A luz avermelhada e mais fria da manhã ou os seus tons mais quentes ao pôr-do-sol recortam os cimos da montanha, e entre os picos fantasiados de castelos não se estranharia ver surgir as bandeiras de uma cavalgada vitoriosa.

Viseu – Tondela – Caramulo – Alcofra

Parte-se do Rossio para poente pela Avenida 25 de Abril. A cidade estende-se até bem longe, harmonizando o seu traçado moderno com o traçado antigo da cidade histórica.

Quando chegamos a Vila Chã de Sá (quilómetro 6), começa o retrato de uma Beira genuína, casas de aldeia rodeando uma igreja, oliveiras vestindo de cinzento esta paisagem lírica e generosa. A serra da Estrela espreita-se na distância, à esquerda, e os recortes da serra do Caramulo, mais próximos, aparecem pela direita.

Ribeiras fundas cortam o planalto, mas não o desfiguram. É bom não ir depressa. Ao quilómetro 13, aparece no IP3 a indicação de uma via de trânsito local que leva, à esquerda, a Parada de Gonta e, à direita, a S. Miguel do Outeiro. Quem tiver mais tempo pode entrar na aldeia de S. Miguel, onde, sobre um outeiro gigante, se levantou, talvez há séculos, uma enigmática construção miniatural que os arqueólogos não compreenderam ainda. Há também capelas, alminhas e o pelourinho da velha vila que foi. Parada de Gonta celebra-se como terra de nascimento do poeta Tomás Ribeiro, como terra de solares, de en¬tre os quais se destaca a Casa da Fonte da Figueira (século XVII).

Quem seguir logo viagem repara sempre em pinheirais arredios, e é fácil encontrar homens trabalhando em hortas e vinhas, Resineiros ainda há. Cesteiros habilidosos que trabalham cestos de verga de castanho, mimosa ou sanguinho havia-os antigamente numerosos e experientes ali perto, em Nandufe.

Ao quilómetro 23, anuncia-se Tondela. Saímos do IP3 e 3 quilómetros depois entramos no coração da cidade pela Avenida Visconde de Tondela, que se abre para o Largo 1º de Maio, centro cívico agradável para passeio que permite reparar no empedrado do chão, na variedade botânica, nos monumentos evocativos dos mortos da Grande Guerra e do mestre da língua portuguesa Cândido de Figueiredo. A igreja matriz é moderna (1889), mas há uma equilibrada simplicidade no seu interior, onde a luz se coa através de vitrais.

Na face sul do largo, olha-se gostosamente o Solar de Santana, com capela de 1639, e percorre-se depois o coração da urbe, indo à Praça do Comércio e logo abaixo à Casa dos Teles – a que se encosta o Chafariz da Sereia, de magnífica pedra lavrada (século XVIII), onde o busto da mulher que encima a fonte evoca a lenda da heroína que salvou a cidade no tempo da mourama convocando os guerreiros ao som de uma trompa (ao tom dela). A viagem segue do Mercado Velho até ao Largo da República, onde fica o pelouri¬nho e a Câmara Municipal, e desce ao Arrabalde pela Rua Dr. Costa Dias para mostrar a traça elegante de um palacete barroco (1740) e o bucolismo de uma fonte.

Pela Avenida Visconde de Tondela, saímos para norte em direcção a Molelos (quilómetro 30). É terra de pucareiros antigos, com obra conhecida 1000 anos antes de Cristo. No sítio da Raposeira, ainda se faz louça da tradição, mais para adorno de casa, e a bilha do segredo (cantarinha), que um ignorado oleiro inventou, tornou-se a imagem de marca desta terra, onde há vestígios importantes de outras culturas, como as gravuras rupestres nos xistos de Molelinhos e da Alagoa, que exigem um guia local para lá se ir.

Adiante, abre-se o vale de Besteiros, cuja surpreendente visão apenas se colherá, inteira, do alto do Caramulo. Afortunada terra de milho, cujas canas se guardam em medeiros de grande engenho, de laranjais e de outras frutas que dão ar de abastança à "vila" de Campo de Besteiros (quilómetro 35). Há uma atmosfera de paz sobre o grande largo onde se levanta a Capela de Nosssa Senhora do Campo, feita de pedraria em 1743.

Ao corpo rectangular da nave prende-se a capela-mor, oitavada, com retábulo rococó, como os retábulos da nave (1769-71). A cúpula da capela-mor e a abóbada da nave têm pintura a óleo em perspectiva, que cria uma composição arquitectónica de estilo rococó de formoso efeito.

Agora é a subida da serra do Caramulo, caminho que se fará com cuidado e prazer entre a Primavera e o Outono. A floresta cobre em dossel a estrada, onde se abrem, a espaços, varandas sobre a paisagem, cada vez mais bela e mais vasta. O Guardão preserva memórias arqueológicas (marco demarcatório romano na igreja) e etnográficas, como a Festa das Cruzes, em Quinta-Feira Santa.

Passa-se o aprazível sítio da Pousada de S. Jerónimo e entra-se no espaço da antiga Estância Sanatorial do Caramulo. Surpreende a paisagem, o ar, a lembrança de sanatórios disponíveis para a cura de tuberculose, a existência de dois museus. Tudo para ver e sentir.

Ao cabeço da Neve, 4 km a sul, tem de se ir. Porque outras paisagens na Beira mais belas e extensas não há senão esta e a que se colhe, um pouco mais longe, no cerro do Caramulinho, levantado da montanha como escultura longamente elaborada pelo tempo, o mais genial artista da pedra que se conhece.

Quilómetro 55. Saímos do Caramulo. Subindo para noroeste, em breve estamos do outro lado da serra, olhando os lados do mar. Ao quilómetro 59, tomamos a EN 333-2 em direcção a Vouzela. Quem quiser pode seguir adiante, a Espírito Santo de Arca, para ver o dólmen do mesmo nome.

Impressiona-nos o horizonte aberto para a face oeste do Caramulo, por um tempo despojado de aldeias e de floresta, lavado apenas pelas neves, pelo tempo e pela ventania.

Anuncia-se Alcofra ao fundo de uma estrada abençoada por alminhas devotas que o povo implantou pelo caminho para guiar o viajante da terra, mas sobretudo para guiar para o céu as alminhas do purgatório, das suas obrigações, assim dizem.

Vê-se o cabeço do Gralheiro à direita. A estrada passa ao lado da igreja matriz (século XVIII), com bons altares de talha dourada, e um "museu" de imaginária na casa paro¬quial olha um cruzeiro lindo e chega ao Cabo de Vila, onde fica a Torre, construção enigmática vinda do século XIV que serviu decerto à defesa do vale nos tempos da cavalaria.

A estrada desce um pouco, acompanhando a meia encosta nichos de alminhas que apenas serviam para convidar romeiros para a oração. O castro de Campia fica apenas para o arqueólogo. Podemos ir visitar a praia fluvial do Porto da Várzea, no Alfusqueiro, ir ver os cesteiros ou tecedeiras que ainda fazem obra por ali e merendar na graciosa aldeia de Campia.

A Cambarinho é que iremos sempre, sobretudo se for Maio ou Junho, para olhar a Reserva Botânica de Loendros, "o mais belo arbusto do Mundo", que cobre com a sua indescritível flor lilás as margens poéticas do rio que se chama Alfusqueiro.

Voltamos à EN 333-2, e pode apanhar então o IP5 ali bem perto. E não vale a pena ir depressa, porque será gostosa a atmosfera do fim da tarde ou o esplendor de qualquer hora nesta paisagem lírica ou heróica que se atravessa até às portas de Viseu.

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