Um ferry leva-me a Djugården, uma das ilhas que compõem Estocolmo. Atrás de mim, a Cidade Velha brilha ao sol da manhã e, à minha frente, uma montanha-russa parece erguer-se das águas como um monstro marinho: Djugården é um popular centro de lazer e o vento traz-me os ecos dos gritos do parque de diversões. Mas eu vim ver um museu, dedicado por inteiro a um grupo pop que já não se junta para tocar há 30 anos. Os meus amigos estão verdes de inveja. Até os meus filhos imploraram para vir.
Quando o visitei, o Museu dos ABBA abrira há apenas três meses, mas já cerca de 100 mil pessoas o tinham visitado e, dessas, uns espantosos 80% eram pessoas de fora da Suécia. Apesar de não ter visto, no caminho até lá, quaisquer cartazes alusivos ao museu, encontrei-o cheio de visitantes.
Quando tem início o horário estipulado, passa-se por uma réplica do famoso logótipo dos ABBA feito de lâmpadas e entra-se num cinema subterrâneo. Aqui, fantásticas imagens desta banda a atuar enchem o espaço e uma explosão de música toma conta de nós.
E, de repente, estamos em 1974, numa vivenda geminada e gasta em Selsey Bill, uma pequena cidade na costa sul de Inglaterra. Tenho quase sete anos e não consigo dormir por causa da vibração da música pop, dos aplausos e da voz do apresentador, que se eleva até ao teto. Agachada no cimo das escadas, consigo ver a pequena televisão a preto e branco da sala de estar lá em baixo e os meus cinco irmãos mais velhos espremidos de volta dela. Como toda a gente na Europa, estão colados à transmissão do Festival Eurovisão da Canção, que este ano se realiza em Brighton, a poucos quilómetros dali.
São elevadas as expectativas para os britânicos, representados por Olivia Newton-John que canta Long Live Love. Mas é este grupo sueco, que pisa o palco com botas de plataforma, calças acetinadas, uma maxissaia ondulante e tops decorados com correntes reluzentes, quem rouba a cena com a sua música Waterloo.
Assim começou o meu romance com os ABBA – eles estavam lá enquanto eu crescia nos anos 70, quando saí de casa para a universidade na década de 80 e, nos anos 90, quando me mudei para Londres e Dancing Queen se ouvia em cada pub e cada club.
De regresso a 2013, sigo para a sala seguinte, que nos leva aos dias antes dos ABBA, quando cada um dos elementos da banda fazia sucesso por sua conta. Há fotografias de infância a preto e branco e recortes de imprensa, vídeos de Frida em bandas de jazz e da jovem Agnetha a cantar num parque com dois homens simétricos. Vemos Björn, o rapaz pobre de nenhures, no grupo folk Hootenanny Singers com o seu baixo feito à mão. Benny era o mais cool e tocava numa banda que imitava os Beatles chamada Hep Stars.
Cada visitante tem um guia áudio que põe nos ouvidos. A cada peça que está em exposição, pode procurar no aparelho as mais relevantes faixas de áudio e, assim, consegue percorrer todo o museu com a ordem e o ritmo que preferir. Neste momento, estou a ouvir que foi a sorte, a amizade, o romance e, mais tarde, o casamento, que uniram esta banda – Agnetha, Benny, Björn e Anni-Frid discutem as suas memórias. É extraordinariamente íntimo, é como se estivessem ali mesmo, a conversar, ao meu lado. Lembrando- -me de letras mais amargas como o The Winner Takes It All, surpreende- -me ouvi-los falar tão carinhosamente de como se conheceram e apaixonaram. Agnetha a dizer o quanto gostou de Björn e a lembrar o fantástico dia de casamento que tiveram. Descobri que o mestre do piano, Benny, não sabia ler música e que a espampanante Anni-Frid, que tinha apendido a coser com a avó, muitas vezes ajudava a fazer os fatos.
As salas do museu estão sequenciadas para seguirem a carreira da banda. Também há a possibilidade de entrar no seu mundo e até mesmo de se tornar o quinto elemento do grupo. Uma das salas é como um espetáculo ao vivo: quando chega a sua vez, pode escolher uma música e depois entrar num palco escurecido. De súbito, hologramas da banda aparecem à sua volta e está a cantar e a dançar com eles! Ninguém parece sofrer de timidez de palco, e o «público», composto pelos restantes visitantes da sala, aplaude e incentiva. Noutra sala, o visitante é filmado em tempo real e projetado num vídeo pop. Existem cabinas que simulam camarins e a mesma tecnologia permite-lhe «experimentar» roupas dos ABBA: a pessoa escolhe um fato e o seu rosto é projetado numa imagem desse fato na parede, de tal forma que se consegue mexer, como num espelho. (Muitos dos fatos reais também aqui estão em exposição – e consegue- -se perceber o quanto eles todos eram magros!) Há um inquérito interativo para que se possa testar o conhecimento sobre a banda – eu saí-me miseravelmente, mas o leitor pode tentar a sua sorte (ver caixa).
No centro do museu há uma série de instalações que reconstroem locais reais da história dos ABBA. Existe o estúdio de gravação onde a famosa parede de som ABBA foi criada, e pode ver-se a própria mesa de mistura usada. Está lá também a casa de verão na ilha de Viggsö, onde Benny e Björn escreveram muitas das canções. Há o camarim de Agnetha e Anni-Frid, com a maquilhagem brilhante, a laca e as flûtes de champanhe para o único copo que se permitiam antes de entrar em palco. Há maquetas dos escritórios da editora Polar Music e do ateliê onde o guarda- roupa foi criado. Mas o que mais me comoveu foi a cozinha de casa de Agnetha. Aqui, entre modestos acessórios em pinho e cortinas cor-de-rosa, ela cozinhava pudim de couve com geleia de mirtilo vermelho. As memórias de Björn, no áudio, dão-lhe uma particular comoção enquanto descreve o momento em que, depois da sua separação de Agnetha, viu, pela janela da cozinha, a filha de ambos ir a pé para a escola. Foi nessa altura que percebeu que ela estava crescida e a escapar-se- -lhes.
Mesmo aqui, o visitante pode envolver-se. Num canto, num pedestal colocado contra uma parede forrada com um típico papel dos anos 70, em castanho e cor de laranja, está um telefone da época. Só os elementos da banda sabem o número e qualquer um deles pode telefonar a qualquer altura, no que é o chamado momento Ring Ring. «Já alguma vez o fizeram?», pergunto a um guia. «Só uma vez», responde-me. «Foi Anni-Frid, e o tipo que a atendeu – um venezuelano que, coincidência!, se chamava Fernando – nem queria acreditar!» Estas tentativas ousadas de trazer a banda real para dentro da experiência do museu conseguem ser ainda mais abrangentes: na zona do estúdio está um piano que foi concebido para estar eletronicamente ligado ao piano da casa de Benny – quando ele se senta e toca, as mesmas notas são replicadas no museu. Infelizmente, não está a funcionar, e o guia diz que é improvável que alguma vez tal venha a estar.
Mais tarde, de regresso a Londres, tenho o meu próprio momento Ring Ring, quando Björn me telefona depois de saber que estou a escrever sobre o museu. numa briga sobre quem iria atender.
Como principal financiador do museu, está encantado com a fantástica resposta do público. «Quisemos contar a história verdadeira, que vale a pena ser contada, penso, sobre a forma como quatro pessoas se juntam quase por acaso e crescem organicamente até aos ABBA», resume.
Também espera que aproxime as pessoas dos elementos extraordinários que trabalharam nos bastidores. «Queremos também mostrar que havia muitas pessoas talentosas atrás de nós», explica Björn, «a cada passo pessoas de qualidade – no som, na gestão, nos vídeos ».
Ah, esses vídeos, que levaram os ABBA aos lares de todo o mundo e que me fizeram – a mim e aos meus amigos – dançar e fazer trejeitos por toda a sala. «Fomos pioneiros nisso», diz Björn, «e eles ajudaram-nos a alcançar o êxito na Austrália e noutros locais. Não queríamos fazer digressões – todos já tínhamos passado por elas nas nossas carreiras anteriores e naquela altura tínhamos crianças pequenas. Também queríamos passar mais tempo em estúdio, porque aperfeiçoar o som era a nossa obsessão ».
No museu, entre capas de discos e outra memorabilia, estão cartas de fãs – vieram da Polónia, Nigéria, Irão, França, Jugoslávia, Alemanha, África do Sul, Zimbabue, Argélia, Brasil, Gronelândia, Estados Unidos, Irlanda e Israel – o que mostra a eficácia da banda ao alcançar o mundo inteiro.
O objetivo do museu é simples e alegre – que uma pessoa «entre a andar e saia a dançar». E que melhor sítio para terminar a visita do que uma discoteca? Há uma recriação dos nightclubs que eu adorava nos anos 70, com luzes a piscarem, uma bola de espelhos e quadrados que se iluminam no chão. Ainda bem que os meus filhos não estavam lá para se envergonharem, porque eu dancei. Eu e todos os outros quarentões alegremente transportados até aos dias da nossa juventude.