Entre elas, assume grande relevância o sapal de Castro Marim, considerado a mais importante reserva húmida do País.

A vila de Castro Marim é totalmente envolvida pelo sapal, com os seus 2000 ha, verdadeiro ecossistema, célebre pela zona húmida, mas com campos secos igualmente interessantes pelas características específicas da sua vegetação. As estradas que conduzem à sede do concelho são autênticas muralhas que protegem e defendem a zona húmida. No entanto, passear por elas é de pouco interesse. Por isso, a nossa proposta é um passeio de bicicleta para descobrir as duas partes em que o sapal se divide.

Comecemos, no entanto, por subir ao castelo da vila para termos uma visão de conjunto. Os limites são bem nítidos: para leste, o Guadiana é uma evidente faixa azul separando-nos de Espanha; para sul, Vila Real de Santo António, Monte Gordo e a grande mata que as une, terra de eleição dos cama leões que restam no nosso país e que contam connosco para os defender; para norte, as colinas, que começam a desdobrar-se e que trazem o barrocal até nós; para oeste, os limites não serão tão claros, mas as manchas arbóreas de sequeiro dizem que, além, ao longe, jánão é certamente sapal. No castelo, pode pedir informações no Secretariado da Reserva ou comprar um livro que recorde a sua passagem.

Depois, pegue na bicicleta e rume a norte, como se fosse para Alcoutim. Após passar por baixo dos acessos à ponte internacional sobre o Guadiana, vire à direita por uma estrada que rapidamente não é mais do que um sendeiro de terra batida e deixe-se perder no meio dos carreiros que se abrem de um lado e de outro. Ao fundo, sobre duas elevações perto do rio, antigas edificações da ex-Guarda Fiscal são hoje postos de defesa e de informação acerca da reserva. Delas se tem uma vista ampla sobre as salinas e os esteiros que cobrem aquela zona. As águas estão cheias de enguias, sargos, solhas, douradas, robalos, que ali têm o seu habitat, ali desovam, ali crescem e se tornam adultos.

Separando as águas, avistam-se verdadeiras montanhas de sal reluzente que espera ser tratado e enviado para comercialização.

Como "primeiro prato" deste banquete que é a visita ao sapal, regale-se com a brisa fresca do rio, com os fios de água que se metem por toda a parte. Por fim, deixe esta zona e, voltando à estrada, aproxime-se da outra, sem dúvida a mais interessante e variada. Atravesse de novo a vila e dirija-se para S. Bartolomeu pela Estrada 125-6. Logo à entrada, perto da Espargosa, atravesse uma zona seca com alguns bons aproveitamentos agrícolas. Mais à frente, passado o esteiro da lezíria e a sua pequena ponte, deixe a estrada principal, virando àesquerda.

Aproximamo-nos do reino das aves. Não é por acaso que o símbolo da reserva é o perna-longa, provavelmente a ave mais representada em todo o sapal. Mas as cegonhas são abundantes, tal como os flamingos, os maçaricos, os pilritos, os alfaiates, as andorinhas-do-mar. Passeando pelos carreiros que separam os cursos de água, é possível ter a sorte de os ver levantar voo em nuvens coloridas e ruidosas. Se avançar em silêncio, pode chegar muito perto de alguns deles e observá-los com um bom binóculo.

Há 153 espécies de aves registadas nos livros da reserva, e elas são, sem dúvida, o mais belo cartão-de-visita que nos é proposto. Contudo, ao lado, menos evidente mas também omnipresente, há o mundo dos anfíbios, dos répteis, dos crustáceos: são as salamandras e as rãs, as cobras, as osgas e os lagartos, os caranguejos, os camarões do rio, os lagostins-fantasmas. Não é fácil vê-los, a não ser que nos abeiremos dos lodos ou das moitas à borda dos charcos. E há ainda os mamíferos (as toupeiras, as lontras, os ouriços-cacheiros, as doninhas e as raposas). Mas esses, se os não vemos, é porque fogem do velho inimigo e preferem esconder-se nas suas tocas mal nos avistam.

Uma outra riqueza do sapal é a variedade incrível de plantas que o cobrem. Os registos falam de 439 espécies. Para um leigo, talvez seja possível distinguir a morraça e a calêndula, o trevo e a giesta, o gerânio e o lírio ... Para um professor de Botânica, o sapal é um verdadeiro mostruário, uma aula viva. Para todos, sem dúvida alguma, é um prazer para os olhos, às vezes para o olfacto, uma manta policroma que se estende diante dos nossos olhos.

Para ver todas estas maravilhas que a Natureza nos propõe, alguns cuidados são necessários: não fazer barulho, ter cuidado ao atravessar os fios de água, ver bem onde se põem os pés ... E há normas a cumprir: não se pode destruir a vegetação nem capturar qualquer espécie viva, não se pode deixar lixo abandonado, não se pode acampar sem autorização dentro dos limites da reserva.

Mas tudo isto é fraco preço em troca das belezas de que pode auferir. Se levar uma boa máquina fotográfica ou uma câmara de vídeo, poderá guardar imagens que farão as delícias e a inveja dos amigos e vizinhos e animarão as suas noites de Inverno.

Antes de deixar esta região, aqui ficam dois conselhos: aproveite e vá a Vila Real de Santo António observar a unidade arquitectónica que o marquês de Pombal imaginou e mandou realizar nas terras húmidas da foz do Guadiana. Para além dos prédios e das ruas, não deixe de admirar o espantoso movimento das zonas comerciais, invadidas por espanhóis em busca de bons preços e de bons produtos. Se lhe sobrar tempo, apanhe um barquito que atravessa o rio e vá comer umas tapas de pôr-de-sol a Aiamonte.

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