Dois papas diferentes, mas a mesma visão da Igreja. E os Portugueses jamais esquecerão João Paulo II e o seu sorriso aberto.
João Paulo II
Quando a 16 de Outubro de 1978 o cardeal Karol Wojtyla, na altura com 58 anos, foi eleito sumo pontífice da Igreja Católica, adoptando o nome de João Paulo II, era um perfeito desconhecido em Portugal. Mas quando, quatro anos depois, realizou a sua primeira visita, a imagem de um «papa estranho do Leste» deu lugar de imediato ao «nosso papa», tal a empatia com os Portugueses e em particular com o Santuário de Fátima. Uma relação que haveria de ser solidificada por mais duas sentidas visitas pastorais.
João Paulo II era o nome mais improvável para o papado quando os cardeais eleitores se reuniram em conclave a 14 de Outubro de 1978 na Capela Sistina. Mas três dias depois, o cardeal polaco era mesmo confirmado como papa, o primeiro não-italiano em 455 anos de pontificado.
Nascido em Wadowice, Polónia, a 18 de Maio de 1920, filho de um tenente do Exército dos Habsburgos, de quem herdou o nome, veria a sua vida marcada pela tragédia e pela dor, factos que lhe toldaram o carácter determinado e a sua forma de estar na vida. Em 1929, com apenas 9 anos, perdeu a mãe, Emilia Kaczorowska, vitimada por uma doença nos rins. Em 1931, morreu o irmão, de escarlatina. Karol perderia o pai poucos dias antes de completar 22 anos. Nesta altura, a Polónia sofria já as consequências da invasão alemã na II Guerra Mundial. Assistiu ao assassinato de vários dos seus amigos e colegas.
Sempre manifestou interesse pelo teatro, até porque era uma actividade cuja participação potenciava apoios à resistência polaca contra o nazismo pela música popular e pela literatura.
A sua juventude foi marcada pela experiência da ocupação alemã, durante a qual trabalhou numa fábrica de produtos químicos para evitar a sua deportação para a Alemanha nazi, e pela prática religiosa, tendo fundado uma congregação mariana no colégio onde estudava. A sua fé levá-lo-ia a tornar-se padre, tendo sido ordenado a 1 de Novembro de 1946 pelo então cardeal-arcebispo de Cracóvia, Adam Stefan Sapieha. Era o início da sua ascensão na Igreja.
Foi docente de Ética na Universidade Jaguelónica e posteriormente na Universidade Católica de Lublin. Em 28 de Setembro de 1958, foi nomeado bispo auxiliar de Cracóvia, e quatro anos depois chega ao cargo máximo na sua diocese. O seu carisma e a sua determinação começam a dar nas vistas quando em Dezembro de 1963 é nomeado pelo Papa Paulo VI arcebispo de Cracóvia. E nessa qualidade Wojtyla participa no Concílio Vaticano II, contribuindo para a redacção de documentos que se tornariam na Declaração sobre a Liberdade Religiosa (Dignitatis Humanae) e na Constituição Pastoral da Igreja no Mundo Moderno (Gaudium et Spes), dois dos mais importantes e influentes textos resultantes do concílio. Foi elevado a cardeal pelo Papa Paulo VI em 28 de Junho de 1967.
Quando, minutos após a sua eleição, se dirigiu aos fiéis reunidos na Praça de S.Pedro para fazer a habitual saudação Urbi et Orbi (à cidade e ao Mundo), os mais atentos perceberam que aquele era um papa com uma postura diferente dos anteriores, com um discurso mais determinado, acutilante, mas ao mesmo tempo sereno: «Não tenhais medo», disse na altura num apelo à participação, ao empenhamento, dos cristãos na defesa dos valores e princípios da Igreja Católica. E cedo se percebeu que não se ficaria pelos limites físicos da cidade-Estado do Vaticano.
A primeira metade do seu pontificado ficou marcada pela luta contra o comunismo na Polónia e restantes países da Europa de Leste e do Mundo. Poucos duvidam hoje de que a derrocada do comunismo começou no dia 2 de Junho de 1979, quando João Paulo II discursou a meio milhão de compatriotas em Varsóvia, realçando o trabalho do Sindicato Solidariedade e de Lech Walesa, seu dirigente, que 10 anos depois vencia as eleições legislativas. A data tornou-se simbólica e encorajou outros países do chamado Bloco Comunista. Como fez questão de sublinhar Mieczylaw Czuma, escritor e jornalista polaco, João Paulo II foi «o papa que nos disse para não ter medo».
Uma frase que haveria de marcar o seu pontificado de forma activa, no sentido literal de não se ter medo de acreditar e defender aquilo em que se acredita. Sem ter medo, defendeu contra tudo e contra todos as suas posições sobre o aborto, a contracepção, as práticas sexuais, a eutanásia, os defensores da liturgia da libertação e até o papel das mulheres na Igreja. No seu papel de chefe de Estado do Vaticano e líder espiritual dos católicos, mostrou, de facto, que não tinha medo de assumir perante o Mundo posições difíceis.
Profundamente defensor dos dogmas da Igreja, João Paulo II tentou, no entanto, continuar as reformas e as ideias saídas do Concílio Vaticano II, nomeadamente sobre o ecumenismo e sobre a abertura da Igreja ao mundo moderno. Para o cónego João Seabra, João Paulo II «é um homem do concílio, na sua doutrina, na sua concepção do Mundo, na sua pastoral. O seu modelo de Igreja é da Lumen Gentium, a sua liturgia é da Sacrosanctum Concilium, a sua pastoral social é da Gaudium et Spes. João Paulo II é o Concílio em marcha. Nesse sentido, o Concílio, na maneira como foi lido e aplicado pelo grande Papa João Paulo II, teve uma grande importância na queda do comunismo».
Dentro desse espírito, foi o papa que mais motivou o diálogo inter-religioso, o ecumenismo e a cultura da paz, sendo o primeiro sumo pontífice a visitar o Muro das Lamentações, em Jerusalém, a 26 de Março de 2000, onde pediu perdão pelos erros e crimes cometidos pelos filhos da Igreja no passado. Foi também o primeiro papa a pregar numa sinagoga, a entrar numa mesquita (em Damasco, Síria) e a promover jornadas ecuménicas de reflexão pela paz em Assis (Oração Mundial pela Paz). Fez a primeira visita de um sumo pontífice católico à Grécia desde a separação das Igrejas Católica e Ortodoxa no cisma de 1054. Num gesto de paz e reconciliação, João Paulo II determinou a devolução à Igreja Ortodoxa Russa do ícone de Nossa Senhora de Kazan, a «Theotokos» e sempre Virgem Maria.
Foi também o papa que melhor relação teve com os jovens, fruto da sua aptidão natural para lidar com eles desde os tempos do teatro em Varsóvia, e porque sempre promoveu esse contacto, esse encontro, de que são exemplo os vários encontros mundiais de juventude em que fez questão de estar presente. As viagens foram, aliás, a sua imagem de marca, o que lhe valeu o epíteto de Papa-Peregrino. Ao todo, fez mais de 100 viagens, visitou 129 países e mais de 1000 localidades. É considerado, pelo seu carisma e habilidade para lidar com os meios de comunicação social, o papa mais popular da História.
Quatro das 100 viagens que fez foram ao nosso país. A primeira visita, de 12 a 15 de Maio de 1982, ocorreu um ano após o atentado de que foi vítima em 13 de Maio de 1981 na Praça de S.Pedro. Nesta visita, o Papa João Paulo II, profundamente crente do culto mariano, fez questão de oferecer a bala do atentado ao Santuário, e ela foi colocada na coroa de Nossa Senhora de Fátima.
Se a empatia com o povo português já existia, a partir desta visita tornou-se numa relação de autêntica paixão, até pelo facto de João Paulo II ter dedicado o seu pontificado a Maria, com a máxima Totus Tuus (Todo Teu), e consagrado Fátima como Altar do Mundo. Um ano depois, em Março de 1983, fez escala em Lisboa na viagem à América Central. Haveria de regressar em Maio de 1991, tendo na altura visitado os Açores, Madeira, Lisboa e novamente Fátima. Deslocou-se pela última vez a Portugal em 12 e 13 de Maio de 2000, altura em que beatificou os videntes de Fátima.
A sua relação com Fátima tornou-se um caso de amor. João Paulo II será para sempre o «papa preferido» dos Portugueses. Senão, como explicar os milhares de flores que diariamente são colocadas na sua estátua em Fátima?
Bento XVI
Com a morte de João Paulo II, a 2 de Abril de 2005, e com a vacatura da Sé Apostólica, um novo conclave realizou-se para escolher um novo papa. E quando todos apostavam que a escolha recairia num cardeal italiano, num cardeal da América Latina ou até mesmo africano, assim não aconteceu.
A escolha dos 117 cardeais que participaram no Conclave recaiu em Joseph Alois Ratzinger, cardeal-bispo alemão, que desde 1981 presidia à Congregação para a Doutrina da Fé por nomeação de João Paulo II.
Foi, aliás, um conclave extremamente rápido: durou 22 horas, com apenas 4 votações. Ratzinger, que adoptou o nome de Bento XVI, era um velho amigo de João Paulo II, com quem compartilhava as posições ortodoxas do papa, e foi um dos mais influentes membros da Cúria Romana. A sua posição como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cargo que exerceu durante 23 anos, colocava-o como um dos mais importantes defensores da ortodoxia católica e arguto conhecedor dos corredores do Vaticano. E para quem acompanhou ou viveu o pontificado de João Paulo II, depressa se apercebeu de que o pontificado de Bento XVI seria diferente. A Igreja de Bento XVI é a mesma de João Paulo II. Os temas e as preocupações são comuns aos dois papados, só o estilo é, em absoluto, distinto.
Enquanto João Paulo II foi uma espécie de papa «estrela» que se preocupou em chamar a atenção dos fiéis para Deus e apelar à sua participação, Bento XVI é o papa da crise de valores, do relativismo, dos dogmas e da doutrina. Se um era o papa do «espectáculo», das multidões, o outro é mais dos «bastidores», do recolhimento. Mas como lembra Aura Miguel, jornalista da Rádio Renascença, que nas últimas duas décadas tem acompanhado a actualidade do Vaticano, o carácter do papado de João Paulo II, a «genialidade da sua mensagem», a «empatia com católicos e não-católicos», a disponibilidade para percorrer o Mundo só foi possível pela presença do cardeal Ratzinger em Roma. Este contribuiu para a definição e tratamento teológico de toda uma série de temas presentes nas encíclicas do papa polaco.
Por isso mesmo, há uma continuidade nos temas e nas perspectivas que ambos têm da Igreja, embora com atitudes e estilos diferentes. Se com João Paulo II tínhamos um papa «actor», vocacionado para o contacto com as multidões, com Bento XVI estamos perante um papa professor, um intelectual tímido, autor de encíclicas onde abundam referências a Platão, Jurgen Habermas ou mesmo John Rawls.
Embora já tenha realizado algumas viagens enquanto papa, Bento XVI não procura as multidões e escolhe estrategicamente os locais a visitar. Exemplo disso são as viagens à Alemanha, Espanha, Brasil, Turquia. Aliás, vários estudiosos garantem que não foi por acaso que escolheu o nome de Bento. Trata-se de uma homenagem a São Bento, fundador da Ordem Beneditina no século VI, fundamental na afirmação do cristianismo na Europa ao longo da época medieval. Numa altura em que a Turquia pretende aderir à União Europeia, Bento XVI tem levantado a questão da identidade cristã da Europa, chamando a atenção para as raízes cristãs do Velho Continente. Ao mesmo tempo, tem dado prioridade a uma iniciativa de João Paulo II, o diálogo inter-religioso, cuja expressão máxima são os encontros de Assis.
Mas, tal como João Paulo II, não abre mão dos dogmas da Igreja e dos seus princípios basilares. Defende uma liturgia de fé liberta de aspectos acessórios, o regresso à missa em latim e dita de costas para os fiéis. Ratzinger possui um pensamento católico ortodoxo que, para muitos de seus críticos, é tido como sendo conservador.
Uma postura que lhe valeu, em Setembro de 2006, os protestos do mundo muçulmano devido a uma citação que fez na Universidade de Ratisbona (onde leccionou antes de ser nomeado cardeal) durante a visita à Alemanha, na qual fez referência à posição do imperador bizantino Manuel II sobre o profeta Maomé. Ou quando no Verão de 2007, em documento da Congregação para a Doutrina da Fé, reafirmou que a Igreja Católica é a «única verdadeira» e a «única que salva», o que provocou muitas críticas de igrejas protestantes.
Não deixa também de ser curioso o facto de, após ter tomado posse, ter passado a usar os tradicionais múleos – sapatos vermelhos feitos de madeira e revestidos com veludo ou couro vermelhos; os cadarços são de ouro e as solas feitas do couro. Ao mesmo tempo, recuperou o uso do camauro, uma espécie de gorro usado tradicionalmente pelo papa no período do Inverno.
Bento XVI nasceu em Marktl am Inn, uma pequena vila na Baviera nas margens do rio Inn, na Alemanha.
O pai, comissário da Polícia, oriundo da Baixa Baviera e adepto de uma corrente bávaro-austríaca de orientação católica, era de religiosidade profunda e um decidido adversário do regime nacional-socialista. As suas ideias políticas chegaram a trazer sérios perigos para a própria família. Em 1941, um dos primos de Ratzinger, um menino de 14 anos, foi morto pelos nazis por sofrer da síndroma de Down!
Nos anos de escola em Traunstein, perto da fronteira com a Áustria, Ratzinger aprendeu latim, que ainda era ensinado com rigor, o que muito lhe valeu como teólogo. Pela Páscoa de 1939, ingressa no seminário menor em Traunstein por indicação do pároco, para que pudesse iniciar de forma sistemática a vida eclesiástica.
Foi ordenado padre em Junho de 1951. A partir de 1952, iniciou a sua actividade de professor na Escola Superior de Filosofia e Teologia de Freising, leccionando Teologia Dogmática e Fundamental. Em 1969, começou a dar aulas de Dogmática e História do Dogma na Universidade de Ratisbona, onde chegou a ser vice-reitor. No Concílio Vaticano II, Ratzinger assistiu como peritus (especialista em teologia) do cardeal Joseph Frings, de Colónia. Curiosamente, foi ele quem apresentou a proposta da realização da missa em língua local em vez do latim, advogando agora o contrário. Foi nomeado arcebispo de Munique e Freising em 25 de Março de 1977 pelo Papa Paulo VI e elevado a cardeal no consistório de 27 de Junho de 1977. A sua ligação ao Vaticano e a consolidação do seu carácter intelectual e dogmático acontecem em 1981, quando João Paulo II o nomeia prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Aos 78 anos, ascende a papa, apesar de não ser o nome mais esperado.