A Europeia do Ano 2006: Ayaan Hirsi Ali - A Voz Solitária da Coragem

Quando Ayaan Hirsi Ali, natural da Somália e deputada do Parlamento
Holandês, participou num programa de televisão sobre a lei islâmica da sharia, em 2003, acabou por contribuir com muito mais do que palavras
e pontos de vista sobre o Islão e o seu tratamento das mulheres. Uma
jovem marroquina contou aos produtores do programa que receava pela sua vida perante a sua própria família, que lhe batia e chamava
prostituta por querer sair com os amigos e vestir roupas ocidentais. Hirsi Ali ouviu a história da rapariga e depois levou-a à Polícia, apenas para ter que ouvir: «Não podemos fazer nada. Há tantas
raparigas na mesma situação e isso não é trabalho de Polícia...»
Normalmente, também não é trabalho de político cuidar de raparigas
muçulmanas em risco, mas foi isso que Ayaan Hirsi Ali fez. Acolheu a rapariga em sua casa durante quase um ano, proporcionando-lhe uma
oportunidade de concluir a universidade. «Todos os dias me encorajava», diz a jovem protegida, que tem agora um emprego e o seu
próprio apartamento. «Graças a ela, sou mais forte. Para as mulheres
da minha comunidade é muito difícil e perigoso falar abertamente. Ayaan faz isso por nós. Precisamos dela.»
«Se as pessoas tivessem ideia do número enorme de raparigas que vivem
em terror...», diz Hirsi Ali. «Só o facto de saírem de casa sem
autorização do pai ou do irmão pode resultar em serem levadas para o
país de origem dos pais e abatidas a tiro. Podem ser obrigadas a casar com um homem que as violará todas as noites. Acabam a conceber filhos
ano após ano quando não querem ficar grávidas. Tudo isto é uma
injustiça tão grande que devíamos ver e devíamos lutar.»
Ayaan Hirsi Ali, de 36 anos, bate-se por isso, tanto no plano político
como no plano pessoal, e fá-lo sob extremo risco pessoal. Em Novembro de 2004, um muçulmano fanático matou ritualmente o seu amigo Theo Van
Gogh, realizador de cinema. Theo foi morto em pleno dia em Amsterdão. Depois, o assassino cortou-lhe a cabeça quase completamente e
cravou-lhe no peito com uma faca uma arrepiante carta com ameaças a
Hirsi Ali. «Faz votos de morte se achas mesmo que tens razão», dizia.
O crime de ambos? Colaborarem numa curta-metragem intitulada
Submissão, na qual se mostravam os abusos sofridos por mulheres muçulmanas às mãos dos seus parentes masculinos. Hirsi Ali escreveu as palavras que acompanhavam as imagens filmadas por Theo Van Gogh de
mulheres seminuas com versículos do Corão que supostamente justificavam a sua humilhação projectados sobre os seus corpos
maltratados.
Hirsi Ali foi impedida de aparecer em público durante 75 dias, que
passou num local secreto nos Estados Unidos. Mas recusou-se a ser calada. Voltou ao Parlamento, figura elegantemente vestida, quase minúscula perante os corpulentos polícias que a acompanhavam 24 horas por dia. E continuou a falar. A sua figura será franzina e a voz suave
e bem-educada, mas as suas palavras são fortes e poderosas, porque ela acredita com paixão que denunciar aos Europeus aquilo que se passa nalguns lares muçulmanos, em pleno seio da sociedade europeia, desencadeará um processo de emancipação que mudará o Islão a partir de
dentro.
Em escassos três anos como deputada, fez aprovar uma série de medidas destinadas a melhorar as vidas das mulheres muçulmanas, ao mesmo tempo que contribui para colocar o sofrimento dessas mulheres no topo da
agenda política por toda a Europa. Pela sua corajosa campanha, a
Reader's Digest nomeia Ayaan Hirsi Ali Europeia do Ano 2006.
Nascida em Mogadíscio, na Somália, em 1969, Hirsi Ali aprendeu bem
cedo que as mulheres pouco contam na religião muçulmana. Aos 5 anos, foi submetida à excruciante provação da mutilação genital por
instigação da sua avó, que costumava dizer que a mãe de Hirsi Ali
tinha só um filho. Na realidade, tinha três: duas raparigas e um
rapaz.
Só aos 7 anos conheceu o pai, que estava preso por se opor ao governo
marxista de Mohamed Siad Barre. O pai fugiu da Somália em 1976. A
família seguiu-o, primeiro para a Arábia Saudita, Etiópia e depois Quénia. Ayaan frequentou a Escola Secundária Muçulmana para Raparigas em Nairobi e aí aprendeu inglês. Aos 16 anos, por influência de um
professor xiita, atravessou uma breve fase de simpatia pelo
fundamentalismo.
Mas seria uma paixão temporária. Em 1992, um membro do clã de Hirsi
Ali que vivia no Canadá foi a Nairobi visitar o pai dela e pedir-lhe
para casar com uma das suas cinco filhas. Ayaan, que tinha então 22 anos, foi considerada a mais adequada. «Mas eu não estava preparada»,
recorda ela. «Não queria casar.» Mas não tinha alternativa. Teria que seguir o seu novo marido de regresso ao Canadá.
De caminho, passaram por casa de familiares na Alemanha. Hirsi Ali
resolveu escapar ao casamento imposto e fugiu para a Holanda, onde pediu asilo político e obteve autorização permanente de residência.
Trabalhou também como intérprete para os serviços de imigração e
naturalização holandeses. Isso levou-a a visitar hospitais, escolas, centros de refugiados, abrigos para mulheres, clínicas de abortos e tribunais. Esse trabalho abriu-lhe os olhos. «Na universidade, todos
eram brancos, e nos comboios ou na rua eu estava em minoria. Depois, entrei nesses abrigos para mulheres, e eram todas negras», diz ela. «Às vezes, os imigrantes constituíam até 80% da população das prisões, abrigos para mulheres, enfermarias psiquiátricas ou dos desempregados. Havia claramente coisas seriamente erradas nessas comunidades.»
Havia casos aterradores. Uma adolescente violada pelo meio-irmão, que
também abusava da irmã e da própria mulher, foi forçada a casar com um primo. Hirsi Ali foi encontrá-la a viver na mais esquálida pobreza,
com duas crianças de menos de 2 anos, fraldas sujas por toda a casa e um fedor a urina no ar. Outras mulheres que conheceu tinham recorrido
a clínicas clandestinas de aborto ou tinham-se submetido a cirurgias
rudimentares para «restaurar» a sua virgindade, muitas vezes perdida por violação ou incesto. Se não o fizessem, arriscavam-se a ser
obrigadas a casar com o primeiro homem disposto a aceitá-las, ou a
tornarem-se vítimas de um assassínio «de honra» por terem desgraçado a família.
Viu também quantas raparigas eram obrigadas a casar e a conceber filhos muito novas. Muitas sofriam violência física às mãos dos maridos. Algumas acreditavam que era a vontade de Alá e que mereciam.
Em 2000, Hirsi Ali aderiu à Fundação Wiardi Beckman, o grupo de reflexão do Partido Trabalhista Holandês, na qualidade de
investigadora de questões de imigração e integração. Agora, dispunha pela primeira vez de uma plataforma para levantar a questão do abuso das mulheres muçulmanas. «A via mais rápida para a integração é dotar
estas mulheres de autoconfiança o mais depressa possível», explica ela. «Devem ter a liberdade de completar os estudos e arranjar emprego. Se as mulheres tiverem possibilidade de escolher os seus
próprios parceiros e determinar quando pretendem ter filhos, educarão esses filhos de uma forma que lhes facilitará a adaptação à vida aqui, no Ocidente.»
Tornou-se ainda mais directa depois dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque. Pela primeira vez, foi alvo de ameaças de morte por parte de fanáticos islâmicos e foi insultada na rua. Aceitou protecção policial. Mas os seus pontos de vista eram
polémicos e largamente incompatíveis com as políticas de tolerância e multiculturalismo seguidas pelo Partilho Trabalhista Holandês, nessa altura parte da coligação governamental. Abandonou-o em benefício do VVD, o Partido Liberal Holandês, um partido de direita defensor da
economia de mercado, e foi eleita para a Tweede Kamer, a Câmara Baixa do Parlamento Holandês, em Janeiro de 2003.
Desde então, entregou-se incansavelmente à sua missão política. Foi frequentemente acusada de estimular a xenofobia num país que está a tornar-se cada vez menos tolerante para com os estrangeiros e deparou
muitas vezes com hostilidade por parte da população de quase um milhão de muçulmanos da Holanda. Um dia, numa cervejaria em frente ao Parlamento, em Haia, um jovem aproximou-se dela e disse: «Minha
senhora, espero que os mujahedin a encontrem e matem.» Hirsi Ali
estendeu-lhe a sua faca de cortar manteiga. «Porque não trata você mesmo disso?», desafiou-o. Ele retirou-se.
Hirsi Ali ajudou a introduzir legislação que tornou o divórcio mais fácil para as vítimas de violência doméstica e preparou o caminho para a constituição de uma estrutura nacional única para lidar com a
violência doméstica, a qual entrará em funcionamento em 2007. Pela primeira vez, os casos de violência doméstica serão registados segundo
linhas étnicas. As mortes «de honra» serão registadas, e os agentes da Polícia estão a receber treino especial para lidar com a questão.
Hirsi Ali aumentou tanto o número de abrigos para mulheres, como o número de câmaras de vigilância colocadas nesses refúgios, e tornou
mais difícil às novas escolas muçulmanas, por vezes verdadeiros
viveiros de fundamentalismo, obterem fundos estatais. Agora, as
escolas têm de cumprir critérios estritos, incluindo a garantia de que aceitam diferentes grupos étnicos.
A circuncisão feminina, que, embora seja frequentemente condenada na EU, só é ilegal em três países, continua a ser uma prioridade. Hirsi
Ali conseguiu que os médicos holandeses tenham a obrigação de relatar quaisquer casos com que deparem, e em Setembro de 2005 persuadiu o Parlamento a criar um sistema de detecção. As raparigas muçulmanas serão convidadas a submeterem--se a um exame médico. Se não o fizerem,
os serviços sociais serão informados, e as famílias, forçadas a
obedecer sob pena de processo legal. Neste, bem como noutros pontos, Hirsi Ali pretende que sejam tomadas medidas a nível europeu. Orgulha-se das suas campanhas parlamentares: «Consigo sempre a minha
maioria!», diz ela.
No seu gabinete chovem pedidos de ajuda. «Recebemos muitas mensagens
electrónicas de mulheres espancadas que procuraram refúgio em abrigos para mulheres», explica a sua assistente pessoal, cujo nome não
divulgamos para a proteger. Por vezes, há problemas burocráticos, são obrigadas a deixar esses abrigos e não sabem para onde ir. Se puder ajudá-las, Ayaan fá-lo. Interessa-se sinceramente pelas pessoas.
Os críticos de Ayaan dizem que ela não passa de uma voz no deserto.
Não é verdade, mas não podemos prová-lo, porque as pessoas que
precisam de ajuda ficam mudas. Às vezes, recebo mensagens sem remetente, número de telefone ou endereço electrónico, e não podemos fazer nada, porque essas mulheres têm medo e pedem: “Por favor, não entrem em contacto comigo.”»
Sobre as suas vitórias, Ayaan Hirsi Ali diz simplesmente: «A tomada de consciência é o meu grande êxito.» O jornalista e comentador político holandês Theodor Holman comenta: «Ela viu coisas que estão mal e
disse: “Vocês, o povo holandês, não vêem essas coisas.” Fez-nos
despertar e lançou um debate. É por aí que começam as mudanças. E eu vejo as coisas a mudar no bom sentido.»
Hirsi Ali confia em que o círculo do mal será quebrado. «Chamo a isto
as virgens enjauladas. Havemos de arrombar a jaula, e quando as
virgens saírem, serão livres e o resto da sociedade será livre também. A jaula já está a abrir-se.»
Jozias van Aartsen, líder do VVD, acrescenta: «Ela tem coragem. Está
sob uma ameaça constante e real que lhe torna difícil ser uma política normal. Mas conseguiu preservar o bom humor, apesar de ter tido os seus momentos de desespero, sobretudo depois da morte de Theo Van
Gogh. Além disso, é uma excelente analista política, que sabe onde e quando pôr os assuntos em agenda.»
No seu esforço para obter liberdade para os outros, Hirsi Ali
tornou-se ela própria prisioneira. No seu apartamento, há um quarto reservado para o guarda-costas. Foram desmascaradas várias
conspirações para a assassinar. Vinda para a Europa para fugir à
intolerância, foi encontrar essa mesma intolerância a insinuar-se na sociedade multicultural de vive-e-deixa-viver da Holanda. A antiga refugiada é quem hoje se bate pelos direitos que o povo holandês tradicionalmente valorizou.
Ayaan Hirsi Ali prometeu fazer uma sequela de Submissão e tem
planos para um livro infantil. Falou por telefone com o pai, que vive em Londres e lhe disse que a perdoou por ter fugido ao casamento
imposto. Mas a rejeição de Hirsi Ali da sua fé torna improvável a
reconciliação completa com ele e o resto da família.
No entanto, ela não se considera corajosa. «Está sozinha. Todos temos
momentos de solidão, mas solidão como eu vivo hoje – estar de facto só – é diferente. Torna mais difícil prosseguir. Mas tenho amigos e pessoas que me apoiam e sinto-me verdadeiramente grata por estar viva
e fazer o que faço.»
O que poderia levá-la a desistir da sua campanha? Um sorriso espalha-se pelas maçãs altas do seu rosto, os olhos amendoados brilham, e Hirsi Ali diz com um riso nervoso: «Não sou nenhuma mártir!» Mas logo acrescenta: «Pararei quando um número suficiente de pessoas capazes de mudar as coisas tome consciência do que se está a passar. Consegui muito, mas o problema não é só holandês. É um problema global.»
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