Desde o primeiro encontro num ginásio no norte da Califórnia, Angela Gallerani, esbelta e com cabelos avermelhados, e Richard Rosette, alto e moreno, entenderam-se perfeitamente. Conversaram sobre o trabalho dela, numa companhia de seguros, e o dele, num lar para meninos desajustados. Com o tempo, passaram naturalmente a falar sobre filhos. — Eu quero três — disse Rich, então com 26 anos.
— Eu sempre quis dois meninos e uma menina — respondeu a Angela, com 24 anos na época.
— Isso mesmo, e a menina será a mais nova — disse ele a sorrir. O namoro foi tranquilo e as famílias reconheceram logo neles «um par perfeito». A mãe do Rich, Helen, chamava o casal «Queijo e Fiambre», porque via-os sempre coladinhos. Quando Angela arranjou um emprego em Los Angeles, o Rich também se mudou para lá. Casaram-se em 26 de Setembro de 1992 e pouco depois Angela engravidou. No entanto, teve um aborto. Cerca de um ano depois, um segundo aborto deixou-a arrasada emocionalmente. — Há pessoas que não podem ter filhos — disse o Rich. — Talvez seja esse o nosso caso. Em Agosto de 1996, Angela descobriu que estava novamente grávida. Mas a euforia dos dois transformou-se em preocupação quando ela começou a ter hemorragias. Depois de uma ecografia, foi encaminhada para um especialista. Em repouso absoluto até à consulta, ela ficava sentada no sofá da casa, a observar as árvores lá fora a inclinarem-se com o vento. O seu sonho de ter filhos parecia estar a cair por terra com as folhas do outono.

Em 21 de Outubro, o Dr. Waleed Doany recebeu os Rosettes no seu consultório. Levou 45 minutos para concluir outra ecografia detalhada do útero da Angela. As notícias não eram boas. — Bem perto de um corte de placenta normal, há uma ampla área de tecido de aspecto cístico, ao qual chamamos de mola hidatiforme — disse o Dr. Doany, ao mostrar-lhes fotografias de um livro. — Não sabemos como é que se forma; no entanto, pode trazer sérias complicações à gravidez e transformar-se num tumor maligno. Mesmo quando é retirado existe um pequeno risco de cancro. — O bebé está bem? — interrompeu a Angela.
— Precisaremos de fazer uma amniocentese para ter a certeza. — respondeu o médico. Em seguida, explicou que se o feto estivesse na mesma placenta em que estava o tumor, apresentaria graves anomalias nos cromossomas e morreria antes ou no parto. A outra possibilidade seria o feto e a placenta saudáveis, a coexistirem com um saco separado de células em crescimento descontrolado. A Angela chorava baixinho e o Dr. Doany reparou nos músculos do maxilar de Rich retesarem-se. Infelizmente, precisavam de ouvir ainda mais. O médico começou a descrever os detalhes funestos, os vários riscos que corriam. — Não se pode simplesmente remover o tumor? — perguntou a Angela.
— Não sem interromper a gravidez — respondeu o Dr. Doany. — Mas, por causa dos riscos a longo e a curto prazo para a mãe e o mau prognóstico para o feto, a interrupção é mesmo a conduta recomendada. O Rich pigarreou.
— Se a Angela fosse a sua irmã, o que é que o doutor faria? — perguntou o Rich.
— Não gosto de responder a perguntas pessoais como esta — disse o Dr. Doany. — Mas por razões egoistas, não iria querer que a minha irmã pusesse a vida em risco. E continuou:
— É preciso que saibam que a minha paciente é a Angela. O bebé é meu paciente num nível secundário. O meu papel é apresentar-vos as opções. Qualquer que seja a vossa decisão, farei o melhor que puder.

Optimista e franca, a Angela estava habituada a tomar decisões com rapidez. Já tinha até escolhido o nome para o bebé: Austin. Nessa noite, porém, só conseguia lembrar-se de fotografias assustadoras, estatísticas sombrias e da palavra interrupção. Rezou, não por um desfecho específico, mas para ter a coragem de aceitar o que viesse. De manhã, sentia-se firme na situação emocional mais difícil que alguma vez enfrentara. Quando o Rich chegou do trabalho, a Angela anunciou: — Decidi que quero ficar com o bebé, aconteça o que acontecer.

Apanhado de surpresa, o Rich perguntou:
— Porque é que não esperas o resultado da amniocentese para tomar essa decisão?
— Não é preciso — disse Angela. — Se o Austin morrer, será por decisão de Deus, não minha. O brilho sintomático no seu olhar não deixava dúvida. Mas o Rich não suportaria perder a Angela.
— Não vamos precipitar as conclusões sem dispormos de mais factos — insistiu.
Ao ver que ela parecia inflexível, ocorreu-lhe que amar a Angela poderia significar deixá-la assumir o risco.
— Tudo bem — disse ele, por fim. — Vamos tentar. A Angela informou o Dr. Doany dos seus planos.
— Você está consciente do caminho árduo que vai ter pela frente? — perguntou o médico.
— Estou — respondeu ela, com firmeza. O Dr. Doany ergueu as sobrancelhas por um instante e depois assentiu com a cabeça. A amniocentese confirmou a segunda das duas possibilidades: o tumor e o feto, separados, apenas coexistiam no útero. O bebé não apresentava sinais de anormalidade nos cromossomas. O alívio dos Rosettes foi tão grande que nem mesmo a insistência do Dr. Doany em pormenorizar os obstáculos à frente conseguiu diminuí-lo. — Quero vê-la a cada três semanas — disse o médico.
A Angela estava na 18ª semana. A gestação normal dura, em média, 40 semanas. No intervalo entre as consultas com o Dr. Doany, os temores de Angela atenuavam-se. Invariavelmente, porém, as conversas com o especialista deixavam-na insegura. — Eu odeio este homem! — afirmou ela um dia, depois de uma consulta com o Dr. Doany, que ela agora chamava de Dr. Desgraça. — Sempre que venho aqui, ele encontra mais um problema. Às vezes acho que está mais interessado no tumor do que no Austin!
— O doutor só está a tentar mostrar-nos os factos, Angela — observou Rich. Mas para ele as consultas também eram traumatizantes. Em 21 de Janeiro de 1997, Angela foi internada no Centro Médico Regional de Encino-Tarzana com sinais de toxemia: tensão alta e retenção de liquídos nas pernas. O Dr. Doany prescreveu uma injecção de esteróides para acelerar a maturação dos pulmões de Austin, ainda não desenvolvidos totalmente, e começou a ministrar medicamentos a fim de impedir o parto prematuro e proteger Angela de uma quantidade de ocorrências potencialmente fatais, entre as quais convulsões e insuficiências hepáticas e cardíacas. O Dr. Doany informou o casal que, se os sinais de toxemia se agravassem, teria de retirar o feto.
— Tinha esperanças de que a toxemia só aparecesse depois de 26 semanas — disse ele. Para garantir que entendiam o motivo, mostrou ao casal um gráfico a representar as possibilidades de problemas respiratórios, neurológicos e digestivos em bebés prematuros, a cada semana de gestação. Dois dias depois, com a Angela cansada e inchada, Rich foi a casa buscar alguns objectos. Pouco antes de regressar ao hospital, telefonou para ela.
— Tens de voltar imediatamente — disse a Angela. — Há algo de mal que está a acontecer.

No posto de enfermagem, o Dr. Doany estava a fazer anotações no prontuário da Angela. Perguntava-se o que teria causado o súbito aumento na retenção dos liquídos e as dificuldades respiratórias da paciente. Outros especialistas, não tinham encontrado respostas objectivas. O Dr. Doany reexaminou as possibilidades — de líquido nos pulmões decorrente da toxemia, até à insuficiência cardíaca induzida pelas hormonas estimulantes da tiróide produzidas pelo tumor, passando pela pneumonia e por um coágulo sanguíneo no pulmão provocado pelo repouso absoluto. Se fosse uma toxemia grave, o feto teria de ser retirado imediatamente. O médico calculou que 19 em cada 20 especialistas em gestação de alto risco optariam agora por essa conduta. Mas, se a toxemia não fosse a culpada, talvez conseguisse tratar o problema e ganhar mais tempo para a Angela. Era o tipo de diagnóstico que atraíra o Dr. Doany para o campo de obstetrícia de alto risco. Naquele exacto momento, porém, gostaria de ter, também, uma bola de cristal. Estaria a ser irresponsável em adiar? Já testemunhara os sombrios desdobramentos de muitos nascimentos prematuros — crianças com doenças pulmonares crónicas, cegueira, paralisia cerebral e deficiências irreparáveis. Explicou a situação aos Rosettes, que concordaram em aguardar algumas horas, enquanto ele tentava várias medicações. Se o estado de Angela não melhorasse, teria de fazer o parto rapidamente. O Dr. Doany olhou para a cara da Angela, inchada como uma lua. Aquela seria uma longa noite.

Os ponteiros do relógio faziam uma lenta pirueta após a outra, enquanto o Rich e outros membros da família esperavam. Finalmente, decidiram pedir alguma coisa para comer. Estavam a aguardar na sala de espera, quando o Rich viu o Dr. Doany. Naquele dia o médico parecera mais insensível do que nunca, mas o Rich não conseguia deixar de se impressionar com o conhecimento e a diligência do homem. Num impulso, chamou-o:
— Ei, quer uma fatia de pizza? O médico parou e respondeu:
— Claro. Rapidamente começaram a conversar. O Dr. Doany falou da família; era evidente, pela forma como o seu olhar abrandava ao mencionar a irmã, que era muito chegada a ele. A Angela não vai acreditar, pensou o Rich. O Dr. Desgraça a abrir o seu coração para mim.
— Como está a Angela? — perguntou o Rich.
— Estamos a assistir a uma luta entre a Angela e o bebé. Estou a forçar o equilíbrio ao máximo — reconheceu o doutor. — A solução mais fácil seria antecipar o parto. Mas estou a tentar chegar a um ponto onde o bebé tenha melhores hipóteses. No entanto, um bebé sem a mãe não adianta e, por isso, não vamos trocar uma vida pela outra. Ele estava sempre ao nosso lado; só ainda não tínhamos percebido, pensou Rich. Em termos de coragem e determinação, acho que a Angela encontrou alguém à sua altura. Nos dias que se seguiram, a situação da Angela estabilizou. Nesse interregno, ela também mudou de opinião sobre o médico. Ele visitava-a várias vezes por dia e era comum ela ouvir as enfermeiras, ao telefone, a manterem-no informado. Não havia dúvida quanto às suas boas intenções.
— Eu chorava sempre que ia ao seu consultório — confessou Angela. — Odiava-o.
— Eu compreendo — disse ele gentilmente. Angela considerou a resposta como a aceitação da sua retratação muda. Tinham medido forças e agora davam o jogo como empatado. Durante as lentas semanas de espera, à medida que a relação do trio ia ficando mais calorosa, o humor ajudava-os a manter o medo sob controle. — Mal posso esperar que tenha esse bebé para eu poder dormir — brincava o médico. — Passo o tempo todo acordado, a pesquisar o seu caso. Finalmente, a 13 de Fevereiro, os exames mostraram que o crescimento do bebé estava mais lento. A toxemia estava a levar a melhor.
— Vamos deixá-la entrar em trabalho de parto agora — informou o Dr. Doany. O Rich e a Angela apertaram as mãos nervosamente.
— Nunca ouvi um batimento cardíaco tão forte num bebé que já sofreu tanto — disse o Dr. Doany. Dito isto, uma nova contracção fez com que a frequência cardíaca do Austin baixasse. Angela viu o Dr. Doany arregalar os olhos.
— Não há dúvida que ele herdou a sua personalidade, Angela. Está a querer provar que estou errado! — disse o médico. Às 23.44, a pesar 1,219 Kg, Austin Emanuel Rosette deslizou para as mãos acolhedoras do Dr. Doany. Quase de imediato, Angela ouviu um ténue choro, como um miado de um gatinho. O Rich ria. — Precisas de vê-lo! — disse. — Está de goelas abertas! O Dr. Doany levou cerca de 25 minutos para remover o tumor que, afinal, era benigno. Depois a Angela estendeu a mão para o médico.
— Agora o senhor faz parte da nossa vida para sempre — disse ela. — Acaba de ser tio. Seis dias depois do nascimento do Austin, no 31º aniversário da Angela, o casal segurou o filho pela primeira vez. O punho do bebé era tão fino que a aliança do Rich cabia lá. A enfermeira colocou o Austin sobre o peito nu da Angela e abotoou o robe desta de modo a envolver os dois corpos. Para espanto da mãe, o bebé levantou a cabeça de cabelos escuros e virou-se para o outro lado. Em seguida, deu um suspiro de satisfação. — Ah, Rich! — disse a Angela, olhando para o marido com os olhos brilhantes.
— Este é o melhor presente de aniversário que eu já recebi. Pele sobre pele, vida sobre vida, um futuro promissor diante deles, ficaram ali, com a Angela a sentir a pulsação regular do coração de Austin a responder ao seu.

Os Rosette presentearam o «tio» Waleed Doany com uma placa de agradecimento. Nela, há uma fotografia do médico a segurar o «sobrinho» recém-nascido, que vem a desenvolver-se normalmente. Em 8 de Maio de 1998, Angela deu à luz o seu segundo filho, Aaric Bryan, após uma gravidez sem contratempos.

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