Entrar na escola de Hellerup, onde 685 alunos entre os 6 e 16 anos estudam na antiga cervejaria Tuborg dinamarquesa é uma experiência que nos desorienta. Não há uma secretaria para receber visitantes, nem sequer um corredor óbvio. O chão está cheio de pequenos sapatos. As crianças estendem-se em sofás ou sentam-se na grande escadaria central, trabalhando em laptops ou tablets. Estamos a meio de uma manhã de quinta-feira no princípio de junho, quando se esperaria que estivesse a haver aulas, mas um grupo de adolescentes está de volta de uma mesa de matraquilhos e torce por dois jogadores.
Avanço pelo open-space de três andares à procura de um professor. Uma dúzia de estudantes em idade de andar no liceu trabalha em computadores montados numa longa mesa com vista para a biblioteca. Eles próprios construíram um cubículo, posicionando os cacifos (que, como toda a mobília da escola, são sobre rodas) de modo a criarem uma concha. Não há salas de aula na escola de Hellerup.
Finalmente encontro um professor que me encaminha para o andar de cima, onde fica o gabinete do diretor, Jørn West Larsen, alojado entre algumas das poucas paredes do edifício. Pergunto a Jørn sobre a filosofia por detrás do aparente caos. «O professor ainda é quem tem a principal responsabilidade, mas permitimos que cada criança escolha o estilo de aprendizagem que lhe for mais adequado», explica. «Na Dinamarca, cada criança é corresponsável pela sua aprendizagem.»
Esta filosofia ganha adeptos em escolas por todo o mundo. Em vez de ensinar as crianças a absorverem e regurgitarem conhecimento, este novo conceito pretende ajudar as crianças a pensar por si próprias, para promover o tipo de pensamento de que precisarão para ter êxito no mundo atual, complexo e tecnologicamente avançado.
Quando Hellerup, um subúrbio de Copenhaga, decidiu construir uma escola nova há 12 anos, os membros da comunidade incitaram a cidade a conceber uma escola de ponta, de acordo com este novo conceito. Agora os estudantes colaboram com os professores para definir os seus objetivos de aprendizagem e avaliar o seu progresso, e depois perseguem esses objetivos como acharem adequado. Os alunos mais velhos são livres de entrar e sair da escola, desde que estejam em contacto com os professores por smartphone. Aos mais novos é cedido um tablet ou um laptop desde o primeiro dia.
Em 2009, a Dinamarca tornou-se o primeiro país no mundo a permitir o uso de Internet durante os exames de biologia e de geografia. Em 2013, passou a ser permitido em todas as disciplinas. Academicamente, os alunos da escola de Hellerup classificam-se entre os melhores do país. Mas, mais importante, de acordo com o diretor eles têm entusiasmo em vir para a escola e em aprender.
QUANDO FREDERIKKE KRAGH, de 10 anos, chegou ao primeiro dia de escola em Hellerup, em 2002, parecia um sonho. Tinha passado os primeiros cinco anos da sua escolaridade aborrecida numa escola tradicional. Numa aula típica da sua escola anterior, Frederikke ouvia o professor a ler de um livro e era-lhe pedido que desenhasse. «O objetivo era desenhar o que ouvíamos, não processar o assunto sobre o qual, de facto, versava a história.» Mas em Hellerup foi encorajada a estudar o que lhe interessava. Tinha liberdade de escolher que livros ler. Deu por si a gostar da escola todos os dias.
Mas apesar de o entusiasmo de Frederikke e dos seus colegas ser agora maior do que nunca, os pais mostravam-se ansiosos de que os seus filhos, com a liberdade para escolherem os temas, não adquirissem competências básicas em matemática e em língua. Hoje em dia, porém, Frederikke, que foi finalista em Hellerup em 2008, não se preocupa se o seu latim não é perfeito. «Tenho tantas mais capacidades que não têm preço.»
O entusiasmo de Frederikke com a aprendizagem está em claro contraste com o que a maior parte dos alunos sente. Estudos de muitos países relatam que menos de 40% dos alunos mais velhos dos liceus estão intelectualmente empenhados. Atualmente, apenas dois terços das crianças em todo o mundo entram numa educação secundária, e muitas desistem antes de a terminar. E a maioria dos que terminam não está preparada para ser bem-sucedida no mundo do trabalho ou do ensino superior, dizem os empregadores e as autoridades académicas.
A abordagem de Hellerup é tornar a escola um pouco mais como o mundo real, ao autorizar os alunos a usar telefones portáteis e iPads. No entanto, a tecnologia não é uma solução em si mesma, diz Jørn, que lutou para assegurar que a tecnologia é usada para melhorar o ensino e não apenas para entreter os alunos. «Tentamos ver a tecnologia apenas como uma ferramenta, como há 50 anos tínhamos ferramentas de escrita e o rádio.»
Esta nova abordagem ao ensino pode ser uma transição difícil para os professores. A professora de inglês Helle Kirstine Peterson, que ensinou em Hellerup durante 11 anos, diz que alguns acham desconfortável ensinar num espaço aberto e sem porta. «Conheço professores que dizem que não seriam capazes de trabalhar assim, com qualquer um a poder olhar-lhes por cima do ombro.»
Dar aos alunos mais liberdade também é um desafio. «Exige ceder o controlo e confiar que os alunos estejam de facto a aprender», diz. «Mas só porque estão quietos a ler um livro também não quer dizer que estejam a aprender. Um aluno tem de ter autodisciplina para ter êxito na nossa escola.»
EM 2006, UM DIRETOR chamado Arnold van Gessel recebeu a missão de uma vida. Amesterdão tinha criado um bairro completamente novo, numa península feita pelo homem denominada IJburg, e a comunidade precisava de uma escola. Para a adequar ao bairro, conhecido pela sua arquitetura futurista, a cidade queria uma escola com um conceito novo.
Mas van Gessel sabia que criar uma escola realmente avançada seria um desafio. A educação na Holanda é tradicional: um teste padronizado no fim da escola preparatória divide os alunos em quatro ramos do liceu, determinando essencialmente aos 12 anos quem vai ter um ofício e quem irá para a universidade. As escolas são depois avaliadas de acordo com as notas dos seus alunos num exame final nacional. As médias são publicadas para todos verem no jornal.
Os pais usam estas médias para selecionar a escola dos filhos, por isso o desempenho nos exames influencia as matrículas e, por seu turno, os fundos públicos, que são alocados por aluno. Por isso, para as escolas, desafiar os alunos a trabalhar num nível mais elevado é muito arriscado, porque pode fazer baixar as médias do exame final.
Van Gessel e uma pequena equipa de pessoas de IJburg começaram a anunciar sessões de debate no jornal local. Reservaram uma sala de reuniões suficientemente grande para acumular umas duas dúzias de professores e pais. Ficaram chocados quando apareceram 140 pessoas do bairro. Nesse verão, uma dúzia de representantes passou uma semana a pôr de pé um conceito educacional. Inspirados pela mais recente investigação em educação personalizada, tiveram a visão de uma escola que permitiria a cada aluno individual realizar o seu potencial.
A escola aceitaria alunos de todos os níveis, e misturá-los-ia durante as aulas. Com amplo acesso à tecnologia e um currículo desenhado em torno da aprendizagem baseada em projetos, um estudante emigrante, por exemplo, que se via em desvantagem pelo seu pouco domínio da língua holandesa, seria capaz de estudar num nível mais elevado de inglês e matemática enquanto punha o holandês em dia.
O uso de tecnologia no Colégio de IJburg era único na Holanda. Mas a parte mais radical do plano era que a escola não se concentraria apenas no ensino dos conteúdos necessários a um bom desempenho nos exames nacionais. Em vez disso, o currículo foi desenhado para promover um conjunto de capacidades que consideravam mais importantes para ter êxito na vida: ter iniciativa, ser responsável e ser de confiança.
De Vries diz que IJburg vai para além do currículo nacional, assegurando que os alunos estão preparados para os exames nacionais ao mesmo tempo que desenvolvem outras capacidades de que precisarão para ter êxito no mundo complexo e globalizado de hoje, como colaboração e comunicação. «Isto adiciona outra camada à sua educação, tornando o ensino mais estimulante e desafiando-os a tornarem-se cidadãos ativos.»
Na aula de inglês deste ano, de Vries descobriu maneiras de quebrar o molde tradicional de educação, o que beneficiou estudantes de todos os níveis. Ali, um rapaz de 13 anos com o melhor nível académico, emparelhou com Sanne, uma aluna com dificuldades a inglês. Ao par foi pedido que escrevesse um diálogo de restaurante entre um empregado e um cliente, num projeto de turma. O vocabulário de Sanne era pobre, mas ela tinha uma confiança jovial. Ali, por seu lado, era tímido. Juntos escreveram um diálogo fantástico. Mas a maior surpresa para de Vries foi quando eles se voluntariaram para encenar o seu diálogo.
«Ali nunca se teria voluntariado para falar à frente da turma», diz de Vries. «Foram mais ambiciosos porque trabalharam juntos. Isto só acontece quando os alunos são desafiados e estão motivados.»
Agora com oito anos, o Colégio de IJburg prospera. A escola atingiu o seu objetivo com alunos que seguem para ramos mais elevados, e o desempenho nos exames está a melhorar. Este setembro, o Colégio de IJburg abrirá uma segunda escola.
Mais significativo, no entanto, é que o Colégio de IJburg já não parece uma raridade na Holanda. Está a decorrer um debate nacional sobre a eficácia dos exames padronizados.
RULA RABAYAH RI-SE. Professora na Escola Canadiana Internacional de Hong Kong (CDNIS), está num grande corredor a ver os seus alunos do primeiro ano a correr pela escola. Usam iPads para ver um mapa, encontrar locais específicos e fotografar objetos como parte de uma caça ao tesouro educacional. Parece divertido.
Vim a Hong Kong porque no final de 2013 a cidade-estado surpreendeu o mundo ao subir para o terceiro lugar na altamente considerada classificação global da OCDE de competências de leitura, matemática e ciência aos 15 anos de idade, ultrapassando até a Finlândia, superestrela da educação. Esta escola é conhecida como uma das melhores, e foi recentemente nomeada Escola Distinguida pela Apple, pela forma como usa a tecnologia para personalizar a educação. Quero saber como conseguiram esse êxito.
Em 2006, o diretor da CDNIS, Dave McMaster revelou um plano ambicioso para integrar tecnologia. «O principal erro que as escolas cometem é comprarem tecnologia, mas não oferecerem aos professores os recursos para a usarem com êxito», diz. Por isso uma equipa de coordenadores experimentou cada nova tecnologia e programa e analisou os resultados educativos antes de formar e treinar professores.
Agora, sete anos depois, é atribuído um computador portátil a todos os alunos com 10 ou mais anos. A escola tem estado a introduzir a pouco e pouco o iPad nos primeiros anos, e no próximo ano os alunos de 6 anos começarão a usar programas de blogues para documentar o que aprenderam.
Para os professores, a transição pode ser difícil, porque os seus alunos, proficientes em tecnologia, muitas vezes dominam os novos programas mais depressa do que eles.
Quando o professor de sétimo ano Mitch Breton chegou à CDNIS há sete anos, ainda era uma escola de caneta e papel. Mas em seis meses, o diretor McMaster anunciava o seu programa de um portátil por aluno. «Eu estava entusiasmado mas apreensivo», lembra Mitch. «Não tinha a certeza de conseguir fazer as coisas, não sabia como controlar miúdos com wi-fi ilimitado. Não sabia como usar da melhor maneira estas máquinas de mil dólares.»
A direção da escola deu muito apoio, e encorajou os professores a integrar a tecnologia nas salas de aula ao seu próprio ritmo. Agora, Mitch usa cada vez menos papel nas suas aulas. Uma das suas inovações favoritas é o uso de Google Docs, que lhe permite ver sempre como os alunos estão a progredir num trabalho, de forma a poder dar apoio contínuo. «Já não há trabalhos de casa perdidos.»
Mitch já não pensa no uso de tecnologia na sala de aula como algo excecional. «Os dias de ficar à frente de uma turma a falar para os miúdos acabaram», diz.
Vejo esta dinâmica em ação momentos mais tarde, quando conheço um miúdo de 7 anos chamado Eric. Tra-balha com confiança num problema de matemática no seu iPad, alternando entre programas. Pensa alto sobre o problema enquanto o aparelho grava a sua própria voz. «Temos de determinar o peso de Adrienne. E só sabemos que Jeremy pesa 71 kg, Gary é 7 kg mais leve, e Adrienne tem metade do peso de Gary», diz. Esboça alguns cálculos no seu ecrã com o dedo, que o programa também grava para o professor ver mais tarde. «Adrienne pesa 32 kg.» O programa de matemática encoraja os alunos a refletir sobre a resolução de problemas.
HOJE, SEIS ANOS MAIS TARDE, formando-se pela Escola de Hellerup na Dinamarca, Frederikke Kragh está convencida de que os pais fizeram a escolha certa quando lhe deram a oportunidade de uma escola inovadora. Este setembro entra para o terceiro ano de Medicina, o que envolve escrever um artigo importante. «Muitos dos meus colegas estão preocupados com esse projeto», diz. «Mas penso que a Escola de Hellerup me deu a coragem de lidar com situações novas e desconhecidas. Fomos forçados a pensar por nós, e não havia livros a seguir.»