Os arcos dourados num fundo verde chamaram-me a atenção, ou ter-me-ia escapado. Com o estômago a reclamar de fome, tomei o desvio em direcção ao parque de estacionamento e contemplei o edifício com surpresa. Estava verde!

As paredes verde-escuras, parcialmente de madeira natural, e o telhado cor de terra conferiam-lhe o aspecto de uma cabana na floresta. Mas o que estaria a cabana a fazer ali ao lado de um supermercado movimentado de Brunnthal, nos arredores de Munique, na Alemanha?

Tratar-se-ia realmente de um McDonald’s? Onde é que estavam os sinais vermelhos de pé alto, os posters coloridos, as cores do palhaço feliz e toda a pompa e circunstância da comida de plástico?

No interior, descobri um mundo diferente. As luzes fluorescentes, o mobiliário de plástico e aquela sensação de se estar numa estação de engorda desaparecera. As cores eram suaves, as luzes, ténues, e as cadeiras aparentavam o conforto do cabedal.

Numa das extremidades, havia um ginásio para crianças. Na outra, um McCafé, onde homens de negócios se sentavam às mesas conversando enquanto tomavam café e as pessoas idosas se deliciavam com a pastelaria. Mas os adultos apreciam mesmo o McDonald’s?

As placas de menu iluminadas sobre o balcão indicavam comida que nunca esperei vir a encontrar num McDonald’s – fruta e iogurte, saladas, leite biológico, entrecosto em pão de cachorro-quente, tortilhas de pão recheadas, rodelas grossas de batata frita, bebidas sem adição de açúcar e até hambúrgueres vegetarianos.

E aquelas famosas palavras – «Big Mac e batatas, se faz favor» – nunca me chegaram a sair da boca. Em vez disso, introduzi o meu pedido num ecrã táctil, passei o meu cartão de crédito na ranhura indicada e em menos de um minuto recolhi o meu hambúrguer num tabuleiro, juntamente com uma salada estaladiça servida numa taça de papel e um cappuccino em condições.

Eu era agora mais um dos 12300000 clientes por dia a ir buscar uma refeição a um dos mais de 6700 pontos de comida rápida desta cadeia, espalhados por 39 países europeus. Não é para admirar que a maior cadeia de restaurantes da Europa seja encarada como um ícone do consumismo e seja simultaneamente a sexta marca mundial mais valiosa.

Agora, somos informados de que este gigante da comida rápida está a «tornar-se verde». Mas estará isso mesmo a acontecer? Será possível?

O novo estilo verde tem mais a ver com reposicionamento da marca do que com a salvação do planeta. Os velhos vermelhos e amarelos eram considerados demasiado agressivos e fora de moda para alguns restaurantes.

Desenhados em Paris em 2008 e adaptáveis de vários modos à medida que os restaurantes se vão expandindo, derivam da visão do francês Denis Hennequin, que comanda as operações da marca na Europa. «Nos EUA, 70% do volume de negócio têm origem nos drive-throughs, porque os Americanos gostam de comer enquanto se deslocam», afirma. «Mas os Europeus gostam de ficar parados por um bocado – querem um local onde possam passar um tempinho.»

Os clientes reagiram de forma positiva à nova imagem, afirmando que está mais «crescida». E a comida de conforto está de tal modo enraizada que na Alemanha os McCafé são uma das marcas de cafetaria líderes de mercado. Mas esta é apenas uma parte da história. Noutra frente, uma série de inovações verdes faz que o impacto do Big Mac no ambiente seja o menor possível.

As minhas batatas fritas vêm de fritadeiras que consomem menos 40% de óleo e menos 4% de energia. A caixa que envolve o meu hambúrguer foi feita a partir de materiais reciclados, forrados com uma fina camada de plástico para não se correr o risco de a minha comida ser contaminada. E o copo de papel do batido está mais fino.
 

O óleo alimentar usado – uma mistura saudável de óleos de colza e de girassol que limita os ácidos gordos – é armazenado num grande depósito e mais tarde recolhido e transformado em biocombustível, que é misturado com gasóleo, para abastecimento das carrinhas da empresa.

Quando estão em causa grandes volumes de negócio, mesmo a mais pequena alteração ecológica é importante. A título de exemplo: o mero facto de se substituírem as taças de plástico para salada pelo seu equivalente em papel faz economizar 1900t de materiais provenientes de fontes não-renováveis. Fabricar 300 milhões de pauzinhos de mexer o café em madeira, em vez de plástico, elimina oito carregamentos de carrinhas que transportem 10t cada uma cheias de plástico. O suporte que faz que seja difícil sacar mais de um guardanapo de cada vez poupa, não apenas umas quantas carrinhas cheias, mas também milhares de toneladas de madeira.

Diariamente, diz o gerente Carsten Hermann, de 29 anos, cheio de orgulho, que envia uma «brigada do lixo» de entre os seus funcionários para que recolham em grandes sacos de papel todo o tipo de resíduos com a marca da McDonald’s espalhados pelos parques de estacionamento das proximidades do restaurante. «O lixo é atirado janela fora por pessoas que tomam as suas refeições dentro dos carros, em vez de utilizarem os caixotes próprios disponibilizados para o efeito», afirma.

Medidas como esta, juntamente com engenhocas tais como tomadas para carregamento de veículos movidos a electricidade que estão a ser instaladas em alguns centros comerciais na Suécia e na Bélgica, dão óptimos comunicados de imprensa.
Mas o verdadeiro «esverdeamento» da McDonald’s resume-se a uma corajosa engenharia que, em boa parte, está fora do alcance da vista. «O objectivo é tornar a nossa pegada ecológica tão pequena quanto possível e comprometer todos, desde os consumidores à concorrência, a que façam o mesmo», afirma Else Krueck, directora ambiental para a Europa.
«Cerca de oitenta por cento da nossa pegada deriva da utilização de electricidade, e tal representa um grande custo, por isso a equação é bastante simples – poupar electricidade faz poupar a empresa e o planeta.»

O segredo está em utilizar energia eléctrica apenas para o estritamente necessário. Tal como na ventilação. O meu restaurante estava a menos de metade da sua lotação, por isso os detectores que mediam o CO2 exalado pelos clientes reduziram a potência das ventoinhas de ventilação. Este sistema, inventado pela McDonald’s na Suécia, fará que a velocidade das ventoinhas aumente mal mais clientes entrem no restaurante. «Este método reduz o dispêndio de energia eléctrica em metade nas alturas de menor movimento», assegura Mathias Schätzthauer, o responsável pela construção da empresa na Alemanha.

Um sistema de gestão da energia desenvolvido na Áustria monitoriza em permanência a utilização de gás, electricidade e água. Acedendo ao sistema a partir de casa antes de se ir deitar, o gestor Hermann pode aperceber-se de imediato se algo parece estar a correr mal. «Um destes dias, observámos um pico no consumo energético e encontrámos um congelador que tinha inadvertidamente sido deixado aberto», afirma.

Para evitar os picos energéticos dispendiosos, a ligação matinal de todo o equipamento da cozinha é controlada por um plano automático de «arranque». E quando a cozinha está a funcionar em pleno, o sistema suspende o funcionamento das máquinas de lavar e de secar loiça para não sobrecarregar o consumo.

A visão de economia energética da empresa foi incorporada num novo restaurante, que foi inaugurado em Dezembro de 2008 em Achim, mesmo à saída de Bremen. Equipado com todo o tipo de engenhos economizadores de energia de que a equipa de Schätzthauer se lembrou, é o que de mais aproximado há para engenharia aeroespacial ecológica com um chapéu da McDonald’s. Mas originou imensas surpresas.

O sistema geotérmico que aquece a água, bombeando-a a 70 m abaixo do solo, precisou de nada menos do que 11 veios para funcionar. Também havia um sistema solar de aquecimento de água no telhado, bem como células fotovoltaicas e um moinho de vento. Mas não estavam a funcionar. «Estas coisas eram a novidade absoluta da zona», diz Schätzthauer, «mas não asseguravam o desempenho pretendido.»

Para impressionar os clientes com toda a energia verde que estava ser produzida no telhado, foi instalado um contador electrónico dentro do restaurante. Mas mesmo nos picos, o moinho de vento nunca produziu mais de 1,1 kWh de electricidade por hora (uma simples chaleira eléctrica consome 3kWh). «Com base nestes resultados, a geração eólica ou solar não seria a minha primeira escolha para os nossos restaurantes. Pode investir-se noutras medidas mais eficientes», assegura Else Krueck.

No geral, o pacote de medidas verdes economiza ligeiramente mais de 20% de electricidade – aproximadamente 1000 euros mensais por restaurante. «O retorno do investimento só se verifica após cerca de cinco anos, dependendo dos preços da electricidade», estima Schätzthauer.

E então o meu Big Mac? Devo relatar que soube ao mesmo que qualquer outro Big Mac, e é aí que, para muitas pessoas, reside o encanto da coisa. Mas os ingredientes tinham uma história verde interessante.

A carne picada utilizada nos hambúrgueres é fornecida por 400 000 produtores de toda a Europa. Os 2 milhões e meio de animais cujos lombos e acém acabam na McDonald’s são responsáveis por colossais emissões de metano que podem causar aquecimento global. Para travar as críticas e assegurar que o fornecimento de carne de bovino seja ininterrupto, a McDonald’s está a patrocinar um programa de investigação de três anos que vai recolher dados de 350 quintas do Reino Unido. «Pretendemos identificar determinado tipo de práticas de exploração que reduzam as emissões de efeito de estufa e comunicá-las para que outros agricultores as possam seguir», afirma o director de sustentabilidade, Keith Kenny.

Quintas de toda a Europa que fornecem diferentes produtos foram sinalizadas enquanto exemplos de boas práticas. Uma quinta que produz carne de bovino na Irlanda deixa que os cantos das terras cresçam de forma selvagem, em benefício das aves. Uma quinta que produz lacticínios na Holanda tem colchões de água para os animais e robôs para realizar a ordenha mecânica das suas vacas. Na Polónia, uma exploração que produz batata utiliza os melhores fertilizantes verdes e tecnologia química para colher 135000t de batatas preparadas para fritar. «Damos conta dos resultados para que outros possam seguir o exemplo e economizar nas despesas», diz Kenny.

Enquanto saboreei o meu hambúrguer e as minhas batatinhas fritas, aproveitei a wifi gratuita para ligar o meu computador portátil e ler as mensagens da minha caixa de correio electrónico. O molho castanho escorria-me por entre os dedos, aterrando no teclado, mas pelo menos o molho era feito de ovos de galinhas alimentadas a soja de quintas brasileiras, com garantias quanto à não-destruição de florestas virgens. E o meu café tinha sido moído de grãos certificados pela Aliança das Florestas da Chuva, atestando a sua origem em quintas conformes aos padrões humanos e ambientais.

Após o final da refeição, coloquei o tabuleiro na prateleira. Mais tarde, os resíduos seriam separados para ser enviados para reciclagem pelos funcionários. «É possível que nove em cada dez pessoas o façam bem, mas se a décima pessoa se engana, acabamos com menos material a reciclar», esclarece Krueck. «É melhor – e mais verde – fazermo-lo nós na maioria dos países.»

Esta receita verde deve resultar porque a McDonald’s está a abarrotar. Apesar de ter apenas uma quarta parte do número de restaurantes, o ramo europeu desta empresa gera lucros mais elevados que o conjunto de todos os negócios da empresa nos Estados Unidos. Mas quando se trata de se tornar verde, uma companhia de comida rápida tem as suas limitações. «No fim de contas», diz Schätzthauer, «nunca poderemos escapar ao facto de o nosso negócio ser grelhar hambúrgueres de bovino

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