Uma lição à beira da estrada
Com uma mão tentando estancar a brutal hemorragia, a outra empunhando o telemóvel...
Por Sónia Morais Santos
... pelo qual falava para a Emergência Médica, agradecia poder fazer a diferença.Nunca mais se esqueceu de que a iniciativa pessoal pode mudar as coisas.
Não era suposto que ali estivesse naquele momento, àquela hora. Era mais tarde que o habitual. Luís conduzia ao mesmo tempo que conversava ao telemóvel, de auricular no ouvido. De repente, viu fumo e peças pelo ar e os seus olhos procuraram a origem do estardalhaço, e no mesmo instante viu um camião de transporte de viaturas, com vários carros em cima, num desnorte assustador, raspando em automóveis, destruindo tudo. Subitamente, Luís deixou de conseguir manter a conversa ao telemóvel, começou a gaguejar, a titubear, a não dizer coisa com coisa. «Já te ligo, já te ligo.»
Vários carros pararam, Luís Castro também parou o seu. Perguntou ao condutor de um jipe ao seu lado se estava bem. O homem, atordoado, acenou que sim com a cabeça. Dirigiu-se ao condutor do camião e viu que o homem parecia espreitar para debaixo do seu próprio veículo. Um segundo olhar permitiu-lhe concluir que não. O homem não espreitava. O homem tinha sido projectado e estava ali, de garganta e peito abertos. Havia sangue, muito sangue. Sangue a jorrar como a água jorra de uma mangueira. Luís Castro viu que um ferro também acertara na cabeça do homem, mas preocupou-se, sobretudo, com a garganta. «Estava tudo aberto.»
Luís nem pestanejou. Colocou-o de lado para que não sufocasse no próprio sangue, procurou mantê-lo consciente, ligou para o 112. As pessoas dos outros carros foram-se aproximando, primeiro com genuína vontade de ajudar, depois, ao verem o cenário, afastavam-se uns três ou quatro passos; algumas viravam costas, de mãos na cabeça. Luís ia conversando com o homem, que mal conseguia falar. Quando, do outro lado da linha, o técnico do 112 lhe pede uma descrição da vítima, Luís não soube bem o que fazer. «Por um lado, percebi que era essencial para eles que eu descrevesse o estado do homem, porque só assim poderiam enviar os meios apropriados. Por outro lado, como é que eu ia descrever o péssimo estado em que o homem estava diante dele? Ele não precisava de saber que estava todo rasgado, que tinha a garganta toda aberta … Eu podia afastar-me para falar sem ele ouvir, mas tinha as minhas mãos a taparem o buraco por onde saía imenso sangue. As minhas mãos eram o garrote possível naquele cenário. Se me afastasse durante muito tempo, ele podia esvair-se.»
O dilema durou segundos. Consciente da necessidade de descrever o estado do condutor, Luís afastou-se rapidamente, falou o mais depressa que pôde e voltou numa corrida para tornar a tapar o buraco por onde o homem se extinguia. Enquanto fazia tudo para o salvar, Luís Castro, jornalista, repórter da RTP, ausentava-se. Ele estava ali, mas, ao mesmo tempo, não estava. A sua memória transportou-o para aquele dia, em Angola, em que um soldado morreu mesmo à sua frente, esvaído em sangue, e ele nada pôde fazer para o ajudar. A sua cabeça levou-o para Angola e as suas mãos apertaram com mais força o sítio rasgado. «Eu não podia tornar a passar pelo mesmo. Eu não podia deixá-lo morrer.»
Dessa vez, em reportagem, Luís Castro lamentou nada saber de primeiros socorros, compreendeu a necessidade premente de aprender, ficou sempre a pensar: «E se? E se eu soubesse o que fazer? E se eu tivesse a mínima noção de cuidados primários? Teria conseguido salvar aquele homem, aquele soldado? Teria conseguido resgatar aquela vida em Angola?
Percebi que era algo em que eu tinha de investir. Assim que cheguei a Portugal, fui ler muito sobre o assunto. Mais tarde, quando criámos os cursos de repórteres de guerra, eu e o José Carlos Ramalho fizemos uns módulos de primeiros socorros. E aí exercitei tudo aquilo que tinha aprendido na teoria. Acho que toda a gente devia saber o básico. Porque o básico pode ser a diferença entre a vida e a morte. Qualquer um de nós pode assistir não só a um acidente na rua com um desconhecido, mas a um mal-estar súbito de um familiar, a um afogamento, a um ataque cardíaco … e há coisas que se podem fazer rapidamente e que podem mesmo salvar uma vida.»
Com a memória a trazer-lhe flashes de Angola, Luís continuou a manter a vítima consciente e a fechar-lhe a carne com as mãos. Mas o sangue era cada vez mais e o jornalista pediu se alguém lhe trazia um pano para estancar. «Nesse momento, dois motoristas de caterpillars trazem-me um pano todo sujo … preto. Eu agradeci, mas antes estancar o sangue com as minhas mãos do que meter aquele foco de infecção naquela ferida aberta. Nisto, chegou uma senhora que disse: “Eu não sou médica, mas já trabalhei para o INEM.” Foi então que conseguimos saber de onde ele era, conseguimos o número de telefone do patrão, ligámos-lhe e ele foi sempre impecável.» O homem que se esvaía só balbuciava: «Antes tivesse morrido. Antes tivesse morrido.» A consciência do prejuízo que o acidente causara estava a perturbá-lo mais do que o seu próprio estado. Estavam dados os primeiros indícios de que ali se encontrava um bom homem.
Entretanto, chegou também um bombeiro com uma caixa de primeiros socorros. E passado um bocadinho, ouvem-se as sirenes. E aí foi o alívio, a descompressão, a felicidade. «Senti naquele momento que talvez o homem se safasse. Senti que tinha ajudado, que podia realmente ter feito a diferença. E quando a equipa do INEM levantou a maca para o meter na ambulância, vi-o a procurar-me com o olhar. Ele estava tão mal, mas procurou-me e olhou-me nos olhos e eu senti que ele me agradecia.» Luís comove-se. Fica com os olhos brilhantes, prova de que, por muitas guerras que tenha coberto, por muitas tragédias a que já tenha assistido, não perdeu a capacidade de se emocionar.
Luís engole em seco e recusa o epíteto de herói: «Não … aquilo não teve nada de heróico ou de corajoso ou de nobre. Foi instintivo, foi chegar e saber que tinha de fazer alguma coisa, foi agir. Ver um cenário daqueles não me choca absolutamente nada. Já vi corpos desmembrados, já vi muito sangue, já vi pessoas a morrerem nas minhas reportagens, e por isso aquilo não me impressionou. Mas compreendo que para a maioria das pessoas seja chocante, seja um cenário impossível de transpor. Algumas pessoas não conseguem ajudar, não podem. Não porque não queiram, mas porque não aguentam aquilo.»
Luís Castro é jornalista e, até por culpa da profissão, dono de um pragmatismo e de uma racionalidade onde não é fácil entrar o misticismo. Ainda assim, este caso pô-lo a pensar: «Se calhar, naquele dia o senhor António não tinha de morrer. Se calhar, tem ainda alguma missão a cumprir nesta vida. Não sei. Não sou dado a misticismos mas respeito. E a verdade é que eu não costumo passar por ali àquela hora. E naquele dia passei. E acho que terei contribuído para que ele não morresse. Eu, aquela senhora que tinha trabalhado no INEM e o bombeiro … foram muitas coincidências juntas. Não sei.»
Três dias depois, Luís foi ao Hospital de S. José visitar o homem que tinha ajudado a salvar. «Mantive-me em contacto com o proprietário da empresa de reboques, um homem impecável, muito preocupado com o estado de saúde do seu funcionário. Foi ele quem me foi dando conta do estado do senhor António.» Nesse dia, Luís entrou no quarto e viu o homem sentado na cama. «Percebi que ele não tinha memória visual, não me reconheceu. Mas quando eu falei, quando lhe perguntei se estava melhor, ele abriu os olhos e apontou para mim com o dedo, num gesto de identificação. Conheceu-me a voz. Foi um momento comovente, esse. Depois, começou a fazer desenhos dos cortes na garganta para me explicar o que lhe tinha acontecido.»
Luís Castro admite que já se fartou de chorar ao telefone com a família de António. «Eles não se cansam de me agradecer, as filhas dizem-me que lhes devolvi o pai, as sobrinhas, a mulher … toda a gente me trata como se eu fosse um herói. E eu só fiz a minha obrigação, o meu dever enquanto cidadão. O António regressou a casa há umas semanas e eu sinto-me muito feliz por isso. Agora, dizem que querem fazer uma festa, lá na Guarda, para celebrar esta espécie de renascimento do António e para me agradecer. Acho que ganhei uns amigos para a vida.»
Luís tem no currículo 19 guerras. «Gosto de estar onde cheira a pólvora. É quando estamos mais próximos da morte que damos a devida importância a estarmos vivos. Quando se assiste de perto a tanto sofrimento, a tanta situação-limite, banaliza-se um pouco alguns sentimentos: deixei de ter paciência para algumas atitudes, para algumas mesquinharias. Mas depois há outros sentimentos que nunca se banalizarão.» E é por isso que o jornalista já se envolveu por diversas vezes em movimentos de solidariedade.
Há cerca de sete anos, ele e um amigo criaram o livro Curtas Letragens. Uma obra com 50 textos de 50 jornalistas para ajudar a Florinhas da Rua, uma instituição protectora de crianças. Há um ano, criou a ONG (Organização Não-Governamental) Missão Infinita, que se destina a promover o desenvolvimento das populações mais carenciadas em países subdesenvolvidos e também em Portugal. A Missão Infinita já se preocupou, por exemplo, em fazer um rastreio oftalmológico das crianças desfavorecidas do País, com entrega de óculos um pouco por todo o território nacional.
Agora, Luís Castro está envolvido noutro projecto. Este ano será publicado mais um livro, fruto da sua iniciativa, que reunirá contos de vários jornalistas. As vendas reverterão para a Associação SOS Crianças Talibés, uma associação que luta contra o tráfego de crianças na Guiné-Bissau.
Luís pode recusar o epíteto de herói. Mas também rejeita desligar-se dos dramas do Mundo às 9 da noite, quando acaba o telejornal da RTP1, de que é coordenador. Prefere envolver-se. Prefere combater, como pode, a injustiça, a miséria, o sofrimento. Como naquele dia, em que não era suposto que ali estivesse naquele momento, àquela hora. Como naquele dia em que fechou a garganta de António com as próprias mãos. No dia em que salvou uma vida e, assim, mudou a sua. Mais uma vez.
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1 Comentários |
| cheiroapolvora on 06 March 2010 ,22:12 Obrigado Sónia! Bjs grandes. Luís Castro |
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