O sol queima o asfalto da auto-estrada australiana que se desenha à sua frente. A temperatura sobe de forma rápida no habitáculo, desenhado à medida do ocupante do carro solar holandês Nuna5, mal Jan Willem van Gent fecha o veículo através de uma cúpula que se encaixa sobre a sua cabeça, como se fosse um capacete gigante. O condutor da equipa líder europeia de veículos movidos a energia solar pode apenas seguir numa direcção: em direcção à meta, pela oportunidade de ser incluído pela quinta vez consecutiva no círculo restrito dos vencedores do World Solar Challenge.
Trata-se da mais prestigiada corrida para veículos movidos a energia solar. A Europa conta actualmente com nove equipas, que competem com outras provenientes de países tais como os Estados Unidos da América, o Japão e a Austrália. As equipas são constituídas por estudantes de tecnologia que passaram meses a fio a trabalhar nos seus projectos. Ao passo que o principal objectivo da corrida é o desenvolvimento e promoção da tecnologia de células solares, para os estudantes e para os seus treinadores a única coisa que importa durante os cinco dias de prova ao longo de 3000 km de deserto australiano é terminar com o tempo mais rápido.
O motor acelera, Jan Willem segura o volante com firmeza. O carro da Universidade do Michigan dispara, mas o holandês aguarda. Através do auricular, ouve a contagem decrescente de dez até zero. Finalmente, carrega a fundo no acelerador. Acelera pela paisagem praticamente deserta da Austrália a 90 km/h, mesmo atrás dos americanos. Às vezes, fica demasiado perto, ziguezagueando no cone de aspiração da carrinha que transporta a equipa de controle do Michigan.
«Mais travões, mais travões!», são as instruções da sua «missão de controle» pessoal, que escuta pelos auriculares. E eis que surge a oportunidade de ultrapassar: «Ultrapassa agora!» O condutor acelera. Olha para o céu limpo. É bom sinal: a capacidade de absorção das células solares está no máximo da sua eficiência. Com o velocímetro a rasar os 100 km/h, Jan Willem ultrapassa o carro pela direita. Sem ninguém à sua frente na estrada, relaxa, diminuindo a velocidade para poupar energia. Sorri apenas por um segundo. Os japoneses ainda lideram.
É desta forma que os organizadores do World Solar Challenge gostam da corrida: cheia de entusiasmo e sensações. É bom em termos de publicidade e destaca a importância da sofisticada tecnologia que está envolvida na condução de veículos a energia solar. É uma combinação de células fotovoltaicas, design automóvel e estratégia de condução.
Esta corrida bienal contribui sobremaneira para estimular o desenvolvimento das técnicas em questão, segundo Mike Drewer, porta-voz do evento na Austrália. Os carros de corrida têm-se tornado cada vez mais eficientes em resultado do progresso tecnológico alcançado pelas equipas em termos não apenas do poder das células fotovoltaicas, mas igualmente da potência das baterias e dos motores eléctricos. E a velocidade atingida pelos carros movidos a energia solar tem vindo a aumentar de forma proporcional. Há uma década, os veículos solares mal conseguiam atingir 100km/h; actualmente, a velocidade de ponta situa-se nos 150 km/h. No entanto, não é permitido aos carros atingirem velocidades de tal ordem durante a corrida por questões de segurança.
Drewer explica que o World Solar Challenge deu um contributo significativo para o desenvolvimento de especializações em matéria de transportes que recorrem a consumos energéticos alternativos e mais eficientes. O crédito vai para os institutos politécnicos e para as universidades de área tecnológica e para os seus patrocinadores dos sectores da energia e dos transportes. «Os carros a energia solar não se vão tornar num modo rotineiro de transporte nos tempos mais próximos. Ainda assim, a tecnologia adquirida é aplicável aos carros eléctricos e híbridos que actualmente chegam ao mercado.»
Enquanto a concorrência espera chegar à vitória através da velocidade, a equipa alemã opta por uma táctica diferente. Os estudantes da Escola Superior de Bochum decidiram especificamente desenhar um veículo eficiente movido a energia solar, teoricamente adequado ao uso quotidiano. O seu raciocínio? «Queremos mostrar que é possível conduzir um carro eléctrico com células solares acopladas ao tejadilho de forma eficaz e segura», afirma o porta-voz, Stefan Spychalski.
O BOcruiser, explica o porta-voz alemão, no ano passado atravessou o deserto australiano. O veículo deu nas vistas entre os opositores devido ao seu design arredondado, que saía do tradicional «modelo de bola de pingue-pongue» e pelas suas quatro rodas. Claro que se anda mais depressa com três rodas, mas ter quatro rodas é um requisito incontestável da condução segura, especialmente em reuniões de negociação e, consequentemente, no trânsito do quotidiano, afirma Spychalski.
Apesar de o BOcruiser ter chegado em 12.º lugar entre os 25 carros em competição, venceu o troféu na categoria do Design nessa corrida. O melhor elogio, de acordo com Spychalski, é o predomínio das fotografias do veículo germânico que ilustram publicações diversas na comunicação social.
Entretanto, na Alemanha, a universidade está a mostrar o que tem para oferecer em termos de design de carros eléctricos. O Governo Federal de Nordrhein-Vestefália e as empresas da região patrocinam a construção do BOmobile, a mais recente criação de Bochum. A Escola Superior espera conseguir pegar neste carro – que inclui portas tradicionais, espaço para dois ocupantes e uma bagageira de dimensão modesta – e testá-lo em situações de tráfego do dia-a-dia. «Um carro eficiente que despende muito pouca energia e que pode ajudar a salvar o planeta. Foi esse o pensamento que originou tudo.»
O início remonta a 1982, altura em que o aventureiro dinamarquês Hans Tholstrup viajou pela Austrália no veículo solar que tinha construído. Cinco anos depois, o pioneirismo dos seus esforços conduziu à realização do primeiro World Solar Challenge, que se baseou num conceito simples: construção de um veículo que se desloque o mais rápido possível desde Darwin a Adelaide, movido exclusivamente a energia solar.
Nos anos que se seguiram, a corrida tornou-se num local de testes para todos os componentes da construção automóvel, da aerodinâmica à resistência de rotação das rodas e, naturalmente, à utilização eficiente da energia solar.
O porta-voz Mike Drewer recorda como os Estados Unidos da América e o Japão lideraram durante os primeiros anos, apoiados pelas respectivas indústrias automóveis. As equipas europeias destacaram-se mais tarde, com a equipa holandesa de Delft na dianteira. Actualmente, os australianos também são bastante bons.
A equipa holandesa Nuon Solar – que terminou a prova num respeitável 2.º lugar – passou o testemunho a um novo grupo. Para os novos estudantes, estes são os últimos preparativos para a construção e a condução do Nuna6, elucida Jesper Wentink, porta-voz da equipa de Delft. «Construir um carro solar é complicado. Envolve muitas disciplinas, incluindo aerodinâmica, tecnologia de painéis solares e engenharia mecânica.»
Segundo Drewer, a equipa que estiver mais fortemente motivada para a descoberta e o desenvolvimento tecnológicos está destinada à vitória da competição. Após o triunfo do Japão, em 2009, Drewer espera assistir à desforra das equipas europeias e americanas em 2011. «Nunca se sabe que desenvolvimentos surgirão, mas certamente que hão-de arranjar qualquer coisa.»