desta história numa estação nova-iorquina, A Guerra dos Mundos passou a ser conhecida por ter lançado o pânico na costa ocidental dos EUA, levando muitas pessoas a fugirem de casa, convencidas de que estavam realmente perante uma invasão alienígena. Desfeito o engano e restabelecida a calma, os Americanos reconheceram nos invasores da história um símbolo dos nazis. Mas, na nova versão de Spielberg, os clássicos invasores desta história de ficção científica, baseada num original de H. G. Wells escrito em 1898, irão sem dúvida levar milhões a mergulhar para debaixo das cadeiras dos cinemas com medo de terroristas.
Cruise desempenha o papel de um pai endividado cuja filha vai passar um fim-de-semana a sua casa. Mas quando ela chega, começa aquilo que parece ser o fim do Mundo: é tudo negro, ameaçador e muito barulhento.
Em filmes anteriores, tais como E.T. e Encontros Imediatos do Terceiro Grau, os extraterrestres de Spielberg eram benévolos e até mesmo simpáticos, acabando por incutir em nós uma sensação de optimismo. Mas os tempos mudaram: neste filme, é difícil ver a destruição e o desespero inicial que os invasores provocam e não pensar no 11 de Setembro. É evidente que estes extraterrestres são fantasia, mas Spielberg afirma que a ameaça que eles representam é bem real: «São um apelo para que acordemos e enfrentemos os nossos medos, tal como enfrentamos uma tentativa brutal de destruir o nosso modo de vida.»
E aí está novamente o tema: o monstro enquanto metáfora. Na sua obra original, H. G. Wells deu forma às preocupações dos Britânicos quanto à então ainda recente teoria do darwinismo (será que a «teoria da sobrevivência do mais adaptado» significa «nós»?) e ao aumento do militarismo alemão (ou será que significa os «hunos»?). Os mitos e os acontecimentos reais também se misturaram em sucessos de bilheteiras sobre invasores do espaço, tais como A Guerra das Estrelas, Alien, O Dia da Independência e Sinais.
Ciclicamente, revisitamos este tema das invasões, pese embora nunca termos encontrado indícios de vida no espaço – e, decididamente, não em Marte. O ano passado, quando os veículos da NASA Spirit e Opportunity lá aterraram, o Planeta Vermelho começou a revelar os seus segredos, mas até agora a missão não descobriu nada que possa estar sequer remotamente vivo. O astrofísico Neil deGrasse Tyson, director do Planetário Hayden, em Nova Iorque, afirma: «Seria indesculpavelmente egocêntrico afirmarmos que estamos sós no Universo.» Mas ao cabo de milhares de anos de investigação, não existem provas de que haja vida inteligente noutro lugar que não a Terra.
A ideia de que alguém nos observa é tão atrante que talvez explique o facto de, apesar de tudo, continuarmos a investigar. A ideia de um encontro com um extraterrestre, mesmo do tipo fictício, «permite-nos medirmo-nos em comparação com forças que poderemos não compreender», explica George Slusser, professor de Literatura Comparada da Universidade da Califórnia, em Riverside, e conservador da Colecção de J. Lloyd Eaton de Literatura de Ficção Científica, Fantasia, Terror e Utópica. «Diz-nos aquilo que somos, o que poderíamos ser e o que não deveríamos ser», ou seja, na versão de Spielberg, criaturas sem misericórdia com tecnologia avançada e almas gélidas.
Quando, há três anos, Spielberg e Cruise estavam a dar os retoques finais em Minority Report, filme de suspense sobre a vida e o crime em 2054, procuraram projectos para uma segunda colaboração. E foi então que escolheram A Guerra dos Mundos. Spielberg adora embrenhar-se artisticamente no tema do «Bem contra o Mal», pelo que provavelmente foi apenas uma questão de tempo até chegar ao grande mal do terrorismo. Segundo Slusser, esse é um terreno fértil para criar histórias. «Fomos atacados no 11 de Setembro e, de repente, os extraterrestres estão entre nós. O americano médio não compreende o porquê de alguém ter querido fazer uma coisa daquelas. Os EUA eram aquele tipo de fortaleza que jamais imaginaríamos poder ser invadida por alguém. E de repente ... Bum!»
E depois do «Bum»? Voltamos à questão daquilo que os monstros revelam de nós próprios: os EUA, em 2005, possuem armas extraordinárias e tecnologia a que podem recorrer para proteger o seu país contra os terroristas. Mas não são só os edifícios e as fronteiras que precisam de protecção: é também a nossa humanidade. No romance de Wells, os raios mortíferos e as máquinas de guerra dos marcianos destroem a nossa civilização. Mas os maus acabam por ser dizimados por um vírus ao qual o ser humano é imune. Assim, é a especificidade dos seres humanos que lhes dá a força e a capacidade de resistência que falta aos seus inimigos.
É esse o verdadeiro tema de A Guerra dos Mundos de Spielberg: quando as portas do Inferno se abrem, o personagem representado por Cruise, Ray Ferrier, ultrapassa as suas deficiências como pai e ser humano. E em seu lugar surge um homem sozinho lutando contra o Mal para salvar a família. Não assistimos a um final totalmente feliz (afinal de contas, o título do filme é A Guerra dos Mundos), mas nem por isso deixa de ser importante observarmos a força que Ferrier tem dentro de si: a força da sua humanidade.
O realizador Steven Spielberg, de 59 anos, conta já com mais de uma dezena de longas-metragens no seu currículo, entre as quais alegres clássicos da ficção científica como E.T. e Encontros Imediatos do Terceiro Grau. Mas a sua versão de A Guerra dos Mundos (um projecto que já tinha desde os tempos de estudante universitário, altura em que leu pela primeira vez o romance de H. G. Wells) assume um tom muito diferente. Colocámos-lhe algumas questões acerca do seu trabalho mais recente.
RD – Até aqui os seus extraterrestres costumavam ser gente amistosa. E no seu novo filme?
Steven Spielberg – Os extraterrestres de A Guerra dos Mundos são a antítese disso. Aparecem para destruir e obrigam-nos a usar a força para nos defendermos.
RD – Este filme foi influenciado pelo 11 de Setembro? Os invasores são uma metáfora?
SS – Representam uma ameaça para o Mundo, a qual pode, hoje em dia, surgir inesperadamente a qualquer momento, até mesmo à nossa porta.
RD – Porque pensa que os seres humanos sentem um fascínio tão grande pela possibilidade da existência de vida noutros pontos do Universo?
SS – Quando olhamos para o céu e nos apercebemos de que existem galáxias a milhões de anos-luz de distância, é difícil não nos perguntarmos se haverá vida no Espaço. Ao longo da História, esta tem sido uma das grandes questões que a Humanidade se tem colocado.
RD – Acredita que de vez em quando há extraterrestres que visitam o nosso planeta?
SS – Se bem que nunca tenha tido um «encontro imediato», sempre me fascinou a ideia de haverem ovnis e extraterrestres que nos visitam. Essa ideia remonta ao tempo em que o meu pai nos levava a observar o céu à noite. Foi numa época de muitos avistamentos de ovnis. Sempre acreditei que não estamos sós e que as hipóteses de haver outros habitantes do Universo são muito maiores do que as de sermos a única civilização existente. Poderemos ter sido visitados num passado recente, mas apenas aqueles que afirmam ter tido encontros imediatos poderão afirmá-lo com certeza.
RD – Conforme a tecnologia for tornando possível transformar a imaginação em realidade, qual será o futuro da fantasia?
SS – A fantasia irá continuar a fazer parte das nossas vidas porque é algo que nasce das nossas almas eternas. É-nos dado um grande dom à nascença: a imaginação! E dura para sempre, sem fronteiras. É a grande «força» que nos torna a todos pioneiros, tanto neste mundo como para além dele. É a grande graça salvadora da condição humana. Se a deixarmos, a imaginação poderá unir o Mundo.
|
| |||||
Faça um Comentário
| Nome* | |
| Email* | |
| Comentário* | |

Mais Populares
Mais Populares
Favoritos da Semana
![]() Receitas e Alimentos | ![]() Dicas e Truques | ![]() Alimentação Saudável | ![]() Destinos e Viagens | ![]() Notas de Lazer | ![]() Consultas de Especialistas |
Precisa-se: Uma Boa História!
Precisa-se: Uma Boa História!
Escreva-nos e poderá ganhar:
50€ por cada história verídica e inédita que for publicada em Flagrantes da Vida Real.
20€ por cada texto publicado em Rir é o Melhor Remédio.

Partilhe






.jpg)
















