A forma em que cabemos
Porque é que as mulheres vivem obcecadas com o corpo? Estaremos firmemente decididas a atingir a perfeição ou contaminadas com ideias irrealistas sobre a beleza?
Por Melisande Clarke
Melisande Clarke responde.
A beleza é um valor inestimável na nossa sociedade, que vive obcecada com a imagem, e, por isso, não é de espantar que Chloe Marshall, a Miss Inglaterra, esteja nas primeiras páginas dos jornais. Mas Marshall não é apenas bonita. Veste o 42 e isso é uma grande novidade.
A figura cheia da finalista do concurso de beleza atraiu a imprensa, o que sublinha ainda mais o facto de as mulheres mais gordas nunca serem consideradas «a mais bonita». Se abrirmos uma qualquer revista ou jornal, a qualquer dia da semana, a mensagem é clara e entra pelos olhos dentro: a magreza está na moda.
Com a maior parte das mulheres a suster a respiração para caber num 42 ou mais, a comparação entre as revistas e a realidade é odiosa. Um estudo recente da Newspoll mostra que apenas 6% das mulheres com idades compreendidas entre os 18 e os 64 anos se dizem «muito satisfeitas» com o corpo que têm. Ou seja, 94% olham para o espelho e não gostam de qualquer coisa. Por outras palavras, a maioria das mulheres que esta manhã viajaram ao seu lado no autocarro tem uma má opinião sobre a sua imagem. É um pensamento sério e que levanta a questão: como é que este género, que é fabuloso e diversificado, se tornou tão obcecado com a aparência? E porque não nos controlamos, em vez de nos deixarmos levar por estereótipos?
«Se todas as mulheres do Mundo se levantassem um dia da cama, dessem um estalo e declarassem “gosto de mim da maneira como estou”, a economia entraria em colapso», diz Jane Caro, que já ganhou prémios por escrever para publicidade e é co-autora do livro The F Word: How We Learned to Swear by Feminism (em português, numa tradução literal, O Mundo F: Como Aprendemos a Jurar em Nome do Feminismo ). Caro acredita que as indústrias da cosmética e da moda estão interessadas em manter as mulheres inseguras quanto ao seu aspecto, apresentando-lhes um ideal que ninguém nunca conseguirá alcançar. «A publicidade não é imoral. É amoral», declara. «Onde estiver o dinheiro e o desejo, ela está.»
Claro que sabemos que a maior parte das imagens de mulheres em anúncios, revistas e filmes são retocadas até à perfeição e correspondem a versões idealizadas da realidade. No entanto, continuamos a agonizar sempre que nos damos conta da diferença que há entre elas e nós, muitas vezes até ao pormenor mais insignificante. «As mulheres vêem perfeição à sua volta e fazem uma comparação social, bocadinho por bocadinho», explica a Prof.ª Marika Tiggemann, da Faculdade de Psicologia da Universidade Flinders.
A análise do corpo das mulheres na publicidade, quando as nádegas, as pernas, os seios e a boca são isolados e glorificados, é conhecida como bodyism. As mulheres «de carne e osso» também isolam partes do seu corpo, mas, normalmente, porque não gostam delas – um inquérito recente mostrou que as mulheres criticam mais as suas barrigas, coxas e nádegas.
No debate sobre a imagem do corpo, os meios de comunicação social são muitas vezes apontados como o «bicho-papão», mas alguns especialistas, como a Prof.ª Susan Paxton, da Escola de Ciências da Psicologia da Universidade La Trobe, consideram que essa é apenas uma parte da questão. A docente observa que as mulheres recebem mensagens da família cada vez mais cedo. «Há provas de que, por volta dos 3 anos, as crianças preferem pessoas magras a pessoas que não sejam tão magras», diz. «Quando, para escolher um amigo, lhes é dada a opção de escolher entre uma fotografia de uma criança gorducha e de uma criança magra, escolhem normalmente a última.»
A forma como os pais vêem o seu corpo também tem impacto na maneira como a criança estrutura as suas atitudes. «Uma mãe que vive a fazer dieta ou que critica o seu corpo está a enviar às filhas uma mensagem clara», explica Tiggemann. «A sensação de insatisfação com o próprio corpo perpetua-se.»
O movimento antiobesidade também é inútil. «Mudou o foco da saúde para o peso e o aspecto», explica. «Está-se a perpetuar a noção de que estar gordo é mau, estar magro é bom e estar mais magro é melhor ainda.» E provou-se que isso não é verdade.
O ano passado foi publicado no Journal of the American Medical Association um estudo que durou 12 anos e que mostra que estar acima do peso encurta a esperança de vida e que indivíduos que estão gordos, mas em forma (isto é, praticam 30 minutos de caminhada todos os dias), não correm riscos de morte. Outras investigações indicam que uma pessoa delgada mas inactiva tem duas vezes mais hipóteses de morrer do que uma pessoa que esteja acima do peso, mas que faça exercício. Assim se prova que se pode ser gordo, estar em forma e ser fabuloso. A grande questão é que a magreza é a nova beleza, e ser bonito foi sempre uma condição apreciada. Há pesquisas que revelam que as pessoas atraentes são olhadas pelos outros como possuindo características desejáveis como a inteligência, confiança, atributos sociais e virtudes morais superiores. A noção de que «ser bonito é ser abençoado» está profundamente enraizada no nosso ADN.
Não é provável que a nossa obsessão pela «beleza» venha a diminuir, mas há sinais de uma mudança de atitude que estão a ser conduzidos pelos media e pela publicidade. A televisão já «farejou» a nova tendência e apoderou-se dela: a série televisiva Ugly Betty coloca uma rapariga comum a trabalhar nos escritórios de uma revista de moda e mostra que, se a magreza corresponde ao novo belo, então a realidade corresponde ao novo fabuloso. As mulheres normais são também as protagonistas da série de Carson Kressley, How to Look Good Naked, um programa comovente e inspirador onde o extravagante mestre do estilo ensina às mulheres como «aceitar, abraçar e acentuar» o que vêem ao espelho.
A campanha da Dove «Pela Beleza Real», que mostra mulheres de todos os tamanhos, formas e idades, também toca num ponto importante. «Começou quando alguém da equipa, ao folhear uma revista, percebeu que as imagens de mulheres perfeitas eram inspiradoras, mas inatingíveis», conta Candice Fernandez, manager da Dove para produtos de tratamento da pele. A primeira campanha, de produtos reafirmantes para o corpo, «protagonizada por mulheres fabulosas e reais em roupa interior», foi uma manobra inteligente e uma mudança refrescante.
A empresa não se envergonha da estratégia de marketing inerente a estes anúncios. «Vendemos produtos», explica Fernandez. «Mas a nossa marca representa mulheres reais, e as nossas pesquisas mostram que as pessoas associam a Dove a coisas positivas.»
Peritos em imagem consideram que campanhas como as da Dove ajudam a nivelar o «jogo», mas muitos acham que ainda não é suficiente para mudar valores enraizados.
«Precisamos de mais abordagens individuais», considera Tiggemann. «É preciso que as jovens tenham uma forte literacia mediática, educá-las sobre a publicidade e aumentar-lhes a auto-estima através de outros meios que não apenas a imagem e a aparência – através do desporto, da música, das conquistas académicas ou da gentileza para com os outros.»
É um objectivo pelo qual vale a pena lutar.
Imagine o dia em que todas as mulheres que viajam consigo no autocarro estarão a sorrir porque se sentem bem consigo próprias, independentemente do tamanho que vestem.
Hoje, o autocarro. Amanhã, o Mundo!
Lembre-se quando ...
A obsessão da sociedade pelas formas femininas começou nos anos 20, quando as mulheres saíram dos espartilhos, levantaram as bainhas e mostraram as pernas recém-bronzeadas. As indústrias da cosmética, da moda e do cinema nunca mais foram as mesmas.
No entanto, não foi senão nos anos 60 que a silhueta em forma de «violão» dos anos 50 foi substituída por raparigas com olhos de corça e as proporções da Twiggy. A magreza tornou-se moda, e os ícones femininos têm vindo a encolher desde então. Nos anos 70, um brilho saudável e um corpo flexível eram essenciais: Bo Derek e Christie Brinkley eram o expoente máximo do look rapariga-do-lado e Farrah Fawcett era a mais sexy de todas. O cartaz de 1976 em que ela vestia um top vermelho continua a ser um ícone da década.
Em 1981, Olivia Newton-John sugeriu-nos get Physical, e no ano seguinte, Jane Fonda, com 44 anos, renasce das cinzas com sugestões de como queimar calorias.
Os anos 90 começaram com as top do glamour Naomi Campbell, Christy Turlington e Linda Evangelista e terminaram com as escanzeladas Kate Moss e Jodie Kidd a mostrarem os seus pequenos corpos por grandes quantias.
Nos últimos oito anos, vemos as mulheres a encolherem. Em 2000, a Associação Médica Britânica advertiu que as actrizes e modelos têm apenas 10 a 15% de gordura corporal, quando o valor considerado saudável se situa entre os 22 e os 26%.
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