Pelo seu incansável combate contra a mais maléfica forma de tráfico de escravos, os editores da Reader’s Digest escolheram-na como Europeu do Ano 2010. Esta é a sua história. 

Um táxi detém-se numa rua de uma cidade degradada perto do litoral do mar Negro na Roménia. A porta traseira abre-se e do carro sai uma adolescente pálida, franzina, que veste uns jeans azuis, um blusão e uma T-shirt, com o cabelo apanhado à pressa. No velho Audi prateado e cheio de mossas, Iana Matei liga a ignição. Há quatro horas que Iana, de 50 anos, espera ansiosamente ao volante e se pergunta por que razão não aparece a rapariguinha que conhece apenas como Mihaela.

Os traficantes que desde há dois anos a forçam a ser escrava sexual ameaçaram arrastá-la atrás de um automóvel se alguma vez tentasse fugir. Teriam eles descoberto o plano de fuga e assassinado a rapariga?

Mas agora, com o coração aos saltos, Iana tem outras preocupações. Será a rapariga capaz de aproveitar a oportunidade para escapar? Mihaela estuga o passo em direcção aos Correios, mas depois volta atrás. Dá meia volta e corre para o Audi, atirando-se de bruços para o banco de trás. Com um chiar de pneus, Iana arranca a toda a velocidade. Derrapando a cada curva, o Audi corre para fora da cidade.

Pelo retrovisor, Iana vislumbra o táxi que a persegue. Uma mulher no banco da frente agita o punho. O táxi perde terreno, mas Iana continua a pisar o acelerador para o caso de o condutor chamar por rádio outros carros para que lhe cortem o caminho.
O telemóvel de Mihaela toca. «Passa-me a puta da loira», ladra uma voz. Iana empunha o aparelho e ouve um homem rosnar: «Traz a gaja de volta ou acabas atirada aos ratos.» Iana atira o telefone ao chão. Fora da cidade, guina e estaciona junto a um café à beira da estrada. «Pronto, despistámo-los», diz ela à apavorada rapariga. «Agora que estás em segurança, já podemos tratar de ti.»

A partir de sua casa, numa morada secreta de Pitesti,a parda cidade da indústria automóvel, a nordeste de Bucareste, Iana Matei combate os traficantes sexuais que fazem presas entre as raparigas e jovens mulheres da Europa de Leste.
Pequena e rotunda, com uns olhos azuis e francos, uma franja aloirada e cabelo até aos ombros, Iana é uma pessoa expansiva, toda ela abraços e festas. Mas quando toca a resgatar crianças das garras da mais selvática de todas as formas de escravatura na Europa, é como se cuspisse fogo.

Quando à 1 h de certa madrugada quatro homens tentaram forçar a entrada no abrigo para vítimas do tráfico sexual que Iana gere, ela bloqueou o carro deles com o seu próprio carro, impediu-os de saírem com uma saraivada de pontapés nas portas e lançou-se num tal festival de impropérios que os homens preferiram ir-se embora. «Não foi numa loira franzina que eles repararam», diz Iana. «Foi na minha boca escancarada e aos gritos colada à janela do carro deles.»

Nada desencadeia uma fúria mais acesa em Iana do que a atitude da Polícia Romena. Dizem que as raparigas são apenas prostitutas e que ninguém as obriga a sê-lo. «É sempre mais fácil culpar as vítimas. Estas miúdas são vítimas de crimes hediondos. Não são prostitutas, mas foram encurraladas e estão sem saída. E não passam de crianças.»

Segundo a UNICEF, cerca de 2 milhões de crianças em todo o Mundo são apanhadas nas malhas do tráfico sexual. A organização internacional de direitos humanos Terre des Hommes estima que 6000 crianças com idades entre os 12 e os 16 anos são traficadas anualmente a partir da Europa de Leste. A maior parte vem da zona sudeste.

«Sabemos que centenas de raparigas de países da Europa de Leste, como a Roménia, são forçadas a prostituir-se após se deixarem ingenuamente atrair por promessas de empregos nos países mais ricos, as quais vêm a revelar-se falsas», diz Iana. «Cativas, violadas e forçadas a práticas sexuais, tornam-se escravas – não há outra palavra para isso.»

Ao longo de 11 anos, Iana resgatou e devolveu a uma vida normal nada menos que 420 vítimas. A maior parte delas – hoje com educação, empregos e, em muitos casos, filhos – mantêm contacto com ela.
As raparigas chegam à sua atenção de várias maneiras. Algumas são-lhe confiadas por polícias de toda a Roménia. Muitas são-lhe enviadas por agências que repatriam raparigas de outros países, como o Exército de Salvação Britânico, e Iana vai buscá-las ao aeroporto e ajuda-as a voltarem aos carris. «E outras tenho eu que raptá-las», confessa Iana.

O caso de Mihaela é típico. Com 13 anos, fugiu da sua casa, em Bucareste, depois de uma discussão com os pais. Uma mulher de meia-idade deu com ela a soluçar no meio da rua e levou-a consigo para casa, oferecendo-lhe chá, simpatia e um sítio para ficar. Mas uns meses depois, disse-lhe: «Agora, tens que me recompensar, e o que vais fazer é isto.»

A assustada rapariga deu consigo levada para a Turquia sob escolta da filha da mulher e entregue ao tráfico sexual. Meses depois, foi detida pela Polícia e repatriada. Mas a mulher acompanhou-a e, mais tarde, o filho dela levou Mihaela para Espanha. Ali, um cliente ficou horrorizado ao descobrir que fizera sexo com uma miúda de 15 anos, quando o passaporte dela (falso) dizia que tinha 21. Então, pagou-lhe um bilhete de autocarro para a Roménia e passou a enviar-lhe dinheiro todos os meses para uma posta-restante.

Mas as provações não tinham chegado ao fim. Um dia, quando comprava pão, foi raptada outra vez. Fechada dia e noite num armazém, onde era obrigada a receber clientes, só a autorizavam a sair para levantar o dinheiro nos Correios. Quando, por fim, conseguiu telefonar ao cliente amigável de Espanha, ele tratou que o seu advogado passasse a Iana Matei o número de telemóvel de Mihaela. E a oportunidade de resgate foi planeada. «Corre e atira-te para dentro do meu carro», disse-lhe Iana ao telefone. «O resto é comigo.»

Após o resgate, Iana pôs à disposição de Mihaela um quarto no abrigo Reaching Out (De Braços Abertos), um edifício de dois andares com seis quartos situado numa colina dos arredores. Lá viveu durante um ano com cerca de 17 outras raparigas, aos cuidados da equipa de assistentes sociais profissionais de Iana, aprendendo a limpar, cozinhar e gerir o seu próprio dinheiro.

Algumas frequentaram a escola, outras encontraram empregos.
Com o seu cão e cinco cachorrinhos correndo em seu redor, Iana acolhe três raparigas nos seus braços. Natasha: violada pelo pai durante cinco anos, vendida a um traficante sexual de Bucareste e que fugiu para uma esquadra da Polícia. Bianca: levada à força para Itália, espancada, violada com uma garrafa de plástico, auxiliada na fuga por um cliente. Ana Maria: mãe solteira, atraída até à Dinamarca com a promessa de um bom emprego, mas forçada a prostituir-se mal chegou a Copenhaga; fugiu para uma esquadra da Polícia.

«Julgamos que já vimos tudo aquilo de que esta gente é capaz, mas depois acontece mais alguma coisa que nos deixa desfeitos outra vez», diz Iana. Como aquilo que aconteceu a uma rapariga que passara a fronteira para a Sérvia com uma amiga para trabalhar num restaurante. Quando lhes disseram que iam ser prostitutas, as raparigas troçaram e retorquiram que devia haver um engano. O patrão sacou de uma pistola e matou uma das raparigas ali mesmo. Empunhando ainda a arma fumegante, virou-se então para a outra e disse: «Querias dizer alguma coisa?»

Criada na Transilvânia, onde o pai era treinador de futebol, Iana licenciou-se em Restauro Artístico, após o que andou a viajar pelo país com um grupo de jovens restauradores trabalhando em igrejas antigas. Quando casou e teve um filho, passou a trabalhar num estúdio.

Mas depois de juntar-se a um movimento contra a entrega por processos não-democráticos do poder, após a execução do ditador comunista Ceausescu, em 1989, partiu para a Jugoslávia quando soube que a Polícia a procurava para a deter. A braços com um divórcio litigioso, Iana sabia que um único dia na prisão seria o bastante para inviabilizar o seu pedido de custódia de Stefan, então com 2 anos.

Quando encontrou emprego como intérprete na Agência de Refugiados das Nações Unidas, arranjou maneira de trazer clandestinamente o filho para se juntar a ela. Depois, fixou-se em Perth, na Austrália.

Para esta mãe a tempo inteiro, estudante de Psicologia a tempo inteiro e empregada de escritório a tempo inteiro numa companhia de transportes, os tempos foram difíceis. Mas aguentou. De alguma forma, encontrou ainda tempo para cozinhar para miúdos da rua cujo paradeiro era a estação de caminhos de ferro, e, com a ajuda de amigos, fundou uma organização chamada Reaching Out.

Após um mês de férias passadas com Stefan na Roménia em 1998, Iana só conseguia pensar na situação desesperada das crianças que vira a viver nos esgotos de Bucareste. «Estas é que nós temos que ajudar», comentou ela para o filho, então com 10 anos. «Temos que nos mudar.»

De volta a Bucareste e a Pitesti, Iana trabalhou em abrigos para crianças sem abrigo e descobriu que muitas delas tinham fugido de orfanatos. As razões eram por demais evidentes. As crianças dos orfanatos eram fechadas durante toda a duração do Inverno, «não fossem apanhar frio». Não tinham amor paternal, não tinham auto-estima e não tinham nada com que se ocupar.

Iana organizou um grupo de voluntários para apoiar as crianças e levar algum amor às suas vidas. «Abraçávamos os miúdos e dizíamos-lhes milhares de vezes que eram lindos e que eram espertos», conta ela.

Iana foi ganhando reputação pelo seu trabalho, e num dia de Janeiro de 1999 recebeu um telefonema que viria a mudar-lhe a vida. Era da esquadra da Polícia. «Temos aqui três putas malcheirosas sob prisão, mas não queremos metê-las no carro. Importa-se de lhes trazer umas roupas limpas?», disse um agente.

As «putas» eram afinal três raparigas aterradas de 14, 15 e 16 anos. «Como é que vocês ficaram neste estado?», perguntou Iana. «Fomos vendidas e compradas», respondeu uma delas.
Incrédula, Iana perguntou como é que uma coisa dessas podia acontecer. A rapariga mais nova contou então a sua história. Ameaçada de violação pelo próprio pai, fugiu e foi ter com um amigo que trabalhava num bar e sabia de uma família que procurava uma empregada doméstica.

Depois de uma noite na tal casa, foi levada de carro para um restaurante de estrada onde paravam muitos camionistas e vendida ao dono por 100 euros. Ficou prisioneira num quarto cuja porta só se abria para deixar entrar camionistas em busca de sexo. Fugiu e chegou a uma esquadra da Polícia. Mandaram-na voltar antes que arranjasse sarilhos. Foi presa dias depois com as suas duas companheiras quando a Polícia fez uma rusga ao local.

Iana via tudo vermelho. «Mas vocês, além de selvagens, são cegos?», gritou ela aos agentes. «Isto não são prostitutas, são crianças metidas num pesadelo!» Através da organização de caridade USAID, Iana soube que não existia uma única organização para auxiliar crianças nestas situações. «Bom, então fundamos nós uma», proclamou ela. Em poucos dias, pôs em pé a Reaching Out, com estatuto de organização não-governamental. Com um donativo de 300 dólares, alugou um apartamento por três meses, e as três raparigas – hoje felizmente restituídas a vidas normais e com filhos nascidos – foram as primeiras residentes.

A raiz do negócio da escravatura sexual, diz Iana, é a desagregação das famílias. Milhares de romenos andam na apanha de morangos em Espanha, por exemplo, deixando os filhos com avós ou amigos. A pressão sobre os jovens para que abandonem a escola e ajudem a ganhar dinheiro faz-se sentir desde logo. É assim que o problema começa.

Em 2001, Iana levou uma câmara oculta a um restaurante de camionistas situado na Macedónia. Com grande risco da sua segurança e integridade física, filmou clandestinamente várias rapariguinhas a dançarem com clientes. Depois, montou o filme e enviou-o para várias escolas juntamente com um folheto em que se oferecia para verificar a veracidade de propostas de emprego no estrangeiro antes de as raparigas saírem de casa. Mas as respostas foram poucas. «As pessoas estão desesperadas por encontrar trabalho e acham sempre que aquilo não vai acontecer-lhes a elas», diz.

Hoje, os custos anuais de 80 000 euros da Reaching Out são cobertos pela Make Way Partners, uma organização cristã norte-americana de combate ao tráfico humano. Embora frequente a igreja, Iana diz que não faz este trabalho em nome de Deus. «Faço-o porque sou um ser humano. Deus pôs-nos neste Mundo para cuidarmos uns dos outros, e é isso que me motiva.»

Combatendo o tráfico na linha da frente, Iana trabalha também nos bastidores com agências internacionais. Já deu testemunho perante o Governo Americano acerca da situação na Roménia, já trabalhou com agências como a UNODC (Agência das Nações Unidas da Droga e do Crime Organizado) e fez parte de um painel de peritos conselheiros da NATO em questões de combate ao tráfico.

Pelo seu «extraordinário trabalho», quer no resgate de vítimas do tráfico, quer na formação de responsáveis oficiais, Iana foi declarada «Heróina do Ano» de 2006 pelo Ministério de Estado dos EUA. No ano seguinte, viria a receber o galardão The Abolitionist, atribuído pela Câmara dos Lordes do Parlamento Britânico.

Num belo local de montanha, Iana está a edificar um hotel de 33 quartos que ela espera que possa vir a financiar a sua obra. O hotel proporcionará também aos agricultores locais uma forma de escoarem os seus produtos para não terem que ir trabalhar para o estrangeiro, mas como tantas vezes acontece na Roménia, projectos destes são travados por funcionários corruptos.

Entretanto, a procissão de vítimas continua. Em 2006, resgatou uma rapariga de 16 anos que estava grávida de gémeas. As duas bebés nasceram prematuras de 7 meses, e a mãe morreu. Para terem alguma hipótese na vida, as duas bebés precisavam de amor e cuidados. Razão por que Iana as adoptou como filhas suas. Depois de um período difícil, as duas gémeas recuperaram. «Derretem-me o coração», sorri a mãe.

Para a exuberante campeã das vítimas do tráfico sexual, o trabalho nunca acaba. «Tenciono trabalhar até aos 100 anos, e então divertir-me», diz ela às suas meninas. «Hei-de andar por aí montada numa Harley-Davidson, com uma mini-saia de couro e a aterrorizar os vossos maridos. Ponham-se a pau.» «És doida que chegue para isso», dizem as raparigas às gargalhadas.

Nomes e alguns pormenores foram alterados para proteger a privacidade e por questões de segurança das pessoas referidas.

Os que fazem a diferença
Iana Matei é o 15.º Europeu do Ano, uma nomeação da Reader's Digest atribuída a personalidades extraordinárias. Todos os nomeados dedicaram altruistamente as suas vidas ao serviço dos outros.

2009 Joachim Franz
Operário fabril alemão da VW que faz longos roteiros de bicicleta pelo Mundo para alertar para a sida.

2008 Maria Nowak
Pioneira francesa do microcrédito que ajuda pessoas em dificuldade a viver com dignidade.

2007 Dr. Ruedi Luthy
Médico suíço que é a derradeira esperança para os doentes de sida do Zimbabwe.

2006 Ayaan Hirsi Ali

Antiga deputada do Parlamento Holandês arrisca a vida na defesa da dignidade das mulheres muçulmanas.

2005 Dr. Leonid Roshal

Terramoto, guerra ou cerco, este pediatra russo põe-se sempre a caminho.

2004 Peter Eigen
Alemão, antigo director do Banco Mundial, combate a corrupção internacional.

2003 Simon Panek
A fundação deste checo auxilia vítimas de catástrofes em todo o Mundo.

2002 Eva Joly
Magistrada que desmascarou um grande esquema de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão fiscal em França.

2001 Linus Torvalds
Com o Linux, este finlandês criou um sistema operativo para computadores gratuito que revolucionou o Mundo.

2000 Paul van Buitenen
Holandês, desmascarou corrupção e gestão danosa no seio da Comissão Europeia.

1999 Inge Genefke
Médica dinamarquesa pioneira do tratamento e recuperação de vítimas da tortura.

1998 Pete Goss
Navegador britânico arriscou a vida durante uma regata internacional para salvar um adversário.

1997 Frederic Hauge
Norueguês, combate a poluição nuclear do oceano Árctico.

1996 Imre Kozma
Padre húngaro, auxilia os pobres, os velhos e os sem-abrigo.

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