Para quem o conhece desde a mocidade, não são apenas «os sonhos herdados do pai» que fazem dele um candidato forte à presidência dos Estados Unidos, mas também a ousadia da mãe e o seu próprio e incansável empenho.

Em finais de 2002, Barack Obama contava já quase seis anos no senado estadual do Illinois. Era membro da minoria Democrata, representando uma fatia do eleitorado predominantemente afro-americano da zona de South Side. Tinha feito o possível num estado onde os Republicanos mandavam, e estava pronto para uma mudança. Veio a ver-se que também o estavam os eleitores do Illinois, que em Novembro desse ano voltaram a entregar o poder aos Democratas. Meses depois Obama avistou-se com o novo presidente do senado estadual, o homem que mais provavelmente se perfilava como o mais poderoso político negro no Illinois: Emil Jones, Jr. Levava-lhe uma grande ideia.

«Disse-me o seguinte», recorda Jones, deliciando-se com a história, «”O senhor é agora presidente do Senado e tem, nessa qualidade, muito po-derrr.”» Jones arrasta a palavra, como que saboreando-lhe o gosto. «E eu disse ao Barack: “Acha que eu tenho agora muito po-derrr?”, e ele: “É, tem muito po-derrr.” E digo eu: “E que poder é esse que eu tenho?” “Tem o poder de fazer um se-na-dorrr dos Estados Unidos da América”» Jones solta uma gargalhada grave de grande fumador. «Eu respondi ao Barack: “Isso soa bem! Nem tinha pensado ... Tem alguém em mente?” E ele: “Tenho. Eu.”»

Obama sabia que o apoio de Jones por si só bastaria para garantir a contenção de outros poderosos políticos do estado e desencorajar os apoios a potenciais rivais. Jones disse que pensaria no assunto e, mais tarde nesse mesmo dia, disse a Obama: «Parece-me bem. Vamos para a frente.» Dois anos depois, Obama foi eleito para o Senado americano e, em Fevereiro de 2007, anunciou que estaria na corrida para a presidência.

Este artigo não é sobre a corrida à presidência dos EUA. Não é sobre as posições políticas de um senador e candidato ao mais alto cargo americano. É sim sobre a consistência de carácter de um rapazinho e de um jovem, e como esse carácter emergiu na idade adulta. O Barack Obama que de forma tão pungente escreveu sobre a alienação adolescente e a busca de identidade racial nas envolventes memórias Dreams from My Father (Sonhos Herdados do Meu Pai) , é o mesmo Barack Obama que aprendeu a lidar com o tipo de pessoas do fumador inveterado Emil Jones Jr., o homem da voz grave cujo toque de telemóvel é a canção-tema de O Padrinho.

A boa aparência de Obama e a sua disponibilidade bem-falante para pensar em voz alta algumas das inanidades da política moderna têm mascarado o cerne resistente e a ambição incansável que ardem sob a espuma da superfície. Ele não é, e nunca foi, brando. Bem podem amigos e família dizer-se surpreendidos pela rapidez da sua ascensão, mas a nenhum espanta o facto dessa ascensão.

«Sei que não gastei muito tempo a aprender como se fazem as coisas em Washington», disse Obama durante o anúncio de que se candidatava à presidência. «Mas estou lá há tempo bastante para saber que a maneira de fazer as coisas de Washington tem que mudar». A inquietude de Obama foi a qualidade que o levou a concluir, uma e outra vez, que chegara a hora de tomar uma atitude – de correr riscos, de apontar mais alto – quando outros lhe diziam que esperasse a sua vez. As mais das vezes era o seu timing que estava certo.

À medida que a campanha presidencial foi rodando pela temporada das primárias, o carácter de Obama ficou exposto ao exame à lupa. A principal crítica é que «não tem estofo» ou experiência bastantes. A colunista do New York Times, Maureen Dodd deu a uma crónica sobre ele o título «O Virgem de 46 anos», e Hilary Clinton encorajou durante meses este tipo de juízo derrisório. Ao mesmo tempo, porém, ser visto como demasiado duro – demasiado capaz nas mais rudes artes da política – contraditaria as próprias qualidades que começam por tornar Obama atraente.

É um raro talento saber vestir a ambição com leveza e deixar que a dureza seja tida como dado adquirido. A vida e a carreira de Obama sugerem que ele tem esse talento – ou, ao menos, esse dom. Há muito que decidiu que teria oportunidade de tornar-se uma pessoa fora do comum.

Mexe-te mais, Gane menos

«Esta campanha não pode ser sobre mim», disse Obama a uma multidão ovacionante de Chicago, no fim de semana em que anunciou a sua candidatura. «Sou um veículo imperfeito para as vossas esperanças e sonhos.» Mas, para o melhor ou o pior, a sua própria campanha é toda sobre ele e sobre a cativante ideia que corporiza. Toda a sua vida é a história de alguém sempre ligeiramente à frente do seu tempo, a história de um rapazinho e de um homem cuja busca sobre o sentido da sua paternidade – e, logo, da sua identidade – o levou, uma e outra vez, a tornar-se o arquitecto da sua própria sorte.

Todos os seres humanos defrontam a prova de encontrar o seu lugar no Mundo. Obama teve que se empenhar mais que o comum na busca desse lugar, e decidiu muito cedo que seria um lugar proeminente, na arena pública.

Barack Hussein Obama deve a sua própria existência ao desafio de probabilidades e convenções. Nasceu e foi criado no Hawai, o 50º estado americano e em muitos aspectos o mais livre-pensador, aquele onde a ascendência miscigenada é de tal forma um dado adquirido que os naturais referem-se á sua própria linhagem como chop suey ou poi dog, onde as mesinhas de cabeceira dos hotéis têm, além da Bíblia, O Livro dos Mormons e os Ensinamentos do Buda, e onde os carros ostentam autocolantes com dizeres como «Mexe-te mais, gane menos».

A sua mãe, Stanley Ann Dunham, era a branca e filha de um vendedor de móveis e seguros do Kansas que se mudou para o Hawai quando este se tornou estado, em busca de vida nova. Stanley Ann adorava os discursos de Martin Luther King e achava que o cantor Harry Belafonte era, como recorda o filho, «o homem mais bonito à face da Terra». Aos 18 anos conheceu e casou-se com Barack Hussein Obama Sr., antigo pastor de cabras do Quénia agora estudante de economia que havia pouco se tornara o primeiro estudante africano na história da Universidade do Hawai – isto em 1960, altura em que os casamentos interraciais eram proibidos na maior parte dos estados americanos.

O casal separou-se em 1963, quando o seu filho tinha apenas 2 anos, e posteriormente divorciou-se. Barack esteve com o pai exactamente mais uma vez na sua vida, durante um mês em Honolulu, no Natal, tinha ele 10 anos. (O seu pai viria a reivindicar a paternidade de um total de oito filhos de quatro mulheres, antes de morrer num desastre de automóvel aos 46 anos de idade, em 1982.)

Ann casou-se depois com um indonésio chamado Lolo Soetoro, e inscreveu-se numa licenciatura em Antropologia que lhe exigia frequentes deslocações à Indonésia, e Barack passou quatro anos da sua juventude nesse país, na nação muçulmana mais populosa do Mundo. Como a mãe queria que Barack tirasse o máximo proveito do Sonho Americano, deixou-o no Hawai durante a maior parte da adolescência aos cuidados dos avós maternos, Stanley e Madelyn Dunham, que o alimentaram com uma dieta policultural de sashimi japonês e gomas americanas, e lhe obtiveram uma bolsa e uma matrícula na escola privada Punahou, de Honolulu. Quem lá chegou foi um rapazinho de cara rechonchuda e gorducho, longe da figura elegante de hoje em dia.

Mas Obama teve que defrontar as realidades da vida como um de pouquíssimos alunos negros numa escola de elite com quase 1700. O Livro do Ano retrata-o como participante respeitável, mas não uma estrela. Um amigo rabiscou uma vez o esquisito apelido em cimento fresco junto à entrada da cafetaria, uma brincadeira que lhe podia ter valido sarilhos menores. Os responsáveis da escola apontam a marca orgulhosamente hoje em dia.

Com esforço diligente, treino constante e um cesto de categoria, Obama chegou às segundas eliminatórias do campeonato estadual de basquetebol quando era finalista, e assim ganhou uma vaga no ensino superior que poderia ter ido para um jogador mais jovem e promissor. Frequentou a Universidade em Los Angeles, no Occidental College, e durante 2 anos em Nova Iorque, para onde se transferiu para frequentar a Columbia, uma das mais prestigiadas universidades americanas.

«Houve uma ruptura fundamental entre a Occidental e a Columbia, tornei-me mais sério», diz Obama. Enquanto estava em Nova Iorque, o seu pai morreu, dando ao filho «um sentido de urgência sobre o rumo da minha vida». E acrescenta: «Isso não quer dizer que eu tenha sentido instantaneamente uma grande ambição de poder político, mas julgo que foi nesse ponto da minha vida que decidi que queria deixar uma marca.»

Começou a deixar essa marca em Chicago, um centro da diáspora negra americana. Quando chegou, Obama não conhecia ninguém, mas acabaria por encontrar o trabalho da sua vida, a fé cristã e Michelle Robinson, que se tornaria sua mulher e mãe das suas duas filhas, Malia Ann e Natasha, hoje com 10 e 7 anos. Chicago é ainda hoje a sua casa. Foi aí que não só explorou a sua identidade como Americano negro, como decidiu licenciar-se em Direito na faculdade de Direito de Harvard, que acreditava ser a melhor preparação para uma carreira pública. Desde então, nunca se desviou do rumo traçado.

Tornou-se presidente da Harvard Law Review, não por ter as melhores notas (embora tivesse boas) mas porque ganhou a confiança tanto das facção conservadora como da esquerdista. Descartou um início de carreira segura como funcionário do Supremo Tribunal, optando antes por um pequeno escritório de advogados que se ocupava de questões de direitos civis, e por um contrato para um livro, Dreams from My Father (Sonhos Herdados do Meu pai), que foi publicado sob aplauso geral em 1995, mas caiu no esquecimento durante quase uma década.

Esperança herdada da mãe

Obama deve muito da sua coluna vertebral, da sua audácia e da sua empatia a uma pessoa de que o público sabe muito pouco: Ann Dunham, a sua mãe, que morreu de cancro nos ovários em 1995, com 52 anos. No prefácio da edição de capa mole de Sonhos, Obama escreve que se soubesse como a vida da mãe seria ceifada cedo, talvez tivesse escrito um livro diferente. O seu segundo livro, The Audacity of Hope (A Audácia da Esperança), dedicou-o à sua mãe e à mãe da sua mãe, Madelyn Dunham, «a mulher que me criou».

«Por si mesmo, precisava de escrever o livro sobre o pai», comentou Alice Dewey, que foi presidente do júri da tese de doutoramento de Ann Dunham e foi sua grande amiga durante anos. «Mas quando se pergunta “Quem sou eu?”, então Ann torna-se muito importante. Foi provavelmente a pessoa mais trabalhadora que já conheci. Era jovial e muito pés-na-terra. Era aquele tipo de pessoa que queremos mesmo ter ao nosso lado em qualquer situação, desde uma briga de bar a um debate académico, e ela estava sempre disponível para os mais pequenos, sobretudo para as mais pequenas.»

«Não me parece que haja a menor dúvida», disse Obama quando se referiu a ela, «de que a minha mãe foi a influência mais positiva na minha vida.»

Durante a maior parte das décadas de 1970, 1980 e 1990, Ann andou num rodopio entre o Hawai e a Indonésia, fazendo investigação académica e pagando as contas com explicações de inglês, ou trabalhando para organizações não-lucrativas como a Fundação Ford. O seu passo mais ousado terá sido casar-se com o pai de Obama, um caloiro da universidade do Hawai que conhecera numa aula de Russo.

Obama já reconheceu que as circunstâncias exactas do casamento são pouco claras, até para si; veio a saber-se que o seu pai já estava casado tribalmente com outra mulher, em África, e que depois de deixar Barack e a sua mãe para continuar os estudos em Harvard com uma bolsa, casaria e divorciar-se-ia de outra americana, e viria ainda a ser pai de uma criança de uma segunda mulher africana.

Ann Dunham manteve correspondência amistosa com o pai de Barack mesmo depois do seu casamento com Soetoro, outro estudante estrangeiro que a seu tempo viria a trabalhar para uma companhia petrolífera americana com escritórios em Jacarta. Tratou de que o filho soubesse como era o pai intelectualmente, e dos seus cargos governativos no regime pós-colonial do Quénia, bem como do improvável namoro que os dois tiveram. Mas o pai de sempre permaneceria uma figura distante, intimidativa e ausente, e só muito mais tarde Obama viria a saber dos pormenores desconsoladores da sua vida e carreira. «A verdade é que nenhum dos homens da minha vida foi muito bem sucedido ou estável», disse-me ele. «Cometeram um monte de erros.»

Foi a presença da mãe – e as suas nada raras ausências – que mais conformaram os seus verdes anos. Ela chorava com facilidade e nunca deixou de ser uma incurável romântica. (Costumava arrancar os filhos da cama para verem um nascer do Sol especialmente bonito.) Mas era também dona de uma enorme persistência. Na Indonésia, costumava acordar Barack antes da madrugada para lições de Inglês de um curso por correspondência. Alice Dewey contou-me que Dunham «divorciou-se de bom grado de Soetoro – que morreu em 1987 de complicações de uma doença do fígado – em parte porque «ele se tornou cada vez mais um Ocidental, enquanto ela se tornava cada vez mais uma Javanesa.»

Obama disse-me que para ele foram só motivo de riso as reportagens falsas retratando Soetoro como uma espécie de extremista muçulmano que o matriculara numa escola islâmica. «Vejam bem, as coisas de que ele mais gostava eram whisky Johnnie Walker Black Label e discos de Andy Williams», conta Obama. «Ainda me lembro de Moon River. Cantava isso, beberricava whisky e jogava ténis no country club. Era ele todo. E acho que as perspectivas de vida dos dois divergiram muito depressa.» A filha do casal, Maya Soetoro-Ng, que é nove anos mais nova que Barack, diz que Ann era «simpática de uma maneira constante e firme».

«Tinha um dom de ver-se a si própria em vários tipos de pessoas, e era uma coisa em que fazia muita questão connosco – a ausência de preconceito, de acrimónia. Era óptima a encontrar o tipo de linguagem que a outra pessoa compreendesse, independentemente das origens e antecedentes socioeconómicos. E julgo que nos passou isso a nós.»

Obama reconhece que os primeiros anos de universidade não foram mais que uma extensão de «bom, de um período nebuloso de paródia a mais.» Mas depois, segundo me contou, os valores da mãe começaram a vir à tona, e Nova Iorque não o deixava ignorar as patentes tensões e fardos da vida urbana, ou da sua própria vida. Depois de acabar o curso na Universidade da Columbia, depois de um ano como relator e analista financeiro numa firma de consultoria, e do primeiro sabor de acção pública no Harlem, Barack Obama sabia o que tinha que fazer: «Queria dedicar-me a uma coisa maior que fazer dinheiro e divertir-me.»

Uma plateia muito difícil

Obama deitou mãos ao que ainda hoje considera o trabalho mais difícil da sua vida: os três anos e meio de organização comunitária dos bairros pobres da ponta do South Side de Chicago. A sua missão: trabalhar com a Developing Communities Project (Projecto das Comunidades em Desenvolvimento), uma organização da Igreja de enquadrar residentes com baixos rendimentos para melhorar as condições de vida locais.

Os desafios eram enormes. Obama não conhecia ninguém. Buscava ainda a sua identidade de homem negro, mas era acolhido com reserva por muitos ministros negros, que não viam porque haveriam de fazer causa comum com o clérigo branco e católico que trabalhava com a organização. Fiéis de várias congregações perguntavam-se porque razão Obama não pertencia a nenhuma igreja em particular. Foi um teste de fibra e resistência. Gerald kellman, que contratou Obama, disse-me: «Barack nunca teve experiência política de campo antes de vir para Chicago, e essa foi uma coisa que aprendeu muito depressa.» E Kellman acrescentou: «Em parte, foi uma decisão consciente, essa de reconhecer que o idealismo não nos leva longe.»

Enquanto se confrontava com os limites da acção comunitária, Obama confrontava-se com as limitações da vida do seu próprio pai. Foi em Chicago que Obama recebeu pela primeira vez a visita de Auma, a sua meia-irmã mais velha do primeiro casamento do seu pai em África, e começou a compreender que a figura que conhecera sobretudo através de cartas e das memórias engrandecedoras da mãe de facto morrera desalentado, as suas esperanças em tempos radiosas estioladas por conflitos políticos e de personalidade com o regime queniano, a sua vida pessoal em ruínas sob o excesso de álcool e as disfunções familiares.

Obama visitou o Quénia, avistou-se com a a sua família ampliada de meios-irmãos, e começou a fazer as pazes com a memória do pai. A história do pai tornou-se, disse-me Obama, «objecto de lição». «Testemunhei o sofrimento da minha irmã e dos meus irmãos do lado do meu pai. Veja bem, eles passaram tempos difíceis; muito mais difíceis que eu. E acho justo dizer – sendo que é difícil dizê-lo – que foi provavelmente minha boa sorte não ter vivido em casa dele enquanto crescia. Penso, na verdade, que parte da minha vida tem sido uma tentativa deliberada de não repetir os erros do meu pai.»

Quando Obama decidiu ir para a Faculdade de Direito de Harvard em 1988, estava consciente de querer uma carreira política. «Julgo que ele terá compreendido que podia ser muito mais útil se estivesse dentro, tentando mudar o sistema, em vez de ficar de fora a empurrar», disse-me Valerie Jarrett, sua amiga e antiga presidente da Bolsa de Chicago. O próprio Obama descreveu-me os anos passados em Chicago como a época em que «cresceu final e completamente.»

Em Harvard, Obama brilhou como nunca brilhara. Jackie Scott Corley, hoje funcionária judicial em São Francisco, e que conheceu Obama em Harvard, diz que «nunca estive num sítio onde houvesse maior colecção de egos. Os advogados já são por si do tipo A, mas ele destacava-se à margem disso.»

Nancy McCullough, advogada da indústria do espectáculo em Los Angeles, estava um ano atrás de Obama em Harvard e recorda-o como «que fazia questão de que as decisões de grupo reflectissem o propósito do grupo, não os propósitos de Barack. Uma das razões por que as pessoas queriam vê-lo na presidência da Harvard Law Review era saberem que ele ia ouvir atentamente e que, qualquer que fosse a decisão tomada, as pessoas sabiam que ele as tinha ouvido. Era mestre em chamar as pessoas a dar a sua opinião. Às vezes até teria preferido que ele dissesse “É assim que vamos fazer e calem a boca!”»

O próprio Obama deixou bem claro que as suas ambições cresciam e que talvez fosse tempo de deitar mãos a algum po-derrr. Regressou a Chicago e começou a trabalhar no livro que decidira escrever, sobre a sua busca de sentido na vida do pai, e na sua própria. Juntou-se a uma pequena firma de advogados de direitos civis e começou a ensinar lei constitucional em part-time na faculdade de Direito da universidade de Chicago. Em 1992, Obama desempenhou o cargo de director do Projecto Vote! do Illinois, um esforço de recenseamento de eleitores que terá juntado aos cadernos eleitorais um total estimado de 125 000 novos votantes, sobretudo negros.

Quatro anos mais tarde, o próprio Obama concorreu ao senado estadual de Illinois. Jogou duro, não só excluindo da eleição o detentor do cargo por não ter obtido suficientes assinaturas válidas nas petições para nomeação, como batendo todos os outros rivais . Em Novembro de 2004 foi eleito senador dos Estados Unidos pelo estado do Illinois.

O seu lugar no mundo

Numa noite de Verão de 2004, enquanto via na TV um jogo de basquetebol, Obama começou, como ele recorda, «a apontar umas quantas notas», pensamentos sobre o que vira até então na sua campanha para o Senado americano, incorporando passagens do discurso-base que utilizara.

«Escrevi, acho eu, nas costas de um horário e de umas quantas facturas», disse-me ele, lembrando a ocorrência com o à-vontade de alguém que tivesse escrito o discurso da sua vida nas costas de um envelope. Mas o que escrevera não eram divagações ociosas. O candidato presidencial democrata John Kerry convidara-o para fazer o discurso principal à Convenção Nacional Democrata de Boston, em Julho. Foi nesse discurso que Obama declarou, aludindo aos estados «vermelhos», predominantemente Republicanos, e aos estados «azuis», predominantemente Democratas: «Adoramos um Deus poderoso nos estados azuis, e não gostamos que os agentes federais bisbilhotem as bibliotecas dos estados vermelhos. Fazemos treinos de basquetebol infantil nos estados azuis e, sim, temos amigos homossexuais nos estados vermelhos.»

Martin Nesbitt, grande amigo de Obama e bem sucedido empresário de Chicago, passou o dia do discurso com ele, indo de aparição em aparição. «Caminhávamos pela ruas de Boston e ia crescendo uma multidão atrás de nós, como se fosse o Tiger Woods num torneio. E eu voltei-me para o Barack e disse: “isto é incrível. Pareces uma estrela de rock.” Ele olhou para mim e disse: “Se já te parece mau hoje, espera por amanhã.” “O que é que queres dizer com isso?”, perguntei eu. E ele respondeu: “O meu discurso é bastante bom.” Foi uma demonstração extraordinária de autoconfiança e autoconhecimento.»

Tornou-se impossível mencionar Obama sem invocar o seu conterrâneo do Illinois, Abraham Lincoln, por mais absurda que a comparação possa parecer à primeira. O próprio Obama não tem a presunção de se comparar a Lincoln, mas, inconscientemente, invoca o legado lincolniano, como o fez ao anunciar a sua candidatura à presidência.

O que Obama não referiu foi a ambição férrea de Lincoln, a sua convicção desde tenra idade de que estava destinado a grandes feitos, a o frio calculismo político que lhe permitiu bater meia dúzia de homens mais experimentados e com qualificações patentemente melhores. Em 1832, com 23 anos de idade, quando ainda se debatia para dominar a Gramática inglesa e residente há menos de um ano em New Salem, Illinois, Lincoln candidatou-se à legislatura estadual. Perdeu, mas obteve 277 dos 300 votos válidos da sua cidade adoptiva.

Dois anos mais tarde, concorreu novamente, e desta vez ganhou. E dois anos depois, tinha isto a dizer a um concorrente mais velho e experiente que se apresentou contra ele: «O cavalheiro julgou adequado referir-se ao facto de eu ser um jovem; mas esquece-se que sou mais velho em anos do que nos truques e tráficos dos políticos.» Este é um tema que Obama adoptou, primeiro contra a afirmação de maior experiência por parte de Hilary Clinton, e que o servirá igualmente bem contra o candidato presidencial republicano John McCain, de 71 anos.

No dia 11 de Fevereiro de 1861, na véspera de completar 52 anos, Lincoln deixou o estado de Illinois para assumir a presidência e, ao fazê-lo, pronunciou um dos mais eloquentes discursos da sua eloquente vida, nele resumindo o que sentia pelo lugar que o tinha feito. «Aqui vivi durante um quarto de século, e transitei de jovem a ancião», consta que terá dito. «Parto agora, sem saber quando ou se porventura, poderei voltar.»

O adeus de Obama aos seus colegas do Illinois, no dia 8 de Novembro de 2004, foi menos eloquente, mas não menos sentido. Após ele, apresentou-se pela última vez perante os orgãos de comunicação do estado. Alguém perguntou porque excluíra desde logo concorrer conjuntamente com Hilary Clinton em 2008. «Faço questão de saber ao que vou quando concorro a um lugar», respondeu Obama. «E julgo que se contemplasse seriamente numa candidatura nacional teria basicamente que começar já, antes mesmo de passar um dia no Senado. Ora, há quem pudesse sentir-se confortável a fazer tal coisa, mas eu não me conto nesse número.»

Mas conta-se nesse número. Conta-se, sim. E onde quer que chegue, conta-se nesse número há muito, muito tempo.

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