«Descobri um sentido para a minha vida.» Foi assim, de forma emotiva, que um jovem de Aveiras de Cima, Azambuja, descreveu a sua caminhada de peregrinação para Fátima após três dias de estrada e de intensa partilha com outros peregrinos.
A confissão foi feita já em Fátima, num momento em que o grupo de peregrinos de que faz parte se reúne para partilhar as emoções da viagem, onde cada um conta o que lhe vai na alma. Um momento extremamente forte, de grande emoção, mas também de «grande crescimento interior». Quem o diz é o padre António Cardoso, pároco de Aveiras de Cima, que há 29 anos organiza uma peregrinação anual de jovens da sua paróquia ao santuário mariano.
Nem todos que decidem iniciar a viagem são católicos praticantes ou devotos da Virgem. Alguns vão por curiosidade: «Uns já fizeram esta viagem e vão à redescoberta, alguns vão à confirmação das suas convicções e outros sentem necessidade de ir à descoberta de alguma coisa ou de si mesmos», diz às Selecções do Reader’s Digest o padre António Cardoso.
Há quem se faça ao caminho por um compromisso de vida, por promessas feitas, por desespero, ou há até quem não acredite. Mas sentem que precisam de um dia fazer esta caminhada. E quando regressam, não são os mesmos: «As pessoas são tocadas. Ninguém fica indiferente. Quando ao fim do terceiro dia da nossa peregrinação nos reunimos naquilo que chamamos o cénaculo, em que partilhamos o que cada um de nós sentiu ao longo da caminhada, assistimos a coisas fantásticas porque entramos no silêncio mais fundo da nossa alma. Recordo uma jovem que tinha ido pela primeira vez e que, emocionada, dizia que havia encontrado um sentido para a vida, para a família. E lamentava ter perdido o pai sem lhe ter dito que o amava», recorda o sacerdote. São momentos de catarse, algumas vezes dolorosa, mas também de um renovar de força e de energia. Talvez por isso alguém definiu um dia que «peregrinação não é apenas deslocarmo-nos de um lado para o outro. É caminhar ao interior de nós mesmos, abrindo o coração à graça que Deus reservou para cada um».
Dos cerca de 500000 peregrinos que se deslocam em Maio a Fátima, cerca de 30000 a 35000 fazem-no a pé. E cada vez mais os peregrinos são mais jovens.
No recinto do Santuário, é frequente vê-los, absortos ao que os rodeia, a pagarem promessas de joelhos, desde a Cruz Alta até à Capelinha das Aparições ou à volta dela. No rosto, além do cansaço, vislumbram-se marcas de súplica, mas também de esperança. Todas as grandes religiões consideram a peregrinação como uma via de conversão desde que empreendida com inquietação e espírito de busca. Em Portugal, dezenas de milhares de pessoas peregrinam a pé anualmente. Para Fátima, vão a pé mais de 50000 todos os anos, e o número não pára de crescer.
Mas peregrinar não é fácil. Não basta querer e fazer-se à estrada. Antes disso, há todo um trabalho de preparação que é preciso fazer: «Depois de convocarmos os jovens, porque a peregrinação é feita no âmbito da pastoral juvenil, fazemos três reuniões de preparação porque o grupo é muito grande. São sempre 160 a 180 pessoas, e é preciso tratar de toda a logística e do guião da peregrinação, porque todos os anos temos um tema para reflexão para a viagem», explica o padre António Cardoso.
Aproveitando o feriado do 1.º de Maio, o grupo faz-se à estrada sempre de madrugada: «Saímos quase sempre por volta das 4 da manhã da igreja matriz. Cada peregrino leva obrigatoriamente um guião, um terço e um crucifixo de peregrino. Ao longo da viagem, temos três momentos de reflexão no primeiro dia e dois no segundo, sempre em igrejas. Alem disso, ainda fazemos uma pausa para rezar depois dos almoços e ao início do segundo dia», especifica ele às Selecções do Reader’s Digest.
Para os peregrinos vindos do Sul, a pior parte da viagem é quase na recta final, já em plena serra de Aire e Candeeiros.
É preciso continuar a enfrentar o trânsito, subir a serra, passando pelo Covão do Coelho, Minde e Moitas Venda, antes de se entrar na recta de Boleiros, que há-de levar ao Santuário. Por estas alturas, as pernas fraquejam e o corpo implora por descanso. Mas é aqui que, inexplicavelmente, se ganham forças e se acelera o passo: «Podemos estar muito cansados, exaustos, mas quando vemos ao longe o cimo da torre da Basílica, parece que ganhamos outra alma, as dores desaparecem e seguimos até ao destino», disse, emocionado, às Selecções do Reader’s Digest Joaquim Medines, de 56 anos, organizador de um grupo de Reguengos de Monsaraz, que habitualmente demora sete dias a chegar ao Santuário, depois de percorridos 204km.
Um redobrar de forças bem conhecido do sacerdote de Aveiras de Cima: «O nosso grupo não anda até ao limite das forças. Andamos o que achamos que temos de andar e fazemos pausas suficientes, daí que cheguemos ao Santuário cansados, mas não exaustos. Mas, de facto, aqueles últimos momentos são feitos com redobrada energia, com mais força.»
A chegada ao Santuário é sempre um momento marcante muito forte; representa a concretização da viagem. Um momento de emoção, quase sempre vivido em silêncio.
«Chegamos a Fátima ao final do segundo dia. Fazemos imediatamente a consagração de joelhos perto da Capelinha das Aparições. Depois, no terceiro dia, começamos com uma eucaristia, e da parte da tarde temos então, durante algumas horas, o cenáculo, um momento de encontro em que partilhamos todas as emoções da caminhada, o que sentimos, o que nos vai na alma.»
Momento de partilha, mas também de grande crescimento. Até porque peregrinar é uma forma de procurar, de avançar. É também uma forma de olhar para dentro. E por isso se ruma a Fátima. Tal como disse João Paulo II em 1982: «Venho a Fátima com o terço nas mãos, o nome de Maria nos lábios, o cântico da misericórdia de Deus no coração.»