Os Portugueses têm uma desconfiança profunda em todas as instituições e actividades que têm a ver com a vida pública – a cidadania, se quiserem –, e só se sentem seguros e com confiança nas instituições e nos agentes que têm a ver com e protegem a sua esfera privada.


Política e políticos, justiça e juízes, Governo, sindicatos? Os Portugueses pouco mais esperam deles senão o pior. Os números chegam a ser alarmantes. Mas quando inquiridos sobre a sua vida pessoal, a esmagadora maioria realça o casamento. E demonstra uma confiança quase unânime nos serviços e agentes que os protegem: que protegem a sua saúde (farmacêuticos, enfermeiros, médicos) e que garantem a sua segurança (bombeiros e Polícia).

É o retrato de um povo descrente, desconfiado e em crise, mas que dirige as suas suspeitas com pontaria bastante certeira. E a análise é o resultado das respostas de 988 inquiridos, iniciativa que é parte do capítulo «Instituições e Profissões» do estudo Marcas de Confiança. Realizado pelo 10.º ano consecutivo, este estudo é feito em 16 países, incidindo sobre um total de 32163 inquiridos. O que é o mesmo que dizer que, para cada resposta, podemos aferir o comportamento português com o comportamento da média europeia; e depois concluir que, neste continente e no que respeita a graus de confiança e desconfiança, os Portugueses estão mais perto dos Europeus do que dos extraterrestres.

Os Portugueses confiam na gestão da coisa pública? Pouco ou nada. O Governo merece confiança a 17% dos inquiridos e pouca ou nenhuma aos 83% restantes. É o mesmo exactamente na Justiça, que merece confiança a 17% e pouca ou nenhuma a 83%. É, aliás e destacado, o mais baixo índice de confiança na Europa.  Mude-se então o Governo? Não é remédio, dizem os Portugueses, porque para 96% deles os políticos em geral merecem pouco (41%) ou nenhum (55%) crédito.

Em que mãos deveremos pôr a nossa fé, então? Não nas dos funcionários públicos, dizem 60% dos inquiridos. E também não dos sindicatos, dizem 76% (no que se identificam com a média europeia). Nem dos bancos, de que desconfiam 64%. Nem das multinacionais, suspeitas para 64%.

Confiamos um pouco, moderadamente, na União Europeia, muito ou bastante digna de confiança para 53% (muito mais do que a média europeia de 36%). Confiamos um pouco na Internet, 50% pró, 50% contra. Confiamos nas notícias que nos chegam pela televisão ou pela rádio, em que confiam muito ou alguma coisa 63% dos inquiridos; mas menos nas notícias da Imprensa, em que a desconfiança moderada ou extrema é maioritária com 53%. O que a gente vê ou ouve é sempre um bocadinho mais verdade do que lido, parecem dizer os Portugueses. Confiamos um pouco nos ambientalistas (51%).

Mas em quem os Portugueses realmente apostam é na sua vida privada e própria e naqueles que a protegem. Confiam no casamento, muito ou bastante, 66%; confiam na Igreja, muito ou bastante, 56% (a média europeia é de 46%); confiam nos familiares (96%) e nos amigos (87%). Dão um forte voto de fé nos que lhes defendem e salvam a saúde: 89% têm plena ou bastante confiança nos médicos; 91% no pessoal de enfermagem; 90% nos farmacêuticos. Confiam maioritariamente naqueles a quem compete protegê-los: 65% confiam muito ou bastante na Polícia, 93% confiam muito ou bastante nos bombeiros (na Europa, 92%).

De resto, nas ocasiões em que se afastam do seu círculo familiar e doméstico, os Portugueses empregados confiam no chefe (50%). E quando viajam, recorrem com alguma desconfiança (69%) aos agentes de viagem, mas descontraem-se quando entram no avião, em cujos pilotos confiam 92% deles, mais do que a generalidade dos Europeus, que somam 88%.

Os números traçam assim o perfil português: uma sociedade em crise virada para o que é sólido e básico (família, casamento, amigos, Igreja), gente fechada em si e no seu círculo, sem razões para crer nas instituições (Governo, políticos, justiça), com confiança apenas na protecção mais imediata e próxima (bombeiros, pessoal de saúde, Polícia). Há razões evidentes para considerar este um retrato de confiança.

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